{"id":44977,"date":"2020-02-24T02:46:55","date_gmt":"2020-02-24T05:46:55","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=44977"},"modified":"2020-02-24T05:54:13","modified_gmt":"2020-02-24T08:54:13","slug":"a-luta-contra-os-fraudadores-de-cotas-raciais-nas-universidades-publicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/02\/24\/a-luta-contra-os-fraudadores-de-cotas-raciais-nas-universidades-publicas\/","title":{"rendered":"A luta contra os fraudadores de cotas raciais nas universidades p\u00fablicas"},"content":{"rendered":"<div class=\"story-body__inner\">\n<p class=\"story-body__introduction\">Loira, de cabelos lisos, com a pele branca e os olhos verdes, uma das estudantes aprovadas no curso de Qu\u00edmica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) justificou sua entrada pelo sistema de cotas raciais dizendo &#8220;se considerar parda&#8221; e ser de uma fam\u00edlia de negros.<\/p>\n<p>Outros alunos brancos, j\u00e1 avan\u00e7ados no curso de Medicina da Unicamp, faziam at\u00e9 deboche e contavam piadas para colegas sobre o fato de terem passado no vestibular se valendo das cotas \u2014 cujo objetivo \u00e9 reduzir a desigualdade racial.<\/p>\n<p>Negros ainda s\u00e3o sub-representados nas universidades p\u00fablicas brasileiras, compondo 50,3% dos alunos, apesar de corresponderem a 55,8% da popula\u00e7\u00e3o, segundo dados do IBGE em 2018.<\/p>\n<p>Diversas universidades p\u00fablicas est\u00e3o recebendo e investigando den\u00fancias sobre alunos que tentaram driblar o sistema.<\/p>\n<p>S\u00f3 na UFRJ j\u00e1 foram 280 den\u00fancias de poss\u00edveis fraudes nas cotas raciais desde a implanta\u00e7\u00e3o do sistema. Segundo a universidade, dos 186 j\u00e1 analisados, 96 foram considerados aptos a ocuparem as vagas reservadas para pretos, pardos e ind\u00edgenas (PPI).<\/p>\n<p>Na Universidade Estadual da Bahia, um aluno branco de cabelo ruivo entrou no curso de Medicina neste ano atrav\u00e9s das cotas \u2014 o que est\u00e1 sendo investigado.<\/p>\n<p>A USP investiga 41 den\u00fancias. A Unicamp desligou nove alunos e a Unesp expulsou 30 que tiveram as autodeclara\u00e7\u00f5es consideradas inv\u00e1lidas.<\/p>\n<p>As den\u00fancias s\u00e3o resultado de uma grande mobiliza\u00e7\u00e3o do movimento negro para identificar e combater fraudes nas cotas e evitar que haja abusos no direito, conquistado ap\u00f3s anos de luta.<\/p>\n<p>&#8220;A gente n\u00e3o queria estar discutindo isso, queria que existisse um bom senso e um respeito \u00e0 lei. Mas, como n\u00e3o existe, temos que recorrer a m\u00e9todos mais eficazes&#8221;, diz o advogado Lucas M\u00f3dolo, que criou com colegas um grupo de combate \u00e0 fraudes quando ainda era aluno de Direito da USP.<\/p>\n<p>&#8220;Quantos alunos negros tiveram o direito de estudar tolhido por culpa desses fraudadores?&#8221;, questiona frei Davi, da ONG Educafro, que fez den\u00fancias de fraudes em cotas para mais de 20 universidades.<\/p>\n<p>As reclama\u00e7\u00f5es chegaram at\u00e9 a entidade de diversas formas. &#8220;A gente garante total tranquilidade e anonimato para quem faz&#8221;, diz Davi.<\/p>\n<p>&#8220;Aconteceu muito de alunos da Educafro e outros alunos solid\u00e1rios, dentro de sala de aula, ouvirem coment\u00e1rios e deboches sobre pessoas fraudando as cotas&#8221;, conta.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1250\/production\/_110988640_gettyimages-1144287285.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1250\/production\/_110988640_gettyimages-1144287285.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Jovem olha com olhar preocupado algo em seu celular\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Movimento negro tem feito den\u00fancias para combater fraudes raciais. Direito de imagem GETTY IMAGES<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>M\u00f3dolo explica que o Comit\u00ea Antifraude da USP, criado por alunos e com car\u00e1ter extraoficial, n\u00e3o tem o objetivo de avaliar se algu\u00e9m pode ou n\u00e3o ser considerado pardo.<\/p>\n<p>&#8220;Somos um canal de recep\u00e7\u00e3o de den\u00fancias que depois repassamos para as faculdades&#8221;, afirma. &#8220;N\u00e3o temos como finalidade fazer essa avalia\u00e7\u00e3o, nem temos compet\u00eancia. O objetivo \u00e9 pressionar para que essa avalia\u00e7\u00e3o aconte\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Na USP nenhum fraudador foi expulso&#8221;, diz M\u00f3dolo. &#8220;Por causa da in\u00e9rcia da universidade, as fraudes t\u00eam sido usadas como argumento por grupos revisionistas para defender que n\u00e3o existam cotas.