{"id":37219,"date":"2019-06-19T05:00:27","date_gmt":"2019-06-19T08:00:27","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=37219"},"modified":"2019-06-19T12:22:50","modified_gmt":"2019-06-19T15:22:50","slug":"furto-de-combustiveis-alimenta-ganhos-de-refinarias-clandestinas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2019\/06\/19\/furto-de-combustiveis-alimenta-ganhos-de-refinarias-clandestinas\/","title":{"rendered":"Furto de combust\u00edveis alimenta ganhos de refinarias clandestinas"},"content":{"rendered":"<p>Quem passa em frente a uma pequena loja do bairro n\u00e3o desconfia que, por debaixo do estabelecimento, um t\u00fanel liga clandestinamente a casa a um oleoduto da Petrobras, enterrado a poucos metros dali. A vizinhan\u00e7a tamb\u00e9m n\u00e3o sabe que as duas vans estacionadas na garagem escondem tanques cheios de combust\u00edvel roubado diretamente do duto. A engenhosidade s\u00f3 foi descoberta quando um erro t\u00e9cnico no desvio provocou um inc\u00eandio. Homens feridos sa\u00edram correndo do estabelecimento e fugiram, enquanto t\u00e9cnicos da Transpetro e do Corpo de Bombeiros corriam at\u00e9 o local, na tentativa de<br \/>\nconter o vazamento e evitar um acidente maior. O epis\u00f3dio, em Itaquaquecetuba, na Regi\u00e3o Metropolitana de S\u00e3o Paulo, entrou para as estat\u00edsticas como mais um entre os 560 casos de furto ou tentativa de furto nos dutos da Transpetro entre 2016 e 2018.<\/p>\n<p>O mercado ilegal de petr\u00f3leo e combust\u00edveis movimenta, por ano, US$ 133 bilh\u00f5es no mundo, segundo estimativas da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Assaltos a navios petroleiros por grupos piratas, roubos de oleodutos e caminh\u00f5es e atividades ilegais como adultera\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis n\u00e3o financiam mais apenas grupos como o Estado<br \/>\nIsl\u00e2mico, no Oriente M\u00e9dio, e cart\u00e9is de narcotraficantes no M\u00e9xico. Mais recentemente, organiza\u00e7\u00f5es criminosas brasileiras entraram no mapa mundial do tr\u00e1fico de petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>No Brasil, investigadores t\u00eam se dedicado a apurar at\u00e9 que ponto grupos milicianos da Baixada Fluminense, na regi\u00e3o metropolitana do Rio, est\u00e3o envolvidos no furto em oleodutos da Petrobras. Na outra ponta do neg\u00f3cio, as autoridades tentam seguir o rastro dos milh\u00f5es de litros de combust\u00edveis e petr\u00f3leo bruto furtados dos oleodutos da petroleira, para descobrir quem alimenta esse crime organizado que j\u00e1 trouxe perdas de R$ 600 milh\u00f5es para os cofres da estatal nos \u00faltimos quatro anos. O furto de petr\u00f3leo e derivados dos dutos da Transpetro, a subsidi\u00e1ria de log\u00edstica da Petrobras, \u00e9 um problema que se estende a outros Estados, caso, por exemplo, de S\u00e3o Paulo<\/p>\n<p>No Rio, o assunto est\u00e1 no centro das aten\u00e7\u00f5es do Grupo de Atua\u00e7\u00e3o Especial de Repress\u00e3o ao Crime Organizado (Gaeco), do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ). A principal linha de investiga\u00e7\u00e3o do grupo indica que os produtos roubados t\u00eam como destino algumas unidades industriais que atuam como esp\u00e9cies de refinarias clandestinas.