{"id":29923,"date":"2018-10-15T00:26:42","date_gmt":"2018-10-15T03:26:42","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=29923"},"modified":"2018-10-14T18:48:45","modified_gmt":"2018-10-14T21:48:45","slug":"como-o-brasil-sofreu-o-pior-acidente-radioativo-ocorrido-fora-de-uma-instalacao-nuclear-no-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2018\/10\/15\/como-o-brasil-sofreu-o-pior-acidente-radioativo-ocorrido-fora-de-uma-instalacao-nuclear-no-mundo\/","title":{"rendered":"Como o Brasil sofreu o pior acidente radioativo ocorrido fora de uma instala\u00e7\u00e3o nuclear no mundo"},"content":{"rendered":"<div class=\"with-extracted-share-icons\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"mini-info-list-wrap\">\n<div class=\"date date--v2 relative-time\">\n<p class=\"story-body__introduction\">Em setembro de 1987, dois catadores de lixo na cidade de Goi\u00e2nia entraram em uma cl\u00ednica abandonada, encontraram uma m\u00e1quina ali dentro e a desmontaram.<\/p>\n<p>Mal sabiam eles que causariam o que j\u00e1 foi considerado o pior desastre nuclear do mundo desde Chernobyl, em 1986, e o maior acidente radioativo da hist\u00f3ria fora de uma instala\u00e7\u00e3o nuclear.<\/p>\n<p>Os dois homens, Wagner Pereira e Roberto Alves, retiraram a parte superior da m\u00e1quina &#8211; que era uma unidade de radioterapia usada para tratamentos contra o c\u00e2ncer &#8211; e a levaram para casa em um carrinho de m\u00e3o.<\/p>\n<p>Eles usaram chaves de fenda para abrir a pesada caixa de chumbo.<\/p>\n<p>Dentro, havia um cilindro que continha 19 gramas de c\u00e9sio-137, uma subst\u00e2ncia altamente radioativa.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/167ED\/production\/_103714129_1-1.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/167ED\/production\/_103714129_1-1.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Imagem mostra toneis posicionados em frente a ferro-velho contaminado em acidente radiotivo em 1987, no Brasil, e homens trabalhando no processo de descontamina\u00e7\u00e3o no local\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">O acidente teve entre os pontos centrais um ferro-velho em Goi\u00e2nia, alvo posteriormente de um grande trabalho de descontamina\u00e7\u00e3o.\u00a0Direito de imagem\u00a0CNEN<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Os homens venderam a c\u00e1psula para um ferro-velho, propriedade de Devair Ferreira.<\/p>\n<p>Um relat\u00f3rio publicado um ano depois pela Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica (AIEA) registrou que, em pouco tempo, Pereira e Alves come\u00e7aram a sofrer com v\u00f4mitos frequentes, mas atribu\u00edram \u00e0 \u00e9poca os sintomas a uma intoxica\u00e7\u00e3o alimentar.<\/p>\n<p>Sofrendo diarreia, tontura e com uma m\u00e3o inchada, Pereira procurou atendimento m\u00e9dico no dia 15 de setembro. Os sinais sugeriam, segundo o diagn\u00f3stico, um tipo de rea\u00e7\u00e3o al\u00e9rgica causada pela ingest\u00e3o de alimentos em m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias depois, Ferreira entrou na garagem e notou um brilho azul emanando da c\u00e1psula que havia comprado como sucata.<\/p>\n<p>Achou bonito o que via e pensou que aquele p\u00f3 poderia ser valioso, como uma pedra preciosa, ou mesmo algo sobrenatural.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/0C45\/production\/_103714130_2-1.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/0C45\/production\/_103714130_2-1.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Imagem mostra vista do ferro-velho onde estava o material radioativo, no que j\u00e1 foi considerado o pior desastre nuclear do mundo desde Chernobyl e o maior acidente radioativo da hist\u00f3ria fora de uma instala\u00e7\u00e3o nuclear\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Vista do ferro-velho onde estava o material radioativo.\u00a0Direito de imagem\u00a0CNEN<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Ele levou o cilindro para casa.<\/p>\n<p>Durante os tr\u00eas dias seguintes, v\u00e1rios vizinhos, parentes e conhecidos foram convidados a ver a curiosa c\u00e1psula.