{"id":42266,"date":"2019-12-02T01:00:15","date_gmt":"2019-12-02T04:00:15","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=42266"},"modified":"2019-12-01T06:07:57","modified_gmt":"2019-12-01T09:07:57","slug":"de-bem-com-a-vida-sifilis-a-doenca-evitavel-e-de-tratamento-barato-que-mata-um-numero-crescente-de-bebes-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2019\/12\/02\/de-bem-com-a-vida-sifilis-a-doenca-evitavel-e-de-tratamento-barato-que-mata-um-numero-crescente-de-bebes-no-brasil\/","title":{"rendered":"De Bem com a Vida: S\u00edfilis, a doen\u00e7a evit\u00e1vel e de tratamento barato que mata um n\u00famero crescente de beb\u00eas no Brasil"},"content":{"rendered":"<h4 class=\"story-body__h1\"><span style=\"color: #222222; font-family: Verdana, Geneva, sans-serif; font-size: 15px;\">Enquanto esteve gr\u00e1vida de cada um de seus dois filhos \u2014 um menino que tem hoje 2 anos e uma menina de 1 \u2014 a alagoana Luisa (nome fict\u00edcio), 38 anos, precisou tomar um total de 21 inje\u00e7\u00f5es de benzetacil, antibi\u00f3tico da fam\u00edlia da penicilina. Mesmo assim, sua ca\u00e7ula, Tain\u00e1, nasceu com atrasos no desenvolvimento que persistem at\u00e9 hoje. &#8220;Notei que ela n\u00e3o sentava sozinha, ca\u00eda para tr\u00e1s, tinha a fun\u00e7\u00e3o motora enfraquecida&#8221;, lembra a m\u00e3e, que mora em Macei\u00f3.<\/span><\/h4>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<p>Ela ainda se lembra do dia em que recebeu do m\u00e9dico a not\u00edcia de que tinha s\u00edfilis, doen\u00e7a transmitida sexualmente e cercada de tabu e estigma, e que poderia afetar tamb\u00e9m o beb\u00ea que ela esperava. &#8220;Na hora eu me abalei. Chorei na sala, o m\u00e9dico ficou conversando comigo&#8221;.<\/p>\n<p>Relatos como o de Luisa, marcados por culpa e sofrimento, s\u00e3o comuns entre as m\u00e3es que t\u00eam a vida transformada pela s\u00edfilis, cuja incid\u00eancia em gr\u00e1vidas e beb\u00eas vem aumentando no Brasil na \u00faltima d\u00e9cada, especialmente a partir de 2010.<\/p>\n<p>Nos adultos, a doen\u00e7a tem sintomas que podem evoluir de feridas genitais e manchas no corpo, febre, mal-estar e at\u00e9 les\u00f5es na pele, nos ossos e nos sistemas nervoso e cardiovascular, podendo tamb\u00e9m desenvolver quadros semelhantes \u00e0 dem\u00eancia e \u00e0 depress\u00e3o. Em beb\u00eas, os efeitos s\u00e3o ainda mais catastr\u00f3ficos: malforma\u00e7\u00f5es, microcefalia, comprometimento do sistema nervoso, sequelas na vis\u00e3o, nos m\u00fasculos, cora\u00e7\u00e3o e f\u00edgado, at\u00e9 aborto ou morte ao nascer, de acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS).<\/p>\n<p>No ano passado, 241 beb\u00eas brasileiros com menos de um ano de idade morreram em decorr\u00eancia da s\u00edfilis cong\u00eanita, em que a infec\u00e7\u00e3o \u00e9 passada pela m\u00e3e, durante a gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O boletim mais recente do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, divulgado em outubro, aponta que, em 2018, foram registrados 26,3 mil casos de s\u00edfilis cong\u00eanita no pa\u00eds. Desde 2010, quando a doen\u00e7a passou a ser de notifica\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria, o aumento foi de 3,8 vezes \u2014 passando de 2,4 para 9 casos a cada mil nascidos vivos.<\/p>\n<p>O aumento de uma doen\u00e7a t\u00e3o antiga e vista como superada pela ci\u00eancia surpreende, j\u00e1 que a s\u00edfilis \u00e9 considerada pelos m\u00e9dicos um mal de diagn\u00f3stico f\u00e1cil e tratamento barato. Como \u00e9 poss\u00edvel que uma infec\u00e7\u00e3o facilmente detect\u00e1vel, que existe h\u00e1 pelo menos 500 anos e cujo tratamento, inventado em 1928, \u00e9 um dos mais simples e baratos da medicina, atinja um n\u00famero t\u00e3o grande de pessoas \u2014 e crian\u00e7as \u2014 no Brasil e no mundo?<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12B8D\/production\/_109658667_sifilisspl.