<br \/>\nTratam-se de empresas legais, com CNPJ, especializadas no reprocessamento de \u00f3leos usados para produ\u00e7\u00e3o de solventes e outros produtos qu\u00edmicos, como graxas e \u00f3leos para uso industrial. Segundo uma fonte envolvida nas investiga\u00e7\u00f5es, foram identificados produtos roubados em ao menos quatro dessas unidades no eixo Rio-S\u00e3o Paulo-Minas.<br \/>\nEssas companhias compram com descontos o petr\u00f3leo, o diesel e a gasolina roubados &#8211; produtos considerados mais nobres do que os \u00f3leos residuais que elas costumam recolher de navios, postos e ind\u00fastrias, para reprocessamento.<br \/>\nEssas unidades, contudo, n\u00e3o t\u00eam autoriza\u00e7\u00e3o para armazenar e processar petr\u00f3leo. Em Duque de Caxias, \u00e0s margens da rodovia BR-040, na Baixada Fluminense, por exemplo, o MP-RJ solicitou o desmonte da Reoxil, que atua na reciclagem e purifica\u00e7\u00e3o de produtos qu\u00edmicos, mas que mantinha em suas instala\u00e7\u00f5es petr\u00f3leo bruto estocado, segundo o Minist\u00e9rio P\u00fablico. J\u00e1 em Cosm\u00f3polis (SP), as autoridades apreenderam 12 caminh\u00f5es com petr\u00f3leo cru em uma unidade semelhante:<br \/>\na Super Oil Bras. Os donos das empresas foram denunciados por recepta\u00e7\u00e3o qualificada.<br \/>\nAs investiga\u00e7\u00f5es come\u00e7am aos poucos a tra\u00e7ar novas rotas em busca de outros destinos para os produtos roubados, como postos de combust\u00edveis. De acordo com uma segunda fonte que acompanha os desdobramentos das investiga\u00e7\u00f5es, \u00e1reas de intelig\u00eancia est\u00e3o debru\u00e7adas para saber para onde vai o petr\u00f3leo bruto. H\u00e1 ind\u00edcios de que os volumes roubados n\u00e3o t\u00eam sido vendidos somente para unidades de reprocessamento de \u00f3leo mapeadas, mas tamb\u00e9m para f\u00e1bricas de asfalto, por exemplo.<br \/>\nSegundo as investiga\u00e7\u00f5es, o furto de petr\u00f3leo e combust\u00edveis nos oleodutos n\u00e3o \u00e9 comandado por uma \u00fanica organiza\u00e7\u00e3o criminosa. S\u00e3o diferentes grupos, que n\u00e3o necessariamente atuam em conjunto e que n\u00e3o t\u00eam o mesmo perfil de atua\u00e7\u00e3o. O mapa de ocorr\u00eancias mostra que S\u00e3o Paulo, por exemplo, concentra os casos de roubo de derivados em \u00e1reas urbanas. J\u00e1 na Baixada Fluminense, no Rio, o principal produto furtado \u00e9 o petr\u00f3leo bruto, em \u00e1reas rurais.<br \/>\nOs casos no Rio ocorrem numa regi\u00e3o conhecida pela forte presen\u00e7a de milicianos. H\u00e1 ind\u00edcios de que esses grupos atuam na cobran\u00e7a de ped\u00e1gio das quadrilhas que desviam as cargas dos oleodutos da Transpetro. Tamb\u00e9m chama a aten\u00e7\u00e3o dos investigadores a constante presen\u00e7a de policias militares entre as organiza\u00e7\u00f5es criminosas denunciadas, mas, segundo a fonte, o grau de envolvimento das mil\u00edcias no crime ainda \u00e9 objeto das investiga\u00e7\u00f5es.<br \/>\nPara autoridades, agora \u00e9 a hora de combater o furto em oleoduto, a fim de evitar que situa\u00e7\u00e3o iguale a do M\u00e9xico<br \/>\nEm quatro anos, 42 milh\u00f5es de litros de derivados e \u00f3leo bruto foram desviados dos oleodutos da Petrobras. A realidade brasileira ainda est\u00e1 distante daquela vivenciada em pa\u00edses mais cr\u00edticos, como Nig\u00e9ria, Col\u00f4mbia e M\u00e9xico, mas preocupa pela escalada das ocorr\u00eancias e pelos riscos associados ao crime. Em maio, morreu, em Duque de Caxias, Ana Cristina Pacheco Luciano, menina de nove anos de idade que teve 80% do corpo queimado ao cair em uma po\u00e7a de gasolina depois de um vazamento ocorrido no oleoduto Orbel I, que liga o Rio de Janeiro a Minas Gerais, em uma tentativa de roubo de combust\u00edvel.