{"id":43970,"date":"2020-01-20T10:30:29","date_gmt":"2020-01-20T13:30:29","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=43970"},"modified":"2020-01-21T04:42:46","modified_gmt":"2020-01-21T07:42:46","slug":"fuga-de-cerebros-os-doutores-que-preferiram-deixar-o-brasil-para-continuar-pesquisas-em-outro-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/01\/20\/fuga-de-cerebros-os-doutores-que-preferiram-deixar-o-brasil-para-continuar-pesquisas-em-outro-pais\/","title":{"rendered":"Fuga de c\u00e9rebros: os doutores que preferiram deixar o Brasil para continuar pesquisas em outro pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<div class=\"story-body__inner\">\n<p class=\"story-body__introduction\">Os jovens pesquisadores brasileiros Bianca Ott Andrade, Eduardo Farias Sanches, Gustavo Requena Santos e Renata Leonhardt t\u00eam mais em comum do que apenas o pouco tempo de carreira e a nacionalidade.<\/p>\n<p>Todos s\u00e3o doutores recentes e resolveram deixar o pa\u00eds em busca de melhores oportunidades para desenvolver seu trabalho em um ambiente mais favor\u00e1vel \u00e0 ci\u00eancia. Eles seguem uma tend\u00eancia, n\u00e3o registrada nas estat\u00edsticas oficiais, mas que aparece nos muitos relatos de migra\u00e7\u00e3o de talentos para outros pa\u00edses que vem aumentando, conforme pesquisadores chefes de grupos no pa\u00eds e jovens que foram embora, ouvidos pela BBC Brasil. Uma esp\u00e9cie de di\u00e1spora de c\u00e9rebros, que vem preocupando a comunidade cient\u00edfica nacional, por causa das consequ\u00eancias disso para o desenvolvimento do Brasil.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 dados oficiais sobre esta fuga, porque os jovens doutores que deixam o pa\u00eds o fazem com bolsas das universidades ou centros de pesquisa do exterior que os contratam, e n\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es brasileiras, como a Capes ou o CNPq.<\/p>\n<p>A pesquisadora Ana Maria Carneiro, do N\u00facleo de Estudos de Pol\u00edticas P\u00fablicas (NEPP), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) est\u00e1 iniciando uma pesquisa pesquisa que tentar\u00e1 entender as trajet\u00f3rias de migra\u00e7\u00e3o da di\u00e1spora brasileira de Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m as motiva\u00e7\u00f5es e locais de inser\u00e7\u00e3o. &#8220;Entretanto, n\u00e3o h\u00e1 fontes de dados sistem\u00e1ticas que permitam mensurar o tamanho deste fen\u00f4meno, pois \u00e9 necess\u00e1rio ter informa\u00e7\u00f5es sobre a sa\u00edda, local de estabelecimento, tipo de inser\u00e7\u00e3o profissional e perfil sociodemogr\u00e1fico, especialmente a escolaridade&#8221;, explica.<\/p>\n<p>Est\u00e1 prevista no projeto a realiza\u00e7\u00e3o de um levantamento sobre o fen\u00f4meno, mas provavelmente n\u00e3o haver\u00e1 informa\u00e7\u00e3o quantitativa exaustiva que permita afirmar quantos brasileiros de alta qualifica\u00e7\u00e3o vivem no exterior e se houve um movimento de amplia\u00e7\u00e3o, diz. &#8220;Ser\u00e1 poss\u00edvel, no entanto, ter pistas qualitativas sobre a migra\u00e7\u00e3o de pessoas altamente qualificadas.&#8221;<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns n\u00fameros de outras fontes, entretanto, que podem lan\u00e7ar luz sobre o problema. Embora n\u00e3o discrimine por profiss\u00e3o ou ocupa\u00e7\u00e3o a sa\u00edda definitiva de brasileiros para a o exterior, a Receita Federal mostra que o n\u00famero passou 8.170 em 2011 para 23.271 em 2018, ou crescimento de 184%. Em 2019, at\u00e9 novembro, 22.549 pessoas fizeram declara\u00e7\u00e3o de sa\u00edda definitiva do pa\u00eds. O crescimento foi mais acentuado a partir de 2015, quando o n\u00famero foi de 14.981. Em 2016, pulou para 21.103, crescendo para 23.039 em 2017.