{"id":43779,"date":"2020-01-13T01:58:09","date_gmt":"2020-01-13T04:58:09","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=43779"},"modified":"2020-01-13T04:09:58","modified_gmt":"2020-01-13T07:09:58","slug":"nas-entrelinhas-o-ano-do-rato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/01\/13\/nas-entrelinhas-o-ano-do-rato\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O Ano do Rato"},"content":{"rendered":"<header class=\"entry-header\">\n<div class=\"meta-post\"><em><strong>\u201cO povo sentiu na carne, literalmente, a alta dos pre\u00e7os, mas tamb\u00e9m em outros itens da alimenta\u00e7\u00e3o, nos alugu\u00e9is, nos transportes, nos planos de sa\u00fade e na educa\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong><\/em><\/div>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"entry-content mgt-xlarge\">\n<p>No milenar calend\u00e1rio chin\u00eas, estamos no limiar do Ano do Rato, que come\u00e7a em 25 de janeiro e segue at\u00e9 11 de fevereiro de 2021, sob influ\u00eancia do metal. Segundo os astr\u00f3logos, isso deve motivar o empreendedorismo, facilitar os pequenos neg\u00f3cios, os investimentos, as aplica\u00e7\u00f5es e as aquisi\u00e7\u00f5es e promete um per\u00edodo de descobertas, agita\u00e7\u00e3o, busca por conhecimento, uso da intelig\u00eancia e abertura de novos caminhos, boas estrat\u00e9gias e solu\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas. Quando as pessoas recorrem ao hor\u00f3scopo chin\u00eas ou a qualquer outro recurso metaf\u00edsico para prever o pr\u00f3prio futuro, est\u00e3o administrando as suas expectativas, o que levou os economistas a estud\u00e1-las no comportamento da economia.<\/p>\n<p>Um desses economistas foi o norte-americano John Muth, que estudou engenharia industrial na Universidade de Washington de Saint Louis e economia matem\u00e1tica na Carnegie Tech de Pittisburg, na qual foi aluno de quatro pr\u00eamios Nobel: Franco Modigliani, John Nash, Herb Simon e Robert Lucas. Muth foi o primeiro a desenvolver uma teoria sobre expectativas racionais. Sua tese se baseia na ideia de que as pessoas s\u00e3o racionais e fazem previs\u00f5es usando todas as informa\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, n\u00e3o somente o hor\u00f3scopo ou o passado. Com isso criam expectativas racionais sobre o futuro e ajustam seu comportamento, o que faz muitas vezes as pol\u00edticas de governo se tornarem ineficazes, porque preveem os efeitos das suas tentativas de estimular a economia e avaliam se est\u00e3o funcionando ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Muth desenvolveu sua teoria no come\u00e7o dos anos 1960, quando as pol\u00edticas keynesianas esgotavam suas possibilidades nos Estados Unidos. Os governos promoviam \u201cchoques econ\u00f4micos\u201d e aumentavam os gastos para ampliar a demanda. Presumia-se que os sal\u00e1rios aumentariam em decorr\u00eancia dos incentivos \u00e0 economia, mas o aumento da demanda tamb\u00e9m implica aumento de pre\u00e7os, o que acaba anulando o aumento dos sal\u00e1rios. Num primeiro momento, as pessoas n\u00e3o se apercebem disso e t\u00eam expectativas positivas; quando descobrem a perda salarial, por\u00e9m, o des\u00e2nimo volta e o n\u00edvel de emprego regride ao que era antes. Isso se chama \u201cexpectativa adaptativa\u201d.<\/p>\n<p>A teoria das \u201cexpectativas racionais\u201d de John Muth partiu da premissa de que o povo n\u00e3o \u00e9 burro e n\u00e3o se deixa enganar por muito tempo. N\u00e3o tenta adivinhar os pre\u00e7os futuros com base nos anteriores apenas, prev\u00ea os pre\u00e7os com base nas demais informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis. Sabe que n\u00e3o pode considerar apenas o passado, porque isso pode custar mais caro. No Brasil, at\u00e9 a implanta\u00e7\u00e3o do Plano Real, que fez uma transi\u00e7\u00e3o programada de moeda sem gerar falsas expectativas, muitos \u201cchoques econ\u00f4micos\u201d fracassaram porque as pessoas sabiam das limita\u00e7\u00f5es dos pacotes criados para estimular a economia. As pessoas aprenderam que um n\u00edvel de emprego mais alto n\u00e3o se sustenta quando a infla\u00e7\u00e3o sobe, ainda mais num