{"id":31412,"date":"2018-12-03T00:06:41","date_gmt":"2018-12-03T03:06:41","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=31412"},"modified":"2018-12-02T17:37:26","modified_gmt":"2018-12-02T20:37:26","slug":"a-luta-dos-caicaras-para-nao-perder-herancas-do-passado-apos-ver-terras-virarem-reservas-ou-condominios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2018\/12\/03\/a-luta-dos-caicaras-para-nao-perder-herancas-do-passado-apos-ver-terras-virarem-reservas-ou-condominios\/","title":{"rendered":"A luta dos cai\u00e7aras para n\u00e3o perder heran\u00e7as do passado ap\u00f3s ver terras virarem reservas ou condom\u00ednios"},"content":{"rendered":"<p class=\"story-body__introduction\">A dona de casa Nerci do Prado Martins, 52, n\u00e3o consegue mais entrar na resid\u00eancia onde passou a inf\u00e2ncia, dentro da reserva ecol\u00f3gica da Jureia, no litoral de S\u00e3o Paulo. Ali\u00e1s, sequer sabe se seu im\u00f3vel ainda est\u00e1 de p\u00e9.<\/p>\n<p>De origem cai\u00e7ara, ela hoje mora com um dos filhos e o marido, que trabalha como caseiro, em um bairro urbano de Peru\u00edbe, cidade litor\u00e2nea pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>&#8220;A gente ainda tem uma casa de madeira l\u00e1 dentro (da Jureia), mas faz mais de dois anos que a gente tenta autoriza\u00e7\u00e3o para consert\u00e1-la e n\u00e3o consegue. J\u00e1 faz um tempo que nem vamos l\u00e1 para ver como est\u00e1. \u00c9 capaz que j\u00e1 tenha ca\u00eddo tudo&#8221;, conta. &#8220;S\u00f3 tenho dois tios que continuam l\u00e1 dentro da reserva.&#8221;<\/p>\n<p>O distanciamento dessa fam\u00edlia de suas terras originais \u00e9 um exemplo de como a tradicional cultura cai\u00e7ara, catalogada oficialmente e ligada a s\u00e9culos de ocupa\u00e7\u00e3o no litoral brasileiro, est\u00e1 se perdendo, segundo especialistas.<\/p>\n<p>Nerci perdeu o direito \u00e0 casa e ao uso da \u00e1rea com a cria\u00e7\u00e3o da reserva ecol\u00f3gica por parte do governo federal, ainda nos anos 1980, quando se planejava construir usinas nucleares no local.<\/p>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/140F6\/production\/_104466128_5.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Wladimir, pescador de Ubatuba, calafetando seu barco\" width=\"696\" height=\"392\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Wladimir, pescador artesanal de Ubatuba, calafetando seu barco.\u00a0Direito de imagem\u00a0GUILHERME RODRIGUES\/DIVULGA\u00c7\u00c3O<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>&#8220;A gente n\u00e3o podia mais abrir ro\u00e7as, ca\u00e7ar ou retirar palmito. S\u00f3 sobrou a pesca&#8221;, diz ela. A ideia das usinas n\u00e3o prosperou, mas a regi\u00e3o se tornou um parque de preserva\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Quem vive cercado<\/h2>\n<p>Cai\u00e7ara \u00e9 um termo de origem tupi, que faz refer\u00eancia a cercas que protegiam aldeias. Os cai\u00e7aras s\u00e3o descendentes de \u00edndios, de portugueses que chegaram ao Brasil a partir do s\u00e9culo 16 e, em alguns casos, de negros trazidos ao pa\u00eds como escravos. Por viverem em \u00e1reas isoladas, acabaram preservando muito da cultura de seus antepassados, como o modo de produ\u00e7\u00e3o, festas com m\u00fasicas e dan\u00e7as pr\u00f3prias e o ritmo de vida.<\/p>\n<p>Eles n\u00e3o t\u00eam, por exemplo, a cultura de acumula\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de ind\u00edgenas e quilombolas, existem em territ\u00f3rio nacional outros povos tradicionais como faxinalenses, pomeranos, seringueiros, extrativistas, quebradeiras de coco baba\u00e7u e ciganos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F2D6\/production\/_104466126_2.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F2D6\/production\/_104466126_2.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Seu Vitor e Dona Tereza em sua casa, na Barra do Una, comunidade cai\u00e7ara dentro do Parque Estadual da Jureia, em SP\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Seu Vitor e Dona Tereza em sua casa, na Barra do Una, comunidade cai\u00e7ara dentro do Parque Estadual da Jureia, em S\u00e3o Paulo.