<\/p>\n<p>Entre esses migrantes, est\u00e3o muitos cientistas, de acordo com o relato de acad\u00eamicos ouvidos pela BBC News Brasil.<\/p>\n<p>Segundo o ge\u00f3logo Atlas Correa Neto, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) &#8220;\u00e9 um dreno geral&#8221;, que inclui doutores mais antigos al\u00e9m de candidatos ao mestrado e tamb\u00e9m ao doutorado. N\u00e3o se trata apenas de pessoas indo para realizar um curso, uma especializa\u00e7\u00e3o ou realizar um projeto de pesquisa.<\/p>\n<p>&#8220;Trata-se de sa\u00edda em definitivo&#8221;, diz. &#8220;Quem tem possibilidade est\u00e1 indo, mesmo sem manter a ocupa\u00e7\u00e3o de cientista. Esse movimento n\u00e3o se restringe \u00e0 \u00e1rea tecnol\u00f3gica e tamb\u00e9m afeta as ci\u00eancias sociais. Ali\u00e1s, se eu pudesse, se tivesse condi\u00e7\u00f5es financeiras e sociais adequadas, iria embora tamb\u00e9m.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Debandada em \u00e1reas tecnol\u00f3gicas<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12804\/production\/_110508757_biancaottandrade2-emumareadecampomanejadacomfogo-precribedfire-pioneerspark-lincoln-ne..jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12804\/production\/_110508757_biancaottandrade2-emumareadecampomanejadacomfogo-precribedfire-pioneerspark-lincoln-ne..jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"bi\u00f3loga Bianca Ott Andrade em pesquisa de campo\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Temendo ficar desempregada, bi\u00f3loga Bianca Ott Andrade mudou-se para os Estados Unidos, onde faz p\u00f3s-doutorado na Universidade do Nebraska-Lincoln. Direito de imagem ARQUIVO PESSOAL<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>De acordo com o pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Lu\u00eds da Cunha Lamb, que atualmente \u00e9 secret\u00e1rio de Inova\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia do seu Estado, o fen\u00f4meno \u00e9 mais intenso nas \u00e1reas que ele chama de &#8220;portadoras de futuro e com impacto econ\u00f4mico vis\u00edvel&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Notadamente em ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o, algumas \u00e1reas das engenharias, biotecnologia e medicina, por exemplo&#8221;, diz. &#8220;Em particular, com o crescimento e o impacto da intelig\u00eancia artificial em todas as atividades econ\u00f4micas, os profissionais desta \u00e1rea t\u00eam oportunidades no mundo inteiro. Estamos perdendo jovens em \u00e1reas cient\u00edficas, que s\u00e3o portadoras de futuro. Mundo afora, dominar setores como computa\u00e7\u00e3o, estat\u00edstica e matem\u00e1tica tem muito valor no mercado.&#8221;<\/p>\n<p>O bi\u00f3logo Glauco Machado, do Instituto de Bioci\u00eancias da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), tamb\u00e9m enumera algumas raz\u00f5es pelas quais a sa\u00edda de pesquisadores est\u00e1 ocorrendo.