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12B8D\/production\/_109658667_sifilisspl.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o da s\u00edfilis feita na Idade M\u00e9dia\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o da s\u00edfilis feita na Idade M\u00e9dia; como \u00e9 poss\u00edvel que uma infec\u00e7\u00e3o facilmente detect\u00e1vel, que existe h\u00e1 pelo menos 500 anos e cujo tratamento \u00e9 simples e barato, ainda atinja um n\u00famero t\u00e3o grande de pessoas? Direito de imagem SPL<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>&#8220;A ci\u00eancia j\u00e1 resolveu essa doen\u00e7a. O tratamento \u00e9 \u00e0 base de penicilina, extremamente barato. N\u00e3o teria por que ter crian\u00e7as nascendo com s\u00edfilis cong\u00eanita&#8221;, afirma a enfermeira Ana Rita Paulo Cardoso, mestre em Sa\u00fade Coletiva pela Universidade de Fortaleza com uma tese que analisou casos de s\u00edfilis gestacional e cong\u00eanita nos anos de 2008 a 2010, em Fortaleza. A pesquisa mostrou que a maior parte das m\u00e3es teve acesso a consultas de pr\u00e9-natal, mas o que falta, segundo Cardoso, \u00e9 melhorar a qualidade das consultas.<\/p>\n<p>No caso de mulheres gr\u00e1vidas, \u00e9 poss\u00edvel detectar a doen\u00e7a com um teste r\u00e1pido de sangue. Feito o diagn\u00f3stico, \u00e9 preciso tomar uma dose semanal de penicilina benzatina (benzetacil), durante tr\u00eas semanas. Se o tratamento for seguido no in\u00edcio da gravidez, as chances de infec\u00e7\u00e3o do beb\u00ea s\u00e3o m\u00ednimas.<\/p>\n<p>Um outro obst\u00e1culo ao tratamento adequado da s\u00edfilis parece ainda mais dif\u00edcil de superar: a resist\u00eancia dos homens em rela\u00e7\u00e3o ao tema, negando-se a comparecer \u00e0s consultas para receber tanto o diagn\u00f3stico quanto o tratamento adequados. Para que a doen\u00e7a seja erradicada com sucesso, mesmo em gestantes, precisam ser medicados tanto a mulher quanto todos os seus parceiros sexuais.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Rotina pesada e falta de dinheiro<\/h2>\n<p>Luisa descobriu a doen\u00e7a na gesta\u00e7\u00e3o de seu primeiro filho, Thiago. O diagn\u00f3stico foi precoce, ainda no primeiro trimestre, e ela tomou 13 inje\u00e7\u00f5es de antibi\u00f3tico. Ficou aliviada quando, ao nascer, os exames mostraram que o menino estava livre da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Na volta da licen\u00e7a-maternidade em seu trabalho, como auxiliar de cozinha em um hotel em Macei\u00f3 (AL), Luisa foi demitida. No exame demissional, um novo susto: a not\u00edcia de que estava gr\u00e1vida novamente, embora acreditasse estar prevenida por usar p\u00edlulas anticoncepcionais e camisinha. E, apesar do tratamento, ela ainda tinha s\u00edfilis. &#8220;O obstetra falou que provavelmente foi a quantidade de benzetacil que eu tomei que cortou o efeito do anticoncepcional.&#8221;<\/p>\n<p>Alguns m\u00e9dicos e estudos apontam que pode haver interfer\u00eancia de antibi\u00f3ticos no efeito de anticoncepcionais, embora haja discrep\u00e2ncias entre a dimens\u00e3o dessa interfer\u00eancia.<\/p>\n<p>O marido de Luisa, o pai da crian\u00e7a, nunca foi contaminado. A suspeita \u00e9 de que ela tenha recebido a infec\u00e7\u00e3o do ex-marido, de quem estava separada h\u00e1 mais de um ano quando engravidou, e com quem n\u00e3o tem mais contato.<\/p>\n<p>Com um ano de idade, a filha de Luisa tem uma rotina pesada de atendimentos com fisioterapeuta, fonoaudi\u00f3logo, psic\u00f3logo e enfermeiro. A m\u00e3e, que cuida da menina em tempo integral, n\u00e3o voltou a procurar emprego. O pai trabalha como ambulante, vendendo \u00f3culos e chinelos na beira da praia de Paju\u00e7ara, em Macei\u00f3, mas o movimento anda bem fraco neste ano, apesar do calor.<\/p>\n<p>&#8220;Como houve vazamento de \u00f3leo em praias aqui perto, como Maragogi e Japaratinga, os turistas ficam achando que Macei\u00f3 todinha est\u00e1 polu\u00edda.