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Como os brilhos do Carnaval<\/h2>\n<p>Um amigo de Ferreira o visitou e, com a ajuda de uma chave de fenda, extraiu alguns fragmentos do material raro, do tamanho de gr\u00e3os de arroz, que se desintegravam facilmente e viravam p\u00f3.<\/p>\n<p>Ferreira tamb\u00e9m distribuiu peda\u00e7os para a fam\u00edlia. Houve v\u00e1rios casos de pessoas que esfregaram o p\u00f3 radioativo sobre a pele, como fariam com o brilho usado na \u00e9poca do Carnaval.<\/p>\n<p>Em 24 de setembro, Ivo Ferreira, irm\u00e3o de Devair, levou alguns fragmentos para casa e eles foram colocados na mesa durante uma refei\u00e7\u00e3o. Sua filha de seis anos, Leide das Neves Ferreira, os tocou enquanto comia, assim como outros familiares.<\/p>\n<p>Logo, muitas pessoas adoeceram &#8211; 12 delas foram transferidas para um dos melhores hospitais de Goi\u00e2nia com os mesmos sintomas: diarreia, v\u00f4mitos, febre alta e queda de cabelo.<\/p>\n<p>A primeira pessoa a suspeitar que a c\u00e1psula com o p\u00f3 brilhante estaria por tr\u00e1s disso foi Mar\u00eda Gabriela Ferreira, mulher do dono do ferro-velho.<\/p>\n<p>Sueli de Moraes, uma vizinha que tamb\u00e9m foi contaminada, contou \u00e0 BBC News Brasil o que aconteceu em seguida.<\/p>\n<p>&#8220;Mar\u00eda Gabriela p\u00f4s o cilindro em um saco pl\u00e1stico e o levou, de \u00f4nibus, para um escrit\u00f3rio de sa\u00fade do governo local, onde ningu\u00e9m sabia o que era, mas o guardaram&#8221;, lembrou ela.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/3355\/production\/_103714131_3-cnen-1.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/3355\/production\/_103714131_3-cnen-1.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Imagem mostra sacola usada por mulher do dono do ferro-velho para levar objeto suspeito a um posto de sa\u00fade em Goi\u00e2nia - material que posteriormente descobriu-se que era radioativo e que contaminou centenas de pessoas\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">A mulher do dono do ferro-velho colocou o objeto suspeito em uma sacola e o levou a um posto de sa\u00fade.\u00a0Direito de imagem\u00a0CNEN<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">O f\u00edsico<\/h2>\n<p>J\u00e1 haviam se passado 15 dias desde o in\u00edcio da contamina\u00e7\u00e3o. No hospital, os m\u00e9dicos come\u00e7aram a considerar a hip\u00f3tese de envenenamento por radia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando os pacientes foram informados sobre a c\u00e1psula, pediram ao f\u00edsico Walter Mendes Ferreira que examinasse o dispositivo. Ele pediu emprestado um detector de radia\u00e7\u00e3o de uma ag\u00eancia federal de prospec\u00e7\u00e3o de ur\u00e2nio e foi ao escrit\u00f3rio de sa\u00fade.<\/p>\n<p>&#8220;Quando estava a cerca de 80 metros do escrit\u00f3rio o detector come\u00e7ou a agir de forma estranha e pensei que estivesse com defeito&#8221;, disse ele \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p>Ele pediu outro detector e voltou ao escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>&#8220;Mais uma vez, a 80 metros, (o detector) come\u00e7ou a ficar saturado. Isso significava que ou estava em um lugar com um campo de radia\u00e7\u00e3o muito alto, ou que ambos os detectores estavam defeituosos.&#8221;<\/p>\n<p>Mendes Ferreira conta que viu um bombeiro saindo do posto de sa\u00fade carregando o cilindro a fim de jog\u00e1-lo no rio.<\/p>\n<p>&#8220;Eu disse: &#8216;Pelo amor de Deus, n\u00e3o!&#8217;. Imediatamente, evacuei o posto de sa\u00fade e perguntei aos trabalhadores locais de onde vinha aquilo. Eles me disseram que uma mulher de um ferro-velho o havia levado. Fui ao ferro-velho e antes de entrar, detectei radia\u00e7\u00e3o por todos os lados&#8221;, lembra ele.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">P\u00e2nico<\/h2>\n<p>O f\u00edsico fez alertas \u00e0s autoridades e inst\u00e2ncias p\u00fablicas como a Comiss\u00e3o Brasileira de Energia Nuclear (CNEN). Sua inten\u00e7\u00e3o era deter a contamina\u00e7\u00e3o e, ao mesmo tempo, evitar o p\u00e2nico. Mas os temores sobre um vazamento de radia\u00e7\u00e3o se espalharam pelo Brasil.