{"id":36811,"date":"2019-06-04T00:30:13","date_gmt":"2019-06-04T03:30:13","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=36811"},"modified":"2019-06-04T01:01:24","modified_gmt":"2019-06-04T04:01:24","slug":"a-desconhecida-revolta-popular-armada-que-barrou-o-primeiro-censo-no-brasil-em-1852","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2019\/06\/04\/a-desconhecida-revolta-popular-armada-que-barrou-o-primeiro-censo-no-brasil-em-1852\/","title":{"rendered":"A desconhecida revolta popular armada que barrou o primeiro censo no Brasil, em 1852"},"content":{"rendered":"<p class=\"story-body__introduction\">A passagem do ano de 1851 para 1852 foi marcada por convuls\u00e3o e desordem no Imp\u00e9rio do Brasil. Em diversas vilas e cidades do Nordeste, principalmente em Pernambuco, Alagoas e Para\u00edba, centenas de pessoas se aglomeraram em frente a pr\u00e9dios p\u00fablicos para protestar &#8211; muitas delas, armadas.<\/p>\n<p>&#8220;Tendo n\u00f3s, pretos e pardos pobres, (recebido) not\u00edcia sobre o &#8216;papel da escravid\u00e3o&#8217;, que hoje era o competente dia de se ler, desejamos saber se \u00e9 ou n\u00e3o verdade&#8221;, disseram os representantes de um grupo de quase 200 pessoas, que havia encurralado o delegado da vila de Pau d&#8217;Alho, em Pernambuco, em 1\u00ba de janeiro.<\/p>\n<p>Eram pessoas livres, mas pobres e receosas de serem escravizadas juntamente com seus filhos.<\/p>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<p>O perigo, acreditavam, vinha do &#8220;papel da&nbsp;escravid\u00e3o&#8221;, dois decretos imperiais com determina\u00e7\u00f5es estat\u00edsticas. O primeiro deles marcava a realiza\u00e7\u00e3o do primeiro Censo do Brasil para o m\u00eas de julho de 1852. O segundo estabelecia o registro de todos os nascimentos e mortes no pa\u00eds a partir de janeiro de 1852.<\/p>\n<p>Para protestar contra os decretos, manifestantes se aglomeraram em volta de delegacias e pr\u00e9dios do Poder Executivo, rasgaram c\u00f3pias dos documentos e impediram que fossem lidos, afixados e implementados. Em alguns casos, amea\u00e7aram de morte funcion\u00e1rios p\u00fablicos e at\u00e9 membros de for\u00e7as de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8220;O motivo pelo qual o povo se ostenta t\u00e3o descontente e amea\u00e7ador \u00e9 porque diz que (os decretos) t\u00eam por fim escravizar seus filhos, visto que os ingleses n\u00e3o deixam mais entrar africanos (no Brasil)&#8221;, escreveu o juiz de paz de Santo Ant\u00e3o, em Pernambuco, ao presidente da prov\u00edncia, no in\u00edcio de 1852 &#8211; segundo documenta\u00e7\u00e3o encontrada pelo historiador Guillermo Olivares.<\/p>\n<p>Naquele momento, a sociedade escravocrata brasileira passava por uma grande transforma\u00e7\u00e3o. Em 1850, o tr\u00e1fico de africanos escravizados havia sido proibido pela Lei Eus\u00e9bio de Queiroz. &#8220;A importa\u00e7\u00e3o de escravos no territ\u00f3rio do Imp\u00e9rio fica nele considerada como pirataria&#8221;, decretava a lei.<\/p>\n<p>Assim, fechava-se a principal forma de aquisi\u00e7\u00e3o de pessoas escravizadas, que foi respons\u00e1vel pela entrada de 4,8 milh\u00f5es de africanos no Brasil, ao longo de tr\u00eas s\u00e9culos e meio &#8211; nenhum outro local no mundo traficou tanta gente assim.<\/p>\n<p>Qual seria, ent\u00e3o, a nova forma de obter m\u00e3o de obra no Brasil? Ningu\u00e9m sabia. E se o Imp\u00e9rio quisesse criar escravizar brasileiros pobres, negros e pardos?<\/p>\n<p>Afinal, a escravid\u00e3o ainda era permitida no Brasil. O tr\u00e1fico n\u00e3o havia acabado porque a sociedade brasileira reivindicava a liberdade dos escravos, mas sim por causa da press\u00e3o feita pela Inglaterra.<\/p>\n<p>Pouco depois do fim do tr\u00e1fico, vieram os decretos estat\u00edsticos. Ent\u00e3o, logo proliferou a cren\u00e7a de que o objetivo real do Estado era saber quem eram as pessoas pobres e livres (especialmente, negros e pardos) e transform\u00e1-las em novos escravos.