{"id":43978,"date":"2020-01-20T09:30:18","date_gmt":"2020-01-20T12:30:18","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=43978"},"modified":"2020-01-21T04:44:15","modified_gmt":"2020-01-21T07:44:15","slug":"de-bem-com-a-vida-fazia-faxinas-para-poder-estudar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/01\/20\/de-bem-com-a-vida-fazia-faxinas-para-poder-estudar\/","title":{"rendered":"De Bem com a Vida: &#8220;Fazia faxinas para poder estudar&#8221;"},"content":{"rendered":"<p class=\"story-body__introduction\"><strong>&#8220;Fazia faxinas para poder estudar&#8221;: a hist\u00f3ria da ex-empregada dom\u00e9stica que se tornou doutora<\/strong><\/p>\n<p class=\"story-body__introduction\">Dois meses atr\u00e1s, Simone Marasco, 34 anos, comemorou a conclus\u00e3o do doutorado.<\/p>\n<p>O fato fez com que ela relembrasse as dificuldades que enfrentou desde a inf\u00e2ncia para que pudesse estudar. Por cerca de oito anos, trabalhou como empregada dom\u00e9stica e faxineira e se dividiu entre os livros e itens de limpeza. Hoje, se orgulha da sua hist\u00f3ria de vida. Em relato \u00e0 BBC News Brasil, ela conta as dificuldades e humilha\u00e7\u00f5es que enfrentou at\u00e9 se tornar doutora.<\/p>\n<p>Abaixo, leia o relato da hist\u00f3ria de Simone:<\/p>\n<p>Durante a minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, eu s\u00f3 pensava em estudar para mudar de vida. Sou filha de uma costureira e de um pedreiro, que sequer completaram o ensino fundamental. Mor\u00e1vamos na periferia de Juiz de Fora, em Minas Gerais. Para ter dinheiro para comprar itens como materiais escolares, comecei a fazer diversos bicos desde cedo. Fui bab\u00e1, entreguei salgadinhos e fui servente de pedreiro para o meu pai.<\/p>\n<p>Quando terminei o ensino fundamental, deixei a minha escola na periferia para estudar em um col\u00e9gio p\u00fablico na regi\u00e3o central de Juiz de Fora. Mas havia um problema: eu n\u00e3o tinha dinheiro para pagar as passagens de \u00f4nibus para que pudesse me locomover diariamente ao novo col\u00e9gio.<\/p>\n<p>Os meus pais n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es para me ajudar no transporte escolar. Por isso, procurei um trabalho fixo. Assim, me tornei empregada dom\u00e9stica aos 14 anos, em uma casa pr\u00f3xima \u00e0 regi\u00e3o em que eu morava com a minha fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Passei a me dividir entre o trabalho com servi\u00e7os dom\u00e9sticos e os estudos. Para fazer atividades escolares, restavam somente as madrugadas.<\/p>\n<p>Fiz o primeiro e o segundo ano do ensino m\u00e9dio em uma escola p\u00fablica, na regi\u00e3o central de Juiz de Fora. Eu trabalhava no per\u00edodo da manh\u00e3 e da tarde. Sa\u00eda do servi\u00e7o e logo pegava o \u00f4nibus em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 escola. No terceiro ano, estudei em uma escola particular, porque o col\u00e9gio p\u00fablico onde eu estudava entrava muito em greve e eu queria ter uma boa prepara\u00e7\u00e3o para o vestibular daquele ano.<\/p>\n<p>Grande parte do meu sal\u00e1rio como empregada dom\u00e9stica passou a ser destinada \u00e0 mensalidade da escola. Apesar de ser a ca\u00e7ula entre os meus irm\u00e3os, fui a primeira a concluir o ensino m\u00e9dio. Para me preparar para o vestibular, usava quase todo o meu tempo livre, em meio ao trabalho e escola. No meu quarto, cortava folhas com f\u00f3rmulas importantes para que eu pudesse memorizar.<\/p>\n<p>Depois de tanta dedica\u00e7\u00e3o, fui aprovada no curso de Letras na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com habilita\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas e latim.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/20D4\/production\/_110540480_simone5.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/20D4\/production\/_110540480_simone5.