{"id":43445,"date":"2020-01-02T01:29:17","date_gmt":"2020-01-02T04:29:17","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=43445"},"modified":"2020-01-01T10:41:56","modified_gmt":"2020-01-01T13:41:56","slug":"como-jovens-que-nasceram-nos-primeiros-minutos-do-ano-2000-chegam-a-2020","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/01\/02\/como-jovens-que-nasceram-nos-primeiros-minutos-do-ano-2000-chegam-a-2020\/","title":{"rendered":"Como jovens que nasceram nos primeiros minutos do ano 2000 chegam a 2020"},"content":{"rendered":"<div class=\"byline\">Maria Luiza Schubert a princ\u00edpio viria \u00e0 luz dez dias depois, mas sua m\u00e3e sentiu contra\u00e7\u00f5es enquanto preparava a festa de Ano Novo e acabou que todos os convidados foram parar na maternidade, em S\u00e3o Paulo.&nbsp;<\/div>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<p>O nascimento, ocorrido justamente \u00e0 meia-noite, era aguardado ali tamb\u00e9m por jornalistas em busca do primeiro beb\u00ea do ano 2000 na cidade e chegou a ser transmitido ao vivo na TV, em meio a imagens de shows e queimas de fogos. &#8220;\u00c9 um espet\u00e1culo de vida que nos enche de emo\u00e7\u00e3o&#8221;, resumiu o apresentador Jos\u00e9 Luiz Datena, \u00e0 \u00e9poca, da Record.<\/p>\n<p>Seis minutos depois, Thiago de Almeida nascia a mais de 400 km dali, tamb\u00e9m bagun\u00e7ando planos de R\u00e9veillon. Era o primeiro a nascer em Curitiba naquele ano, o que lhe rendeu o apelido de &#8220;beb\u00ea do bug&#8221; \u2014 havia um temor global em torno dos rel\u00f3gios de computadores na virada do ano.<\/p>\n<p>Naquele janeiro de 2000, quase 8 mil crian\u00e7as nasceram vivas por dia no Brasil, em m\u00e9dia, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE).<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8661\/production\/_110310443_datena.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8661\/production\/_110310443_datena.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Datena na transmiss\u00e3o da virada do ano 2000 na Record\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Datena na transmiss\u00e3o da virada do ano 2000 na Record. Nascimento de Maria Luiza foi transmitido ao vivo durante R\u00e9veillon de 1999 para 2000. Direito de imagem REPRODU\u00c7\u00c3O<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Desde ent\u00e3o, a gera\u00e7\u00e3o de Maria Luiza e Thiago, conhecida tamb\u00e9m como Z (hoje com idades em torno de 10 e 24 anos), viu o Brasil ampliar o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o dos jovens, viver per\u00edodos de bonan\u00e7a e recess\u00e3o e enfrentar explos\u00e3o da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Durante a inf\u00e2ncia e o in\u00edcio da adolesc\u00eancia deles, o pa\u00eds vivia uma \u00e9poca de crescimento econ\u00f4mico e avan\u00e7os sociais. No fim da adolesc\u00eancia e in\u00edcio da vida adulta, por\u00e9m, o Brasil come\u00e7ou a enfrentar per\u00edodo de crise econ\u00f4mica, com piora do desemprego e do acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para estudiosos, os jovens, como os nascidos no primeiro dia de 2000, s\u00e3o os mais atingidos pelas dificuldades que o Brasil tem enfrentado nos \u00faltimos cinco anos, principalmente a falta de vagas de trabalho e as mortes violentas. Em contrapartida, fazem parte da gera\u00e7\u00e3o que mais teve oportunidades de estudos.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Os anos 2000<\/h2>\n<p>Apesar de toda a expectativa em torno do ano 2000, o terceiro mil\u00eanio e o s\u00e9culo 21 s\u00f3 come\u00e7ariam, de fato, em 2001. Mas a data redonda e o eventual bug do mil\u00eanio marcaram aquela virada de ano.<\/p>\n<p>Estimava-se que uma falha de programa\u00e7\u00e3o poderia levar computadores ao redor do mundo a &#8220;acharem&#8221; que depois de 1999 viria 1900, em raz\u00e3o das duas \u00faltimas casas num\u00e9ricas. Mas avi\u00f5es n\u00e3o ca\u00edram e contas de banco n\u00e3o desapareceram.<\/p>\n<p>Os zeros, por\u00e9m, interferiram no registro civil de Maria Luiza. &#8220;Meus pais contam que tiveram de registrar minha certid\u00e3o de nascimento como se eu tivesse nascido meia-noite e um, porque n\u00e3o poderiam colocar v\u00e1rios zeros.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 702px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1695F\/production\/_110311529_tatuagemmaria.