{"id":32479,"date":"2019-01-08T00:04:40","date_gmt":"2019-01-08T03:04:40","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=32479"},"modified":"2019-01-08T05:33:55","modified_gmt":"2019-01-08T08:33:55","slug":"de-bem-com-a-vida-cientistas-brasileiros-descobrem-como-prevenir-alzheimer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2019\/01\/08\/de-bem-com-a-vida-cientistas-brasileiros-descobrem-como-prevenir-alzheimer\/","title":{"rendered":"De Bem com a Vida: Cientistas brasileiros descobrem como prevenir Alzheimer"},"content":{"rendered":"<header class=\"article-header article-header--special article-header--\">\n<div class=\"article-header__container\">\n<div class=\"article-header__content\">&nbsp;<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"article__content-container protected-content\">\n<p>Cientistas brasileiros descobriram um caminho para prevenir e potencialmente tratar o Alzheimer, a doen\u00e7a neurodegenerativa que mais avan\u00e7a no mundo \u00e0 medida que a popula\u00e7\u00e3o envelhece e para a qual n\u00e3o h\u00e1 cura. A chave \u00e9 o exerc\u00edcio f\u00edsico. A irisina, um horm\u00f4nio produzido pelos m\u00fasculos quando praticamos exerc\u00edcios, protege o c\u00e9rebro e restaura a mem\u00f3ria afetada pela doen\u00e7a, revelou o estudo.<\/p>\n<p>Batizada em alus\u00e3o \u00e0 mensageira dos deuses, \u00cdris, a irisina era associada apenas \u00e0 queima de gordura. Mas um grupo de cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) descobriu que, no c\u00e9rebro, ela \u00e9 importante para que os neur\u00f4nios possam se comunicar e formar mem\u00f3rias.<\/p>\n<figure class=\"article__picture article__picture--horizontal\"><figcaption class=\"article__picture-caption\"><\/figcaption><\/figure>\n<p>A descoberta tem duas implica\u00e7\u00f5es. A primeira \u00e9 que j\u00e1 se pode dizer que o exerc\u00edcio, mesmo que ainda exista muito o que estudar, contribui para a preven\u00e7\u00e3o do Alzheimer.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda n\u00e3o sabemos a dose certa de exerc\u00edcio (para que haja esse efeito). Mas ele certamente \u00e9 fundamental para o metabolismo do c\u00e9rebro e das doen\u00e7as provenientes do desequil\u00edbrio deste, como o Alzheimer. Temos que caminhar, nadar, pedalar ou correr. O tipo de exerc\u00edcio n\u00e3o importa. O fundamental \u00e9 se exercitar, sempre, tornar isso parte da vida, rotina. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas compensa \u2014 afirma Fernanda de Felice, uma das coordenadoras do estudo conduzido pelos institutos de Bioqu\u00edmica M\u00e9dica Leopoldo de Meis e de Biof\u00edsica Carlos Chagas Filho, ambos da UFRJ, e da Queen\u2019s University, no Canad\u00e1.<\/p>\n<h2>Possibilidade de rem\u00e9dios<\/h2>\n<p>O outro desdobramento mais distante da pesquisa publicada numa das mais importantes revistas cient\u00edficas do mundo, a &#8220;Nature Medicine&#8221;, \u00e9 a possibilidade de desenvolver medicamentos \u00e0 base de irisina ou de seus mecanismos para pessoas que est\u00e3o com a doen\u00e7a ou que n\u00e3o podem fazer exerc\u00edcios, como deficientes f\u00edsicos.<\/p>\n<p>\u2014 O exerc\u00edcio, por liberar irisina, atua duplamente: na preven\u00e7\u00e3o da perda de mem\u00f3ria e na restaura\u00e7\u00e3o da que foi perdida \u2014 observa S\u00e9rgio Ferreira, que \u00e9 outro autor do trabalho e professor dos institutos de Biof\u00edsica e de Bioqu\u00edmica M\u00e9dica da UFRJ.