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Simone (ao centro) junto com o irm\u00e3o, a sobrinha e a m\u00e3e\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Simone junto com o irm\u00e3o, a sobrinha e a m\u00e3e (j\u00e1 falecida): hoje doutora, ela afirma que sempre encarou os estudos como forma de mudar de vida. Direito de imagem ARQUIVO PESSOAL<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Acesso ao ensino superior<\/h2>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, o Brasil adotou pol\u00edticas p\u00fablicas de inclus\u00e3o no ensino superior &#8211; como as cotas para pessoas de baixa renda familiar, oriundos de escola p\u00fablica ou pardos e negros. Houve tamb\u00e9m as cria\u00e7\u00f5es de financiamento estudantil, como o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), e as concess\u00f5es de bolsas parciais ou integrais na rede privada, por meio do Programa Universidade para Todos (ProUni).<\/p>\n<p>Apesar das medidas, especialistas afirmam que o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o superior ainda \u00e9 para uma minoria no pa\u00eds. De acordo com levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), a popula\u00e7\u00e3o de baixa renda tem atraso escolar quatro vezes maior que as pessoas com rendimentos maiores.<\/p>\n<p>&#8220;Houve aumento no acesso ao ensino superior nas \u00faltimas d\u00e9cadas, com as pol\u00edticas de expans\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o superior e de a\u00e7\u00e3o afirmativa. Mas o percentual de alunos matriculados n\u00e3o \u00e9 distribu\u00eddo de maneira uniforme em termos de renda, cor e regi\u00e3o do pa\u00eds&#8221;, pontua a pesquisadora Rosana Heringer, doutora em Sociologia e professora da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).<\/p>\n<p>Os mais pobres s\u00e3o os que menos chegam ao ensino superior. Segundo Heringer, as raz\u00f5es para isso incluem desde a trajet\u00f3ria escolar, que muitas vezes tem um ensino fundamental e m\u00e9dio da pior qualidade, \u00e0 entrada precoce &#8211; ainda no in\u00edcio da adolesc\u00eancia &#8211; no mercado de trabalho.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">A universidade<\/h2>\n<p>Quando ingressei na universidade, ainda n\u00e3o haviam entrado em vigor pol\u00edticas p\u00fablicas de acesso ao ensino superior como as cotas para pessoas de baixa renda. Mesmo n\u00e3o tendo a oportunidade de recorrer \u00e0 cota na minha \u00e9poca, sei que \u00e9 uma medida muito necess\u00e1ria. \u00c9 como se fosse um paliativo at\u00e9 que a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica seja equiparada (entre escolas p\u00fablicas e privadas).<\/p>\n<p>Na universidade, me encantei pela literatura latina, principalmente pela mitologia greco-romana. Por isso, decidi que queria trabalhar, principalmente, com o latim.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 549px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6EF4\/production\/_110540482_simone7.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6EF4\/production\/_110540482_simone7.jpg?resize=549%2C549&#038;ssl=1\" alt=\"Simone durante a inf\u00e2ncia\" width=\"549\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Desde a inf\u00e2ncia, Simone era considerada uma aluna dedicada aos estudos. Direito de imagem ARQUIVO PESSOAL<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Durante a gradua\u00e7\u00e3o, minha rotina de aprendizado continuou a mesma do ensino m\u00e9dio: estudar durante a madrugada. Enquanto as pessoas liam os textos para as aulas durante o dia ou no trabalho, eu n\u00e3o poderia deixar o banheiro cheio de \u00e1gua ou parar outra atividade para ler. Ent\u00e3o, minha vida sempre foi estudar na madrugada. Dormia de quatro a seis horas por dia. Virar a noite sempre foi comum para mim.<\/p>\n<p>No come\u00e7o da gradua\u00e7\u00e3o, mudei de casa e passei a trabalhar com uma nova fam\u00edlia. Nesse novo trabalho, sofri muita humilha\u00e7\u00e3o. A av\u00f3 do meu patr\u00e3o guardava toda a comida do almo\u00e7o na geladeira, pegava um pote com o almo\u00e7o do dia anterior e dizia que eu deveria comer aquilo. Mesmo sobrando, ela n\u00e3o deixava que eu comesse a mesma comida que haviam almo\u00e7ado naquele dia.<\/p>\n<p>O meu prato, copo e talheres eram separados. Diziam que eu n\u00e3o poderia usar os mesmos itens da fam\u00edlia. Me sentia como uma pe\u00e7a da casa. Esse era um dos principais motivos para que eu quisesse deixar de ser empregada dom\u00e9stica o quanto antes. Passei pouco mais de um ano nessa casa.