<\/p>\n<p>&#8220;Os indiv\u00edduos mais incautos t\u00eam chegado a acreditar que o objetivo de semelhante decreto \u00e9 captivar (escravizar) os homens de cor&#8221;, informou o juiz de Vit\u00f3ria, em Pernambuco.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\">\n<p><figure style=\"width: 440px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/304\/cpsprodpb\/4BBA\/production\/_107168391_1884.jpg.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/304\/cpsprodpb\/4BBA\/production\/_107168391_1884.jpg.jpg?resize=440%2C800&#038;ssl=1\" alt=\"Sertanejo no sert\u00e3o de Pernambuco, em desenho de Charles Landseer, datado de 1825-26\" width=\"440\" height=\"800\" data-highest-encountered-width=\"304\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Nordestinos pobres se rebelaram contra os decretos estat\u00edsticos; na imagem, um sertanejo no interior de Pernambuco. Direito de imagem ARQUIVO DIGITAL DA BIBLIOTECA NACIONAL<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Manifestantes &#8216;zumbiam&#8217; feito abelhas e marimbondos<\/h2>\n<p>O Imp\u00e9rio argumentava que era essencial ter dados mais fidedignos sobre a popula\u00e7\u00e3o do Brasil. Na \u00e9poca, era a Igreja Cat\u00f3lica que registrava os nascidos e mortos, vinculados aos sacramentos de batismo e extrema-un\u00e7\u00e3o. Essas informa\u00e7\u00f5es deveriam, a seguir, ser enviadas para o governo central.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, &#8220;h\u00e1 imperdo\u00e1vel desleixo da maior parte dos p\u00e1rocos&#8221;, reclamou o ministro e secret\u00e1rio de Neg\u00f3cios do Imp\u00e9rio, em relat\u00f3rio para o Legislativo, em 1850. Segundo ele, apenas Maranh\u00e3o e Esp\u00edrito Santo haviam mandado dados detalhados.<\/p>\n<p>A justificativa n\u00e3o colou entre a popula\u00e7\u00e3o que, indignada, foi para a rua para protestar. M\u00e1rio Melo, o primeiro historiador a tratar da revolta, em 1920, afirmou que manifestantes zumbiam como insetos agitados. Por isso, resolveu apelidar o evento de &#8220;rumor das abelhas&#8221; ou &#8220;guerra dos marimbondos&#8221; &#8211; como \u00e9 conhecida at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Durante a revolta, h\u00e1 registros de que manifestantes enfrentaram e desarmaram for\u00e7as de seguran\u00e7a locais, tomando povoados e vilas. Em Pernambuco, por exemplo, Limoeiro foi ocupada por cerca de 500 pessoas, Guaranhuns por 300 e Jaboat\u00e3o por outros 400 homens armados.<\/p>\n<p>Um juiz de paz chegou a ser morto em Pernambuco, em 1\u02da de janeiro, para evitar o in\u00edcio da aplica\u00e7\u00e3o do regulamento do registro civil.<\/p>\n<p>Delegados, ju\u00edzes de paz, presidentes de prov\u00edncia e senhores de engenho ficaram aterrorizados. Nas correspond\u00eancias oficiais da \u00e9poca, relatavam dificuldades para deter a multid\u00e3o de &#8220;pobres&#8221;, &#8220;povo mi\u00fado&#8221;, &#8220;popula\u00e7\u00e3o menos abastada, ignorante e supersticiosa&#8221;, &#8220;gente da \u00faltima ral\u00e9&#8221; &#8211; como foram chamados os manifestantes.<\/p>\n<p>&#8220;O clima entre as autoridades era de medo. Governantes escreviam desesperados ao presidente da prov\u00edncia solicitando apoio&#8221;, explica a mestre em hist\u00f3ria Renata Saavedra, que pesquisou sobre a guerra dos marimbondos.<\/p>\n<p>&#8220;Um of\u00edcio do Quartel do Destacamento de Vit\u00f3ria, em Pernambuco, declara que &#8216;n\u00e3o h\u00e1 muni\u00e7\u00e3o&#8217; para lutar contra os revoltosos e que &#8216;todos os dias esperamos por algum assalto&#8217;, destacando que &#8216;mesmo as mulheres andam todas armadas de faca de ponta, fac\u00f5es, canivetes e navalhas'&#8221;, completa Saavedra.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/99DA\/production\/_107168393_1562.jpg.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/99DA\/production\/_107168393_1562.jpg.