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1695F\/production\/_110311529_tatuagemmaria.jpg?resize=696%2C870&#038;ssl=1\" alt=\"Tatuagem de Maria Luiza registra hor\u00e1rio de nascimento\" width=\"696\" height=\"870\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Tatuagem de Maria Luiza registra hor\u00e1rio de nascimento em 1\u00ba de janeiro de 2000. Direito de imagem ARQUIVO PESSOAL<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Tanto ela quanto Thiago dizem que a data de nascimento gera bastante desconfian\u00e7a alheia, e precisam mostrar documentos para provar.<\/p>\n<p>&#8220;Beb\u00ea do bug&#8221;, o jovem curitibano hoje ri da coincid\u00eancia de sua \u00e1rea de estudos envolver computadores.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>O Brasil do in\u00edcio dos anos 2000 apresentou melhoras em diferentes aspectos, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 d\u00e9cada de 1990 \u2014 marcada por per\u00edodos de instabilidade pol\u00edtica e econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Ainda assim, nos anos 1990, o Brasil tomou iniciativas para garantir a universaliza\u00e7\u00e3o do ensino fundamental e a diminui\u00e7\u00e3o do analfabetismo, conforme o estipulado pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988.<\/p>\n<p>A Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios de 2001 apontou que 12,4% da popula\u00e7\u00e3o brasileira acima dos 15 anos, ou 14,9 milh\u00f5es de pessoas, n\u00e3o sabia ler ou escrever. Em 2009, a fatia representava 9,7%, ou 14,1 milh\u00f5es de pessoas, e em 2018, eram 6,8%, ou 11,3 milh\u00f5es de brasileiros. A meta do pa\u00eds \u00e9 erradicar o analfabetismo at\u00e9 2024.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/D481\/production\/_110310445_maria03.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/D481\/production\/_110310445_maria03.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"foto de maria luiza\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Maria Luiza estudou em escolas particulares e hoje cursa Farm\u00e1cia na Universidade Federal Fluminense. Direito de imagem ARQUIVO PESSOAL<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>O Brasil tamb\u00e9m passou no per\u00edodo por uma forte expans\u00e3o do ensino superior. Houve a cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de financiamento estudantil, bolsas em institui\u00e7\u00f5es privadas, cotas sociais ou raciais, unifica\u00e7\u00e3o de processos seletivos, cria\u00e7\u00e3o de universidades e amplia\u00e7\u00e3o de vagas.<\/p>\n<p>No ano passado, 25% das pessoas de 18 a 24 anos frequentavam ou haviam completado curso superior \u2014 entretanto, a mudan\u00e7a de metodologia impede comparar esses dados com os de 2000, segundo o IBGE. A meta do pa\u00eds \u00e9 chegar ao patamar de 33%, tamb\u00e9m at\u00e9 2024.<\/p>\n<p>Para Marta Teresa Arretche, professora da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e autora de&nbsp;<i>Trajet\u00f3rias das Desigualdades &#8211; Como o Brasil Mudou nos \u00daltimos Cinquenta Anos<\/i>, &#8220;o Brasil progrediu nos \u00edndices de escolaridade ao longo dos \u00faltimos 20 anos, porque as taxas de matr\u00edculas aumentaram, mas n\u00e3o foi capaz de aumentar os n\u00edveis da qualidade da Educa\u00e7\u00e3o na mesma velocidade&#8221;.<\/p>\n<p>Tanto Maria Luiza Schubert quando Thiago de Almeida se beneficiaram de pol\u00edticas p\u00fablicas de ensino superior surgidas ao longo das vidas deles: ele passou por cotas destinadas a oriundos de escolas p\u00fablicas, e ela entrou numa universidade de outro Estado por meio do Sisu, que re\u00fane e distribui vagas a partir do desempenho dos alunos no Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio (Enem).<\/p>\n<p>Thiago sempre estudou em escolas p\u00fablicas. O jovem, que atualmente mora em Valinhos (SP), queria cursar Engenharia de Telecomunica\u00e7\u00f5es na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mas passou no vestibular apenas na segunda tentativa, ap\u00f3s fazer cursinho. Em sua opini\u00e3o, a forma\u00e7\u00e3o escolar que recebeu at\u00e9 ali n\u00e3o havia sido suficiente para prepar\u00e1-lo para passar no curso.