<\/p>\n<p>Pouco ap\u00f3s entrar na universidade, abandonei o servi\u00e7o fixo como dom\u00e9stica e me tornei diarista. Foi at\u00e9 mesmo uma forma para conciliar com a universidade, porque comecei a fazer algumas disciplinas durante a tarde.<\/p>\n<p>Eu fazia as di\u00e1rias nas casas de estudantes e de servidores da universidade. Um ia contanto para o outro sobre o meu trabalho e acabavam surgindo novos servi\u00e7os. Eu estipulava os dias e hor\u00e1rios em que poderia trabalhar, conforme as aulas de cada semestre.<\/p>\n<p>Os meus principais clientes eram universit\u00e1rios, que me pagavam para fazer faxinas em rep\u00fablicas. Era uma fun\u00e7\u00e3o, muitas vezes, complicada, porque alguns jovens n\u00e3o me respeitavam, eu recebia cantadas e chegaram a tentar me agarrar.<\/p>\n<p>Mesmo com dificuldades, nunca pensei em parar de fazer faxinas. Era a \u00fanica forma que eu tinha para comprar os materiais necess\u00e1rios para a universidade e pagar o meu pr\u00f3prio almo\u00e7o. Nem sempre eu tinha dinheiro para comer e, por isso, uma professora costumava me ajudar. Ela sabia das minhas dificuldades, ent\u00e3o me chamava para fazer faxinas e tamb\u00e9m me levava para almo\u00e7ar em sua casa. Um dos pontos positivos em ter sido diarista \u00e9 que conheci pessoas incr\u00edveis nesse per\u00edodo.<\/p>\n<p>Aos 21 anos, conclu\u00ed a gradua\u00e7\u00e3o. Ainda continuei trabalhando como diarista, pois estava desempregada. Na \u00e9poca, fiz um processo seletivo e fui aprovada no mestrado em estudos liter\u00e1rios, com foco na literatura latina, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/BD14\/production\/_110540484_simone4.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/BD14\/production\/_110540484_simone4.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Simone na apresenta\u00e7\u00e3o que marcou a conclus\u00e3o do doutorado\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Ap\u00f3s concluir doutorado, Simone quer se tornar professora de latim, mas afirma que h\u00e1 poucas oportunidades na \u00e1rea. Direito de imagem ARQUIVO PESSOAL<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Juntei dinheiro e me mudei para Belo Horizonte. Fiz o mestrado na UFMG por um ano. Na \u00e9poca, n\u00e3o consegui nenhum tipo de bolsa para me ajudar financeiramente. Por isso, precisei me dividir entre os estudos e algumas faxinas. Mas consegui poucos trabalhos como diarista naquela regi\u00e3o, pois conhecia poucas pessoas.<\/p>\n<p>Quando estava na metade desse mestrado, o pouco dinheiro que eu tinha foi levado durante um assalto. N\u00e3o tive condi\u00e7\u00f5es financeiras para me manter em Belo Horizonte e voltei para Juiz de Fora. Eu ainda planejava concluir o mestrado na capital, mas a minha orientadora da \u00e9poca me desestimulou. Ela me disse que eu deveria escolher entre trabalhar ou estudar, porque eu deveria me dedicar totalmente aos estudos. Eu expliquei que n\u00e3o tinha bolsa na universidade, ent\u00e3o precisava trabalhar, porque sen\u00e3o poderia at\u00e9 ficar sem comer. Mas ela n\u00e3o entendeu. Por fim, desisti desse primeiro mestrado.<\/p>\n<p>Nesse mesmo ano, me tornei professora substituta na UFJF. O contrato era de dois anos. A partir de ent\u00e3o, abandonei a fun\u00e7\u00e3o de diarista.<\/p>\n<p>O sal\u00e1rio como professora era quatro vezes maior do que o que eu ganhava com faxinas. Com o primeiro sal\u00e1rio, reformei o telhado da casa dos meus pais (hoje j\u00e1 falecidos). Chovia muito dentro de casa e ajud\u00e1-los. Para mim, isso foi a minha independ\u00eancia. Apesar de ter come\u00e7ado a trabalhar cedo, aquele momento foi a primeira vez em que vi que poderia fazer algo para ajudar meus pais.<\/p>\n<p>Comecei a namorar. Meu companheiro, que hoje \u00e9 meu marido, cursava f\u00edsica na UFJF. Ele passou em um concurso p\u00fablico para lecionar em Volta Redonda (RJ). Eu disse que me mudaria com ele somente se eu fosse aprovada e conseguisse bolsa em um mestrado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).