{"id":32617,"date":"2019-01-14T00:05:12","date_gmt":"2019-01-14T03:05:12","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=32617"},"modified":"2019-01-13T19:30:53","modified_gmt":"2019-01-13T22:30:53","slug":"fazer-fofoca-e-sempre-algo-ruim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2019\/01\/14\/fazer-fofoca-e-sempre-algo-ruim\/","title":{"rendered":"Fazer fofoca \u00e9 sempre algo ruim?"},"content":{"rendered":"<div class=\"story-body__inner\">\n<p class=\"story-body__introduction\">Ulysis Cababan estava curioso. Um vizinho dele, na cidade de Cebu, nas Filipinas, o alertara sobre uma barraca de comida de rua que ambos frequentavam. Supostamente, as refei\u00e7\u00f5es ali seriam feitas usando \u00e1gua da torneira.<\/p>\n<p>Fofoca, ou&nbsp;<i>chika-chika<\/i>, faz parte do modo de vida nas Filipinas. Mas Cababan, que trabalha em uma ag\u00eancia de vistos, queria checar por conta pr\u00f3pria se a fofoca era verdadeira. Ent\u00e3o, fingindo estar procurando um lugar para lavar as m\u00e3os, deu uma olhada ao redor da \u00e1rea da cozinha da barraca. Cababan encontrou baldes claramente enchidos com \u00e1gua da torneira, em vez de mineral.<\/p>\n<p>Angustiado sobre as poss\u00edveis infec\u00e7\u00f5es que poderia contrair, avisou, ent\u00e3o, a esposa. &#8220;Talvez por causa da fofoca, a hist\u00f3ria possa chegar mais r\u00e1pido do que relat\u00e1-la a alguma autoridade&#8221;, avalia Cababan.<\/p>\n<p>A fofoca \u00e9 frequentemente tratada com desd\u00e9m ou hostilidade. Mas pode ser \u00fatil para pequenos grupos.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma distin\u00e7\u00e3o importante a ser feita aqui sobre como a maioria de n\u00f3s define fofoca &#8211; uma maneira de falar mal de algu\u00e9m que n\u00e3o est\u00e1 presente &#8211; e como os cientistas a definem. Na ci\u00eancia social, a fofoca geralmente \u00e9 caracterizada como a comunica\u00e7\u00e3o sobre uma pessoa que n\u00e3o est\u00e1 presente de uma maneira que envolva a avalia\u00e7\u00e3o dela, boa ou ruim.<\/p>\n<p>Esse tipo de comunica\u00e7\u00e3o informal \u00e9 crucial para compartilhar informa\u00e7\u00f5es. A fofoca \u00e9 necess\u00e1ria para a coopera\u00e7\u00e3o social; em grande parte, esse tipo de conversa cimenta v\u00ednculos sociais e elucida as normas sociais.<\/p>\n<p>E, diferentemente do imagin\u00e1rio popular, a fofoca tende a n\u00e3o ser negativa &#8211; em vez disso, a maioria \u00e9 positiva ou neutra. Um estudo que analisou a conversa de pessoas no Reino Unido revelou que apenas 3-4% da amostra de fofocas eram maliciosas.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, contudo, esclarecer a diferen\u00e7a entre fofoca e boato. A fofoca ocorre predominantemente dentro de um c\u00edrculo social mais restrito do que o boato.<\/p>\n<p>Segundo Jennifer Cole, professora de psicologia social na Universidade Metropolitana de Manchester, no Reino Unido, &#8220;fofoca n\u00e3o \u00e9 sobre coisas que est\u00e3o acontecendo em um ambiente. \u00c9 sobre pessoas.&#8221;<\/p>\n<p>Isso tem implica\u00e7\u00f5es para credibilidade. &#8220;A fofoca \u00e9 tipicamente verdadeira&#8221;, diz Sally Farley, professora de psicologia da Universidade de Baltimore, nos Estados Unidos. &#8220;Por outro lado, se for uma mentira, seria melhor descrev\u00ea-la como boato.