<\/p>\n<p>Maria Luiza, que est\u00e1 no primeiro ano de Farm\u00e1cia, somente conseguiu uma vaga na Universidade Federal Fluminense (UFF) em raz\u00e3o do Sisu. Ela, que morava em S\u00e3o Paulo com a fam\u00edlia, n\u00e3o foi aprovada em universidades paulistas. Por isso, usou a nota no Enem para tentar uma vaga em outra regi\u00e3o.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/57EF\/production\/_110311522_thiago2.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/57EF\/production\/_110311522_thiago2.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"foto de thiago de almeida\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Image captionThiago trabalhou para pagar o cursinho pr\u00e9-vestibular que o levaria \u00e0 Unicamp. Direito de imagem ARQUIVO PESSOAL&nbsp;&nbsp;<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>&#8220;Eu queria estudar em uma universidade p\u00fablica. Como n\u00e3o passei nas de S\u00e3o Paulo, meus pais me disseram para optar por universidades que fossem mais pr\u00f3ximas de S\u00e3o Paulo, para que n\u00e3o ficasse muito longe deles. Optei pela UFF&#8221;, explica a jovem, que sempre estudou em escola particular.<\/p>\n<p>O pai de Maria Luiza \u00e9 empres\u00e1rio e a m\u00e3e, professora de ioga. Eles s\u00e3o os respons\u00e1veis por arcar com as despesas da filha em Niter\u00f3i. &#8220;Me incomoda saber que estou dando despesas, porque sei que se eles n\u00e3o estariam gastando tanto comigo se ainda estiv\u00e9ssemos morando juntos&#8221;, afirma a jovem.<\/p>\n<p>Na nova fase da vida, a estudante relata que a saudade que sente dos pais, que neste ano se mudaram para Sorocaba (SP), \u00e9 uma das maiores dificuldades. Ela os visita a cada dois meses. &#8220;Foi muito dif\u00edcil sair da casa deles, principalmente no come\u00e7o. Mas acabei me adaptando&#8221;, afirma ela, que mora em uma rep\u00fablica com outras seis jovens.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Desemprego piora entre os jovens<\/h2>\n<p>Chegar \u00e0 universidade n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de emprego garantido, mas pode levar a uma renda 2,5 vezes maior do que algu\u00e9m com ensino m\u00e9dio, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e o Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE, ou &#8220;clube dos pa\u00edses ricos&#8221;).<\/p>\n<p>Diferen\u00e7as metodol\u00f3gicas n\u00e3o permitem compara\u00e7\u00f5es entre as taxas de desemprego registradas em 2000 e 2019, segundo o IBGE, mas quem nasceu no pa\u00eds h\u00e1 19 anos viu a taxa de desemprego cair gradativamente por uma d\u00e9cada (2004-14) at\u00e9 o in\u00edcio da pior recess\u00e3o econ\u00f4mica desde 1989.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/A60F\/production\/_110311524_thiago3.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/A60F\/production\/_110311524_thiago3.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"foto de thiago quando era beb\u00ea\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Fam\u00edlia de Thiago mudou de Estado depois que o pai dele perdeu o emprego. Direito de imagem ARQUIVO PESSOAL&nbsp;<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Em 2010, o pai de Thiago foi demitido do posto de gerente de vendas em Curitiba. A fam\u00edlia chegou a enfrentar algumas dificuldades, mas havia mais postos abertos do que hoje e ele se recolocou relativamente r\u00e1pido em uma cidade no interior paulista, Valinhos, para onde mudou a fam\u00edlia inteira.<\/p>\n<p>Nessa crise econ\u00f4mica recente, um brasileiro que perdia o emprego demorava em m\u00e9dia cerca de oito meses para se recolocar \u2014 um m\u00eas a mais que no per\u00edodo pr\u00e9-crise. O pa\u00eds, que agora vive uma lenta retomada econ\u00f4mica, fechou o ano de 2018 com taxa de desocupa\u00e7\u00e3o de 12,3%, ou 12,8 milh\u00f5es de brasileiros.<\/p>\n<p>Uma caracter\u00edstica do desemprego no Brasil, desde d\u00e9cadas anteriores, \u00e9 atingir mais comumente os mais jovens. No terceiro semestre deste ano, 25,7% dos jovens de 18 a 24 anos estavam sem emprego, mais que o dobro do \u00edndice geral. Em novembro, o governo de Jair Bolsonaro criou um programa (Emprego Verde e Amarelo) para atacar esse flanco, ao reduzir a tributa\u00e7\u00e3o de empresas que contratarem trabalhadores de 18 a 29 anos no primeiro emprego.