{"id":32489,"date":"2019-01-09T00:08:18","date_gmt":"2019-01-09T03:08:18","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=32489"},"modified":"2019-01-08T16:38:35","modified_gmt":"2019-01-08T19:38:35","slug":"mulheres-sobrecarregadas-e-homens-desempregados-familias-brasileiras-chegam-a-2019-ainda-em-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2019\/01\/09\/mulheres-sobrecarregadas-e-homens-desempregados-familias-brasileiras-chegam-a-2019-ainda-em-crise\/","title":{"rendered":"Mulheres sobrecarregadas e homens desempregados: fam\u00edlias brasileiras chegam a 2019 ainda em crise"},"content":{"rendered":"<div class=\"story-body__inner\">\n<p class=\"story-body__introduction\">De p\u00e9 no meio da cozinha, Alessandra aperta os olhos para enxergar as letras pequenas. Ela segura o papel com as duas m\u00e3os e treme um pouco.<\/p>\n<p>&#8220;Ins\u00f4nia, cefaleia, ideias suicidas&#8230;Nossa, voc\u00ea toma algo para ansiedade e pode ter ideias suicidas!&#8221;, ri, meio sem jeito.<\/p>\n<p>Caixas com tarjas vermelhas e pretas est\u00e3o enfileiradas sobre o micro-ondas. \u00c9 dentro de uma delas que Alessandra guarda a bula.<\/p>\n<p>&#8220;Mas voc\u00ea sabe, esse \u00e9 o melhor ansiol\u00edtico que existe!&#8221;<\/p>\n<p>Apesar dos efeitos colaterais, s\u00e3o os rem\u00e9dios que ajudam Alessandra, 45, a dormir, acordar e respirar durante crises de asma, bronquite e s\u00edndrome do p\u00e2nico. Essas doen\u00e7as apareceram h\u00e1 alguns anos, quando sua vida come\u00e7ou a mudar.<\/p>\n<p>Em 2014, o marido de Alessandra deixou um emprego como gerente de log\u00edstica e n\u00e3o conseguiu arrumar outro. Desde ent\u00e3o, \u00e9 o sal\u00e1rio dela como agente de viagens que sustenta a casa, onde tamb\u00e9m mora uma de suas filhas, de 18 anos e desempregada. Respons\u00e1vel pelas contas, sem carteira assinada, dinheiro no banco ou gastos que ainda possa cortar, Alessandra est\u00e1 cansada e doente. E \u00e9 assim que ela e sua fam\u00edlia chegam a 2019.<\/p>\n<figure class=\"media-with-caption\">\n<div class=\"player-with-placeholder\">\n<figure style=\"width: 720px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/images\/ic\/720x405\/p06xh7k1.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"media-placeholder player-with-placeholder__image narrative-video-placeholder\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/images\/ic\/720x405\/p06xh7k1.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"696\" height=\"392\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">O amor na crise: com mulher respons\u00e1vel pelas contas, marido assume tarefas dom\u00e9sticas<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/figure>\n<p>A recente recess\u00e3o vivida pelo Brasil foi a maior desde os anos 1980, quando o Comit\u00ea de Data\u00e7\u00e3o de Ciclos Econ\u00f4micos, da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV), come\u00e7ou a medir as crises brasileiras. Em 11 trimestres, entre 2014 e 2016, o PIB do pa\u00eds acumulou uma queda de 8,6%. Nesse per\u00edodo, o desemprego chegou a atingir 14,2 milh\u00f5es de pessoas e a renda per capita caiu 9,4%, o segundo pior resultado do s\u00e9culo. Durante uma das crises mais longas de nossa hist\u00f3ria, muitas fam\u00edlias passaram por transforma\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s experimentadas por Alessandra.<\/p>\n<p>Uma delas merece destaque, por influenciar com for\u00e7a as din\u00e2micas familiares: o protagonismo das esposas, grupo que n\u00e3o tinha sal\u00e1rio ou cujo sal\u00e1rio era secund\u00e1rio no sustento da casa. Na maioria dos casos, elas s\u00e3o as esposas ou companheiras, enquanto os maridos se identificam como &#8220;chefes de fam\u00edlia&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12F0D\/production\/_104918577_bbc21.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12F0D\/production\/_104918577_bbc21.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Alessandra\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">&#8216;Tem semana em que a gente n\u00e3o tem grana&#8217;, diz Alessandra sobre mudan\u00e7as na vida da fam\u00edlia ap\u00f3s a crise.&nbsp;Direito de imagem&nbsp;FERNANDO QUIXOTE\/BBC<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Um levantamento feito para a BBC News Brasil pelo professor Marcelo Neri, diretor do centro de pol\u00edticas sociais da FGV, com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (Pnad), indica que as c\u00f4njuges se sa\u00edram melhor do que os chefes de fam\u00edlia durante a recess\u00e3o. Elas tiveram aumentos expressivos de renda, horas trabalhadas e participa\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho. Nesta reportagem, o termo ser\u00e1 usado no feminino j\u00e1 que 72,5% dos que ocupam esse papel s\u00e3o mulheres, de acordo com a Pnad de 2017. \u00c9 importante ressaltar que muitas brasileiras tamb\u00e9m s\u00e3o chefes &#8211; 29,28% das brasileiras exercem essa fun\u00e7\u00e3o em casa.