<\/p>\n<p>&#8220;Ela tem a ver com a redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de bolsas, o baixo valor das de mestrado e doutorado, que n\u00e3o s\u00e3o reajustadas h\u00e1 v\u00e1rios anos, e o pessimismo em rela\u00e7\u00e3o a uma futura contrata\u00e7\u00e3o \u2014 especialmente para as \u00e1reas em que o principal empregador \u00e9 a pr\u00f3pria academia -, que \u00e9 fruto da recess\u00e3o econ\u00f4mica que aflige o pa\u00eds h\u00e1 pelo menos cinco anos&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Em nota, a Capes informou que h\u00e1 7.699 bolsas congeladas e um total de 87.018 bolsas ativas. O CNPq, por sua vez, suspendeu em agosto, 4,5 mil bolsas que n\u00e3o estavam sendo usadas, segundo a institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele acrescenta que, ao mesmo tempo, \u00e9 importante olhar para o que est\u00e1 acontecendo fora do Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;V\u00e1rias universidades no exterior est\u00e3o criando programas de atra\u00e7\u00e3o de talentos internacionais&#8221;, diz.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso, por exemplo, das universidades de Genebra, na Su\u00ed\u00e7a, e Saskatchewan, no Canad\u00e1.<\/p>\n<p>&#8220;O investimento em pesquisa e tecnologia tem crescido em v\u00e1rios pa\u00edses desenvolvidos e as oportunidades de bolsas e eventualmente trabalho em algumas \u00e1reas s\u00e3o maiores no exterior do que aqui. Portanto, sair do pa\u00eds \u00e9 algo bastante atrativo para um profissional no in\u00edcio de sua forma\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Eduardo Farias Sanches, de 39 anos, que o diga. Ele considera que teve sorte de receber um convite para ir embora em um momento oportuno, &#8220;devido ao incessante ataque do governo federal \u00e0s universidades (especialmente as p\u00fablicas) e o corte de despesa em pesquisa e desenvolvimento, o que \u00e9 uma l\u00e1stima para a nova gera\u00e7\u00e3o de pesquisadores que, assim como eu, est\u00e1 tentando se firmar no meio cient\u00edfico&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Fico muito triste com essa situa\u00e7\u00e3o, ao ver que muitos bons pesquisadores n\u00e3o ter\u00e3o um horizonte razo\u00e1vel no Brasil&#8221;, lamenta. &#8220;Infelizmente para o pa\u00eds, a tend\u00eancia \u00e9 essa debandada aumentar&#8221;.<\/p>\n<p>Graduado em Fisioterapia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), em 2007, com mestrado (2014) e doutorado (2015) na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Sanches foi contemplado com uma bolsa de excel\u00eancia do governo su\u00ed\u00e7o, para desenvolver um projeto de pesquisa na Universidade de Genebra com dura\u00e7\u00e3o de um ano.<\/p>\n<p>Depois desse per\u00edodo, foi convidado por seu chefe, St\u00e9phane Sizonenko, a permanecer l\u00e1, mas optou por retornar ao Brasil, onde tinha compromisso com seu antigo orientador. Ficou dois anos aqui, per\u00edodo em que o convite anterior para retornar a Su\u00ed\u00e7a foi refeito. Dessa vez, ele aceitou e voltou para l\u00e1, em setembro de 2019.<\/p>\n<p>Pesou na escolha a possibilidade de melhores sal\u00e1rios. &#8220;Aqui na Su\u00ed\u00e7a, al\u00e9m de ser levada muito a s\u00e9rio, a pesquisa cient\u00edfica \u00e9 considerada profiss\u00e3o, ou seja, contribuo com impostos e tenho direito a aposentadoria&#8221;, conta.<\/p>\n<p>&#8220;Al\u00e9m disso, h\u00e1 melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho, que s\u00e3o inegavelmente \u00f3timos atrativos a deixar o meu pa\u00eds. No Brasil, a ci\u00eancia e a cultura n\u00e3o s\u00e3o estimuladas e a inser\u00e7\u00e3o de pessoas altamente capacitadas no mercado de trabalho, por n\u00e3o haver incentivo \u00e0 pesquisa e desenvolvimento, se torna muito dif\u00edcil. \u00c9 triste admitir que seremos uma na\u00e7\u00e3o meramente exportadora de commodities e importadores de tecnologia de ponta.