&#8221; A sogra ajuda Luisa a pagar as despesas com alimenta\u00e7\u00e3o desde que acabaram-se as parcelas do seguro-desemprego. O resto das contas come\u00e7a a se acumular.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Por que os casos de s\u00edfilis n\u00e3o param de crescer?<\/h2>\n<p>Entre 2017 e 2018, a detec\u00e7\u00e3o da s\u00edfilis adquirida \u2014 ou seja, contra\u00edda por adultos em rela\u00e7\u00f5es sexuais desprotegidas com pessoas contaminadas \u2014 aumentou 28,3% no Brasil, tamb\u00e9m segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Os sintomas podem evoluir de feridas iniciais na regi\u00e3o do cont\u00e1gio e manchas no corpo, febre ou mal-estar para les\u00f5es na pele, nos ossos e nos sistemas nervoso e cardiovascular, e at\u00e9 mesmo desenvolvimento de quadros semelhantes \u00e0 dem\u00eancia e \u00e0 depress\u00e3o.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a est\u00e1 distribu\u00edda por todas as regi\u00f5es do pa\u00eds, aponta a coordenadora de Vigil\u00e2ncia das Infec\u00e7\u00f5es Sexualmente Transmiss\u00edveis do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, Ang\u00e9lica Miranda. Das 241 mortes de beb\u00eas por s\u00edfilis cong\u00eanita, 101 foram no Sudeste, 77 no Nordeste, 27 no Norte, 21 no Sul e 15 no Centro-Oeste.<\/p>\n<p>Os maiores percentuais de casos de s\u00edfilis cong\u00eanita em 2018 ocorreram em crian\u00e7as cujas m\u00e3es tinham entre 20 e 29 anos de idade (53,6%); a maior parte possu\u00eda da 5\u00aa \u00e0 8\u00aa s\u00e9rie incompleta (22,2%). Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cor de pele das m\u00e3es, a maioria se declarou como pardas (58,4%). Al\u00e9m disso, 81,8% das m\u00e3es de crian\u00e7as com s\u00edfilis cong\u00eanita fizeram pr\u00e9-natal, o que indica que n\u00e3o \u00e9 o acesso a consultas o maior problema.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1E8F\/production\/_109632870_62a39d88-18d2-4da8-b33e-6a9db11d77b2.png?resize=696%2C612&#038;ssl=1\" alt=\"Mortes de crian\u00e7as por s\u00edfilis cong\u00eanita\" width=\"696\" height=\"612\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/span><\/figure>\n<p>Para Daniela Mendes, enfermeira da \u00e1rea t\u00e9cnica de Infec\u00e7\u00f5es Sexualmente Transmiss\u00edveis (IST) da Secretaria de Sa\u00fade do Distrito Federal, \u00e9 poss\u00edvel que parte do aumento do n\u00famero de casos registrados pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade se explique pela melhora na detec\u00e7\u00e3o e nos pr\u00e9-natais sendo realizados no pa\u00eds. Mas, em outra parte, esse crescimento reflete uma &#8220;lacuna na pr\u00e1tica sexual segura&#8221;. Entre 2017 e 2018, a detec\u00e7\u00e3o da s\u00edfilis adquirida \u2014 ou seja, contra\u00edda por adultos em rela\u00e7\u00f5es sexuais desprotegidas com pessoas contaminadas \u2014 aumentou 28,3% no Brasil, tamb\u00e9m segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 uma doen\u00e7a que existe desde a era pr\u00e9-colombiana e o tratamento \u00e9 muito barato. A detec\u00e7\u00e3o \u00e9 feita com um furinho no dedo, de livre acesso (nos postos de sa\u00fade), at\u00e9 para adolescentes. Mas mesmo assim a gente n\u00e3o consegue controlar nem erradicar a doen\u00e7a. A conta n\u00e3o fecha&#8221;, afirma Mendes. &#8220;Temos uma baixa ades\u00e3o das pessoas ao uso de preservativos (camisinha) e a se testar regularmente para as infec\u00e7\u00f5es sexualmente transmiss\u00edveis.