<\/p>\n<p>Os dados da Pnad mostram que, entre o segundo trimestre de 2015 e o segundo trimestre 2018, a renda das mulheres do casal cresceu 17,9% enquanto que a dos principais respons\u00e1veis pelo domic\u00edlio (cuja maioria \u00e9 de homens) caiu 10,3%. O crescimento da renda do grupo das mulheres c\u00f4njuges tamb\u00e9m ultrapassou o dos jovens, os que mais sofreram com o desemprego &#8211; nesse per\u00edodo, a renda dos que se identificavam como filhos encolheu 9,6%.<\/p>\n<p>O bom desempenho, no entanto, n\u00e3o \u00e9 motivo de comemora\u00e7\u00e3o: em sua maioria, os rendimentos das mulheres n\u00e3o melhoraram a situa\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, mas apenas impediram que seus membros ficassem ainda mais pobres.<\/p>\n<p>&#8220;A trabalhadora adicional entra no mercado para amortecer a queda de renda da fam\u00edlia, como um colch\u00e3o&#8221;, diz Neri.<\/p>\n<p>&#8220;Ou seja: h\u00e1 um ganho individual, mas uma perda familiar.&#8221;<\/p>\n<p>Na cozinha, enquanto se prepara para sair, Alessandra coloca potes de pl\u00e1stico com seu almo\u00e7o e lanche da tarde dentro de uma bolsa de tecido. Depois de empilh\u00e1-los, equilibra uma banana sobre eles.<\/p>\n<p>&#8220;Est\u00e1 na hora. Vamos?&#8221;<\/p>\n<p>O rel\u00f3gio marca 6h15.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">O retrocesso<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/17D2D\/production\/_104918579_bbc22.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/17D2D\/production\/_104918579_bbc22.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Alexandre e Alessandra\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Todos os dias, Alexandre leva Alessandra at\u00e9 o trabalho, no centro de S\u00e3o Paulo.&nbsp;Direito de imagem&nbsp;FERNANDO QUIXOTE\/BBC<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>As paredes brancas da casa est\u00e3o descascadas, sem pintura h\u00e1 algum tempo. O varal no quintal est\u00e1 quebrado. Ao tirar o carro da garagem, Alexandre diz que vai tentar consert\u00e1-lo mais tarde.<\/p>\n<p>Alessandra senta no banco do passageiro para o trajeto de uma hora at\u00e9 o trabalho, no centro de S\u00e3o Paulo. Ela fala sobre o que mudou nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>&#8220;Tem semana em que a gente n\u00e3o tem grana. N\u00e3o tem. Se eu te falar que tem dez reais na carteira \u00e9 mentira&#8221;, ela diz, olhando pela janela.<\/p>\n<p>&#8220;A gente nunca foi extremamente consumista&#8230;Mas come\u00e7amos a ir ao shopping j\u00e1 almo\u00e7ados, para n\u00e3o gastar, e a pesquisar muito s\u00f3 para comprar um par de t\u00eanis. Vendemos carro, cortamos telefone fixo, TV&#8230;\u00c9 apertado.&#8221;<\/p>\n<p>O desemprego e a perda do poder de compra que ele traz geram sofrimento, diz a professora da Unicamp e presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Estudos do Trabalho Angela Ara\u00fajo. Isso porque, ao longo do tempo, tais condi\u00e7\u00f5es obrigam as fam\u00edlias a repensarem at\u00e9 as pequenas escolhas: optar por roupas mais baratas e \u00e0s vezes diminuir a quantidade de comida.<\/p>\n<p>&#8220;A classe m\u00e9dia e m\u00e9dia baixa sofreram muito com a crise. As fam\u00edlias n\u00e3o conseguiram manter o padr\u00e3o de vida, que se tornou descendente. E a tend\u00eancia ainda \u00e9 essa: de queda.&#8221;<\/p>\n<p>Alexandre, 49, trabalhava em distribuidoras de alimento h\u00e1 20 anos quando, em 2014, depois de desentendimentos com colegas, pediu demiss\u00e3o. Ele tinha experi\u00eancia, dinheiro guardado e, antes de procurar uma vaga, decidiu tirar alguns meses de descanso. Ao come\u00e7ar a enviar curr\u00edculos, notou algo diferente. Os amigos tamb\u00e9m estavam desempregados, sua antiga empresa havia fechado e nas entrevistas, em vez dos dez candidatos habituais, 40 disputavam os cargos mais altos.<\/p>\n<p>&#8220;Foi quando eu percebi que o mercado estava sumindo&#8221;, ele diz, dando de ombros.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 muito estressante voc\u00ea n\u00e3o ter grana para fazer o que fazia&#8221;, Alessandra interrompe.<\/p>\n<p>&#8220;A gente saia todo final de semana, n\u00e9, Al\u00ea?&#8221;, ela vira para o marido enquanto o tr\u00e2nsito para na avenida. &#8220;A gente dava uma volta no s\u00e1bado ou no domingo, ia comer fora. Agora deixamos de ter lazer\u2026&#8221;<\/p>\n<p>Na ag\u00eancia de viagens, onde ganha pouco mais de R$ 4 mil por m\u00eas, Alessandra manteve sua fun\u00e7\u00e3o. Seu sal\u00e1rio, que ent\u00e3o ajudava a pagar as contas, tornou-se o \u00fanico da casa.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Contratam-se mulheres<\/h2>\n<p>Em per\u00edodos de crise, os empregadores preferem contratar ou manter mulheres em suas empresas, dizem professores entrevistados pela BBC News Brasil. Apesar de a taxa de desemprego ser tradicionalmente maior entre elas, durante recess\u00f5es os empres\u00e1rios s\u00e3o guiados pela necessidade: mulheres t\u00eam sal\u00e1rios menores do que homens e, em geral, aceitam condi\u00e7\u00f5es de trabalho menos garantidas.