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Fim do tr\u00e1fico de escravos africanos, em 1850, abalou as estruturaas da escravid\u00e3o no Brasil; na imagem, mulheres escravizadas rec\u00e9m-chegadas da \u00c1frica s\u00e3o inspecionadas\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Fim do tr\u00e1fico de escravos africanos, em 1850, abalou as estruturaas da escravid\u00e3o no Brasil; na imagem, mulheres escravizadas rec\u00e9m-chegadas da \u00c1frica s\u00e3o inspecionadas. Direito de imagem ARQUIVO DIGITAL DA BIBLIOTECA NACIONAL<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Grupos armados, invas\u00e3o a engenhos, missas interrompidas<\/h2>\n<p>Os protestos come\u00e7aram alguns meses depois da publica\u00e7\u00e3o das regras do Censo e do Registro Civil. Em novembro de 1851, por exemplo, houve registro de agress\u00e3o a um delegado em Alagoas por um grupo de &#8220;amotinados&#8221; contr\u00e1rios aos decretos. A seguir, no come\u00e7o de dezembro, atos de rebeldia se multiplicaram por Pernambuco.<\/p>\n<p>Ainda em 1851, ju\u00edzes e delegados comunicaram seus superiores sobre a forma\u00e7\u00e3o de grupos de manifestantes armados, de acordo com correspond\u00eancias da \u00e9poca encontradas pela pesquisadora Renata Saavedra no Arquivo Nacional do Rio. Em alguns casos, pediram refor\u00e7os de seguran\u00e7a. Em comum, os protestos pareciam ser espont\u00e2neos, sem l\u00edderes, o que tornava dif\u00edcil combat\u00ea-los.<\/p>\n<p>Em Pau D&#8217;Alho, Pernambuco, uma &#8220;por\u00e7\u00e3o de gente armada&#8221; dizia que &#8220;quem primeiro morre \u00e9 o Vig\u00e1rio e o Escriv\u00e3o&#8221; caso houvesse qualquer tentativa de aplicar os decretos, segundo carta enviada pelo subdelegado local, em dezembro. Outro delegado pernambucano, escreveu: &#8220;J\u00e1 se apresentam mais de quarenta indiv\u00edduos armados para se oporem \u00e0 fixa\u00e7\u00e3o do edital, n\u00famero muito superior ao destacamento desta cidade&#8221;.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em dezembro, um senhor de engenho pediu ajuda \u00e0s autoridades. Segundo ele, os manifestantes mandavam emiss\u00e1rios para &#8220;seduzir os moradores dos engenhos da minha casa, para lutarem contra a minha vida dizendo-lhes que os filhos deles, de quem ultimamente fui padrinho, estar\u00e3o lan\u00e7ados no livro do Vig\u00e1rio como meus escravos&#8221; &#8211; o livro do vig\u00e1rio, no caso, se refere ao registro de nascimentos.<\/p>\n<p>A igreja cat\u00f3lica, na \u00e9poca muito pr\u00f3xima do Estado, tamb\u00e9m foi alvo dos protestos. Em muitos lugares, os &#8220;pap\u00e9is da escravid\u00e3o&#8221; seriam lidos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o durante a missa de 1\u02da de janeiro. Por isso, manifestantes impediram a realiza\u00e7\u00e3o de diversas cerim\u00f4nias.<\/p>\n<p>Na Para\u00edba, &#8220;at\u00e9 as mulheres armadas de pedras esperavam que nas missas se lesse a lei da escravid\u00e3o para romperem-nas&#8221;, de acordo com a historiadora Maria Luiza Ferreira de Oliveira, professora da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Apesar do p\u00e2nico das autoridades, &#8220;a ordem era a de que os governantes &#8216;abafassem&#8217; os ataques e comunicassem que a prov\u00edncia &#8216;goza de paz&#8217;. O discurso oficial buscava reduzir o levante a boatos, espalhados por &#8216;noveleiros&#8217;, &#8216;partos de imagina\u00e7\u00f5es esquentadas'&#8221;, explica Saavedra.<\/p>\n<p>Na virada para 1852, os \u00e2nimos se exaltaram ainda mais. Em diversas prov\u00edncias do Nordeste, o cen\u00e1rio era de caos.<\/p>\n<p>Em 2 de janeiro, o diretor do censo provincial de Pernambuco escreveu um apelo para seus subordinados: &#8220;Constando-se que homens inexpertos tem cometido atos violentos e vociferam contra o decreto 797 (do Censo), venho rogar a vossa senhoria que empregue todos os esfor\u00e7os em esclarec\u00ea-los&#8221;.