<\/p>\n<aside class=\"article-related-links \">\n<div class=\"article-related-links__container\">\n<div class=\"article-related-links__content\">&nbsp;<\/div>\n<\/div>\n<\/aside>\n<p>A origem do estudo est\u00e1 nas pesquisas de Felice, neurocientista da UFRJ e da Queens&#8217;s University, no Canad\u00e1, sobre a associa\u00e7\u00e3o entre os horm\u00f4nios e o Alzheimer. H\u00e1 dez anos, ela come\u00e7ou a obter os primeiros ind\u00edcios da rela\u00e7\u00e3o entre este tipo mais comum de dem\u00eancia e o diabetes. Os diab\u00e9ticos, especialmente os do tipo 2, t\u00eam maior risco de desenvolver a doen\u00e7a, causadora da resist\u00eancia \u00e0 insulina, que no c\u00e9rebro tamb\u00e9m est\u00e1 associada \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o entre os neur\u00f4nios. O estudo com a irisina, que tamb\u00e9m atua sobre o metabolismo cerebral, foi um desdobramento dessas pesquisas.<\/p>\n<p>O metabolismo cerebral \u00e9 uma caixa que a ci\u00eancia mal come\u00e7ou a abrir. Dentro dela, est\u00e1 a chave para compreender como o c\u00e9rebro conversa o tempo todo com o restante do organismo.<\/p>\n<p>\u2014 Se quisermos&nbsp;entender uma doen\u00e7a com a complexidade do Alzheimer, precisamos compreender a integra\u00e7\u00e3o entre o c\u00e9rebro e o corpo. O c\u00e9rebro n\u00e3o funciona sozinho, n\u00e3o flutua no v\u00e1cuo \u2014 diz S\u00e9rgio Ferreira.<\/p>\n<p>O exerc\u00edcio funciona com um gatilho para os m\u00fasculos liberarem irisina. Ela vai para o tecido adiposo branco, a chamada gordura ruim, e a transforma em bege, uma forma intermedi\u00e1ria de gordura menos nociva. A irisina \u00e9 uma &#8220;maestrina&#8221; do metabolismo. Ela atua positivamente sobre o equil\u00edbrio de ossos e pulm\u00f5es, e o grupo de brasileiros comprovou agora que tamb\u00e9m est\u00e1 ativa no c\u00e9rebro.<\/p>\n<h2>Quem tem Alzheimer tem menos irisina<\/h2>\n<p>A primeira descoberta do grupo foi ver que havia menos irisina no c\u00e9rebro de pessoas com Alzheimer. Isso foi feito com an\u00e1lises do&nbsp;<em>post-morten<\/em>&nbsp;de tecido cerebral e de l\u00edquor de pacientes vivos. O achado foi confirmado no c\u00e9rebro de camundongos geneticamente alterados para desenvolver a doen\u00e7a humana.<\/p>\n<p>O prosseguimento do estudo com roedores mostrou que a concentra\u00e7\u00e3o de irisina afeta a mem\u00f3ria. Menos irisina, menos mem\u00f3ria. E se os animais doentes receberem irisina, a mem\u00f3ria \u00e9 recuperada.<\/p>\n<p>O terceiro passo foi mostrar que a irisina tamb\u00e9m \u00e9 produzida pelo c\u00e9rebro, e n\u00e3o apenas pelos m\u00fasculos. Isso foi feito com experi\u00eancias com camundongos levados a nadar uma hora por dia durante cinco semanas. O exerc\u00edcio n\u00e3o s\u00f3 aumentou a concentra\u00e7\u00e3o de irisina como tamb\u00e9m tornou os animais mais aptos a aprender.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o veio a d\u00favida. Ser\u00e1 que era apenas a a\u00e7\u00e3o da irisina ou havia alguma outra subst\u00e2ncia ativada pelo exerc\u00edcio. Camundongos foram mais uma vez geneticamente alterados para se tornarem insens\u00edveis \u00e0 irisina. Nesses roedores, o exerc\u00edcio n\u00e3o fazia efeito. Foi a comprova\u00e7\u00e3o de que sim, era ela a subst\u00e2ncia ligada ao exerc\u00edcio que atuava sobre a mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u2014 O pr\u00f3ximo passo ser\u00e1 saber o quanto de exerc\u00edcio ao longo da vida \u00e9 necess\u00e1rio para conseguir uma a\u00e7\u00e3o protetora contra o Alzheimer \u2014 afirma S\u00e9rgio Ferreira.<\/p>\n<p>Os cientistas tamb\u00e9m n\u00e3o descobriram ainda como a irisina atua para impedir que as placas de beta-amiloide caracter\u00edsticas da doen\u00e7a ataquem os neur\u00f4nios.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da possibilidade de prevenir a dem\u00eancia, o estudo abre uma porta para desenvolver uma nova droga. A classe de drogas mais recente contra a doen\u00e7a t\u00eam 15 anos \u2014 e n\u00e3o resolve. Seus efeitos s\u00e3o tempor\u00e1rios, efetivos apenas para metade dos pacientes, e os rem\u00e9dios podem ser usados apenas&nbsp; por cerca de um ano e meio.