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Ainda existe a necessidade de reconhecer que a desigualdade racial \u00e9 um problema de racismo, n\u00e3o s\u00f3 um problema socioecon\u00f4mico.&#8221;<\/p>\n<p>Nas redes sociais, a hashtag #afroconveni\u00eancia tem sua sido usada para den\u00fanciar a pr\u00e1tica de brancos se dizerem afrodescendentes quando conv\u00e9m \u2014 para abusar de cotas, por exemplo \u2014, mas usarem os privil\u00e9gios de ser branco durante todo o resto do tempo. Diversos ativistas negros postaram fotos dizendo &#8220;Meu av\u00f4 \u00e9 branco, logo sou branco. Estranhou?&#8221; para refor\u00e7ar essa ideia.<\/p>\n<p>&#8220;O argumento do &#8216;tenho um av\u00f4 pardo&#8217; n\u00e3o faz sentido no Brasil, onde voc\u00ea \u00e9 julgado e sofre preconceito pelo fen\u00f3tipo&#8221;, diz \u00e0 BBC News Gislaine Silva, que tamb\u00e9m faz parte do Comit\u00ea Antifraude da USP.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s negros n\u00e3o vamos deixar que se use a universidade para beneficiar pessoas brancas desonestas&#8221;, diz Frei Davi.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Combate e preven\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>A USP foi uma das \u00faltimas universidades p\u00fablicas a implementar o sistema de cotas, em 2018. Para participar, \u00e9 preciso se declarar preto, pardo ou ind\u00edgena e optar pela op\u00e7\u00e3o de concorrer pelas cotas.<\/p>\n<p>A universidade n\u00e3o faz an\u00e1lise das autodeclara\u00e7\u00f5es feitas no vestibular, e n\u00e3o existe um grupo espec\u00edfico s\u00f3 para analisar den\u00fancias de fraude \u00e0 cotas raciais. Elas s\u00e3o avaliadas pela Comiss\u00e3o de Acompanhamento da Pol\u00edtica de Inclus\u00e3o da USP, a mesma que avalia quest\u00f5es socioecon\u00f4micas.<\/p>\n<p>O movimento negro defende que deveria existir um grupo para analisar as den\u00fancias e que haja n\u00e3o apenas combate, mas preven\u00e7\u00e3o \u00e0s fraudes.<\/p>\n<p>&#8220;A universidade j\u00e1 tinha que, desde o in\u00edcio, ter reconhecido a necessidade da preven\u00e7\u00e3o na entrada, de avaliar as declara\u00e7\u00f5es ap\u00f3s o vestibular&#8221;, diz M\u00f3dolo.<\/p>\n<p>Isso normalmente \u00e9 feito atrav\u00e9s da chamada heteroidentifica\u00e7\u00e3o, quando uma comiss\u00e3o avalia se a autodeclara\u00e7\u00e3o racial feita pela pessoa \u00e9 aut\u00eantica.<\/p>\n<p>Frei Davi defende que o processo seja sempre no ingresso, o que \u00e9 muito menos traum\u00e1tico para a pessoa e muito mais simples de ser resolvido do que desligar um aluno que j\u00e1 faz o curso h\u00e1 anos. &#8220;Todas as universidades justas, \u00e9ticas e respons\u00e1veis t\u00eam comit\u00ea preventivo&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do desligamento de 30 pessoas, a Unesp implantou um comit\u00ea de heteroidentifica\u00e7\u00e3o em 2017. A Unicamp tamb\u00e9m implantou um comit\u00ea de verifica\u00e7\u00e3o no ingresso.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/FCB0\/production\/_110988646_chu9d5gxeaaegu-.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/FCB0\/production\/_110988646_chu9d5gxeaaegu-.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Grupo de ativistas com cartazes de protesto\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">A hashtag #afroconveni\u00eancia tem sua sido usada para den\u00fanciar a pr\u00e1tica de brancos se dizerem afrodescendentes quando conv\u00e9m. Direito de imagem REPRODU\u00c7\u00c3O\/TWITTER<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>O pr\u00f3-reitor de gradua\u00e7\u00e3o da USP, Edmund Chada Baracat, diz que a quest\u00e3o \u00e9 de extrema import\u00e2ncia para a universidade, mas que o processo de avalia\u00e7\u00e3o das den\u00fancias leva tempo e que \u00e9 preciso &#8220;uma averigua\u00e7\u00e3o que seja respeitosa&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Esse processo \u00e9 um processo muito delicado, porque lida com pessoas, portanto temos que ser muito sensatos na avalia\u00e7\u00e3o&#8221;, diz Baracat.