<\/p>\n<p>Fiz a prova e fui selecionada para o mestrado na UFRJ, com bolsa. Me mudei para Volta Redonda com o meu companheiro. Em uma motocicleta, percorria quase diariamente os cerca de 130 quil\u00f4metros que separam Volta Redonda, onde mor\u00e1vamos, e a capital do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Quando conclu\u00ed o mestrado, logo comecei o doutorado em letras cl\u00e1ssicas, onde tamb\u00e9m consegui bolsa para me manter.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1497D\/production\/_105894348_short_grey_line_new-nc.png?resize=696%2C26&#038;ssl=1\" alt=\"Short presentational grey line\" width=\"696\" height=\"26\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/span><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>De acordo com a Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de N\u00edvel Superior (Capes), no Brasil havia, at\u00e9 o fim do ano passado, 131,6 mil pessoas matriculadas em mestrados e 114,8 mil matriculados em doutorados &#8211; os dados correspondem a diferentes \u00e1reas de estudos.<\/p>\n<p>Em 2019, segundo a Capes, foram destinadas 95 mil bolsas divididas entre mestrado (R$ 1,5 mil cada bolsa), doutorado (R$ 2,2 mil) e p\u00f3s-doutorado (R$ 4,1 mil) no Brasil.<\/p>\n<p>A Capes afirma que concede bolsas de estudo para estimular a &#8220;forma\u00e7\u00e3o de recursos humanos de alto n\u00edvel, consolidando assim os padr\u00f5es de excel\u00eancia imprescind\u00edveis ao desenvolvimento do Brasil.&#8221; Em 2019, a entidade anunciou contingenciamento de despesas e cortou mais de 11 mil bolsas de diferentes \u00e1reas. O fato causou revolta e especialistas disseram que traria graves preju\u00edzos \u00e0 pesquisa no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Posteriormente, a Capes anunciou gradativamente, ao longo do ano passado, a retomada das bolsas. No fim do ano, segundo a entidade, todas haviam sido retomadas, ap\u00f3s libera\u00e7\u00e3o total dos R$ 3, 98 bilh\u00f5es que eram aguardados para 2019.<\/p>\n<p>Diretora de avalia\u00e7\u00e3o da Capes, S\u00f4nia B\u00e1o ressalta que as bolsas s\u00e3o fundamentais para que muitos pesquisadores e estudantes consigam continuar com suas atividades. Apesar de n\u00e3o haver dados espec\u00edficos sobre o tema, ela afirma que nos \u00faltimos anos houve aumento no n\u00famero de pessoas com menor renda na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;As pol\u00edticas, atualmente, iniciam-se no acesso ao ensino superior uma vez que 50% das vagas da Universidades P\u00fablicas s\u00e3o destinadas aos estudantes provenientes de escolas p\u00fablicas (cotas sociais). Este \u00e9 um in\u00edcio para que a carreira acad\u00eamica possa ser seguida. No entanto, seguir a carreira acad\u00eamica envolve outros aspectos, onde destaco a paix\u00e3o pelo ensinar e fazer pesquisa&#8221;, afirma S\u00f4nia.<\/p>\n<p>Para as pessoas de baixa renda que n\u00e3o conseguem bolsas, muitas vezes torna-se imposs\u00edvel concluir uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, segundo estudiosos. Um dos principais motivos \u00e9 que essas \u00e1reas costumam exigir dedica\u00e7\u00e3o quase exclusiva do acad\u00eamico e podem impedi-lo de ter um emprego fixo. &#8220;Tive estudantes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em com rendas menores que tiveram dificuldades de acompanhar e concluir o curso, principalmente em fun\u00e7\u00e3o das dificuldades econ\u00f4micas&#8221;, declara Rosana Heringer.<\/p>\n<p>Depois de formados, um dos dilemas enfrentados por muitos que concluem o mestrado ou doutorado \u00e9 a busca por um emprego na \u00e1rea. &#8220;Hoje existe um maior acesso aos cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e, por consequ\u00eancia, um n\u00famero maior de concluintes. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel generalizar, pois em muitas \u00e1reas os rec\u00e9m mestres e rec\u00e9m doutores s\u00e3o demandados e h\u00e1 mais oportunidades. Mas, em outras \u00e1reas, onde h\u00e1 menor demanda por profissionais com esta qualifica\u00e7\u00e3o, \u00e9 mais dif\u00edcil para mestres e doutores conseguirem se inserir no mercado de trabalho em ocupa\u00e7\u00f5es correspondentes ao seu n\u00edvel de forma\u00e7\u00e3o&#8221;, explica Rosana Heringer.