<\/p>\n<h2>Risco para 25% dos que t\u00eam mais de 75 anos<\/h2>\n<p>A necessidade de desenvolver um rem\u00e9dio eficiente aumenta no ritmo em que a expectativa de vida se eleva. Segundo Ferreira, 25% das pessoas com mais 75 anos correm risco de desenvolver Alzheimer. Esse percentual sobre para 40% para quem tem mais de 85 anos.&nbsp;<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma doen\u00e7a cruel, de evolu\u00e7\u00e3o lenta, terr\u00edvel para o paciente e a fam\u00edlia, destaca Ferreira, cujo pai morreu devido ao Alzheimer.<\/p>\n<p>\u2014 Eu havia come\u00e7ado a estudar a doen\u00e7a quando meu pai foi diagnosticado. Parei essa linha de pesquisa por alguns anos, mas acabei voltando \u2014 conta ele, que estuda o Alzheimer h\u00e1 20 anos.<\/p>\n<p>O trabalho s\u00f3 foi poss\u00edvel porque Fernanda de Felice conseguiu financiamento no exterior. Ap\u00f3s amargar quatro anos sem dinheiro para a pesquisa,&nbsp;ela foi para o Canad\u00e1, onde conquistou um financiamento de US$ 150 mil \u2014 o equivalente a mais de R$ 550 mil \u2014 da Sociedade Canadense de Alzheimer. Foi a vit\u00f3ria do m\u00e9rito, destaca ela. Apenas tr\u00eas bolsas foram concedidas para 200 concorrentes de alto n\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 Venci mesmo n\u00e3o sendo canadense. Sem esse dinheiro, o trabalho n\u00e3o existiria, mesmo com o pagamento do Brasil a bolsas de alunos<em>(concedidas pela Faperj e pelo CNPq)<\/em>&nbsp;. Essas n\u00e3o s\u00e3o pesquisas baratas. Medicina custa caro \u2014 frisa ela.<\/p>\n<p>S\u00e9rgio Ferreira diz que a falta de investimento no Brasil faz com que muitas descobertas n\u00e3o tenham desdobramentos:<\/p>\n<p>\u2014 Praticamente n\u00e3o se faz pesquisa cl\u00ednica no Brasil. Dependemos do que vem do exterior. Isso acontece porque nunca houve apoio oficial para a pesquisa. Ela custa caro, mas, se o Brasil quer inovar e ser independente da \u00e1rea farmac\u00eautica, deveria investir.<\/p>\n<p>Quando escreveu que uma mente s\u00e3 num corpo saud\u00e1vel (do latin, &#8220;mens sana in corpore sano&#8221;) era o que se deveria desejar na vida, o poeta romano Juvenal pensava&nbsp;em outras coisas. Dois mil anos depois a ci\u00eancia prova que ele estava certo.<\/p>\n<h2>Doen\u00e7a afeta 35 milh\u00f5es no mundo<\/h2>\n<p>O mal de Alzheimer \u00e9 uma doen\u00e7a neurodegenerativa incur\u00e1vel e a mais comum causa de dem\u00eancia. Ela provoca perda da mem\u00f3ria e da capacidade cognitiva. Os pacientes podem sofrer varia\u00e7\u00f5es de humor, ficar desorientados e ter del\u00edrios.<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) estima que cerca de 35 milh\u00f5es de indiv\u00edduos no mundo t\u00eam a doen\u00e7a. No Brasil, h\u00e1 1 milh\u00e3o de pessoas afetadas.<\/p>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a at\u00e9 a morte costuma levar, em m\u00e9dia, de oito a dez anos.<\/p>\n<p>No c\u00e9rebro dos pacientes, h\u00e1 ac\u00famulo de placas de prote\u00edna beta-amiloide. Essas placas causam a morte dos neur\u00f4nios e causam o decl\u00ednio das fun\u00e7\u00f5es cerebrais. Os rem\u00e9dios existentes apenas amenizam os dist\u00farbios e fazem efeito por pouco tempo.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Ana Lucia Azevedo\/O Globo &#8211; dispon\u00edvel na internet 08\/01\/2019<\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Cientistas brasileiros descobriram um caminho para prevenir e potencialmente tratar o Alzheimer, a doen\u00e7a neurodegenerativa que mais avan\u00e7a no mundo \u00e0 medida que a popula\u00e7\u00e3o envelhece e para a qual n\u00e3o h\u00e1 cura. A chave \u00e9 o exerc\u00edcio f\u00edsico. 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