{"id":46065,"date":"2020-03-09T03:45:55","date_gmt":"2020-03-09T06:45:55","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=46065"},"modified":"2020-03-09T04:01:30","modified_gmt":"2020-03-09T07:01:30","slug":"como-mulheres-brasileiras-lutam-por-visibilidade-na-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/03\/09\/como-mulheres-brasileiras-lutam-por-visibilidade-na-ciencia\/","title":{"rendered":"Como mulheres brasileiras lutam por visibilidade na ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p class=\"intro\">Menos de 30% dos cientistas do mundo s\u00e3o do sexo feminino. Enquanto discrimina\u00e7\u00e3o e falta de perspectiva leva brasileiras a buscar reconhecimento no exterior, iniciativas v\u00eam tentando incentivar pesquisadoras no Brasil.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<div class=\"group\">\n<div class=\"longText\">\n<p>&#8220;Nos trabalhos de campo, homens \u2013 n\u00e3o meus pares&nbsp;\u2013 boicotaram minhas atividades, me colocando em perigo f\u00edsico&nbsp;at\u00e9. J\u00e1 fui desrespeitada e humilhada por fiscais federais e assediada por soldados do Ex\u00e9rcito. E sabe quando o ass\u00e9dio n\u00e3o acontecia? Quando tinha um homem para &#8216;me proteger&#8217;. \u00c9 dif\u00edcil fazer trabalho \u00e0 noite no mato, de boa, sendo mulher&#8221;, conta a brasileira Renata Moretti, hoje pesquisadora na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. &#8220;J\u00e1 tive de inventar algumas vezes que estava com marido ou namorado no campo, ou inventar e falar alto um nome de homem.&#8221;<\/p>\n<p>Moretti, que \u00e9 herpet\u00f3loga (zo\u00f3loga que estuda r\u00e9pteis e anf\u00edbios), diz que foi somente no&nbsp;exterior que passou a se sentir respeitada como cientista mulher. &#8220;Eu achava isso normal. Aqui em Harvard a ficha caiu&#8221;, afirma. &#8220;E me assustei quando vi o quanto no Brasil eu era desacreditada. Aqui n\u00e3o precisei ver outras mulheres para me espelhar. Eu passei a ser uma pessoa como todo mundo.&#8221;<\/p>\n<p>Dados mostram que o desequil\u00edbrio de g\u00eanero na ci\u00eancia de ponta \u00e9 um problema mundial. De acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura (Unesco), apenas 28,8% dos pesquisadores acad\u00eamicos do mundo s\u00e3o mulheres. Entre os 919 laureados com um Pr\u00eamio Nobel ao longo da hist\u00f3ria, a discrep\u00e2ncia \u00e9 ainda maior: s\u00e3o somente 54 mulheres reconhecidas.<\/p>\n<p>Para a bi\u00f3loga e ec\u00f3loga brasileira La\u00eds Maia, pesquisadora na Universidade de Canterbury, na Nova Zel\u00e2ndia, a pr\u00f3pria &#8220;literatura cient\u00edfica mostra que existe muita discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero dentro do mundo acad\u00eamico&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Isso fica vis\u00edvel ao longo da progress\u00e3o da carreira. Durante a gradua\u00e7\u00e3o, eu tinha mais colegas do sexo feminino em classe, mas a maioria dos nossos professores eram homens&#8221;, exemplifica ela, que fez o curso superior na Universidade Federal de Lavras, em Minas Gerais. &#8220;Eu ficava sem entender como um curso com tantas estudantes do sexo feminino tinha t\u00e3o poucas professoras mulheres.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Com o tempo, fui percebendo que existem diversas press\u00f5es que levam a uma menor presen\u00e7a de cientistas mulheres, n\u00e3o apenas no Brasil, mas ao redor do mundo. Discrimina\u00e7\u00e3o e preconceito com a gravidez \u00e9 uma delas&#8221;, comenta. &#8220;Nunca me esque\u00e7o da hist\u00f3ria de uma colega de gradua\u00e7\u00e3o que estava gr\u00e1vida e foi discriminada por um professor dizendo que aquela situa\u00e7\u00e3o, a gravidez, n\u00e3o &#8216;combinava&#8217; com o espa\u00e7o acad\u00eamico.