&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_37220\" aria-describedby=\"caption-attachment-37220\" style=\"width: 267px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/refinaria.jpg\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-37220 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/refinaria.jpg?resize=267%2C189\" alt=\"\" width=\"267\" height=\"189\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/refinaria.jpg?w=267&amp;ssl=1 267w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/refinaria.jpg?resize=100%2C70&amp;ssl=1 100w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/refinaria.jpg?resize=265%2C189&amp;ssl=1 265w\" sizes=\"auto, (max-width: 267px) 100vw, 267px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-37220\" class=\"wp-caption-text\">Unidade da Reoxil em Duque de Caxias<br \/>(RJ), em foto constante do processo aberto<br \/>pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico do Rio<\/figcaption><\/figure>\n<p>Foi a partir de 2011 que a Petrobras come\u00e7ou a perceber uma mudan\u00e7a na organiza\u00e7\u00e3o dos crimes. At\u00e9 ent\u00e3o, segundo fontes, as ocorr\u00eancias eram isoladas e amadoras, sem ind\u00edcios de participa\u00e7\u00e3o do crime organizado. As ocorr\u00eancias s\u00f3 come\u00e7aram a crescer a partir de 2014\/2015, mas se tornaram sist\u00eamicas, de fato, nos \u00faltimos tr\u00eas anos. Em 2018, a<br \/>\nTranspetro registrou 261 casos de furto ou tentativa de furto em seus dutos em todo o pa\u00eds, um aumento de 15% frente a 2017 e de 262% ante 2016.<br \/>\n&#8220;O crime organizado percebeu que \u00e9 um bom neg\u00f3cio. Importar quilos de coca\u00edna envolve um custo operacional alto, mas o custo da mat\u00e9ria-prima, no caso do contrabando do petr\u00f3leo, \u00e9 zero. E os criminosos conseguem colocar muito r\u00e1pido o produto no mercado&#8221;, explica uma das fontes que acompanham o assunto de perto.<br \/>\nSegundo as investiga\u00e7\u00f5es do MP-RJ, a organiza\u00e7\u00e3o era estruturada em n\u00facleos, n\u00e3o necessariamente vinculados uns aos outros. O n\u00facleo do Rio de Janeiro seria comandado, segundo o MP, por Denilson Silva Pessanha (&#8220;Maninho do Posto&#8221;), ex-vereador em Duque de Caxias e que se encontra foragido.<br \/>\nA divis\u00e3o de tarefas do grupo revela o grau de organiza\u00e7\u00e3o do n\u00facleo. De acordo com o MP-RJ, al\u00e9m de ser respons\u00e1vel pela perfura\u00e7\u00e3o e retirada dos combust\u00edveis, Maninho tamb\u00e9m era encarregado de garantir o envio do produto para outros Estados, por meio de emiss\u00e3o de notas fiscais fraudulentas. O grupo tamb\u00e9m era composto por criminosos encarregados de tra\u00e7ar rotas e pela rede de contato com os motoristas que faziam o transporte; pessoas dedicadas ao fornecimento dos caminh\u00f5es; pela atividade de perfura\u00e7\u00e3o dos dutos; integrantes respons\u00e1veis por mapear e pelo arrendamento dos terrenos mais prop\u00edcios para a atividade ilegal e pela seguran\u00e7a armada do local.