{"id":39597,"date":"2019-09-03T02:30:51","date_gmt":"2019-09-03T05:30:51","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=39597"},"modified":"2019-09-03T03:58:58","modified_gmt":"2019-09-03T06:58:58","slug":"a-busca-pelo-passado-em-meio-ao-que-restou-do-museu-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2019\/09\/03\/a-busca-pelo-passado-em-meio-ao-que-restou-do-museu-nacional\/","title":{"rendered":"A busca pelo passado em meio ao que restou do Museu Nacional"},"content":{"rendered":"<p class=\"intro\">H\u00e1 um ano, inc\u00eandio destruiu cerca da metade do acervo do museu. Apesar das perdas, clima entre pesquisadores da institui\u00e7\u00e3o \u00e9 de otimismo, e buscas por restos de cole\u00e7\u00f5es do antigo pal\u00e1cio continuam.<\/p>\n<p>No dia 2 de setembro de 2018, um grande&nbsp;inc\u00eandio atingiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro.&nbsp;Desde ent\u00e3o, Murilo Bastos se ocupou&nbsp;principalmente de peneirar detritos nos escombros do Pal\u00e1cio de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o. Na verdade, o bioarque\u00f3logo trabalha com antropologia biol\u00f3gica, ou seja, com&nbsp;ossos e esqueletos, entre eles o cr\u00e2nio de&nbsp;Luzia, o f\u00f3ssil humano mais antigo das Am\u00e9ricas, com 12 mil anos. No momento, por\u00e9m, a&nbsp;carreira cient\u00edfica de Bastos est\u00e1 focado em salvar o que ainda pode ser salvo.<\/p>\n<p>Depois de uma longa busca, o cientista&nbsp;encontrou o&nbsp;cr\u00e2nio danificado de Luzia&nbsp;nos escombros do antigo pal\u00e1cio real. &#8220;O cr\u00e2nio j\u00e1 era fr\u00e1gil antes, mas com o inc\u00eandio ele se fragmentou. Mas podemos fazer uma remontagem virtual, para dar uma cara para Luzia&nbsp;novamente&#8221;, disse o bioarque\u00f3logo \u00e0 DW.<\/p>\n<p>Segundo ele, outro auge das opera\u00e7\u00f5es de busca foi a descoberta dos amuletos do caix\u00e3o da sacerdotisa eg\u00edpcia Sha-Amum-em-Su, sepultada por volta do ano 750 a.C., cujo sarc\u00f3fago foi um presente a Dom Pedro 2\u00ba. &#8220;Achar esses amuletos me marcou muito&#8221;, ressalta Bastos.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Passado apagado pelo inc\u00eandio&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>O bioarque\u00f3logo afirma estar otimista. As perdas, por\u00e9m, s\u00e3o grandes. Ele tinha acabado de criar o invent\u00e1rio da cole\u00e7\u00e3o, com muitos dados que ainda n\u00e3o estavam salvos, quando o inc\u00eandio causado por um curto-circuito em um ar condicionado destruiu o computador e os ossos.<\/p>\n<p>&#8220;Informa\u00e7\u00f5es muito importantes sobre o passado da nossa hist\u00f3ria foram perdidas. \u00c9 uma perda que n\u00e3o tem como recuperar. \u00c9 o passado da nossa hist\u00f3ria que foi apagado pelo inc\u00eandio&#8221;, lamenta Bastos.<\/p>\n<div class=\"picBox full rechts \">\n<figure style=\"width: 700px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"overlayLink init\" href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.dw.com\/image\/50219588_401.jpg?ssl=1\" rel=\"nofollow\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Pesquisador peneira escombros do Museu Nacional\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.dw.com\/image\/50219588_401.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Pesquisador peneira escombros do Museu Nacional\" width=\"696\" height=\"392\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Peneira se tornou o principal objeto de trabalho de pesquisadores do museu &#8211; Pesquisador peneira escombros do Museu Nacional<\/figcaption><\/figure>\n<p>A professora de Paleobot\u00e2nica Luciana Witovisk tamb\u00e9m lamenta as perdas. Mas um f\u00f3ssil do s\u00e9culo 19 de uma esp\u00e9cie de \u00e1rvore, pelo qual ela tinha um carinho especial, foi encontrado dentro de um arm\u00e1rio no meio dos escombros. Tudo que estava no arm\u00e1rio tinha sido destru\u00eddo, menos o Psaronius Brasiliensis. &#8220;Senti uma alegria muito grande&#8221;, conta.