<\/p>\n<p>No fim de 2017, logo ap\u00f3s concluir o ensino m\u00e9dio, Thiago passou tr\u00eas meses em busca de um emprego. Ele conta que conseguiu uma vaga de vendedor em uma loja somente ap\u00f3s ser indicado por um conhecido, no come\u00e7o de 2018. Naquele ano, passou quase os 12 meses trabalhando. Grande parte do sal\u00e1rio que recebia era usada para pagar um cursinho pr\u00e9-vestibular. &#8220;Precisava trabalhar para que pudesse me preparar para conseguir uma vaga na Unicamp.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Eu trabalhava o dia inteiro, at\u00e9 as 18h. Depois, pegava um \u00f4nibus lotado para fazer o cursinho, que come\u00e7ava \u00e0s 19h. Era bem corrido. Ap\u00f3s a aula, chegava em casa e ficava at\u00e9 umas 2h da madrugada estudando, porque durante o trabalho n\u00e3o conseguia estudar&#8221;, relata.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/13E67\/production\/_110311518_maria05.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/13E67\/production\/_110311518_maria05.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"foto de maria luiza quando era beb\u00ea\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Como Thiago, Maria Luiza se beneficiou de pol\u00edticas educacionais surgidas durante suas vidas. Direito de imagem ARQUIVO PESSOAL<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Ele saiu do emprego um m\u00eas antes do Enem, conseguiu uma vaga na Unicamp e hoje se dedica integralmente \u00e0 universidade. Thiago conta que a conquista foi uma grande felicidade para a fam\u00edlia. O \u00fanico irm\u00e3o dele, cinco anos mais velho, cursa Engenharia Ambiental na mesma institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Thiago e o irm\u00e3o moram com o pai, que \u00e9 gerente de vendas, e com a m\u00e3e, que \u00e9 dona de casa. O patriarca \u00e9 o respons\u00e1vel pelo sustento da fam\u00edlia. Para ter uma renda pr\u00f3pria, Thiago, que anos atr\u00e1s fez curso t\u00e9cnico de Eletr\u00f4nica, faz pain\u00e9is luminosos junto com um amigo. Em geral, os servi\u00e7os s\u00e3o feitos pelo jovem quando h\u00e1 tempo livre na universidade. &#8220;Mas n\u00e3o s\u00e3o todos os meses em que aparece servi\u00e7o&#8221;, diz o estudante.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Viol\u00eancia mata mais os jovens<\/h2>\n<p>A falta de emprego e a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica prec\u00e1ria se refletem no aumento da viol\u00eancia, segundo a professora Marta Teresa Arretche, da USP.<\/p>\n<p>&#8220;No contexto da crise econ\u00f4mica, da expans\u00e3o da desigualdade e da pobreza, os jovens t\u00eam sido mais penalizados. Isso fornece espa\u00e7o para o crescimento do crime organizado, que se torna uma alternativa de ocupa\u00e7\u00e3o, pois oferece renda e ganhos r\u00e1pidos para os jovens menos qualificados.&#8221;<\/p>\n<p>Segundo o Atlas da Viol\u00eancia 2019, mapeamento das mortes violentas no pa\u00eds feito pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada) e pelo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP), o Brasil \u00e9 um dos pa\u00edses mais perigosos para os jovens.<\/p>\n<p>Foram registrados 65.602 homic\u00eddios em 2017. O n\u00famero equivale a 31,6 mortes para cada 100 mil habitantes \u2014 a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS) considera epid\u00eamicas taxas de homic\u00eddio superiores a 10 homic\u00eddios a cada 100 mil habitantes.<\/p>\n<p>Uma reportagem da BBC News Brasil de junho deste ano apontou que, se levarmos em conta apenas os dados da viol\u00eancia contra os jovens, o cen\u00e1rio se torna ainda mais preocupante: entre os homic\u00eddios no Brasil em 2017, mais da metade \u2014 ou 35.783 \u2014 vitimaram pessoas entre 15 a 29 anos, o que leva o Ipea e o FBSP a falarem em uma &#8220;juventude perdida por mortes precoces&#8221;.<\/p>\n<p>Considerando-se apenas essa faixa et\u00e1ria, a taxa brasileira de homic\u00eddios por 100 mil habitantes sobe para 69,9. \u00c9 equivalente \u00e0 taxa de homic\u00eddios (70) que o Haiti, pa\u00eds mais pobre das Am\u00e9ricas, registrou nessa faixa et\u00e1ria em 2015, segundo o dado mais recente da OMS.<\/p>\n<p>H\u00e1 riscos tamb\u00e9m para os jovens no tr\u00e2nsito. Segundo a ONU, os acidentes representam a maior causa de morte de pessoas de 15 a 29 anos em todo o mundo. No Brasil, foram registradas 35,3 mil mortes no tr\u00e2nsito em 2017, dado mais recente, das quais 36,75% das v\u00edtimas eram homens de 20 a 39 anos.