&#8221;<\/p>\n<p>Procurados pela reportagem, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e a Casa Civil da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica disseram que quem poderia comentar o tema era a Capes, que, em nota, respondeu:<\/p>\n<p>&#8220;A Capes aumentou em 9,1% o seu or\u00e7amento de 2018 para 2019, que subiu de R$ 3,84 bilh\u00f5es para R$ 4,19 bilh\u00f5es. Atualmente, h\u00e1 95,4 mil bolsistas no Pa\u00eds e 8,7 mil no exterior. Tamb\u00e9m foram lan\u00e7ados 21 editais de coopera\u00e7\u00e3o internacional e mais R$ 80 milh\u00f5es para pesquisas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o na Amaz\u00f4nia Legal, al\u00e9m de 1.800 bolsas que auxiliam no desenvolvimento regional. Para 2020, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o busca meios para recompor o or\u00e7amento com outras a\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias. Nenhuma bolsa ser\u00e1 cortada e todos os programas da CAPES ser\u00e3o mantidos.&#8221;<\/p>\n<p>O CNPq, por sua vez, respondeu, tamb\u00e9m por meio de nota:<\/p>\n<p>&#8220;O \u00eaxodo dos pesquisadores brasileiro para outros pa\u00edses \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o, que norteia uma s\u00e9rie de iniciativas que o CNPq tem fomentado para aperfei\u00e7oar e ampliar mecanismos de fixa\u00e7\u00e3o de nossos profissionais da ci\u00eancia e tecnologia. Dentro das limita\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias e legais que se aplicam ao CNPq, a ag\u00eancia investe, por exemplo, em programas que, em parceria tanto com institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas quanto a iniciativa privada, incentivam a realiza\u00e7\u00e3o de projetos de pesquisa cient\u00edfica, tecnol\u00f3gica e de inova\u00e7\u00e3o dentro de empresas e ind\u00fastrias.<\/p>\n<p>O objetivo \u00e9, al\u00e9m de contribuir com a forma\u00e7\u00e3o de recursos humanos mais qualificados, garantir empregabilidade dos pesquisadores. Importante ressaltar que em pa\u00edses como Jap\u00e3o, Coreia do Sul, Israel, EUA e China, mais de 60% do total de seus pesquisadores est\u00e3o alocados em empresas, segundo dados de 2018 da OCDE. No Brasil, esse percentual \u00e9 de apenas 18%.&#8221;<\/p>\n<p>Procurado pela BBC News Brasil, o MCTIC n\u00e3o retornou a solicita\u00e7\u00e3o at\u00e9 a conclus\u00e3o desta reportagem.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Medo do desemprego ou de interrup\u00e7\u00e3o das bolsas<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/17624\/production\/_110508759_foto-renataleonhardt1-1.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/17624\/production\/_110508759_foto-renataleonhardt1-1.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Renata Leonhardt\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Ge\u00f3loga formada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Renata Leonhardt recebeu uma bolsa da Universidade de Saskatchewan, uma das 15 melhores universidades do Canad\u00e1 em pesquisa. Direito de imagem ARQUIVO PESSOAL<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Bem mais jovem, com 23 anos e cursando um mestrado, a ge\u00f3loga Renata Leonhardt, formada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e com est\u00e1gio em empresas do setor petrol\u00edfero, igualmente partiu do Brasil em busca de melhores oportunidades e sal\u00e1rios. Ela recebeu uma bolsa da Universidade de Saskatchewan, uma das 15 melhores universidades do Canad\u00e1 em pesquisa.<\/p>\n<p>O medo de ficar desempregada depois de formada foi outro motivo que a levou a ir embora.