\u00a0Direito de imagem\u00a0GUILHERME RODRIGUES\/DIVULGA\u00c7\u00c3O<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Hoje, o cai\u00e7ara \u00e9 algu\u00e9m que vive cercado \u2013 por fronteiras naturais do mar e da serra, e por imposi\u00e7\u00f5es como a industrializa\u00e7\u00e3o de \u00e1reas pesqueiras, a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e a cria\u00e7\u00e3o de reservas florestais, outro obst\u00e1culo ao modo de vida tradicional.<\/p>\n<p>Ainda que protejam a natureza, as reservas s\u00e3o vistas por alguns cr\u00edticos como uma outra face da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria.<\/p>\n<p>&#8220;Al\u00e9m de tirar os cai\u00e7aras de suas terras para a cria\u00e7\u00e3o de condom\u00ednios, \u00e9 preciso expuls\u00e1-los das reservas tamb\u00e9m, em nome do mito da natureza intocada?&#8221;, questiona Antonio Carlos Diegues, coordenador do N\u00facleo de Apoio \u00e0 Pesquisa sobre Popula\u00e7\u00f5es Humanas em \u00c1reas \u00damidas Brasileiras da USP (Nupaub-USP).<\/p>\n<p>Ele critica &#8220;o conceito de reserva florestal que exclui o ser humano que vive dentro daquela regi\u00e3o e faz uso sustent\u00e1vel daqueles bens naturais&#8221;. Al\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o forte com o mar e rios que desembocam ali, os cai\u00e7aras ligam tamb\u00e9m seu modo de vida \u00e0 ca\u00e7a, \u00e0 coleta de produtos da floresta e \u00e0 agricultura. N\u00e3o h\u00e1 estimativas oficiais do tamanho dessa popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Isolamento e cultura<\/h2>\n<p>O territ\u00f3rio tradicional dos cai\u00e7aras vai do litoral sul do Rio de Janeiro at\u00e9 o Paran\u00e1. Como o isolamento favorece a manuten\u00e7\u00e3o desses povos e suas tradi\u00e7\u00f5es, a cultura tem mais for\u00e7a em regi\u00f5es como o extremo sul e o norte do litoral paulista, isoladas por mais tempo do que as \u00e1reas que vivenciaram avan\u00e7o da rede rodovi\u00e1ria, a exemplo das cidades ligadas \u00e0 capital paulista pelo sistema Anchieta-Imigrantes (que come\u00e7ou a ser constru\u00eddo nos anos 1940) &#8211; antes, j\u00e1 havia a estrada velha de Santos e a liga\u00e7\u00e3o f\u00e9rrea da Santos-Jundia\u00ed.<\/p>\n<p>Com a urbaniza\u00e7\u00e3o, tradi\u00e7\u00f5es culturais tamb\u00e9m correm o risco de se perder, como o fandango cai\u00e7ara, m\u00fasica folcl\u00f3rica com viola e pandeiro tocada em rodas feitas em casa. \u00c9 considerado patrim\u00f4nio imaterial nacional desde 2012.<\/p>\n<p>Nize, por exemplo, afastou-se das festas de fandango por conta de sua religi\u00e3o evang\u00e9lica, mas seu marido ainda organiza as rodas.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, busca-se o reconhecimento oficial de outros aspectos t\u00edpicos dessa cultura, como a canoa cai\u00e7ara, feita a partir de um \u00fanico tronco. Segundo o pesquisador Antonio Carlos Diegues, os saberes para sua constru\u00e7\u00e3o incluem a escolha da \u00e1rvore, o momento do corte e o \u00e2ngulo certo de corte da madeira para a forma\u00e7\u00e3o de cada uma das partes da embarca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje, muitos dos antigos fabricantes cai\u00e7aras abandonaram a atividade em raz\u00e3o das dificuldades impostas, e a maioria dos pescadores usa embarca\u00e7\u00f5es de outros materiais.<\/p>\n<p>Em nota, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente de S\u00e3o Paulo afirma que a preserva\u00e7\u00e3o ambiental \u00e9 priorit\u00e1ria em rela\u00e7\u00e3o aos direitos culturais dos povos tradicionais e que a prote\u00e7\u00e3o da fauna e da flora beneficia a todos, inclusive os descendentes dos cai\u00e7aras.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, por sua vez, diz levar em considera\u00e7\u00e3o o papel dos povos tradicionais na conserva\u00e7\u00e3o da natureza, como defendem os especialistas, e incentivar em car\u00e1ter experimental o manejo em \u00e1reas de reservas de prote\u00e7\u00e3o integral.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Pesca<\/h2>\n<p>No antigo territ\u00f3rio cai\u00e7ara, foram constru\u00eddos diversos condom\u00ednios residenciais, mais de uma dezena de parques, esta\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas e \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o ambiental, al\u00e9m dos portos de S\u00e3o Sebasti\u00e3o e Santos, em S\u00e3o Paulo, e Paranagu\u00e1-Antonina, no Paran\u00e1, e da bacia de extra\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s natural de Santos, a segunda em produ\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em Santos, existem duas comunidades cai\u00e7aras, ambas longe da orla, na parte continental: Ilha Diana e Monte Cabr\u00e3o. Outra comunidade, chamada Ilha Caraguat\u00e1, fica em Cubat\u00e3o, cidade do litoral paulista que n\u00e3o tem praias.