&#8221;<\/p>\n<p>O caminho, dizem os especialistas e o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, \u00e9 conscientizar a popula\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade sexual: refor\u00e7ar a consci\u00eancia de que quem tem vida sexual ativa precisa usar camisinha, e se tratar quando alguma doen\u00e7a aparecer. &#8220;Na popula\u00e7\u00e3o jovem, o que se observa \u00e9 que as pessoas est\u00e3o parando de usar camisinha. E, no caso da s\u00edfilis, \u00e9 preciso ainda mais cuidado: a rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 penetra\u00e7\u00e3o, e voc\u00ea pode contrair s\u00edfilis por sexo oral, o que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil com o HIV&#8221;, diz Ana Rita Cardoso.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">A resist\u00eancia dos homens ao tratamento<\/h2>\n<p>Existem, tamb\u00e9m, dois entraves significativos no tratamento: o primeiro \u00e9 que se houver atrasos longos nas doses, ele se torna ineficaz. O segundo \u00e9 que, se a mulher voltar a praticar sexo inseguro com um parceiro infectado, voltar\u00e1 a contrair a s\u00edfilis. O jeito, ent\u00e3o, \u00e9 tratar tamb\u00e9m os parceiros.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o costuma ser f\u00e1cil. Muitos estudos cient\u00edficos mostram que os homens s\u00e3o mais reticentes a tratamentos m\u00e9dicos em geral, e mais ainda quando se trata de uma doen\u00e7a ligada \u00e0 sexualidade.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/459F\/production\/_109632871_14d18d64-66ee-41b1-a452-08af0823b435.png?resize=696%2C649&#038;ssl=1\" alt=\"Casos notificados de s\u00edfilis cong\u00eanita\" width=\"696\" height=\"649\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/span><\/figure>\n<p>&#8220;Existe um tabu, tanto das mulheres quanto dos profissionais de sa\u00fade no momento do pr\u00e9-natal, de se falar (com as gestantes) sobre parceiros sexuais&#8221;, afirma Mendes. &#8220;\u00c0s vezes, as mulheres que v\u00e3o chamar seu parceiro para se tratar acabam sofrendo viol\u00eancia por parte deles. Mas, se eu n\u00e3o o trato, a chance de a mulher se reinfectar \u00e9 muito alta.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;A reinfec\u00e7\u00e3o mostra a import\u00e2ncia em se fazer tamb\u00e9m o pr\u00e9-natal do parceiro&#8221;, afirma Ang\u00e9lica Miranda, do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>Nas orienta\u00e7\u00f5es para a preven\u00e7\u00e3o, a responsabilidade recai mais sobre a mulher: a recomenda\u00e7\u00e3o \u00e9 que ela pense em fazer o exame para s\u00edfilis antes de engravidar, como parte das consultas de rotina. &#8220;Tem uma quest\u00e3o do machismo que bloqueia todo o tratamento&#8221;, diz Ana Rita Cardoso. &#8220;O homem tem que participar, n\u00e3o \u00e9 o tratamento mais f\u00e1cil porque \u00e9 injet\u00e1vel, mas n\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de escolha&#8221;.<\/p>\n<p>A pesquisa &#8220;Compreendendo a s\u00edfilis cong\u00eanita a partir do olhar materno&#8221;, das pesquisadoras Martha Helena Teixeira de Souza e Elisiane Quatrin Beck, da Universidade Franciscana de Santa Maria, entrevistou 15 m\u00e3es de beb\u00eas portadores de s\u00edfilis cong\u00eanita em Bras\u00edlia. Nove dessas mulheres receberam as tr\u00eas doses da medica\u00e7\u00e3o preconizada pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. No entanto, apenas tr\u00eas parceiros realizaram conjuntamente o tratamento.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/179AD\/production\/_109658669_29959218716_e9d4288422_c.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/179AD\/production\/_109658669_29959218716_e9d4288422_c.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Teste de s\u00edfilis sendo realizado\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Teste de s\u00edfilis sendo realizado. Direito de imagemRODRIGO NUNES\/MS<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>&#8220;A reinfec\u00e7\u00e3o mostra a import\u00e2ncia em se fazer tamb\u00e9m o pr\u00e9-natal do parceiro&#8221;, afirma Ang\u00e9lica Miranda, do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Ela diz que 100 munic\u00edpios brasileiros com o maior n\u00famero de casos de s\u00edfilis participam, desde 2017, de um programa especial da pasta, em que as prefeituras recebem mais testes, e os esfor\u00e7os de pr\u00e9-natal s\u00e3o intensificados, para aumentar a detec\u00e7\u00e3o precoce da s\u00edfilis. No momento, est\u00e3o sendo analisados os dados para verificar se a a\u00e7\u00e3o teve impacto real e se levou a redu\u00e7\u00f5es nos n\u00fameros da s\u00edfilis.