<\/p>\n<p>&#8220;At\u00e9 pouco tempo antes de me formar, o setor de \u00f3leo e g\u00e1s ainda estava na expectativa de se recuperar da \u00faltima crise&#8221;, diz Renata. &#8220;Mas depois, as oportunidades na minha \u00e1rea ficaram um tanto escassas, mesmo para rec\u00e9m-formados que haviam estagiado anteriormente e buscavam contrata\u00e7\u00e3o, como era o meu caso.&#8221;<\/p>\n<p>O atual cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro tamb\u00e9m foi levado em conta por Renata em sua decis\u00e3o. &#8220;Ele n\u00e3o est\u00e1 muito favor\u00e1vel para a ci\u00eancia&#8221;, explica. &#8220;Eu temia, por exemplo, ficar sem bolsa no meio do curso \u2014 algo que era crucial para que eu continuasse a pesquisa.&#8221;<\/p>\n<p>Em agosto, o CNPq chegou a anunciar que havia risco de n\u00e3o pagamento dos seus mais de 80 mil bolsistas a partir de outubro. Isso n\u00e3o ocorreu, no entanto. O governo conseguiu cumprir o compromisso.<\/p>\n<p>Essas tamb\u00e9m foram algumas das raz\u00f5es da bi\u00f3loga Bianca Ott Andrade, formada pela Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR), para se mudar para o exterior, no caso, Estados Unidos, onde faz p\u00f3s-doutorado, na Universidade do Nebraska-Lincoln.<\/p>\n<p>&#8220;No Brasil, eu tinha uma bolsa de pesquisadora de p\u00f3s-doutorado, que ia se encerrar no final de 2019, mas havia grandes chances de ficar desempregada&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, contribuiu para a decis\u00e3o de Bianca a atua\u00e7\u00e3o do atual governo nas \u00e1reas de ci\u00eancia e educa\u00e7\u00e3o, com menos incentivo ao ensino superior e a pol\u00edticas ambientais.<\/p>\n<p>&#8220;Eu trabalho com ci\u00eancia e educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 isso o que eu amo, \u00e9 o que eu sei fazer. Sinto que n\u00e3o tem espa\u00e7o pra mim, pelo menos n\u00e3o agora. Decidi dar um tempo para minha cabe\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>No caso de Gustavo Requena Santos, raz\u00f5es pessoais e profissionais se somaram para que ele decidisse se mudar para o exterior.<\/p>\n<p>&#8220;Sou casado com um americano e no final da minha bolsa de p\u00f3s-doutorado na USP, em meados de 2017, ele obteve uma oferta de trabalho para voltar aos EUA e decidimos nos mudar&#8221;, conta.<\/p>\n<p>&#8220;Entretanto esta n\u00e3o foi a maior raz\u00e3o pela qual sa\u00edmos do Brasil. Foi uma oportunidade para mudarmos para um local com melhores condi\u00e7\u00f5es e perspectivas para o futuro.&#8221;<\/p>\n<p>Ele diz ainda que, como profissional, apesar de quase 10 anos de experi\u00eancia em pesquisa, se sentia desvalorizado, sem benef\u00edcios ou v\u00ednculo empregat\u00edcio. &#8220;O cen\u00e1rio ficou insustent\u00e1vel&#8221;, explica. &#8220;Por isso, resolvi me mudar.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Menos valor para a economia<\/h2>\n<p>Seja qual for o motivo de cada um para ir embora, o certo \u00e9 que o Brasil est\u00e1 perdendo jovens doutores, quando o n\u00famero deles, em qualquer idade, j\u00e1 \u00e9 menor que a m\u00e9dia internacional. De acordo com dados da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE), apenas 0,2% da popula\u00e7\u00e3o brasileira possui doutorado, enquanto a m\u00e9dia dos pa\u00edses pertencentes \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o e de 1,1%.<\/p>\n<p>Segundo dados do CNPq, o Brasil tem hoje 7,6 doutores por 100 mil habitantes, \u00edndice que est\u00e1 estabilizado.