<\/p>\n<p>As tr\u00eas t\u00eam em comum a \u00e1rea de pesca: o estu\u00e1rio de Santos, trecho de mar que fica atr\u00e1s de Santos, S\u00e3o Vicente e Guaruj\u00e1.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/0C5E\/production\/_104466130_18.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/0C5E\/production\/_104466130_18.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Corrida de Canoa na praia do Cruzeiro, em Ubatuba-SP, durante comemora\u00e7\u00f5es da festa tradicional de S\u00e3o Pedro Pescador\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Corrida de Canoa na praia do Cruzeiro, em Ubatuba-SP, durante comemora\u00e7\u00f5es da festa tradicional de S\u00e3o Pedro Pescador, padroeiro dos pescadores.\u00a0Direito de imagem\u00a0GUILHERME RODRIGUES\/DIVULGA\u00c7\u00c3O<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Nascido e criado em ilha Diana, Eduardo Hip\u00f3lito Filho, 47, \u00e9 da terceira gera\u00e7\u00e3o de pescadores da sua fam\u00edlia radicados l\u00e1. &#8220;Comecei a pescar aqui quando era crian\u00e7a, a gente ia num barco a remo pegar camar\u00e3o&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Hoje, segundo ele, dos cerca de 200 moradores da ilha, apenas cinco vivem exclusivamente da pesca. &#8220;Mas quem tem outra profiss\u00e3o pesca para complementar a renda, pois a maioria tem profiss\u00f5es simples, com remunera\u00e7\u00e3o baixa.&#8221;<\/p>\n<p>Eduardo afirma que a pesca est\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil. &#8220;O grande neg\u00f3cio que ainda h\u00e1 \u00e9 a pesca do robalo, mas diminuiu muito a quantidade de peixes e frutos do mar aqui.&#8221; O problema, segundo ele, est\u00e1 na qualidade da \u00e1gua, por causa das ind\u00fastrias instaladas em Cubat\u00e3o, e da movimenta\u00e7\u00e3o de embarca\u00e7\u00f5es do porto de Santos, instalado no estu\u00e1rio.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de vender peixes e frutos do mar para entrepostos de Santos, Eduardo tamb\u00e9m fornece camar\u00f5es de pequeno porte como isca na pesca esportiva. A rotina de pescador, segundo ele, n\u00e3o come\u00e7a na sa\u00edda para o mar.<\/p>\n<p>&#8220;No dia anterior, eu estudo o mar para saber qual tipo de equipamento vou levar. Uma boa pescaria depende de acertar essa an\u00e1lise e sair com o equipamento correto para determinado tipo de presa e ir para o local certo captur\u00e1-la&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Ele ressalta que a comunidade tem dificuldade de encontrar outras formas de sobreviv\u00eancia. &#8220;A gente aqui n\u00e3o tem espa\u00e7o para lavouras e sabe que a \u00e1gua n\u00e3o \u00e9 boa para fazermos cria\u00e7\u00f5es de frutos do mar em cativeiro&#8221;, diz. As empresas pr\u00f3ximas acabam contratando eles apenas em momentos espec\u00edficos, para trabalhos pouco especializados e de curta dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Vagas informais<\/h2>\n<p>Adriano da Silva Alves, 72, tio de Eduardo, mant\u00e9m seus la\u00e7os com a cultura cai\u00e7ara, mas desistiu da pesca para trabalhar em obras de infraestrutura das prefeituras locais.<\/p>\n<p>Ele conta a press\u00e3o que faz junto aos prefeitos de Santos por melhorias na ilha Diana. Uma das principais demandas hoje \u00e9 pela reconstru\u00e7\u00e3o da capela local.<\/p>\n<p>&#8220;Estamos h\u00e1 alguns anos sem o cortejo mar\u00edtimo de Bom Jesus de Iguape, porque o nosso padroeiro est\u00e1 sem sede&#8221;, conta. &#8220;Os santos da nossa capela est\u00e3o guardados nas casas dos moradores.&#8221;<\/p>\n<p>Na sa\u00edda do estu\u00e1rio, do lado do Guaruj\u00e1, o portu\u00e1rio Odair Marcelino, 74, tamb\u00e9m fala com saudades das festas profanas e religiosas que eram dadas na casa de seus av\u00f3s, na praia do G\u00f3es. &#8220;Aqui sempre tinha as festas juninas, o reisado e na \u00e9poca da tainha (setembro). O pessoal tocava pandeiro, viola e rabeca.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/A89E\/production\/_104466134_26.