<\/p>\n<p>No Brasil em geral, Miranda afirma que os n\u00fameros mostram que &#8220;houve uma desacelera\u00e7\u00e3o, a doen\u00e7a continua a crescer, mas n\u00e3o com a mesma frequ\u00eancia&#8221;. A taxa de casos notificados de s\u00edfilis cong\u00eanita em beb\u00eas entre 2018 e 2019 (segundo casos registrados at\u00e9 junho deste ano), por exemplo, subiu de 7 para 7,1.<\/p>\n<p>&#8220;Na s\u00edfilis cong\u00eanita, o desafio principal \u00e9 aumentar a quantidade de diagn\u00f3sticos ainda no primeiro trimestre da gesta\u00e7\u00e3o \u2014 incluir mais mulheres no pr\u00e9-natal e mais precocemente, com mais consultas. Quanto antes essa gestante for tratada, mais se evitar\u00e1 a transmiss\u00e3o da doen\u00e7a pela placenta&#8221;, agrega Miranda.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do Brasil, a s\u00edfilis \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o global, aponta a OMS, que registra 6 milh\u00f5es de novos casos da doen\u00e7a a cada ano.<\/p>\n<p>A incid\u00eancia da s\u00edfilis cong\u00eanita caiu globalmente entre 2012 e 2016, mas isso ainda representa cerca de 660 mil casos anuais da doen\u00e7a em crian\u00e7as. &#8220;\u00c9 a segunda principal causa evit\u00e1vel de natimortos, precedida apenas pela mal\u00e1ria&#8221;, diz boletim da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Por que as consultas de pr\u00e9-natal falham em detectar a s\u00edfilis?<\/h2>\n<p>Daniela Mendes, da Secretaria de Sa\u00fade do Distrito Federal, afirma que alguns profissionais da sa\u00fade t\u00eam dificuldade tanto em discutir o tema com os pacientes quanto em registrar corretamente a doen\u00e7a nos prontu\u00e1rios, o que dificulta o tratamento subsequente.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6C25\/production\/_109658672_29699285670_80906e224c_c.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6C25\/production\/_109658672_29699285670_80906e224c_c.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Preservativos\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">&#8216;Na popula\u00e7\u00e3o jovem, o que se observa \u00e9 que as pessoas est\u00e3o parando de usar camisinha. E no caso da s\u00edfilis \u00e9 preciso ainda mais cuidado: a rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 penetra\u00e7\u00e3o, e voc\u00ea pode contrair s\u00edfilis por sexo oral, o que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil no HIV&#8217;, diz pesquisadora. Direito de imagem RODRIGO NUNES\/MS<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Em sua tese de mestrado em Fortaleza, a enfermeira Ana Rita Paulo Cardoso analisou 175 casos de gr\u00e1vidas que tiveram beb\u00eas com s\u00edfilis cong\u00eanita. Chamou aten\u00e7\u00e3o da pesquisadora o fato de que, mesmo quando o diagn\u00f3stico da s\u00edfilis na gestante ocorria durante o pr\u00e9-natal, \u00e9 poss\u00edvel que a maioria dos testes tenham sido aplicados tarde demais, considerando que a maioria dos relat\u00f3rios de notifica\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a foi feito durante o segundo e terceiro trimestres da gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Estudos mostram a import\u00e2ncia de prever atendimento pr\u00e9-natal de qualidade com diagn\u00f3stico precoce em gr\u00e1vidas, e destacam que a evolu\u00e7\u00e3o inadequada do tratamento dado \u00e0 m\u00e3e t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com a mortalidade das crian\u00e7as&#8221;, diz o estudo de Cardoso.