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">O futuro<\/h2>\n<p>Apesar de dados pouco animadores em rela\u00e7\u00e3o ao futuro, como os altos \u00edndices de desemprego e de viol\u00eancia, os jovens dizem tentar manter as esperan\u00e7as, ainda que esparsas. Para Arretche, um dos maiores desafios do Brasil atualmente \u00e9 melhorar a qualidade da educa\u00e7\u00e3o e a inclus\u00e3o dessa faixa et\u00e1ria no mercado de trabalho. &#8220;A juventude tem sido o setor da sociedade brasileira que tem sido mais atingido pela crise e \u00e9 importante inclu\u00ed-la&#8221;, diz a estudiosa.<\/p>\n<p>Thiago se mostra pouco esperan\u00e7oso em rela\u00e7\u00e3o ao futuro do Brasil. &#8220;Estou vendo que o pa\u00eds est\u00e1 regredindo em v\u00e1rios aspectos&#8221;, diz o rapaz. Ele se mostra contr\u00e1rio \u00e0 plataforma do presidente Bolsonaro, mas afirma n\u00e3o acompanhar muito as not\u00edcias sobre pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Maria Luiza tamb\u00e9m faz cr\u00edticas ao presidente, mas diz n\u00e3o ser muito atenta \u00e0 pol\u00edtica. &#8220;Ele se mostra, por meio dos coment\u00e1rios que faz, a favor de diferentes tipos de viol\u00eancia, como o machismo, o racismo a homofobia. Mas acredito que ele sozinho no poder n\u00e3o \u00e9 o problema, ele \u00e9 apenas a ponta do iceberg&#8221;, afirma.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F42F\/production\/_110311526_thiago4.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F42F\/production\/_110311526_thiago4.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"foto de thiago quando era crian\u00e7a\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Thiago sonha em trabalhar com automobilismo. Direito de imagem ARQUIVO PESSOAL<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Em meio \u00e0s reflex\u00f5es sobre o futuro do Brasil, os jovens nascidos em 1\u00ba de janeiro de 2000 fazem os planos para os seus pr\u00f3ximos anos. Thiago quer conhecer o mundo, se formar em engenharia e usar os conhecimentos para trabalhar com automobilismo. &#8220;Gosto muito dessa \u00e1rea. Uma das minhas atividades preferidas \u00e9 andar de kart&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Maria pretende seguir carreira acad\u00eamica. &#8220;Quero ser professora, conseguir estabilidade financeira, poder ajudar os meus pais no que eles precisarem, ajudar causas sociais e viajar bastante&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Uma caracter\u00edstica se assemelha entre os jovens nascidos em 2000 e as gera\u00e7\u00f5es anteriores: a vontade de mudar o mundo. &#8220;Dizem que os nascidos nos anos 2000 s\u00e3o muito novos e j\u00e1 querem dominar o mundo. Mas eu n\u00e3o vejo assim. Acho que a minha gera\u00e7\u00e3o enxerga formas para melhorar o planeta. O mundo passa por uma \u00e9poca meio estranha, onde h\u00e1 pessoas querendo reviver coisas antigas e ruins. Penso que minha gera\u00e7\u00e3o nasceu em tempos de mudan\u00e7as, temos vis\u00f5es diferentes dos mais velhos e podemos melhorar muita coisa&#8221;, afirma Thiago<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Vin\u00edcius Lemos d<\/span><span class=\"byline__title\">e Cuiab\u00e1 para BBC News Brasil &#8211; dispon\u00edvel na internet 02\/01\/2020<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Luiza Schubert a princ\u00edpio viria \u00e0 luz dez dias depois, mas sua m\u00e3e sentiu contra\u00e7\u00f5es enquanto preparava a festa de Ano Novo e acabou que todos os convidados foram parar na maternidade, em S\u00e3o Paulo.&nbsp; &nbsp; O nascimento, ocorrido justamente \u00e0 meia-noite, era aguardado ali tamb\u00e9m por jornalistas em busca do primeiro beb\u00ea do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":43446,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[135],"tags":[],"class_list":{"0":"post-43445","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-clipping"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/110310440_promo2000.jpg?fit=660%2C371&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43445","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43445"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43445\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/43446"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43445"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43445"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43445"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}