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">#MeToo<\/h2>\n<p>A reportagem da BBC Future conversou com Farley um ano ap\u00f3s as acusa\u00e7\u00f5es de agress\u00e3o sexual contra o produtor Harvey Weinstein terem sido publicadas no jornal americano&nbsp;<i>The New York Times<\/i>. Isso nos faz refletir sobre como a fofoca pode garantir a prote\u00e7\u00e3o informal de mulheres de agressores conhecidos, frente \u00e0 inexist\u00eancia de mecanismos formais que levem suas queixas a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas n\u00e3o perceberam que o movimento #MeToo se encaixa na defini\u00e7\u00e3o de fofoca&#8221;, diz Farley. &#8220;Acredito que esse movimento foi uma forma de as mulheres reagirem e reafirmarem o poder.&#8221;<\/p>\n<p>Claro, isso \u00e9 verdade para al\u00e9m do movimento #MeToo. &#8220;Estamos ansiosos para aprender informa\u00e7\u00f5es sobre os outros&#8221;, afirma a pesquisadora. &#8220;Ent\u00e3o, quando nos \u00e9 negado o acesso a canais de comunica\u00e7\u00e3o formais, especialmente se voc\u00ea \u00e9 um indiv\u00edduo com menor status, tendemos a confiar em canais informais, como redes de fofocas.&#8221;<\/p>\n<p>Mas, apesar da longa percep\u00e7\u00e3o de que as mulheres fofocam mais do que os homens, n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias de que essa hip\u00f3tese seja verdadeira.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, por\u00e9m, de que homens e mulheres fofocam de maneira diferente. \u00c9 mais prov\u00e1vel que a fofoca masculina tenha mais fins de autopromo\u00e7\u00e3o e que seja chamada pelos homens de outra forma, como &#8220;troca de informa\u00e7\u00f5es&#8221; ou &#8220;networking&#8221;.<\/p>\n<p>J\u00e1 as mulheres tendem a tornar as fofocas mais divertidas, com muitos detalhes e em um tom animado. Assim, as conversas \u00e0 boca pequena de homens podem n\u00e3o soar entre eles como fofocas &#8211; mesmo que muitas vezes sejam.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Fofoca de celebridades<\/h2>\n<p>Embora a fofoca geralmente se refira a pessoas que conhecemos muito bem, fofocas de celebridades ainda s\u00e3o fofocas &#8211; dado que a onipresen\u00e7a de certas estrelas e a cobertura da m\u00eddia delas nos faz sentir como se as conhec\u00eassemos. Tanto \u00e9 que muitas s\u00e3o chamadas pelo primeiro nome, como Beyonc\u00e9 ou Madonna.<\/p>\n<p>Esse tipo de fofoca tamb\u00e9m tem um papel maior do que o simples entretenimento.<\/p>\n<p>Por um lado, a fofoca de celebridades \u00e9 uma maneira de testar as \u00e1guas de diferentes identidades e afilia\u00e7\u00f5es, especialmente se estas s\u00e3o marginalizadas. Por exemplo, gays podem usar a suposta homossexualidade de uma estrela do cinema para debater temas dif\u00edceis.<\/p>\n<p>&#8220;Vejo fofocas de celebridades como uma esp\u00e9cie de porta de entrada para divulgar informa\u00e7\u00f5es pessoais que as pessoas podem n\u00e3o se sentir confort\u00e1veis em divulgar se n\u00e3o tiverem o mesmo protagonismo&#8221;, diz Andrea McDonnell, professora de comunica\u00e7\u00e3o e m\u00eddia do Emmanuel College, em Boston, nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m revela tend\u00eancias maiores &#8211; como a epidemia de not\u00edcias falsas. Quando McDonnell come\u00e7ou a pesquisar revistas de fofocas de celebridades americanas durante a Presid\u00eancia de Barack Obama, seus entrevistados lhe disseram, para sua surpresa, que a falta de veracidade dessas revistas era um aspecto de que gostavam. Eles acreditavam ser empoderador descobrir o que era not\u00edcia verdadeira e fabricada.