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Vergonha, tabu e exames atrasados<\/h2>\n<p>Os casos no Brasil s\u00e3o, provavelmente, subnotificados. Nos registros oficiais, a informa\u00e7\u00e3o de que uma crian\u00e7a morreu por s\u00edfilis s\u00f3 \u00e9 registrada quando o m\u00e9dico escreve no obitu\u00e1rio, o que muitas vezes n\u00e3o acontece a pedido da pr\u00f3pria fam\u00edlia, diz a pesquisadora, que cita o exemplo do Cear\u00e1, onde realizou a pesquisa.<\/p>\n<p>&#8220;Para dizer &#8216;essa crian\u00e7a morreu por s\u00edfilis&#8217; \u00e9 preciso que o m\u00e9dico coloque isso no atestado de \u00f3bito. E a maioria das vezes passa batido, coloca &#8216;causa desconhecida&#8217; para a morte. H\u00e1 resist\u00eancia, vergonha de falar, est\u00e3o cercadas de tabu. DST \u00e9 muito associada \u00e0 promiscuidade&#8221;, diz.<\/p>\n<p>O estudo explica que a s\u00edfilis pode ser transmitida ao beb\u00ea a partir da nona semana de gravidez, embora a transmiss\u00e3o seja mais frequente entre a 16\u00aa e a 28\u00aa semanas. \u00c9 fundamental que a evolu\u00e7\u00e3o do tratamento seja monitorada atentamente pelos m\u00e9dicos, para evitar poss\u00edveis reinfec\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Entre os principais problemas das consultas, a pesquisadora aponta testes realizados com atrasos e com resultados defasados; mulheres que abandonam o pr\u00e9-natal; falta de acompanhamento para chamar de volta as mulheres que abandonam o pr\u00e9-natal; dificuldades em trazer o parceiro e convenc\u00ea-lo a seguir o tratamento.<\/p>\n<p>&#8220;Podemos concluir que as mulheres gr\u00e1vidas e os rec\u00e9m-nascidos com s\u00edfilis cong\u00eanita n\u00e3o est\u00e3o recebendo tratamento adequado. Os rec\u00e9m-nascidos n\u00e3o recebem testes de rotina para investigar a neuros\u00edfilis, como \u00e9 a recomenda\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, e muitas mortes e abortos poderiam ter sido evitados com a administra\u00e7\u00e3o adequada.&#8221;<\/p>\n<p>A filha de Luisa j\u00e1 demonstra melhoras desde que come\u00e7ou o tratamento, conta a m\u00e3e. J\u00e1 est\u00e1 mais firme ao sentar, mas, com um ano de idade, ainda n\u00e3o d\u00e1 sinais de falar ou engatinhar. A menina fez exames mais precisos no dia 26 de julho para saber quais os efeitos neurol\u00f3gicos da s\u00edfilis cong\u00eanita, mas o resultado n\u00e3o saiu at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>&#8220;Eu ainda n\u00e3o sei se ela tem microcefalia porque estou esperando os exames, que n\u00e3o est\u00e3o prontos por falta de material aqui&#8221;, lamenta. &#8220;Me mandam ligar de 15 em 15 dias e ficar aguardando. Quando eu ligo, dizem: daqui a 15 dias a senhora liga novamente, da\u00ed eu ligo. Desde julho&#8221;.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a de Luisa \u00e9 conseguir respostas positivas sobre os pedidos de Bolsa Fam\u00edlia, que ela fez no m\u00eas passado, e do Benef\u00edcio de Presta\u00e7\u00e3o Continuada, sal\u00e1rio m\u00ednimo pago pelo governo federal para pessoas de baixa renda &#8220;com defici\u00eancia que apresentem impedimentos de longo prazo, de natureza f\u00edsica, mental, intelectual ou sensorial&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Tenho vontade de voltar a trabalhar, mas minha vida parou. Minha rotina \u00e9 toda dedicada a ela&#8221;, diz Luisa.<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Ligia Guimar\u00e3es e Paula Adamo Idoeta da<\/span><span class=\"byline__title\"> BBC News Brasil em S\u00e3o Paulo &#8211; dispon\u00edvel na internet 02\/11\/2019<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto esteve gr\u00e1vida de cada um de seus dois filhos \u2014 um menino que tem hoje 2 anos e uma menina de 1 \u2014 a alagoana Luisa (nome fict\u00edcio), 38 anos, precisou tomar um total de 21 inje\u00e7\u00f5es de benzetacil, antibi\u00f3tico da fam\u00edlia da penicilina. 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