{"id":43275,"date":"2019-12-24T02:24:28","date_gmt":"2019-12-24T05:24:28","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=43275"},"modified":"2019-12-24T08:28:51","modified_gmt":"2019-12-24T11:28:51","slug":"batom-na-cueca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2019\/12\/24\/batom-na-cueca\/","title":{"rendered":"&#8220;Batom na cueca&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Como se fosse hoje, recordo de uma fam\u00edlia conservadora, cuja filha adolescente \u201cespevitada\u201d, como se dizia na \u00e9poca, tinha permiss\u00e3o para namorar de dia (\u00e0 noite, os lobos s\u00e3o pardos). Certo dia, retornando da escola, a m\u00e3e zelosa reuniu os uniformes para lavanderia e se deparou com uma sujidade estranha na barra da saia, questionando a jovem sobre \u201caquilo\u201d. Numa resposta assertiva \u201cvai ver que \u00e9\u201d, nada al\u00e9m foi discutido e dito sobre o que poderia ser \u201caquilo\u201d. Naquele momento se instaurava uma d\u00favida pela desconfian\u00e7a sempre presente, pelas atitudes e comportamentos depreendidos e que, sem maiores alardes (o que seria bizarro), deixara de ser estranho pelo simples retrucar \u00e0quela acusa\u00e7\u00e3o maliciosa.<\/p>\n<p>Conclu\u00ed que, desde aquela \u00e9poca, afirma\u00e7\u00f5es ou respostas sem rodeios ou de quem n\u00e3o titubeia em explica\u00e7\u00f5es s\u00e3o normalmente aceitas, se n\u00e3o questionadas logo a seguir. No momento, continuamos a vivenciar esse comportamento na ilogicidade das mensagens, nas entrevistas e declara\u00e7\u00f5es oficiais.&nbsp;<\/p>\n<p>Centenas de afirma\u00e7\u00f5es absurdas t\u00eam sido veiculadas como verdades, ou simplesmente desditas, sobre os desmatamentos espont\u00e2neos, os brigadistas incendi\u00e1rios, as queimadas naturais, o desprezo a determinados estados nordestinos, as rejei\u00e7\u00f5es aos direitos humanos, \u00e0s pol\u00edticas de ci\u00eancia e tecnologia, os ataques aos programas educacionais, as desconfian\u00e7as sobre quaisquer dados oficiais, as acusa\u00e7\u00f5es infundadas sobre origem das manchas de \u00f3leo no litoral ou responsabiliza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica de culpados, os cortes de investimentos p\u00fablicos, a avers\u00e3o \u00e0 cultura, as amea\u00e7as sutis e subliminares \u00e0 democracia acompanhadas da dignifica\u00e7\u00e3o de algozes e exalta\u00e7\u00e3o aos tempos ditatoriais e suas regras de exce\u00e7\u00e3o, sempre soltadas irresponsavelmente ao l\u00e9u, sem refuta\u00e7\u00e3o, investiga\u00e7\u00e3o e que s\u00e3o aceitas jornalisticamente como banalidades, ou seja, sem maiores perplexidades, quando deveriam ser contestadas, contraditadas cientificamente, desmentidas ou juridicamente ilididas.<\/p>\n<p>A \u201cvaza jato\u201d, assim chamada a divulga\u00e7\u00e3o de conversas \u201cestranhas\u201d entre agentes da lei predispostos a combater a corrup\u00e7\u00e3o, autointitulados de grupo-tarefa, \u00e9 um exemplo de desvelamento de absurdos que s\u00e3o escanteados ao se afirmar \u201cna cara dura\u201d que o conte\u00fado, ou melhor, o teor das revela\u00e7\u00f5es (ditas \u201csupostas\u201d pela m\u00eddia corporativa) n\u00e3o pode ser considerado em se tratando de revela\u00e7\u00f5es obtidas de modo ilegal, sem autoriza\u00e7\u00f5es judiciais pertinentes, quando os pr\u00f3prios envolvidos nos vazamentos fizeram uso pol\u00edtico (lawfare) de \u201cescutas\u201d esp\u00farias de autoridades, obtendo resultados assemelhados, o que em qualquer pa\u00eds s\u00e9rio seria tratado como trai\u00e7\u00e3o de Estado. No entanto, entre n\u00f3s, desculpas cordiais por enganos casuais servem para reparar o malfeito.