<\/p>\n<p>&#8220;Da mesma forma que vimos as&nbsp;<i>fake news<\/i>&nbsp;chegarem \u00e0 grande m\u00eddia, tamb\u00e9m vimos a cultura das celebridades se mover do mundo dos tabl\u00f3ides para o cen\u00e1rio pol\u00edtico americano&#8221;, diz McDonnell.<\/p>\n<p>O perigo, claro, surge quando quando essas ideias entram em &#8220;um cen\u00e1rio jornal\u00edstico que n\u00e3o se restringe ao entretenimento. Agora, todo o jornalismo passa por uma crise de legitimidade&#8221;, afirma a professora.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Lado positivo?<\/h2>\n<p>Por outro lado, grupos tradicionalmente exclu\u00eddos podem encontrar voz por meio de seus pr\u00f3prios canais e interpreta\u00e7\u00f5es da verdade.<\/p>\n<p>Isso pode trazer benef\u00edcios &#8211; assim como as mulheres avisando umas \u00e0s outras informalmente contra os homens abusivos que comandam os imp\u00e9rios da m\u00eddia. Ou pode ser t\u00f3xico &#8211; como nas falsas fofocas que arruinam reputa\u00e7\u00f5es e resultam em viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Um problema \u00e9 que as pessoas acreditam nas fofocas de imediato, em parte porque elas v\u00eam de pessoas que conhecemos. Tome o exemplo do Facebook como fonte popular de not\u00edcias. Seu amigo ou seu tio n\u00e3o necessariamente checaram a not\u00edcia que est\u00e3o compartilhando, mas \u00e9 mais prov\u00e1vel que voc\u00ea confie porque a informa\u00e7\u00e3o vem de uma fonte confi\u00e1vel. O fato de sermos criaturas sociais nos torna mais facilmente manipul\u00e1veis.<\/p>\n<p>Mas as fofocas ruins geralmente t\u00eam vida curta. Nosso subconsciente costuma avaliar as motiva\u00e7\u00f5es dos fofoqueiros. E as pessoas que espalham fofocas negativas, consideradas oportunistas, acabam menos respeitadas e menos admiradas.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas inteligentes percebem que quem fofoca com frequ\u00eancia provavelmente tamb\u00e9m est\u00e1 fofocando sobre elas, e isso entra no seu radar&#8221;, diz Farley, da Universidade de Baltimore.<\/p>\n<p>&#8220;Se as informa\u00e7\u00f5es que essas pessoas est\u00e3o compartilhando forem basicamente negativas, elas acabam mal vistas nos c\u00edrculos sociais. Portanto, em resumo, respeitamos quem \u00e9 seletivo quanto ao uso de fofoca.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">P\u00e2nico e viol\u00eancia<\/h2>\n<p>A cren\u00e7a na bruxaria em certas partes da \u00c1frica subsaariana mostra como a fofoca pode gerar p\u00e2nico e viol\u00eancia. Na Tanz\u00e2nia, o antrop\u00f3logo Simeon Mesaki diz que sua irm\u00e3 e tia romperam rela\u00e7\u00f5es depois que um vidente culpou sua tia pela condi\u00e7\u00e3o de sa\u00fade que afetava o desenvolvimento da sobrinha dele. E, devido \u00e0 propaga\u00e7\u00e3o dessa fofoca, sua m\u00e3e tamb\u00e9m se envolveu na disputa familiar.<\/p>\n<p>Mesaki, professor da Universidade de Dar es Salaam, aponta que as consequ\u00eancias podem ser mais graves do que um desentendimento ou ruptura familiar. Recentemente, diz ele, &#8220;alguns pesquisadores foram mortos no distrito de Chamwino quando foram confundidos com chinja chinja ou mumiani [criaturas vamp\u00edricas] querendo sugar o sangue dos moradores locais. Essas eram fofoqueiras maliciosas&#8221;.