<\/p>\n<p>O objetivo deveria ser mostrar &#8220;que n\u00e3o s\u00f3 a lei do censo, sen\u00e3o a do registro de nascimentos e \u00f3bitos n\u00e3o s\u00e3o atentat\u00f3rias aos direitos dos cidad\u00e3os, mas pelo contr\u00e1rio, concorrem poderosamente para o progresso civilizador do pa\u00eds&#8221;. A carta tamb\u00e9m foi encontrada por Saavedra.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 624px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/24AA\/production\/_107168390__103474184_foto586f.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/24AA\/production\/_107168390__103474184_foto586f.jpg?resize=624%2C831&#038;ssl=1\" alt=\"Crian\u00e7as alforriadas no final do s\u00e9culo XIX, em foto de est\u00fadio, em Porto Alegre\" width=\"624\" height=\"831\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Manifestantes temiam que seus filhos fossem escravizados para suprir lacuna de m\u00e3o de obra gerada pelo fim do tr\u00e1fico africano; na imagem, duas crian\u00e7as alforriadas em Porto Alegre. Direito de imagem ACERVO DO MUSEU DE PORTO ALEGRE JOAQUIM FELIZARDO<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Tamb\u00e9m em Pernambuco, o secret\u00e1rio de Pol\u00edcia instruiu os delegados regionais que os manifestantes fossem convencidos de que os decretos n\u00e3o visavam &#8220;destruir a liberdade, mas pelo contr\u00e1rio, a garanti-la, fazendo com que se multipliquem mais os t\u00edtulos pelos quais se prova que algu\u00e9m nasceu livre&#8221; &#8211; diz carta encontrada pelo historiador mexicano Guillermo Olivares, autor da principal pesquisa sobre a guerra dos marimbondos.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 26 de janeiro, o jornal Di\u00e1rio de Pernambuco publicou: &#8220;O nosso povo do interior caiu no deplor\u00e1vel e repreens\u00edvel excesso de tentar opor-se \u00e0 execu\u00e7\u00e3o do regulamento com armas nas m\u00e3os (&#8230;) pondo em fuga algumas das autoridades, prendendo outras, e atirando sobre a tropa que para ali se dirigira com o fim de coibir os seus desatinos (&#8230;) conflito que resultou na morte de dois soldados, assim como alguma perda da parte dos sublevados&#8221;.<\/p>\n<p>Por que o foco foi no Nordeste? Em primeiro lugar, o Nordeste j\u00e1 vinha vivendo uma din\u00e2mica de protesto e conflito. Entre 1848 e 1850, por exemplo, Pernambuco foi palco da Revolu\u00e7\u00e3o Praieira, que defendia ideais federalistas, ou seja, mais autonomia em rela\u00e7\u00e3o ao poder central. Outras revoltas na regi\u00e3o foram a Cabanada, em Pernambuco e Alagoas, a Sabinada, na Bahia, a Balaiada, no Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, diz Guillhermo Olivares, o Nordeste estava prestes a enfrentar uma escassez de m\u00e3o de obra. Muitos dos escravos da regi\u00e3o haviam sido vendidos para o Sudeste &#8211; para abastecer de m\u00e3o de obra a cultura do caf\u00e9 em S\u00e3o Paulo e os servi\u00e7os urbanos do Rio de Janeiro, capital do Brasil na \u00e9poca.<\/p>\n<p>No entanto, em meados do s\u00e9culo 19, a cana-de-a\u00e7\u00facar nordestina voltou a se expandir, demandando trabalhadores. Por outro lado, o algod\u00e3o, plantado por agricultores pobres, entrou em crise. &#8220;Essa press\u00e3o do mercado certamente influiu no temor dos pobres e livres de estarem ao ponto de virar a bola da vez&#8221;, afirma Olivares.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">A instabilidade da liberdade no Brasil imperial<\/h2>\n<p>Ser negro ou pardo livre em uma sociedade escravista era muito dif\u00edcil. Por causa da cor da pele, as pessoas eram frequentemente enquadradas por for\u00e7as de seguran\u00e7a sob a suspeita de serem escravos fugidos. Ex-escravos que haviam conquistado a liberdade ainda corriam o risco de serem alvo de a\u00e7\u00f5es na Justi\u00e7a para serem reescravizados.