<\/p>\n<p>&#8220;Esse n\u00famero n\u00e3o \u00e9 suficiente, haja vista que pa\u00edses desenvolvidos t\u00eam um n\u00famero muito superior&#8221;, diz a bioqu\u00edmica \u00c2ngela Wise, da UFRGS, membro titular da Academia Mundial de Ci\u00eancias e secret\u00e1ria regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC) no Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>&#8220;Como \u00e9 o caso do Jap\u00e3o, que \u00e9 o pa\u00eds desenvolvido com o menor n\u00famero de doutores: 13 por 100 mil habitantes. O Reino Unido, por sua vez, tem atualmente 41, enquanto Portugal, 39,7; Alemanha, 34,4; e os Estados Unidos, mais de 20.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 muito pouco, segundo o engenheiro cartogr\u00e1fico Antonio Maria Garcia Tommaselli, do campus de Presidente Prudente, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), cujo grupo de pesquisa j\u00e1 perdeu tr\u00eas doutores para institui\u00e7\u00f5es europeias.<\/p>\n<p>&#8220;Para um pa\u00eds com uma economia complexa como a do Brasil e que precisa agregar valor tecnol\u00f3gico aos seus produtos, em vez de apenas exportar mat\u00e9rias-primas, o ideal seria dobrar ou triplicar o atual n\u00famero de doutores&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Apesar de ver aspectos positivos na di\u00e1spora, no c\u00f4mputo geral, Tommaselli a considera prejudicial ao pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;O lado positivo \u00e9 que ela significa que formamos cientistas de classe internacional&#8221;, explica.<\/p>\n<p>&#8220;O dram\u00e1tico \u00e9 que estamos perdendo os melhores pesquisadores e que nos substituiriam no futuro, levando consigo todo o investimento feito com recursos p\u00fablicos e o conhecimento altamente especializado que eles det\u00eam. Um erro estrat\u00e9gico que ser\u00e1 sentido em alguns anos, com o apag\u00e3o cient\u00edfico em v\u00e1rias \u00e1reas&#8221;, ressalva.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. &#8220;O mais grave \u00e9 que o governo atual n\u00e3o tem qualquer pol\u00edtica para reter estes cientistas, ao contr\u00e1rio, entende como rem\u00e9dio reduzir a forma\u00e7\u00e3o de doutores&#8221;, critica Tommaselli.<\/p>\n<p>&#8220;Encontramos o mesmo cen\u00e1rio em v\u00e1rios grupos de pesquisa brasileiros de express\u00e3o internacional e as consequ\u00eancias futuras ser\u00e3o muito ruins para a economia, que se baseia em conhecimento&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p>Segundo Atlas, n\u00e3o haver\u00e1 renova\u00e7\u00e3o do quadro de pesquisadores e professores de n\u00edvel superior.<\/p>\n<p>&#8220;Ou, sendo menos pessimista, ela ser\u00e1 aqu\u00e9m da necess\u00e1ria&#8221;, diz. &#8220;Haver\u00e1 d\u00e9ficit de cientistas. E eles e os educadores ter\u00e3o menos conhecimento. Seremos piores. Sem investimentos, sem incentivos, ser\u00e1 feita ci\u00eancia de baixa qualidade, os avan\u00e7os ser\u00e3o p\u00edfios. Novas tecnologias n\u00e3o ser\u00e3o desenvolvidas, as j\u00e1 existentes n\u00e3o ser\u00e3o aperfei\u00e7oadas. Nos tornaremos ainda mais dependentes de outros pa\u00edses e de multinacionais em termos de ci\u00eancia, tecnologia e cultura.&#8221;<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Evanildo da Silveira de<\/span><span class=\"byline__title\"> S\u00e3o Paulo para a BBC News Brasil &#8211; dispon\u00edvel na internet 20\/01\/2020<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os jovens pesquisadores brasileiros Bianca Ott Andrade, Eduardo Farias Sanches, Gustavo Requena Santos e Renata Leonhardt t\u00eam mais em comum do que apenas o pouco tempo de carreira e a nacionalidade. 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