<\/p>\n<p>Ele afirma que, devido ao tamanho da universidade e ao grande n\u00famero de ingressos, fazer uma avalia\u00e7\u00e3o das declara\u00e7\u00f5es no vestibular seria invi\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8220;Esse ano foram pouco mais de 2 mil alunos pretos, pardos e ind\u00edgenas. Se a gente chamar 2 mil estudantes, demorando 15 ou 20 minutos cada um, quanto tempo vai levar? Isso seria invi\u00e1vel&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>O Comit\u00ea Antifraude recebeu mais de 450 de v\u00e1rios cursos da USP e elaborou tr\u00eas dossi\u00eas: um para a faculdade de Direito, um para a de Medicina e um terceiro para os outros cursos.<\/p>\n<p>Baracat diz que 41 den\u00fancias &#8220;com ind\u00edcios m\u00ednimos de materialidade&#8221; est\u00e3o sendo avaliadas pela universidade. Tamb\u00e9m h\u00e1 dois processos administrativos em andamento contra estudantes que, segundo a sindic\u00e2ncia feita pela USP, podem ter fraudado suas declara\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O movimento negro criticou uma recomenda\u00e7\u00e3o da USP de que fossem feitos boletins de ocorr\u00eancia em casos de suspeitas de fraudes. &#8220;Apesar de muitas pessoas falarem que isso \u00e9 um crime e pode ser resolvido no Minist\u00e9rio P\u00fablico, a USP tem a compet\u00eancia para fazer isso por si pr\u00f3pria e evitar uma judicializa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil e custosa&#8221;, afirma Lucas M\u00f3dolo.<\/p>\n<p>Mas Baracat diz que os BOs n\u00e3o s\u00e3o uma exig\u00eancia, mas uma das modalidades em que a universidade aceita den\u00fancias. &#8220;Pode fazer uma den\u00fancia sem ter um boletim, mas precisa ter ind\u00edcios de que a den\u00fancia \u00e9 verdadeira. Ou seja, fotos, perfis da pessoa nas redes sociais, algum tipo de prova. Isso elimina o denuncismo irrespons\u00e1vel&#8221;, afirma.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">A quest\u00e3o da miscigena\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Al\u00e9m de analisar as den\u00fancias de fraudes, a UFRJ implantou neste ano um comit\u00ea de 54 pessoas para fazer a heteroidentifica\u00e7\u00e3o para todos os ingressantes pelo sistema de cotas no vestibular.<\/p>\n<p>Foram cerca de 1,5 mil alunos ingressantes avaliados nas duas primeiras chamadas, em um processo que durou uma semana. Diversos n\u00e3o foram considerados aptos para ingressar pelas cotas \u2014 o n\u00famero exato ainda n\u00e3o foi consolidado porque o processo acabou de terminar.<\/p>\n<p>Mas afinal, como \u00e9 feita essa avalia\u00e7\u00e3o e como lidar com as sutilezas de identificar a identidade racial de algu\u00e9m em um pa\u00eds miscigenado como o Brasil?<\/p>\n<p>&#8220;A miscigena\u00e7\u00e3o sempre foi usada no Brasil para alimentar o mito da democracia racial, ou seja, de que no Brasil haveria uma categoria homog\u00eanea de mesti\u00e7os que seriam tratados de forma igual&#8221;, diz a especialista em Hist\u00f3ria dos negros no Brasil Denise Go\u00e9s, que coordena o comit\u00ea de avalia\u00e7\u00e3o de den\u00fancias da UFRJ.<\/p>\n<p>&#8220;Isso s\u00f3 serve para perpetuar a desigualdade em um pa\u00eds que n\u00e3o trata todos como iguais&#8221;, diz ela.<\/p>\n<p>&#8220;Historicamente o racismo no Brasil \u00e9 baseado no fen\u00f3tipo, ou seja, nas caracter\u00edsticas aparentes das pessoas, como cor de pele, tra\u00e7os e cabelo&#8221;, afirma Marcelo P\u00e1dula, que coordena o comit\u00ea de heteroidentifica\u00e7\u00e3o da UFRJ.<\/p>\n<p>&#8220;Quanto mais caracter\u00edsticas que identificam uma pessoa como negra, mais chances de sofrer com o racismo. Quanto mais caracter\u00edsticas brancas, maiores as chances de inclus\u00e3o social.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Como \u00e9 feita a identifica\u00e7\u00e3o racial<\/h2>\n<p>Denise Goes afirma que autodeclara\u00e7\u00e3o foi uma vit\u00f3ria no fortalecimento do movimento, porque muitas pessoas n\u00e3o conseguiam nem se ver como negras devido ao mito da democracia racial. &#8220;Por um lado, foi vit\u00f3ria da afirma\u00e7\u00e3o da identidade negra. Mas, do ponto de vista de pol\u00edtica p\u00fablica, ela n\u00e3o \u00e9 suficiente.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/AE90\/production\/_110988644_gettyimages-1082467846.