<\/p>\n<p>&#8220;Cotidianamente, ocorriam in\u00fameros casos de reescraviza\u00e7\u00e3o&#8221;, explica Saavedra. &#8220;A resist\u00eancia de muitos homens e mulheres \u00e0 escravid\u00e3o, portanto, tinha que ser permanente&#8221;. Nesse contexto, os decretos estat\u00edsticos foram vistos como mais uma amea\u00e7a \u00e0 liberdade.<\/p>\n<p>O que mais alimentava as suspeitas era uma enorme coincid\u00eancia de datas. O fim do tr\u00e1fico havia sido assinado em 4 de setembro de 1850. Apenas dois dias depois, em 6 de setembro de 1850, o governo publicou um decreto autorizando despesas &#8220;para levar a efeito, no menor prazo poss\u00edvel, o Censo geral do Imp\u00e9rio e, outrossim, para estabelecer registros regulares dos nascimentos e \u00f3bitos anuais&#8221;.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, em junho de 1851, foram publicadas, de fato, as regras do Censo e do registro de nascimentos e \u00f3bitos.<\/p>\n<p>O decreto do Censo estabelecia que cada fam\u00edlia deveria preencher uma ficha cadastral, com endere\u00e7o e dados de cada membro &#8211; quem n\u00e3o fizesse isso poderia ser punido por desobedi\u00eancia.<\/p>\n<p>Nessa ficha, era obrigat\u00f3rio informar a condi\u00e7\u00e3o de cada pessoa: nascida livre, liberta (ou seja, algu\u00e9m que nasceu escravo, mas depois obteve a liberdade) ou escrava. J\u00e1 se a pessoa fosse de origem ind\u00edgena, seria preciso especificar &#8220;a tribo a que pertence&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/0DDE\/production\/_101305530_nypl.digitalcollections.bfc8d8be-cc97-94e2-e040-e00a18065961.001.w.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/0DDE\/production\/_101305530_nypl.digitalcollections.bfc8d8be-cc97-94e2-e040-e00a18065961.001.w.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Escravos trabalham em uma planta\u00e7\u00e3o de caf\u00e9 no Brasil\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Tanto escravos como pessoas pobres livres trabalhavam, em sua maioria, como lavradores. Direito de imagem THE NEW YORK PUBLIC LIBRARY<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Todos tamb\u00e9m precisavam ser identificados com nome, idade, profiss\u00e3o ou modo de vida, estado civil. A exce\u00e7\u00e3o eram os escravos &#8211; donos de escravos s\u00f3 precisavam indicar &#8220;o n\u00famero por sexo&#8221;, ou seja, quantos homens e quantas mulheres.<\/p>\n<p>J\u00e1 o decreto do registro civil estipulava que, quando uma crian\u00e7a nascesse, seriam registrados endere\u00e7o, profiss\u00e3o dos pais e &#8220;tribo&#8221;, caso fosse ind\u00edgena. Se o rec\u00e9m-nascido fosse filho de pais escravos, mas ganhasse a liberdade, essas informa\u00e7\u00f5es deveriam constar no registro.<\/p>\n<p>Assim, o Estado saberia onde viviam ex-escravos e pessoas pobres. Tamb\u00e9m saberia quando nascessem crian\u00e7as nessas fam\u00edlias. O que os revoltosos temiam era que essas informa\u00e7\u00f5es fossem utilizadas para escraviz\u00e1-los.<\/p>\n<p>Para Guillermo Olivares, o Censo iria, de fato, gerar informa\u00e7\u00f5es importantes para organizar a m\u00e3o de obra no Brasil ap\u00f3s o fim do tr\u00e1fico. Afinal, o Imp\u00e9rio iria saber qual era o n\u00famero de trabalhadores em potencial do Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;Registrar e contar eram atos que procuravam mapear efetivamente os recursos humanos do Imp\u00e9rio, com vistas \u00e0 nova fase que se anunciava com a suspens\u00e3o do tr\u00e1fico interatl\u00e2ntico de africanos escravizados em 1850&#8221;, afirma Olivares. &#8220;A suspens\u00e3o do tr\u00e1fico, a lei do registro de nascimentos e a lei do censo eram parte de um mesmo pacote&#8221;.<\/p>\n<p>Ou seja, mesmo que o governo brasileiro n\u00e3o tivesse a inten\u00e7\u00e3o de escravizar pessoas livres no Brasil, queria saber quantos deles poderiam ser contratados como assalariados.