<\/p>\n<p>Em 2017, de acordo com a Pnad, os homens ganhavam, em m\u00e9dia, 29,7% a mais do que as mulheres.<\/p>\n<p>&#8220;Elas t\u00eam uma forma\u00e7\u00e3o melhor, mais escolaridade, mas sal\u00e1rios menores. Ganhar menos ou aceitar emprego em condi\u00e7\u00f5es piores, sem carteira, \u00e9 uma caracter\u00edstica do emprego feminino que atrai as empresas. As empresas querem reduzir custos, se livrar das leis trabalhistas. \u00c9 uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia&#8221;, diz a professora do Departamento de Economia da PUC Anita Kon.<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as estruturais no mercado brasileiro foram fundamentais para permitir que mulheres como Alessandra se tornassem provedoras durante a crise, acrescenta a professora Angela Ara\u00fajo.<\/p>\n<p>Uma dessas transforma\u00e7\u00f5es foi o crescimento, na \u00faltima d\u00e9cada, do setor de servi\u00e7os de educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade, onde elas s\u00e3o maioria. Desde o come\u00e7o dos anos 2010, esse tipo de ocupa\u00e7\u00e3o ultrapassou os servi\u00e7os dom\u00e9sticos como a fun\u00e7\u00e3o que mais emprega brasileiras.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s da expans\u00e3o dos servi\u00e7os, explicam os entrevistados, est\u00e1 a multiplica\u00e7\u00e3o de sistemas privados de educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade &#8211; faculdades e cl\u00ednicas particulares -, muitos deles contratantes de empresas terceirizadas. Por causa disso, os professores alertam que boa parte dessas vagas oferece condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de trabalho.<\/p>\n<p>Para a economista e professora da UFRJ Lena Lavinas, a flexibiliza\u00e7\u00e3o, impulsionada pela reforma trabalhista, tamb\u00e9m pode ter ajudado a entrada ou perman\u00eancia das mulheres em seus cargos. Com a possibilidade de negocia\u00e7\u00e3o direta entre patr\u00e3o e funcion\u00e1rio e de contratos de trabalho intermitente com sal\u00e1rios mais baixos, por exemplo, a resist\u00eancia \u00e0 contrata\u00e7\u00e3o de mulheres &#8211; por receio de que engravidem ou faltem para se dedicar aos filhos &#8211; \u00e9 menor.<\/p>\n<p>Alessandra recebe como Pessoa Jur\u00eddica desde 2016. Ela pediu para ser mandada embora porque n\u00e3o conseguia mais pagar o col\u00e9gio da filha ca\u00e7ula e queria ganhar sua rescis\u00e3o para quitar as mensalidades. Sua chefe sugeriu que ficasse, mas deixasse de ter a carteira assinada. Hoje Alessandra recebe o sal\u00e1rio sem descontos e passou a trabalhar mais &#8211; liga\u00e7\u00f5es e mensagens fora do hor\u00e1rio comercial s\u00e3o comuns.<\/p>\n<p>Se setores marcados pela presen\u00e7a feminina cresceram na \u00faltima d\u00e9cada, o mesmo n\u00e3o se pode dizer dos &#8220;masculinos&#8221;. A constru\u00e7\u00e3o civil foi a campe\u00e3 em demiss\u00f5es em 2017. Foram 104 mil vagas fechadas, como mostram dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). A ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o demitiu 20 mil pessoas.<\/p>\n<p>Alexandre diz que j\u00e1 em 2014 percebia que seu setor n\u00e3o ia bem.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c0s vezes estourava em vendas e daqui a pouco n\u00e3o vendia nada. Antes de sair, vi que as empresas diziam que n\u00e3o dava para pagar a distribui\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Enquanto Alexandre dirige, Alessandra conta sobre quando deixou o emprego para acompanhar o marido em uma transfer\u00eancia. Ent\u00e3o, seu sal\u00e1rio era apenas um complemento.<\/p>\n<p>&#8220;Uma vez fiquei fora do mercado por tr\u00eas meses e s\u00f3 depois comecei a procurar emprego. Quando a gente foi para o interior, fiquei parada mais de um ano&#8221;, ela diz.<\/p>\n<p>&#8220;Falei pra ela &#8216;se quiser, trabalha, se n\u00e3o quiser, fica em casa&#8217;. Quando ela ficou desempregada, era diferente. N\u00e3o era t\u00e3o ruim&#8230;&#8221;, Alexandre continua a explica\u00e7\u00e3o, olhando pelo retrovisor.<\/p>\n<p>As trajet\u00f3rias profissionais das mulheres costumam ter um movimento de entrada e sa\u00edda do mercado para se adaptar ao itiner\u00e1rio da fam\u00edlia, explica a professora do Instituto de Ci\u00eancias Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora Ana Claudia Moreira Cardoso. E seria por isso que muitas n\u00e3o conseguem subir na hierarquia profissional e permanecem auxiliares no sustento da casa.