cen\u00e1rio de hiperinfla\u00e7\u00e3o como nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990. E que n\u00e3o adianta ca\u00e7ar o boi no pasto para a carne ficar mais barata, como se tentou no Plano Cruzado<\/p>\n<p><strong>A volta do drag\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Isso significa que as pessoas s\u00f3 tomam decis\u00f5es racionais? N\u00e3o, se fosse assim, a vida dos economistas e governantes seria muito mais f\u00e1cil. Existe uma economia comportamental, as pessoas costumam violar as suposi\u00e7\u00f5es-padr\u00e3o dos economistas quando as consequ\u00eancias s\u00e3o imprevis\u00edveis. Acabam influenciadas pelo modo como as solu\u00e7\u00f5es e propostas s\u00e3o apresentadas. Estudos psicol\u00f3gicos mostram que, contraditoriamente, as pessoas s\u00e3o avessas ao risco quando diante do ganho, mas se arriscam diante da perda iminente. Na pol\u00edtica, isso fica muito mais claro do que na economia, principalmente durante as elei\u00e7\u00f5es. Essa teoria comportamental, por exemplo, orienta todas as campanhas de marketing que adotam a \u201cestrat\u00e9gia do medo\u201d.<\/p>\n<p>No Brasil, o Ano do Rato come\u00e7ou com a volta do drag\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o, frustrando as expectativas, inclusive em rela\u00e7\u00e3o ao aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo, que teve perda de seu valor real antes mesmo de o trabalhador receb\u00ea-lo, pois o aumento de 4,1% (de R$ 998 para 1.039) ficou abaixo da infla\u00e7\u00e3o. Pressionado pelos pre\u00e7os das carnes, o \u00cdndice Nacional de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou 2019 em 4,31%, acima do centro da meta para o ano, que era de 4,25%. Trata-se da maior infla\u00e7\u00e3o anual desde 2016, quando o \u00edndice ficou em 6,29%. Em 2018, o \u00edndice foi de 3,75%.<\/p>\n<p>O mercado previa uma infla\u00e7\u00e3o de 4,13% em 2019, segundo a \u00faltima pesquisa Focus do Banco Central. Apesar de estar dentro da meta, o aumento da infla\u00e7\u00e3o desconstr\u00f3i a narrativa baluartista do ministro da Economia, Paulo Guedes, e frustra a onda de otimismo que operadores e analistas tentaram injetar na sociedade entre o Natal e o ano-novo. O povo sentiu na carne, literalmente, a alta dos pre\u00e7os, mas tamb\u00e9m em outros itens da alimenta\u00e7\u00e3o, nos alugu\u00e9is, nos transportes, nos planos de sa\u00fade e na educa\u00e7\u00e3o. A alta do d\u00f3lar (pol\u00edtica de Trump), o deficit fiscal (gastos p\u00fablicos) e a queda das exporta\u00e7\u00f5es (resultado da atual pol\u00edtica externa) est\u00e3o entre as causas do aumento de pre\u00e7os e revelam que o governo Bolsonaro ainda n\u00e3o fez o seu dever de casa. Se n\u00e3o fizer, a economia patina e o desemprego aumenta. E haver\u00e1 nova alta de juros.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito:&nbsp;<\/strong><strong>Luiz Carlos Azedo\/Correio Braziliense &#8211; dispon\u00edvel na internet 13\/01\/2020<\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO povo sentiu na carne, literalmente, a alta dos pre\u00e7os, mas tamb\u00e9m em outros itens da alimenta\u00e7\u00e3o, nos alugu\u00e9is, nos transportes, nos planos de sa\u00fade e na educa\u00e7\u00e3o\u201d &nbsp; No milenar calend\u00e1rio chin\u00eas, estamos no limiar do Ano do Rato, que come\u00e7a em 25 de janeiro e segue at\u00e9 11 de fevereiro de 2021, sob [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":43780,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[135],"tags":[],"class_list":{"0":"post-43779","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-clipping"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/transferir-4.jpg?fit=284%2C177&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43779","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43779"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43779\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/43780"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43779"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43779"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43779"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}