<\/p>\n<\/div>\n<p>Na noite da trag\u00e9dia, a pol\u00edcia impediu Witovisk de entrar no pal\u00e1cio em chamas. Pouco antes, seus colegas conseguiram salvar algumas pe\u00e7as do acervo. &#8220;Perdi o laborat\u00f3rio onde trabalh\u00e1vamos, minha sala, material de pesquisa em andamento e a cole\u00e7\u00e3o de paleobot\u00e2nica da qual sou curadora&#8221;, afirma a professora.<\/p>\n<p>Segundo o diretor do Museu Nacional, Alexander Kellner, na \u00e9poca do inc\u00eandio, ocorria a transfer\u00eancia do acervo do pal\u00e1cio. A&nbsp;biblioteca e&nbsp;cole\u00e7\u00f5es como a de&nbsp;vertebrados e bot\u00e2nica j\u00e1&nbsp;haviam sido transferidas para outros lugares e, por isso, sobreviveram.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, aproximadamente 80% dos cerca de 20 milh\u00f5es de objetos do museu ainda estavam no pr\u00e9dio. Quase metade de todo o acervo do museu foi destru\u00eddo pelas chamas.<\/p>\n<p>&#8220;O que mais nos d\u00f3i \u00e9 termos perdido o material etnogr\u00e1fico dos povos ind\u00edgenas&#8221;, conta Kellner. Mas ele se mant\u00e9m&nbsp;otimista. &#8220;Somos muito bons juntos. Projetos de reconstru\u00e7\u00e3o s\u00e3o a coisa mais importante de uma cat\u00e1strofe assim, e estamos fazendo isso agora.&#8221;<\/p>\n<div class=\"picBox full rechts \">\n<figure style=\"width: 700px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"overlayLink init\" href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.dw.com\/image\/50219608_401.jpg?ssl=1\" rel=\"nofollow\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Escombros do Museu Nacional\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.dw.com\/image\/50219608_401.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Escombros do Museu Nacional\" width=\"696\" height=\"392\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Escombros do Museu Nacional. Cerca de 80% dos cerca de 20 milh\u00f5es de objetos do museu estavam no pr\u00e9dio no momento do inc\u00eandio<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p><strong>Alemanha \u00e9 maior doador<\/strong><\/p>\n<p>Kellner agrade especialmente as&nbsp;doa\u00e7\u00f5es da Alemanha. At\u00e9 o momento, foram transferidos 326.179 euros de um total&nbsp;de 1 milh\u00e3o de euros prometidos pelo Minist\u00e9rio do Exterior alem\u00e3o. O diretor do museu agradece tamb\u00e9m os recursos&nbsp;assegurados pelas&nbsp;autoridades brasileiras para a reconstru\u00e7\u00e3o, de&nbsp;R$ 80,8 milh\u00f5es at\u00e9 agora.<\/p>\n<p>Ele planeja construir um pr\u00e9dio de tr\u00eas andares no parque municipal adjacente, a Quinta da Boa Vista. No local, os 90 professores do museu e 230 t\u00e9cnicos que trabalhavam no museu e 500 estudantes ser\u00e3o acomodados inicialmente, e as cole\u00e7\u00f5es resgatadas ter\u00e3o um abrigo tempor\u00e1rio.<\/p>\n<p>Um centro educacional para crian\u00e7as tamb\u00e9m deve ser montado no local. Para isso, Kellner busca doa\u00e7\u00f5es na Europa e China. &#8220;Se eu conseguir o dinheiro, podemos j\u00e1 ter a esta altura do&nbsp;ano que vem um novo museu, provis\u00f3rio, \u00e9 claro, mas ainda assim interessante&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>O Museu Nacional restaurado deve ser reaberto gradualmente&nbsp;entre 2022 e 2025. At\u00e9 l\u00e1, os funcion\u00e1rios&nbsp;t\u00eam muito trabalho pela frente.<\/p>\n<p>&#8220;As pe\u00e7as resgatadas precisam ser estudadas, catalogadas, inventariadas. Pensando em novas exposi\u00e7\u00f5es, na constru\u00e7\u00e3o de novos acervos e na realiza\u00e7\u00e3o de&nbsp;novas pesquisas, acho que terei trabalho para o resto da vida&#8221;, salienta Bastos.<\/p>\n<p>O bioarque\u00f3logo j\u00e1 imagina como o novo museu deve&nbsp;ficar.&nbsp;&#8220;Fecho os olhos e vejo um pal\u00e1cio todo reformado, mantendo seus padr\u00f5es originais, a sua hist\u00f3ria, com toda a import\u00e2ncia e opul\u00eancia que tinha. E com uma exposi\u00e7\u00e3o bel\u00edssima&#8221;, ilustra.