<\/p>\n<p>&#8220;Temos visto muitos doutores que terminam por trabalhar em atividades que exigem menor qualifica\u00e7\u00e3o, situa\u00e7\u00e3o relacionada tamb\u00e9m \u00e0 crise do mercado de trabalho brasileiro. Dada esta precariedade no mercado de trabalho acredito que para muitos profissionais a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais dif\u00edcil hoje&#8221;, acrescenta Heringer.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1497D\/production\/_105894348_short_grey_line_new-nc.png?resize=696%2C26&#038;ssl=1\" alt=\"Short presentational grey line\" width=\"696\" height=\"26\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F93C\/production\/_110540836_simone10.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Simone junto com a filha e o marido\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">ARQUIVO PESSOAL<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Simone, a filha e o marido: ela quer que a garota aprenda desde cedo sobre a import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;As bolsas foram fundamentais&#8217;<\/h2>\n<p>Em novembro passado, conclu\u00ed o doutorado. Somente terminei o mestrado e o doutorado porque tive bolsas. N\u00e3o conseguiria essa forma\u00e7\u00e3o se n\u00e3o fossem esses aux\u00edlios. N\u00e3o considero que minha hist\u00f3ria seja exemplo de meritocracia, pois sei que sou o que sou porque tive acesso a pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas para a educa\u00e7\u00e3o. Existiria meritocracia se todas as pessoas tivessem as mesmas oportunidades e o mesmo modo de vida.<\/p>\n<p>Entre as pessoas que tinham mesmo estilo de vida que o meu, poucas conseguiram concluir a gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Agora que conclu\u00ed o doutorado, estou em busca de um emprego como professora de latim. A grande dificuldade \u00e9 que n\u00e3o se d\u00e1 aula de latim em qualquer lugar. Mas seguirei tentando. Por\u00e9m, n\u00e3o descarto, daqui a algum tempo, se nada aparecer, atuar em outras \u00e1reas, talvez como professora de portugu\u00eas. Por enquanto, tenho administrado uma loja de produtos geeks em Volta Redonda, que \u00e9 do meu marido e um s\u00f3cio dele.<\/p>\n<p>Hoje me divido entre o trabalho na loja e os cuidados com a minha filha, de tr\u00eas anos. Quero que ela entenda a import\u00e2ncia do estudo e tenha uma inf\u00e2ncia mais tranquila que a minha. Porque quando eu era crian\u00e7a e adolescente, nunca tive tempo para grandes aspira\u00e7\u00f5es. S\u00f3 imaginava que o estudo era a \u00fanica forma de mudar a minha realidade.<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Vin\u00edcius Lemos d<\/span><span class=\"byline__title\">a BBC News Brasil em S\u00e3o Paulo &#8211; dispon\u00edvel na internet&nbsp; 20\/01\/2020<\/span><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Fazia faxinas para poder estudar&#8221;: a hist\u00f3ria da ex-empregada dom\u00e9stica que se tornou doutora Dois meses atr\u00e1s, Simone Marasco, 34 anos, comemorou a conclus\u00e3o do doutorado. O fato fez com que ela relembrasse as dificuldades que enfrentou desde a inf\u00e2ncia para que pudesse estudar. Por cerca de oito anos, trabalhou como empregada dom\u00e9stica e faxineira [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":43974,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[135],"tags":[],"class_list":{"0":"post-43978","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-clipping"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/110540477_simone2.jpg?fit=660%2C371&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43978","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43978"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43978\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/43974"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43978"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43978"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43978"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}