<\/p>\n<p>Isso era particularmente importante no Norte e Nordeste, onde as popula\u00e7\u00f5es pobres foram utilizadas &#8220;pelas oligarquias regionais como a m\u00e3o-de-obra destinada a substituir o trabalho escravo&#8221;, diz o pesquisador. J\u00e1 as regi\u00f5es Sudeste e Sul focaram na atra\u00e7\u00e3o de imigrantes europeus &#8211; sobretudo italianos &#8211; para lidar com a proibi\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Primeiro censo foi realizado apenas 20 anos depois<\/h2>\n<p>Sob press\u00e3o popular, em 29 de janeiro de 1852, o regime imperial revogou os decretos estat\u00edsticos. Assim, o Registro Civil ficou vigente por apenas 29 dias. J\u00e1 o Censo, previsto para julho daquele ano, nem chegou a sair do papel.<\/p>\n<p>&#8220;A revoga\u00e7\u00e3o resultou dos protestos e do medo de que eles reacendessem o fogo n\u00e3o completamente morto da (Revolu\u00e7\u00e3o) Praieira. Tamb\u00e9m influiu (para a revoga\u00e7\u00e3o) o rompimento dos limites das \u00e1reas originais dos conflitos e sua propaga\u00e7\u00e3o por \u00e1reas &#8216;nobres&#8217;, sedes das grandes fam\u00edlias da oligarquia&#8221;, diz Olivares.<\/p>\n<ul class=\"story-body__unordered-list\">\n<li class=\"story-body__list-item\"><a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-48007855\">Para que serve o Censo, que corre risco de encolher por corte de verba<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p>Outro fator que influenciou a revoga\u00e7\u00e3o dos decretos foi uma falha log\u00edstica do Imp\u00e9rio, que n\u00e3o conseguiu distribuir pelo pa\u00eds as fichas de papel para registrar os nascimentos e \u00f3bitos.<\/p>\n<p>Segundo o decreto do Registro Civil, sem essa documenta\u00e7\u00e3o os p\u00e1rocos n\u00e3o podiam batizar crian\u00e7as ou dar a extrema un\u00e7\u00e3o para os enfermos. Ou seja, crian\u00e7as ficaram sem batismo e mortos sem a \u00faltima ben\u00e7\u00e3o &#8211; uma heresia em uma sociedade majoritariamente cat\u00f3lica, o que acabou acirrando a revolta.<\/p>\n<p>&#8220;Os decretos n\u00e3o eram exequ\u00edveis dada a amplitude do territ\u00f3rio, as longas dist\u00e2ncias e a estrutura macrocef\u00e1lica do estado, que n\u00e3o chegava da mesma maneira a n\u00edveis locais&#8221;, afirma Saavedra.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 1232px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/16CB8\/production\/_107086339_capture.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/16CB8\/production\/_107086339_capture.jpg?resize=696%2C242&#038;ssl=1\" alt=\"Tabela do Censo de 1872 com a quantidade de pessoas por condi\u00e7\u00e3o (livre ou escravo), g\u00eanero, ra\u00e7a e idade\" width=\"696\" height=\"242\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Tabela do Censo de 1872 com a quantidade de pessoas por condi\u00e7\u00e3o (livre ou escravo), g\u00eanero, ra\u00e7a e idade. Repare que n\u00e3o h\u00e1 escravos com at\u00e9 10 meses &#8211; efeito da Lei do Ventre Livre, promulgada em 1871. Direito de imagem IBGE<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Apenas 20 anos depois, em 1872, o Brasil realizaria seu primeiro Censo. A popula\u00e7\u00e3o computada foi de 9,9 milh\u00f5es de pessoas. Dessas, 1,5 milh\u00f5es eram escravas (15%). Em algumas prov\u00edncias, a propor\u00e7\u00e3o de escravos era maior, especialmente no Rio de Janeiro (31%).<\/p>\n<p>Naquele momento, a escravid\u00e3o j\u00e1 estava em decl\u00ednio, devido \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico de escravos africanos, em 1850, e \u00e0 Lei do Ventre Livre, em 1871, pela qual os filhos de escravos passaram a ser considerados livres. Na pr\u00e1tica, as duas leis bloquearam todas as formas de obter novos escravos no Brasil. A tend\u00eancia, ent\u00e3o, era que a escravid\u00e3o um dia acabasse por esgotamento.<\/p>\n<p>Por isso, se o Censo de 1852 tivesse sido realizado, o percentual de popula\u00e7\u00e3o escrava seria muito maior &#8211; afinal, o tr\u00e1fico tinha acabado havia somente dois anos e os filhos de escravos ainda eram mantidos cativos.