<\/p>\n<p>&#8220;Essas entradas e sa\u00eddas tamb\u00e9m s\u00e3o uma maneira de manter a desigualdade, porque voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 dando as mesmas chances para os dois sexos. Elas perdem a oportunidade de construir uma carreira&#8221;, diz Cardoso, que estudou a viv\u00eancia dos trabalhadores e os processos de negocia\u00e7\u00e3o coletiva em seu doutorado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dela, outros professores entrevistados pela BBC Brasil defendem que, apesar de consistente e representativa de uma luta por autonomia, a entrada das mulheres na for\u00e7a de trabalho aconteceu pela porta lateral.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1603B\/production\/_104917109_bbc32.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1603B\/production\/_104917109_bbc32.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Alessandra\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Nos \u00faltimos anos, sobrecarregada de trabalho, Alessandra desenvolveu v\u00e1rias doen\u00e7as.&nbsp;Direito de imagem&nbsp;FERNANDO QUIXOTE\/BBC<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Seus sal\u00e1rios sempre foram inferiores aos dos homens e encarados como uma &#8220;ajuda&#8221;; elas eram e s\u00e3o maioria nos empregos de tempo parcial, para dar conta das tarefas dom\u00e9sticas; e as fun\u00e7\u00f5es que ocupavam ainda se parecem muito com as ditas &#8220;atividades femininas&#8221;: o cuidado, em diferentes acep\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;O maior espa\u00e7o que encontram s\u00e3o as fun\u00e7\u00f5es parecidas com as que j\u00e1 faziam no domic\u00edlio, que \u00e9 o cuidado do outro: sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, servi\u00e7os dom\u00e9sticos. Entende-se que mulheres s\u00e3o boas para cuidar&#8221;, diz Cardoso.<\/p>\n<p>No entanto, mesmo com todas essas dificuldades, trabalhar tornou-se parte da identidade feminina, pondera a soci\u00f3loga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro Bila Sorj. Segundo ela, \u00e9 improv\u00e1vel que mulheres que agora veem seus rendimentos tornarem-se t\u00e3o importantes para a sobreviv\u00eancia da fam\u00edlia voltem a ficar em casa.<\/p>\n<p>&#8220;Isso n\u00e3o regride porque elas realmente se percebem como trabalhadoras, como tendo uma participa\u00e7\u00e3o no mundo p\u00fablico. A mulher considera que participar do mercado \u00e9 um valor.&#8221;<\/p>\n<p>Todas essas transforma\u00e7\u00f5es mexem com as defini\u00e7\u00f5es tradicionais de &#8220;chefes de fam\u00edlia&#8221; e &#8220;c\u00f4njuges&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Ela \u00e9 a \u00fanica que p\u00f5e um dinheiro em casa. Eu s\u00f3 ponho uns trocados&#8221;, Alexandre comenta, enquanto o carro se aproxima do centro de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>&#8220;Ela virou a chefe da fam\u00edlia&#8221;, ele diz, ao estacionar em frente a um dos pr\u00e9dios cinzas da rua da Consola\u00e7\u00e3o. Alessandra abre a porta, bolsa e sacola em m\u00e3os, seguida pelo marido. Na cal\u00e7ada, fumam um \u00faltimo cigarro.<\/p>\n<p>Ela vai passar as pr\u00f3ximas oito horas no escrit\u00f3rio; ele ser\u00e1 motorista para um aplicativo de t\u00e1xi. \u00c9 assim que tira seus &#8220;trocados&#8221;.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">O motorista<\/h2>\n<p>Alexandre demorou a aceitar que ser motorista era sua \u00fanica op\u00e7\u00e3o. Foram dois anos de curr\u00edculos recusados at\u00e9 ser convencido a tentar.<\/p>\n<p>&#8220;No come\u00e7o eu n\u00e3o queria&#8221;, ele diz ao voltar para o carro. &#8220;Eu tinha um cargo de chefia e voc\u00ea ainda est\u00e1 em cima do pedestal: n\u00e3o tem mais dinheiro, mas se acha conde, duque\u2026&#8221;<\/p>\n<p>O telefone toca. Ele tem um novo passageiro.<\/p>\n<p>De acordo com os professores entrevistados, a crise econ\u00f4mica e os altos n\u00edveis de desemprego que os brasileiros experimentam h\u00e1 anos s\u00e3o, claro, determinantes para o des\u00e2nimo observado hoje. Mas eles ressaltam que h\u00e1 algo a mais nesse cen\u00e1rio: uma mudan\u00e7a profunda das vagas oferecidas, cada vez mais flex\u00edveis e fr\u00e1geis.<\/p>\n<p>\u00c0 recess\u00e3o, dizem, soma-se o contexto da reforma trabalhista, texto aprovado em 2017 que regulamentou contr\u00e1rios tempor\u00e1rios e intermitentes e permitiu a negocia\u00e7\u00e3o direta entre empregadores e empregados. Para esses especialistas, o Brasil seguiu uma tend\u00eancia mundial de fragilizar as contrata\u00e7\u00f5es, tornando-as mais espor\u00e1dicas e sem garantias.<\/p>\n<p>O professor de sociologia do trabalho da Unicamp Ricardo Antunes afirma que essas transforma\u00e7\u00f5es fazem parte do que \u00e9 chamado de quarta revolu\u00e7\u00e3o industrial ou ind\u00fastria 4.0. Nela, estaria inclu\u00edda a substitui\u00e7\u00e3o, como motor da economia, da ind\u00fastria &#8211; um setor de rela\u00e7\u00f5es trabalhistas bem estruturadas &#8211; pelos servi\u00e7os, onde essas trocas s\u00e3o mais flex\u00edveis.