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/AE90\/production\/_110988644_gettyimages-1082467846.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Fam\u00edlia multi\u00e9tnica\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">A miscigena\u00e7\u00e3o foi usada para alimentar o mito da igualdade racial no Brasil, dizem historiadores. Direito de imagem GETTY IMAGES<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Por causa da forma como o racismo funciona no pa\u00eds, diz, a identifica\u00e7\u00e3o para avaliar se algu\u00e9m est\u00e1 apto para ocupar as vagas destinadas aos negros \u00e9 feita com base no fen\u00f3tipo, n\u00e3o com base em quest\u00f5es culturais ou ancestralidade.<\/p>\n<p>Isso significa que ser filho ou neto de negros n\u00e3o \u00e9 suficiente para garantir o acesso \u00e0s cotas raciais se a pessoa \u00e9 lida pela sociedade como branca, ou seja, se n\u00e3o sofre preconceito racial.<\/p>\n<p>&#8220;As cotas s\u00e3o uma pol\u00edtica de repara\u00e7\u00e3o para quem sofre racismo&#8221;, diz P\u00e1dula.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, a heteroidentifica\u00e7\u00e3o na UFRJ \u00e9 feita por uma comiss\u00e3o avaliadora, formada por alunos, docentes e funcion\u00e1rios que passaram por uma capacita\u00e7\u00e3o de 60 a 90 horas.<\/p>\n<p>A capacita\u00e7\u00e3o inclui a hist\u00f3ria da constitui\u00e7\u00e3o do racismo no Brasil, tem um contraponto com o racismo norte-americano (mais baseado em origem e quest\u00f5es culturais) e em outros pa\u00edses, e h\u00e1 exerc\u00edcios pr\u00e1ticos de heteroidentifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No total s\u00e3o 54 pessoas, mas cada ingressante \u00e9 avaliado por uma subcomiss\u00e3o de 5 pessoas.<\/p>\n<p>Cada ingressante comparece pessoalmente a uma entrevista, no qual os avaliadores observam se a pessoa tem fen\u00f3tipos negros, ou seja, caracter\u00edsticas f\u00edsicas \u2014 cor de pele, cabelo, tra\u00e7os do rosto \u2014 que as identificam como negros.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6070\/production\/_110988642_ufrj.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6070\/production\/_110988642_ufrj.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Pr\u00e9dio da UFRJ\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">A UFRJ instalou o sistema de heteroidentifica\u00e7\u00e3o no vestibular de 2020. Direito de imagem CAU\/UFRJ<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma \u00fanica caracter\u00edstica, \u00e9 o conjunto da percep\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o de todos esses sinais&#8221;, explica P\u00e1dula.<\/p>\n<p>Ter a pele mais escura nem sempre \u00e9 suficiente. &#8220;H\u00e1 uma s\u00e9rie de pessoas que tem tons de pele n\u00e3o-brancos, como descendentes de \u00e1rabes ou japoneses de okinawa, mas que n\u00e3o s\u00e3o v\u00edtimas do racismo&#8221;, diz Lucas M\u00f3dolo.<\/p>\n<p>P\u00e1dula afirma que a comiss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um &#8216;tribunal racial&#8217; para definir a identidade das pessoas, mas apenas uma avalia\u00e7\u00e3o sobre se ela est\u00e1 apta ou n\u00e3o para ter acesso \u00e0s vagas de cotas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, quem discorda do resultado tem a possibilidade de recorrer.<\/p>\n<p>&#8220;A gente pega casos muito \u00f3bvios, que comprovam que n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de d\u00favida sobre a identidade de uma pessoa parda, mas de abuso mesmo. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que, de longe, o curso com mais fraudes foi medicina, o mais dif\u00edcil de entrar&#8221;, afirma Go\u00e9s.<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Let\u00edcia Mori da<\/span><span class=\"byline__title\"> BBC News Brasil em S\u00e3o Paulo &#8211; dispon\u00edvel na internet 24\/02\/2020<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Loira, de cabelos lisos, com a pele branca e os olhos verdes, uma das estudantes aprovadas no curso de Qu\u00edmica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) justificou sua entrada pelo sistema de cotas raciais dizendo &#8220;se considerar parda&#8221; e ser de uma fam\u00edlia de negros. 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