<br \/>\nOs criminosos utilizam a t\u00e9cnica da trepana\u00e7\u00e3o &#8211; instala\u00e7\u00e3o de uma deriva\u00e7\u00e3o clandestina na tubula\u00e7\u00e3o perfurada sem que haja a necessidade de fechar o abastecimento do produto. Ex-funcion\u00e1rios de terceirizadas da Petrobras, com experi\u00eancia em caldeiraria e soldagem, est\u00e3o entre alguns dos envolvidos na presta\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o para os grupos criminosos.<br \/>\nCasos de furtos no Rio de Janeiro ocorrem em uma regi\u00e3o conhecida pela forte presen\u00e7a de milicianos A percep\u00e7\u00e3o entre as autoridades \u00e9 de que a hora de combater o furto nos oleodutos \u00e9 agora, de forma a evitar que a situa\u00e7\u00e3o alcance a dramaticidade de pa\u00edses como M\u00e9xico e Nig\u00e9ria, onde explos\u00f5es em dutos, decorrentes do vazamento de<br \/>\ncombust\u00edveis roubados, j\u00e1 vitimaram centenas de pessoas. Num dos casos mais recentes, em janeiro, um inc\u00eandio em uma tubula\u00e7\u00e3o de combust\u00edvel no Estado mexicano de Hidalgo deixou pelo menos 66 mortos e mais de 70 feridos no momento em que centenas de pessoas roubavam gasolina que vazava de um duto.<br \/>\nNeste m\u00eas, a Petrobras lan\u00e7ou o Programa Integrado Petrobras de Prote\u00e7\u00e3o de Dutos (Pr\u00f3-Dutos), com o objetivo de prevenir furtos de combust\u00edveis da malha de oleodutos operada pela Transpetro. A estatal assinou dois protocolos de inten\u00e7\u00e3o, um com o governo do Rio e outro com o governo de S\u00e3o Paulo, com o prop\u00f3sito de refor\u00e7ar a coopera\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica entre as partes nas a\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia e seguran\u00e7a. Al\u00e9m disso, a Transpetro mant\u00e9m um programa de relacionamento com as comunidades vizinhas \u00e0 rede de dutos e disponibiliza o n\u00famero 168 para que a popula\u00e7\u00e3o denuncie a\u00e7\u00f5es de pessoas n\u00e3o autorizadas nos dutos<br \/>\nA meta da Petrobras \u00e9 reduzir em 75% os furtos em seus oleodutos at\u00e9 2021. Uma das propostas da estatal \u00e9 desenvolver tecnologias para aprimorar a detec\u00e7\u00e3o e localiza\u00e7\u00e3o dos furtos. O presidente da companhia, Roberto Castello Branco, disse neste m\u00eas, durante o lan\u00e7amento do programa Pr\u00f3-Dutos, que pretende assinar um conv\u00eanio com o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a para tratar do assunto. Ele tamb\u00e9m defendeu a tipifica\u00e7\u00e3o do crime de roubo de oleodutos com penas mais pesadas. &#8220;O crime tem repercuss\u00f5es muito amplas, as externalidades negativas s\u00e3o enormes&#8221;, afirmou o executivo, na cerim\u00f4nia de<br \/>\nlan\u00e7amento do programa.<br \/>\nO Valor tentou, sem sucesso, contato com as empresas Reoxil e Superoilbras, citadas nas investiga\u00e7\u00f5es do MP-RJ.<\/p>\n<p><b>Cr\u00e9dito: Andr\u00e9 Ramalho\/Valor Econ\u00f4mico &#8211; dispon\u00edvel na internet 19\/06\/2019<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem passa em frente a uma pequena loja do bairro n\u00e3o desconfia que, por debaixo do estabelecimento, um t\u00fanel liga clandestinamente a casa a um oleoduto da Petrobras, enterrado a poucos metros dali. A vizinhan\u00e7a tamb\u00e9m n\u00e3o sabe que as duas vans estacionadas na garagem escondem tanques cheios de combust\u00edvel roubado diretamente do duto. 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