<\/p>\n<p>&#8220;A precariza\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais intensa aqui porque a sociedade brasileira j\u00e1 nasceu sob a \u00e9gide do trabalho escravo &#8211; s\u00f3 que hoje ele \u00e9 de outro tipo. O empres\u00e1rio acha que s\u00f3 por dar trabalho \u00e9 um benfeitor.&#8221;<\/p>\n<p>Enquanto segue em busca de outros passageiros, Alexandre conta que hoje, em entrevistas de emprego, as condi\u00e7\u00f5es oferecidas s\u00e3o diferentes das que estava acostumado: s\u00e3o muitas exig\u00eancias para um sal\u00e1rio menor.<\/p>\n<p>&#8220;O que eles querem? Que voc\u00ea seja PJ (pessoa jur\u00eddica) e receba R$ 3 mil para montar toda uma opera\u00e7\u00e3o de log\u00edstica&#8221;, ele diz, enquanto o aplicativo apita.<\/p>\n<p>&#8220;Chega num ponto em que voc\u00ea fala &#8216;beleza, eu vou&#8217;. Mas sei que esse tipo de coisa n\u00e3o d\u00e1 certo&#8230;&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/2BA3\/production\/_104917111_bbc28.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/2BA3\/production\/_104917111_bbc28.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Alexandre\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Como Alessandra passou a trabalhar muito, Alexandre assumiu as tarefas dom\u00e9sticas.&nbsp;Direito de imagem&nbsp;FERNANDO QUIXOTE\/BBC<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Empregos digitais<\/h2>\n<p>Diretamente implicadas nessa nova fase est\u00e3o as plataformas digitais, acrescenta a professora Ana Claudia Moreira Cardoso. Os aplicativos de t\u00e1xi usados por Alexandre, por exemplo, seriam um s\u00edmbolo do tipo de rela\u00e7\u00e3o trabalhista para o qual o Brasil estaria caminhando: virtuais e ef\u00eameras.<\/p>\n<p>&#8220;Muitas dessas empresas de plataforma digital tentam se vender como sin\u00f4nimo de autonomia e liberdade, dizendo que o trabalhador vai ser independente. As pessoas compram isso mas, quando entram, percebem que \u00e9 uma fal\u00e1cia porque, se querem ter rendimento, precisam trabalhar pra caramba. A liberdade cai por terra.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Hoje diminuiu at\u00e9 o ganho do motorista de aplicativo porque todo dia aumenta cem carros na rua&#8221;, Alexandre diz, dando de ombros.<\/p>\n<p>Tudo o que ele ganha vai para compras b\u00e1sicas no supermercado.<\/p>\n<p>&#8220;Para o cara fazer um bom dinheiro precisa trabalhar doze, catorze horas por dia&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Uma crise longa combinada a novas formas de encarar o trabalho seria a receita ideal para despertar um sentimento nos brasileiros: o medo.<\/p>\n<p>Em junho do ano passado, o \u00cdndice de Medo de Desemprego da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria (CNI) atingiu um dos piores resultados da s\u00e9rie hist\u00f3rica, com 67,9 pontos. Calculado desde 1996, o indicador melhorou um pouco em setembro (65,7), mas ainda assim est\u00e1 muito acima da m\u00e9dia hist\u00f3rica, de 49,7 pontos.<\/p>\n<p>Dirigindo seu carro em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 zona leste, onde prefere continuar o dia como motorista, Alexandre fala que aprendeu com a experi\u00eancia do aplicativo. Ouvir os desabafos das pessoas lhe deu perspectiva sobre sua pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea vira meio que um psic\u00f3logo&#8221;, ele pondera, avan\u00e7ando sob os viadutos da Radial Leste.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 uma terapia e tanto. Voc\u00ea percebe que n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico que est\u00e1 ruim. Numa semana peguei uma gerente de RH que iria mandar dois mil funcion\u00e1rios embora.&#8221;<\/p>\n<p>Ele entra em uma rua lateral e aponta para a direita.<\/p>\n<p>&#8220;Olha isso, h\u00e1 uns meses n\u00e3o tinha morador de rua aqui. \u00c9 como eu disse, sempre pode ser pior&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Numa pra\u00e7a, folhas de papel\u00e3o e barracas cobrem os canteiros. Um grupo de homens est\u00e1 sentado em roda, passando uma garrafa de vidro de m\u00e3o em m\u00e3o.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">A sobrecarga<\/h2>\n<p>Quando Alexandre e Alessandra se reencontram, \u00e0s 18h, d\u00e3o um beijo r\u00e1pido e fumam mais um cigarro em frente ao escrit\u00f3rio, na Rep\u00fablica. Ainda \u00e9 dia por efeito do hor\u00e1rio de ver\u00e3o e uma luz amarela cai sobre os pr\u00e9dios do centro de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o gosto desse hor\u00e1rio&#8221;, Alessandra diz, j\u00e1 dentro do carro. &#8220;Parece que estou fazendo algo errado, que n\u00e3o trabalhei.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Que besteira&#8221;, Alexandre ri. &#8220;Como foi l\u00e1?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Tudo bem. Hoje estou bem&#8221;, Alessandra responde, olhando pela janela enquanto eles avan\u00e7am pelas ruas da S\u00e9, cheias de homens e mulheres apressados.