<\/p>\n<p>Em situa\u00e7\u00f5es extremas como essa, especialmente quando o n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 baixo e a inseguran\u00e7a financeira, alta (afinal, por causa disso, curandeiros e outros conseguem encontrar espa\u00e7o para ganhar dinheiro), a fofoca pode ser muito perigosa.<\/p>\n<p>Mas ainda pode ter uma fun\u00e7\u00e3o social \u00fatil como meio de refor\u00e7ar o conceito do igualitarismo. Uma pessoa que obt\u00e9m riqueza de forma repentina e misteriosa, por exemplo, passa a ser alvo de fofoca. \u00c9 tentador acreditar que sua benesse deriva de for\u00e7as mal\u00e9volas. Mas neutralizar essa suspeita compartilhando informa\u00e7\u00f5es pode ser bom para a harmonia social.<\/p>\n<p>A fofoca tamb\u00e9m pode ajudar a reduzir o estigma.<\/p>\n<p>Bianca Dahl, antrop\u00f3loga da Universidade de Toronto, no Canad\u00e1, d\u00e1 o exemplo do povo Tswana em Botsuana, na \u00c1frica, que passou a fofocar sobre a infec\u00e7\u00e3o pelo HIV.<\/p>\n<p>Contanto que n\u00e3o o fa\u00e7am de uma maneira que difama a pessoa que estaria possivelmente infectada &#8211; de novo, h\u00e1 uma diferen\u00e7a entre como a maioria das pessoas e os cientistas sociais encaram a fofoca &#8211; isso pode mudar a percep\u00e7\u00e3o social sobre os comportamentos sexuais das pessoas infectadas.<\/p>\n<p>Sendo assim, como maximizar os benef\u00edcios da fofoca e reduzir suas desvantagens?<\/p>\n<p>Cole, da Universidade Metropolitana de Manchester, d\u00e1 quatro dicas: manter as fofocas em segredo, torn\u00e1-las \u00fateis, n\u00e3o contar mentiras e conectar-se com os ouvintes. Evitar o anonimato tamb\u00e9m pode ajudar.<\/p>\n<p>No entanto, Dahl costuma aconselhar a entender a base emocional da fofoca e da desinforma\u00e7\u00e3o. Na zona rural de Bostwana, pode ser um desejo de evitar o estigma da transmiss\u00e3o do HIV. J\u00e1 em um vilarejo nos EUA, pode ser sobre o medo da mudan\u00e7a social.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea precisa come\u00e7ar abordando a fonte emocional da cren\u00e7a e averiguar o &#8216;trabalho&#8217; que essa cren\u00e7a faz pelas pessoas&#8221;, diz Dahl. &#8220;O ponto \u00e9 que n\u00f3s aderimos \u00e0s nossas cren\u00e7as em parte por causa da verdade emocional que elas oferecem.&#8221;<\/p>\n<p>A fofoca pode ser excludente e perigosa. Mas ela \u00e9 inevit\u00e1vel &#8211; e pode ser uma for\u00e7a para o bem. Entender por que as pessoas se beneficiam com as fofocas \u00e9 uma maneira de combater convic\u00e7\u00f5es danosas.<\/p>\n<ul class=\"story-body__unordered-list\">\n<li class=\"story-body__list-item\"><strong>Leia a&nbsp;<\/strong><a class=\"story-body__link\" href=\"http:\/\/www.bbc.com\/future\/story\/20181210-do-we-have-gossip-all-wrong\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">vers\u00e3o original<\/a><strong>&nbsp;desta reportagem (em ingl\u00eas) no site&nbsp;<\/strong><a class=\"story-body__link\" href=\"http:\/\/www.bbc.com\/future\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">BBC Future<\/a>.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>Cr\u00e9dito:&nbsp;<span class=\"byline__name\">Christine Ro da&nbsp;<\/span><span class=\"byline__title\">BBC Future &#8211; dispon\u00edvel na internet 14\/01\/2019<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ulysis Cababan estava curioso. 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