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/A89E\/production\/_104466134_26.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Congada de Bast\u00f5es de S\u00e3o Benedito\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Congada de Bast\u00f5es de S\u00e3o Benedito, tradicional grupo de congada, onde todos os integrantes s\u00e3o cai\u00e7aras da fam\u00edlia Fernandes, do bairro Sert\u00e3o do Puruba de Ubatuba.\u00a0Direito de imagem\u00a0GUILHERME RODRIGUES\/DIVULGA\u00c7\u00c3O<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Conhecida na cidade pelo apelido Pouca Farinha, a praia de Santa Cruz dos Navegantes, no Guaruj\u00e1, \u00e9 um dos pontos de acesso \u00e0s terras cai\u00e7aras da regi\u00e3o. Tem constru\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, que se espalham at\u00e9 o mar.<\/p>\n<p>Entre trabalhadores com fun\u00e7\u00f5es menos qualificadas em Santos e Guaruj\u00e1, a comunidade ainda tem aqueles que vivem da pesca, como Rodrigo Gianeta, de 40 anos, conhecido como Birigui.<\/p>\n<p>&#8220;Meu pai era pescador aqui e saiu para o interior, onde nasci. Mas ele n\u00e3o se acostumou e voltamos quando eu tinha quatro anos. S\u00e3o 36 anos de Pouca Farinha&#8221;, afirma Birigui.<\/p>\n<p>Ele trabalha em pequenas embarca\u00e7\u00f5es que pescam camar\u00e3o no mar aberto. &#8220;Na \u00e1gua, a gente sofre com a concorr\u00eancia desleal de embarca\u00e7\u00f5es maiores, que passam v\u00e1rios dias em alto mar e pescam irregularmente na \u00e1rea destinada aos pequenos&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca do defeso do camar\u00e3o no litoral paulista (per\u00edodo em que \u00e9 proibida a pesca do crust\u00e1ceo na regi\u00e3o para garantir sua reprodu\u00e7\u00e3o), entre o come\u00e7o de mar\u00e7o e o fim de maio, Birigui recebe o sal\u00e1rio m\u00ednimo do seguro-defeso, pago pelo governo, e complementa sua renda com pequenos servi\u00e7os de pedreiro e pintor.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Isolamento do Guaruj\u00e1<\/h2>\n<p>Apesar de ser pr\u00f3xima a Santos, a cidade do Guaruj\u00e1 tinha at\u00e9 os anos 1970, quando foi constru\u00edda a rodovia C\u00f4nego Domenico Rangoni, a balsa como principal liga\u00e7\u00e3o com as outras cidades do litoral sul. Com isso, apesar da forte especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria a partir de ent\u00e3o, algumas comunidades tradicionais conseguiram se manter na orla.<\/p>\n<p>S\u00e3os os casos do Perequ\u00ea e da Prainha Branca, ambas no norte da ilha. Assim como o G\u00f3es, a Prainha Branca tamb\u00e9m s\u00f3 tem acesso por meio de trilhas ou embarca\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em outras praias, a pesca com pequenas embarca\u00e7\u00f5es continua, apesar de os pescadores terem sa\u00eddo da orla. Uma das solu\u00e7\u00f5es para a venda de seus produtos foi a constru\u00e7\u00e3o de mercados de pescados, como o da praia das Ast\u00farias, inaugurado em 1999. Thainara Ricardo Bezerra, 22, trabalha ao lado do pai em um dos boxes de l\u00e1 h\u00e1 11 anos.<\/p>\n<p>&#8220;Os nossos principais produtos aqui s\u00e3o a pescada branca e o camar\u00e3o sete-barbas pescados na praia, mas a gente vende tamb\u00e9m peixes de outras regi\u00f5es e importados, como o salm\u00e3o, que compramos nos entrepostos&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Para Diegues, da USP, al\u00e9m de lutarem para manter seus territ\u00f3rios tradicionais e seu modo de vida, os cai\u00e7aras ainda precisam vencer o preconceito.<\/p>\n<p>Um exemplo desta marginaliza\u00e7\u00e3o ainda consta em alguns dicion\u00e1rios, que registram &#8220;sujeito ordin\u00e1rio, sem serventia&#8221;, &#8220;malandro&#8221;, vagabundo&#8221; e &#8220;bronco&#8221; como significados do termo cai\u00e7ara.<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Leonardo Fuhrmann d<\/span><span class=\"byline__title\">e S\u00e3o Paulo para a BBC News Brasil &#8211; dispon\u00edvel na internet 03\/12\/2018<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A dona de casa Nerci do Prado Martins, 52, n\u00e3o consegue mais entrar na resid\u00eancia onde passou a inf\u00e2ncia, dentro da reserva ecol\u00f3gica da Jureia, no litoral de S\u00e3o Paulo. 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