<\/p>\n<p>&#8220;Aproveitamos esse momento para fazer piada&#8221;, Alexandre diz \u00e0 reportagem, batucando com as m\u00e3os no volante.<\/p>\n<p>&#8220;Sen\u00e3o, ningu\u00e9m aguenta.&#8221;<\/p>\n<p>Ele pede que Alessandra abra um v\u00eddeo no WhatsApp. Ela segura o celular e estende o bra\u00e7o em dire\u00e7\u00e3o ao para-brisa, para que o marido consiga assistir. Com sotaque caipira, um YouTuber anuncia as &#8220;cinco dicas para voc\u00ea que \u00e9 pobre&#8221;.<\/p>\n<p>Com os olhos na tela, Alessandra ri, o rosto relaxado. Mas n\u00e3o \u00e9 sempre assim.<\/p>\n<p>Alexandre busca a mulher toda semana porque ela j\u00e1 teve crises de p\u00e2nico e desmaiou no \u00f4nibus ao voltar do trabalho. Ela tamb\u00e9m chegou a passar mal dentro do carro.<\/p>\n<p>Alessandra tira uma bombinha de asma da bolsa e aperta o tubo de pl\u00e1stico duas vezes, com o bocal entre os l\u00e1bios.<\/p>\n<p>&#8220;Ela tem uma farm\u00e1cia aqui. J\u00e1 virei s\u00f3cio das farm\u00e1cias do bairro&#8221;, Alexandre brinca.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a press\u00e3o do trabalho, \u00e9 toda a situa\u00e7\u00e3o. Ela estava trampando que nem doida para colocar comida na mesa, fazia isso e aquilo, limpava e ainda tentava agradar&#8221;, diz, sacodindo a cabe\u00e7a.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/79C3\/production\/_104917113_bbc05.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/79C3\/production\/_104917113_bbc05.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Alexandre\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">&#8216;Todo homem \u00e9 machista&#8217;, diz Alexandre, sobre dificuldade de assumir tarefas dom\u00e9sticas.&nbsp;Direito de imagem&nbsp;FERNANDO QUIXOTE\/BBC<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Al\u00e9m do trabalho fora de casa, mulheres sempre dedicaram mais tempo \u00e0s tarefas dom\u00e9sticas do que os homens. Com muitas delas tornando-se as principais respons\u00e1veis pela renda no Brasil, a tend\u00eancia \u00e0 sobrecarga \u00e9 ineg\u00e1vel, dizem os entrevistados pela BBC.<\/p>\n<p>Dados da Pnad Cont\u00ednua de 2017 mostram que as mulheres dedicam, em m\u00e9dia, 20,9 horas semanais a afazeres dom\u00e9sticos e no cuidado de parentes ou moradores, enquanto os homens gastam metade desse tempo: 10,8 horas.<\/p>\n<p>&#8220;O que acontece e acontecer\u00e1 ainda \u00e9 uma sobrecarga, enquanto os homens n\u00e3o se convencerem de que \u00e9 preciso dividir&#8221;, diz a professora Hildete Melo, da Universidade Federal Fluminense, que h\u00e1 d\u00e9cadas estuda mercado de trabalho e rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero. &#8220;E agora, nesse cen\u00e1rio, a mulher trabalha ainda mais.&#8221;<\/p>\n<p>Todas essas cobran\u00e7as levam a um adoecimento que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 f\u00edsico, mas mental. A professora Ana Cardoso explica que transtornos como depress\u00e3o, ansiedade e s\u00edndrome do p\u00e2nico s\u00e3o mais comuns nos servi\u00e7os, setor bastante feminino, enquanto que em postos identificados como masculinos, em f\u00e1bricas ou construtoras, os danos f\u00edsicos s\u00e3o mais frequentes.<\/p>\n<p>&#8220;Se a gente pensar que estamos em uma sociedade na qual ainda n\u00e3o se reconhece o adoecimento mental como verdadeiro, nem pelo p\u00fablico, nem pelo Estado, at\u00e9 a doen\u00e7a delas t\u00eam menos valor.&#8221;<\/p>\n<p>H\u00e1, no entanto, quem veja a crise como oportunidade de reverter padr\u00f5es de comportamento.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 mais frequente hoje voc\u00ea ter maridos que realizem tarefas ditas femininas porque est\u00e3o desempregados: lavar roupa, cozinhar. Isso vem de um movimento duplo, que inclui a luta feminina e feminista, mas tamb\u00e9m o papel secund\u00e1rio que os homens come\u00e7aram a ter em raz\u00e3o do desemprego&#8221;, diz o professor Ricardo Antunes, da Unicamp.<\/p>\n<p>Foi isso que aconteceu com Alessandra e Alexandre. \u00c0s quartas, ele faz faxina.<\/p>\n<p>&#8220;O Al\u00ea deu um salto nesse neg\u00f3cio de machismo, de orgulho&#8221;, Alessandra conta no meio do trajeto de volta, quando a noite j\u00e1 caiu.<\/p>\n<p>&#8220;Ele aspira, passa pano, tira p\u00f3. Antes ele trabalhava que nem um louco e n\u00e3o tinha tempo, n\u00e9. E a gente sempre teve quem ajudasse na casa. Essa mudan\u00e7a foi um pulo para n\u00f3s dois&#8221;, ela sorri.<\/p>\n<p>Quando o carro volta \u00e0 garagem, na Vila Industrial, a rua est\u00e1 vazia, como no come\u00e7o da manh\u00e3. Antes de entrar em casa, eles se apoiam no port\u00e3o de ferro e fumam mais um cigarro.<\/p>\n<p>Ali ao lado est\u00e1 o Subaru 1991 que Alexandre comprou h\u00e1 quatro anos, quando ainda estava empregado.<\/p>\n<p>&#8220;Era meu sonho de consumo&#8221;, ele diz, o cigarro queimando entre os dedos.