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/5A65\/production\/_103714132_4-1.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/5A65\/production\/_103714132_4-1.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Imagem mostra a palavra &quot;contaminado&quot; escrita em ch\u00e3o de bar onde foram encontrados vest\u00edgios de radia\u00e7\u00e3o em 1987 em Goi\u00e2nia\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">O ch\u00e3o de um bar tamb\u00e9m contaminado com radia\u00e7\u00e3o em Goi\u00e2nia.\u00a0Direito de imagem\u00a0CNEN<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Mendes Ferreira conta que eles usaram \u00f4nibus da pol\u00edcia, com o interior forrado por chapas de pl\u00e1stico, para levar os poss\u00edveis contaminados para um est\u00e1dio de futebol vazio, onde ficaram em barracas de acampamento.<\/p>\n<p>Milhares de pessoas foram examinadas no local em busca de vest\u00edgios de radia\u00e7\u00e3o. Muitos receberam alta ap\u00f3s tomarem banho com \u00e1gua e vinagre. Mas outros foram enviados para um abrigo tempor\u00e1rio ou um hospital local.<\/p>\n<p>Os casos mais graves foram levados para um hospital militar no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>De acordo com relat\u00f3rio da AIEA, &#8220;a comunidade m\u00e9dica em Goi\u00e2nia se mostrou relutante em ajudar&#8221; e o medo da contamina\u00e7\u00e3o se estendeu pelo estado de Goi\u00e1s.<\/p>\n<p>No total, mais de 110 mil pessoas foram examinadas.<\/p>\n<p>Verificou-se que 249 delas tinham n\u00edveis significativos de material radioativo em seus corpos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8175\/production\/_103714133_4.1-1.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8175\/production\/_103714133_4.1-1.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Profissionais de sa\u00fade examinam poss\u00edveis pessoas contaminadas com radi\u00e7\u00e3o em 1987 em Goi\u00e2nia\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">No acampamento montado em um campo de futebol, mais de 110 mil pessoas foram examinadas para detectar quem estava contaminado.\u00a0Direito de imagem\u00a0CNEN<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Centenas de pessoas com n\u00edveis leves de contamina\u00e7\u00e3o tiveram de permanecer em abrigos especiais. Sueli de Moraes, que hoje \u00e9 presidente da associa\u00e7\u00e3o de v\u00edtimas, passou tr\u00eas meses em um deles.<\/p>\n<p>Ela lembra que era preciso tomar banho com \u00e1gua, vinagre e sab\u00e3o de coco, al\u00e9m de trocar de roupa a cada meia hora.<\/p>\n<p>&#8220;Tomamos comprimidos para ajudar na descontamina\u00e7\u00e3o interna. Tamb\u00e9m t\u00ednhamos que esfregar nossos p\u00e9s, que eram as partes mais contaminadas. N\u00e3o nos permitiam sair ou receber visitas. N\u00e3o pod\u00edamos assistir \u00e0 TV, eles n\u00e3o queriam que soub\u00e9ssemos o que estava acontecendo l\u00e1 fora&#8221;, recorda.<\/p>\n<p>O ferro-velho e dezenas de casas foram demolidos. Centenas de objetos, de refrigeradores a sof\u00e1s, o pavimento de ruas inteiras, ve\u00edculos, e at\u00e9 mesmo \u00e1rvores e animais foram destru\u00eddos e descartados como lixo nuclear.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/A885\/production\/_103714134_5-1.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/A885\/production\/_103714134_5-1.jpg?resize=696%2C463&#038;ssl=1\" alt=\"Casa demolida em decorr\u00eancia de acidente nuclear em Goi\u00e2nia\" width=\"696\" height=\"463\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Dezenas de casas foram demolidas e centenas de objetos &#8211; cerca de 6.000 toneladas de lixo &#8211; foram jogados fora.\u00a0Direito de imagem\u00a0CNEN<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>O desastre em Goi\u00e2nia produziu cerca de 6.000 toneladas de res\u00edduos, recolhidos e enterrados em um centro especialmente preparado, a 20 quil\u00f4metros da cidade.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">As v\u00edtimas fatais<\/h2>\n<p>A primeira pessoa a morrer foi Leide das Neves Ferreira, a menina de seis anos que brincou com o p\u00f3 brilhante e at\u00e9 engoliu um pouco do material. Tanto ela quanto sua tia Mar\u00eda Gabriela Ferreira morreram de septicemia e sepse &#8211; infec\u00e7\u00f5es generalizadas &#8211; um m\u00eas ap\u00f3s a exposi\u00e7\u00e3o ao c\u00e9sio.