<\/p>\n<p><strong>Uma chance na cat\u00e1strofe<\/strong><\/p>\n<p>Para a isso, as \u00faltimas montanhas de entulho&nbsp;ainda precisam ser peneiradas. Witovisk estima que ainda restem 15% dos escombros a serem vasculhados. &#8220;J\u00e1 resgatamos muita coisa, e isso \u00e9 um bom recome\u00e7o para o Museu Nacional&#8221;, destaca.<\/p>\n<div class=\"picBox full rechts \">\n<figure style=\"width: 700px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"overlayLink init\" href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.dw.com\/image\/50219528_401.jpg?ssl=1\" rel=\"nofollow\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Pe\u00e7as da cole\u00e7\u00e3o resgatadas em meio aos escombros do Museu Nacional\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.dw.com\/image\/50219528_401.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Pe\u00e7as da cole\u00e7\u00e3o resgatadas em meio aos escombros do Museu Nacional\" width=\"696\" height=\"392\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Pe\u00e7as da cole\u00e7\u00e3o resgatadas em meio aos escombros<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Por enquanto, ela ainda precisa improvisar. Suas aulas ocorrem no Horto Bot\u00e2nico, um pr\u00e9dio anexo que sobreviveu ao inc\u00eandio. Cada pesquisador recebeu da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) 30 mil reais para a restaura\u00e7\u00e3o do acervo. &#8220;Est\u00e1 mais dif\u00edcil, mas estamos conseguindo levar&#8221;, diz Witovisk.<\/p>\n<p>A maior preocupa\u00e7\u00e3o de Witovisk no momento, por\u00e9m, \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o de seus alunos. O museu \u00e9 vinculado \u00e0 Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que foi afetada pelos contingenciamentos de verbas estipulados pelo governo federal. O pagamento de bolsas tamb\u00e9m est\u00e1 em risco.<\/p>\n<p>&#8220;Estou naquela de esperar por milagres. Vivo um dia ap\u00f3s o outro, esperando que esse governo reduza o contingenciamento&#8221;, afirma a professora.<\/p>\n<p>Witovisk v\u00ea ainda uma chance na cat\u00e1strofe. &#8220;Quando o museu fez 200 anos, t\u00ednhamos a impress\u00e3o de que ele estava sendo apagado do imagin\u00e1rio das pessoas&#8221;, conta. As comemora\u00e7\u00f5es ocorreram apenas algumas semanas antes da trag\u00e9dia, que acabou chamando a aten\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica para o local.<\/p>\n<p>Antes do inc\u00eandio, poucas pessoas visitavam o Museu Nacional, enquanto uma multid\u00e3o ia ao Museu do Amanh\u00e3, que conta com uma exposi\u00e7\u00e3o interativa e moderna.&nbsp;&#8220;\u00c9 um museu espetacular, sem acervo&#8221;, classifica Witovisk. &#8220;Quem sabe agora, com essa reconstru\u00e7\u00e3o e exposi\u00e7\u00f5es mais tecnol\u00f3gicas, o Museu Nacional atraia mais pessoas.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Deutsche Welle Brasil &#8211; dispon\u00edvel na internet 03\/09\/2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um ano, inc\u00eandio destruiu cerca da metade do acervo do museu. Apesar das perdas, clima entre pesquisadores da institui\u00e7\u00e3o \u00e9 de otimismo, e buscas por restos de cole\u00e7\u00f5es do antigo pal\u00e1cio continuam. No dia 2 de setembro de 2018, um grande&nbsp;inc\u00eandio atingiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro.&nbsp;Desde ent\u00e3o, Murilo Bastos se ocupou&nbsp;principalmente [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":39598,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[135],"tags":[],"class_list":{"0":"post-39597","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-clipping"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/museu.jpg?fit=700%2C394&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39597","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39597"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39597\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/39598"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39597"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39597"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39597"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}