<\/p>\n<p>Seu plano era reformar o carro, o que ele come\u00e7ou por conta pr\u00f3pria, mas precisou interromper. At\u00e9 o licenciamento deixou de pagar.<\/p>\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o tirava da garagem mesmo&#8221;, ele d\u00e1 de ombros.<\/p>\n<p>Apoiada no Subaru, Alessandra chama o marido.<\/p>\n<p>&#8220;Lembra, Al\u00ea? Antes a gente costumava ir para o Guaruj\u00e1 no fim de semana s\u00f3 para sujar a bunda de areia e voltar.&#8221;<\/p>\n<p>Alexandre sorri.<\/p>\n<p>&#8220;Agora n\u00e3o d\u00e1 mais&#8221;, ela diz.<\/p>\n<p>Alessandra pega o saco de p\u00e3o que vai servir de jantar e entra em casa. S\u00e3o 20h30.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">A faxina<\/h2>\n<p>A manh\u00e3 de quarta-feira est\u00e1 clara e silenciosa na Vila Industrial. \u00c9 o sil\u00eancio das casas vazias: adultos no trabalho, crian\u00e7as na escola, e uma ou outra senhora a cruzar a rua.<\/p>\n<p>Alexandre aparece no port\u00e3o de chinelos verde e amarelo, camiseta do Corinthians e bermuda surrada.<\/p>\n<p>\u00c9 dia de faxina.<\/p>\n<p>Em 2016, quando o dinheiro que tinha guardado acabou e n\u00e3o havia emprego \u00e0 vista, ele ficou preocupado.<\/p>\n<p>Em meio a entrevistas frustradas, a preocupa\u00e7\u00e3o virou agita\u00e7\u00e3o, que se transformou em raiva, des\u00e2nimo e in\u00e9rcia, at\u00e9 desembocar numa depress\u00e3o<\/p>\n<p>&#8220;Eu apagava tudo quanto era luz, ligava o videogame e ficava l\u00e1 sentado. Para mim, eu s\u00f3 dava despesa. Quando voc\u00ea perde tudo, sua autoestima vai embora&#8221;, ele diz, tomando um caf\u00e9 preto em p\u00e9 na cozinha.<\/p>\n<p>&#8220;Em 2017, virei aquela norte-coreano: queria explodir o mundo.&#8221;<\/p>\n<p>Alexandre falou em sair de casa, porque se sentia um estorvo para a fam\u00edlia. Nesse meio tempo, Alessandra come\u00e7ou a apresentar sinais de s\u00edndrome do p\u00e2nico. Sentia falta de ar, n\u00e3o conseguia ficar em lugares fechados, estava cansada o tempo todo. A cada fim de semana, mostrava-se mais lenta para limpar.<\/p>\n<p>&#8220;Fiquei cego&#8221;, Alexandre diz, enquanto coloca o copo de caf\u00e9 na pia, sobre o resto da lou\u00e7a suja.<\/p>\n<p>&#8220;Me via como v\u00edtima, s\u00f3 que n\u00e3o percebia que Alessandra estava doente. At\u00e9 que um dia n\u00f3s sentamos e conversamos. A\u00ed vi que estava tudo errado&#8221;, diz, apertando as m\u00e3os.<\/p>\n<p>Ele segue para o quarto para fazer a cama. Agita o len\u00e7ol de el\u00e1stico, ajusta-o ao redor do colch\u00e3o e passa a m\u00e3o sobre o tecido para que fique liso. Sacode os travesseiros e ent\u00e3o estende a colcha sobre tudo.<\/p>\n<p>Estudiosos do tema apontam que a divis\u00e3o de tarefas \u00e9 um dos principais empecilhos para que homens e mulheres sejam mais iguais no mercado de trabalho. Em&nbsp;<i>The Gender Revolution: Gender &amp; Society<\/i>&nbsp;(<i>A Revolu\u00e7\u00e3o de G\u00eanero: G\u00eanero e Sociedade<\/i>, em tradu\u00e7\u00e3o livre), a soci\u00f3loga americana Paula England observa que as mulheres t\u00eam mais incentivos para arranjar empregos e adotar comportamentos antes tidos como masculinos, enquanto os homens s\u00e3o desestimulados &#8211; por quest\u00f5es financeiras e culturais &#8211; a assumir atividades femininas. Dessa forma, as transforma\u00e7\u00f5es ocorreriam s\u00f3 de um lado: as mulheres saem para o mercado, mas os homens n\u00e3o dedicam mais tempo \u00e0 casa.<\/p>\n<p>Como os incentivos n\u00e3o mudam, as diferen\u00e7as tamb\u00e9m n\u00e3o diminuem. De acordo com uma an\u00e1lise do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea), entre 1995 e 2009, a porcentagem de pessoas que fazem atividades dom\u00e9sticas ficou est\u00e1vel: mulheres sempre em torno de 90% e homens oscilando entre 46% e 50%.<\/p>\n<p>Enquanto encera o ch\u00e3o da sala, Alexandre conta que encarar a faxina foi dif\u00edcil. E n\u00e3o apenas por que n\u00e3o sabia que panos de ch\u00e3o e toalhas n\u00e3o podem ser lavados juntos. Ele diz que foi complicado, como homem, assumir essas tarefas.<\/p>\n<p>&#8220;Todo homem \u00e9 machista&#8221;, ele explica, pingando o lustra m\u00f3veis no piso de taco. &#8220;Me abalava que ela pagava tudo, at\u00e9 o cigarro. Mas o cara precisa entender que n\u00e3o estamos mais na d\u00e9cada de 1940.&#8221;<\/p>\n<p>Mas o caso de Alessandra e Alexandre \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>A maioria dos entrevistados acredita que h\u00e1, sim, uma melhora na divis\u00e3o das tarefas, mas eles divergem sobre seu alcance e profundidade. Alguns dizem que as mudan\u00e7as s\u00e3o pequenas e est\u00e3o concentradas nas classes altas e nos centros urbanos, onde h\u00e1 mais di\u00e1logo sobre esses assuntos.<\/p>\n<p>A expectativa de todos est\u00e1 nos jovens.