<\/p>\n<p>Seu enterro em Goi\u00e2nia ficou longe de ser um pac\u00edfico assunto de fam\u00edlia. A vizinha Sueli de Moraes diz que, quando os caix\u00f5es chegaram ao cemit\u00e9rio, as pessoas come\u00e7aram a atirar pedras e tijolos, tentando impedir o sepultamento.<\/p>\n<p>&#8220;Os corpos foram descontaminados e eles decidiram enterr\u00e1-los em pesados caix\u00f5es de chumbo como uma precau\u00e7\u00e3o adicional para tranquilizar as pessoas. Mas o que aconteceu foi o oposto. As pessoas entraram em p\u00e2nico&#8221;, diz De Moraes.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/CF95\/production\/_103714135_6-1.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/CF95\/production\/_103714135_6-1.jpg?resize=696%2C463&#038;ssl=1\" alt=\"Imagem mostra pessoas em cemit\u00e9rio durante enterro de Leide das Neves Ferreira, de 6 anos, e da tia dela, Mar\u00eda Gabriela Ferreira, as duas primeiras v\u00edtimas que morreram em decorr\u00eancia de acidente radioativo em Goi\u00e2nia, em 1987. A popula\u00e7\u00e3o fez protesto na ocasi\u00e3o temendo que corpos contaminassem o cemit\u00e9rio\" width=\"696\" height=\"463\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">No enterro de duas das v\u00edtimas fatais do acidente a popula\u00e7\u00e3o fez protesto temendo que corpos contaminassem o cemit\u00e9rio.\u00a0Direito de imagem\u00a0CNEN<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>&#8220;Muitos em Goi\u00e2nia acreditavam que os corpos iriam contaminar o cemit\u00e9rio. E muitos no Brasil acreditavam que toda a cidade estava contaminada, que os produtos agr\u00edcolas do estado de Goi\u00e1s estavam contaminados. Isso n\u00e3o era verdade, havia muita desinforma\u00e7\u00e3o que ajudava a espalhar o p\u00e2nico&#8221;, diz ela.<\/p>\n<p>As outras duas v\u00edtimas fatais foram homens que trabalhavam no ferro-velho.<\/p>\n<p>Incrivelmente, os catadores de lixo Wagner Pereira e Roberto Alves sobreviveram, assim como o propriet\u00e1rio do ferro-velho Devair Ferreira.<\/p>\n<p>Muitas outras v\u00edtimas foram salvas pelo tratamento que receberam no hospital.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F6A5\/production\/_103714136_7-1.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F6A5\/production\/_103714136_7-1.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"O local onde os res\u00edduos contaminados do acidente radioativo registrado em 1987 em Goi\u00e2nia est\u00e3o enterrados\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">O local onde os res\u00edduos contaminados do acidente em Goi\u00e2nia est\u00e3o enterrados.\u00a0Direito de imagem\u00a0CNEN<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Em 1996, cinco pessoas ligadas \u00e0 cl\u00ednica onde havia sido abandonada a m\u00e1quina de radioterapia foram condenadas a tr\u00eas anos e dois meses de pris\u00e3o por homic\u00eddio. A pena foi reduzida depois a servi\u00e7os comunit\u00e1rios.<\/p>\n<p>O governo passou a pagar pens\u00f5es vital\u00edcias para cerca de 250 v\u00edtimas. Posteriormente, outras 2.000 pessoas, incluindo bombeiros, motoristas e policiais que trabalharam nas unidades de emerg\u00eancia, tamb\u00e9m tiveram direito a esses pagamentos.<\/p>\n<p><a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.co.uk\/programmes\/w3cswsfy\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Esta reportagem foi adaptada a partir de depoimentos dados a Thomas Pappon, do programa de r\u00e1dio Witness, do BBC World Service. Clique aqui para ouvir (em ingl\u00eas).<\/a><\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Thomas Pappon\u00a0<\/span><span class=\"byline__title\">Witness, BBC &#8211; dispon\u00edvel na internet 15\/10\/2018<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em setembro de 1987, dois catadores de lixo na cidade de Goi\u00e2nia entraram em uma cl\u00ednica abandonada, encontraram uma m\u00e1quina ali dentro e a desmontaram. 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