<\/p>\n<p>Evid\u00eancia disso \u00e9 que, em 1872, a quantidade de pessoas declaradas pretas era maior que a de escravos &#8211; 20%. Ou seja, uma parte cada vez maior da popula\u00e7\u00e3o negra j\u00e1 n\u00e3o era mais escrava. J\u00e1 os pardos representavam 38% dos brasileiros.<\/p>\n<p>Outro dado do Censo de 1872 ajuda a entender o temor dos pobres livres na revolta ronco das abelhas. Assim como os homens escravos, a maior parte dos homens livres eram lavradores. E, da mesma forma que as mulheres escravas, as mulheres livres tamb\u00e9m eram sobretudo trabalhadoras dom\u00e9sticas ou lavradoras.<\/p>\n<p>Por isso, se o Imp\u00e9rio quisesse obter novos escravos no Brasil para desempenhar os mesmos servi\u00e7os, havia uma enorme massa de pobres livres capazes de executar as mesmas fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;A coincid\u00eancia da promulga\u00e7\u00e3o da lei que suspendia o tr\u00e1fico interatl\u00e2ntico com a lei que mandava contar os vivos e os mortos e, n\u00e3o menos importante, passar do p\u00e1roco ao escriv\u00e3o &#8211; isto \u00e9, de Deus ao Coronel &#8211; o registro de nascimentos, eram certamente indicativos para as popula\u00e7\u00f5es pauperizadas do agreste de que grandes mudan\u00e7as se avizinhavam&#8221;, resume Olivares.<\/p>\n<p>De 1872 em diante, o Brasil realizou outros 11 censos. A partir de 1940, a pesquisa ficou a cargo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE).<\/p>\n<p>Ao longo desses quase 150 anos, os levantamentos revelaram mudan\u00e7as intensas no pa\u00eds. A popula\u00e7\u00e3o, por exemplo, saltou dos cerca de 10 milh\u00f5es, no per\u00edodo do Imp\u00e9rio, para 190 milh\u00f5es, em 2010 &#8211; o \u00faltimo levantamento realizado.<\/p>\n<p>Os censos tamb\u00e9m passaram a registrar cada vez mais dados, como rendimento, transforma\u00e7\u00f5es no domic\u00edlio, desemprego, movimentos de migra\u00e7\u00e3o &#8211; informa\u00e7\u00f5es usadas por todos os n\u00edveis de governo para embasar pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo Censo ser\u00e1 realizado pelo IBGE em 2020. Devido a restri\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias no pa\u00eds, a expectativa \u00e9 que o or\u00e7amento da pesquisa seja cortado em at\u00e9 25%. Para lidar com essa redu\u00e7\u00e3o, uma das possibilidades discutidas \u00e9 cortar o n\u00famero de perguntas feitas aos brasileiros, limitando o escopo do censo.<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Amanda Rossi da<\/span><span class=\"byline__title\"> BBC News Brasil em S\u00e3o Paulo &#8211; dispon\u00edvel na internet 04\/06\/2019<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A passagem do ano de 1851 para 1852 foi marcada por convuls\u00e3o e desordem no Imp\u00e9rio do Brasil. Em diversas vilas e cidades do Nordeste, principalmente em Pernambuco, Alagoas e Para\u00edba, centenas de pessoas se aglomeraram em frente a pr\u00e9dios p\u00fablicos para protestar &#8211; muitas delas, armadas. &#8220;Tendo n\u00f3s, pretos e pardos pobres, (recebido) not\u00edcia [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":36812,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[135],"tags":[],"class_list":{"0":"post-36811","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-clipping"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/107086336_prot-brasil.jpg?fit=660%2C371&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36811","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36811"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36811\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/36812"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36811"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36811"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36811"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}