<br \/>\nQuando n\u00e3o, os fatos a descoberto levam ao indulto dos data venias pela impossibilidade de serem considerados, apesar de claros e incriminat\u00f3rios, e se dissimulam em respostas \u201caluadas\u201d, sem explica\u00e7\u00f5es como \u201co batom da cueca\u201d, aceitas pela sociedade como simples deslizes resultantes do preceito de que \u201cos fins justificam os meios\u201d, isto \u00e9, mesmo que por meios por vezes inescrupulosos para o atingimento de fins de conveni\u00eancia parcial e duvidosa, o que contraria o Estado Democr\u00e1tico de Direito.<\/p>\n<figure id=\"attachment_27745\" aria-describedby=\"caption-attachment-27745\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/IMG_8555.jpg\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-27745 size-medium\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/IMG_8555.jpg?resize=300%2C300\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/IMG_8555.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/IMG_8555.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/IMG_8555.jpg?resize=420%2C420&amp;ssl=1 420w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/IMG_8555.jpg?w=640&amp;ssl=1 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-27745\" class=\"wp-caption-text\">Luiz Fernando Mirault Pinto: F\u00edsico e administrador &#8211; pesquisador aposentado do Inmetro. lufer.mirault@gmail.com<\/figcaption><\/figure>\n<p>As cenas se repetem, s\u00e3o tratadas superficialmente, ou melhor, ocultadas pela simples \u201cretirada do sof\u00e1 da sala\u201d, solu\u00e7\u00e3o encontrada numa express\u00e3o de anedota popular em que se procura sanear os deslizes, esquecendo a narrativa, os comportamentos e as atitudes dos seus respons\u00e1veis ou autores dos enredos, transferindo-os a um objeto qualquer, facilmente esquecido ou descartado, como as desculpas seguidas da pr\u00e1tica contumaz de caixa dois admitida, tornando uma a\u00e7\u00e3o criminosa de r\u00e9u confesso numa trivialidade.&nbsp;<\/p>\n<p>Os fatos concretos tornam-se abstratos; a literalidade de textos \u00e9 interpretada em fun\u00e7\u00e3o de uma vantagem ou solu\u00e7\u00e3o conveniente; alega\u00e7\u00f5es e dela\u00e7\u00f5es n\u00e3o necessitam de provas desde que atendam \u00e0s convic\u00e7\u00f5es ou \u00e0s argumenta\u00e7\u00f5es; informa\u00e7\u00f5es sem lastro ou estudos, divulgadas como \u201cbal\u00e3o\u201d para inferir a opini\u00e3o p\u00fablica e que influem no \u201chumor econ\u00f4mico\u201d e na estabilidade do mercado, e quem sabe (?) patrocinando ganhos nas varia\u00e7\u00f5es da moeda daqueles que t\u00eam a responsabilidade de guardar sigilo sobre informa\u00e7\u00f5es privilegiadas. Vamos nos acostumando \u00e0s respostas afirmativas ou negativas com: \u201c\u00c9 isso a\u00ed bicho\u201d, ou \u201cn\u00e3o estou nem a\u00ed\u201d<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Luiz Fernando Mirault Pinto\/Correio do Estado \u2013 dispon\u00edvel na internet 24\/12\/2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como se fosse hoje, recordo de uma fam\u00edlia conservadora, cuja filha adolescente \u201cespevitada\u201d, como se dizia na \u00e9poca, tinha permiss\u00e3o para namorar de dia (\u00e0 noite, os lobos s\u00e3o pardos). 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