<\/p>\n<p>&#8220;Os homens mais jovens s\u00e3o uma esperan\u00e7a. Come\u00e7amos a ter exemplos minorit\u00e1rios de maridos que cozinham, lavam lou\u00e7a, tomam conta de crian\u00e7a, isso j\u00e1 \u00e9 evidente nas classes sociais mais altas. Nas mais baixas, ainda \u00e9 dif\u00edcil&#8221;, diz a professora em\u00e9rita da UFRJ Alice Rangel de Paiva Abreu, que tem um longo hist\u00f3rico de pesquisa sobre g\u00eanero e trabalho.<\/p>\n<p>Para Abreu, essas altera\u00e7\u00f5es t\u00edmidas est\u00e3o ligadas ao debate sobre os direitos da mulher, mais presentes nas conversas do brasileiro.<\/p>\n<p>O mesmo tom \u00e9 adotado pela professora Ana Cardoso: em suas pesquisas, percebeu que jovens parecem querer construir uma rela\u00e7\u00e3o mais igualit\u00e1ria com suas companheiras. Ela atribui essa percep\u00e7\u00e3o \u00e0 maior presen\u00e7a das mulheres no mercado. Segundo Cardoso, quando a regra era a mulher ficar em casa e o homem sair para ganhar dinheiro era mais dif\u00edcil que o marido a encarasse como igual. Mas, \u00e0 medida que come\u00e7a a tornar-se independente, ela desperta uma nova vis\u00e3o sobre si mesma e faz com que o homem a veja de forma diferente.<\/p>\n<p>A filha mais velha de Alessandra e Alexandre vive com o namorado no centro de S\u00e3o Paulo. No apartamento que dividem com tr\u00eas gatos, Talita, de 24 anos, conta que seu companheiro n\u00e3o s\u00f3 faz sua parte na limpeza, como gasta mais tempo do que ele nessas atividades.<\/p>\n<p>&#8220;No geral, tenho certeza que ele faz mais coisas do que eu. J\u00e1 perdi as contas das vezes em que cheguei no trabalho e ele tinha limpado tudo sozinho.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/E0ED\/production\/_104918575_bbc26.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/E0ED\/production\/_104918575_bbc26.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Alessandra e Alexandre\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Depois que Alessandra desmaiou no \u00f4nibus ao voltar do trabalho, Alexandre passou a buscar a mulher no trabalho.&nbsp;Direito de imagem&nbsp;FERNANDO QUIXOTE\/BBC<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Futuro<\/h2>\n<p>Talita \u00e9 professora de ingl\u00eas e teve v\u00e1rios ofertas de emprego nos \u00faltimos anos. O mesmo n\u00e3o vale para a ca\u00e7ula da fam\u00edlia, Ana, de 18 anos. Depois de terminar o col\u00e9gio particular, cujas \u00faltimas mensalidades foram pagas com atraso, Ana n\u00e3o conseguiu passar na faculdade que desejava nem arranjar um emprego. Juntou-se, ent\u00e3o, aos &#8220;nem-nem&#8221;, grupo de jovens que n\u00e3o trabalha nem estuda e j\u00e1 representam 23% do total dos brasileiros entre 15 e 24 anos, segundo pesquisa do Ipea.<\/p>\n<p>Mas agora Ana prepara-se para estudar Economia numa faculdade onde ser\u00e1 bolsista.<\/p>\n<p>Cercado pelas cadeiras da mesa de jantar, que espalhou pela sala durante a faxina, Alexandre diz que a filha sempre quis ser economista. &#8220;Nunca mudou, voc\u00ea v\u00ea s\u00f3.&#8221;<\/p>\n<p>Ele suspira. &#8220;Mas j\u00e1 falei que elas precisam sair do pa\u00eds, n\u00e3o tem mais o que fazer aqui.&#8221;<\/p>\n<p>As palavras que melhor definem a vis\u00e3o de futuro dos brasileiros, para a professora Ana Cardoso, s\u00e3o &#8220;falta de perspectiva&#8221;.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos, diz, acreditava-se que um curso superior seria suficiente para conseguir uma boa vaga. Tal cren\u00e7a n\u00e3o apenas caiu por terra, em raz\u00e3o dos altos n\u00edveis de desemprego, como a diminui\u00e7\u00e3o da renda tirou a possibilidade de estudo das classes mais baixas.<\/p>\n<p>No caso dos chefes de fam\u00edlia, Cardoso explica, a perspectiva \u00e9 negativa porque quando a economia melhorar, sua inser\u00e7\u00e3o pode n\u00e3o acontecer via carteira assinada, mas por contrato tempor\u00e1rio, e seu sal\u00e1rio n\u00e3o dever\u00e1 ser maior do que o recebido antes.<\/p>\n<p>Duas noites antes, ao chegar do trabalho, Alessandra falava sobre o futuro quando Alexandre decidiu contar uma piada.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea sabe por que a esperan\u00e7a \u00e9 a \u00faltima que morre?&#8221;, ele disse.<\/p>\n<p>&#8220;Porque ela \u00e9 a primeira que vai embora!&#8221;<\/p>\n<p>Alessandra deu um tapa no ombro do marido.<\/p>\n<p>&#8220;Tiramos coisas boas desse momento, acredito que vai melhorar&#8221;, ela sorriu, antes de juntar-se a Alexandre na risada.<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Ingrid Fagundez d<\/span><span class=\"byline__title\">a BBC Brasil em S\u00e3o Paulo &#8211; dispon\u00edvel na internet 09\/01\/2019<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De p\u00e9 no meio da cozinha, Alessandra aperta os olhos para enxergar as letras pequenas. Ela segura o papel com as duas m\u00e3os e treme um pouco. &#8220;Ins\u00f4nia, cefaleia, ideias suicidas&#8230;Nossa, voc\u00ea toma algo para ansiedade e pode ter ideias suicidas!&#8221;, ri, meio sem jeito. 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