&#8221;<\/p>\n<p>Um estudo publicado pela revista&nbsp;<em>Nature<\/em>&nbsp;em outubro de 2016 mostrou como, na pr\u00e1tica, a discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero ocorre. Os pesquisadores analisaram 1.224 cartas de refer\u00eancia, de 54 pa\u00edses diferentes, utilizadas por pesquisadores em processos seletivos no meio acad\u00eamico. Na compara\u00e7\u00e3o, concluiu-se que as direcionadas a mulheres traziam informa\u00e7\u00f5es menos assertivas do que aquelas para homens. Enquanto um cientista costumava ser apresentado como &#8220;um bom profissional&#8221;, uma cientista, na maior parte das vezes, era classificada como &#8220;ela tem potencial para ser uma boa profissional&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Tamb\u00e9m h\u00e1 a diferen\u00e7a de sal\u00e1rios&#8221;, aponta Maia. &#8220;Um estudo recente [publicado em janeiro pelo peri\u00f3dico&nbsp;<em>Plos One<\/em>] mostrou que, ao longo da vida, uma cientista mulher na Nova Zel\u00e2ndia recebe 400 mil d\u00f3lares neozelandeses a menos do que seus colegas do sexo masculino [o equivalente a quase de 1,2 milh\u00e3o de reais].&#8221;<\/p>\n<p><strong>Iniciativas valorizam mulheres na ci\u00eancia&nbsp; &nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, algumas a\u00e7\u00f5es t\u00eam sido feitas para dar visibilidade a mulheres cientistas \u2013 e, no longo prazo, tentar reduzir essas discrep\u00e2ncias. Um exemplo \u00e9 o Pr\u00eamio Para Mulheres na Ci\u00eancia, realizado pela Unesco em parceria com a marca de cosm\u00e9ticos L&#8217;Or\u00e9al e&nbsp;que, desde 1998, distribui bolsas de 100 mil d\u00f3lares para jovens pesquisadoras.<\/p>\n<p>A primeira brasileira que recebeu&nbsp;o pr\u00eamio serve de inspira\u00e7\u00e3o para muitas cientistas mais novas: a geneticista Mayana Zatz, do Instituto de Bioci\u00eancias da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), laureada em 2001. &#8220;Foi um marco importante em minha vida. E me deu a oportunidade de ter mais exposi\u00e7\u00e3o na m\u00eddia e de falar sobre ci\u00eancia&#8221;, afirma ela.&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Outra iniciativa de destaque \u00e9 Instituto Meninas na Ci\u00eancia, projeto de extens\u00e3o ligado \u00e0 Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e que desde 2013 realiza oficinas, palestras e campanhas para reduzir a discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero na \u00e1rea cient\u00edfica e incentivar que adolescentes do sexo feminino, se tiverem vontade, busquem ingressar em cursos superiores de ci\u00eancia e tecnologia. Uma pesquisa realizada pelo grupo e publicada em 2018 constatou que, dentre os membros da Academia Brasileira de Ci\u00eancias (ABC), entidade independente que existe desde 1916, apenas 100 dos 718 titulares s\u00e3o do sexo feminino.<\/p>\n<div class=\"picBox medium \">\n<figure style=\"width: 340px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"overlayLink init\" href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.dw.com\/image\/52661125_404.jpeg?ssl=1\" rel=\"nofollow\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Cientista Renata Moretti\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.dw.com\/image\/52661125_404.jpeg?resize=340%2C191&#038;ssl=1\" alt=\"Cientista Renata Moretti\" width=\"340\" height=\"191\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Cientista Renata Moretti: &#8220;Nos trabalhos de campo, homens boicotaram minhas atividades&#8221;<\/figcaption><\/figure>\n<p>A plataforma de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica Ag\u00eancia Bori, que foi inaugurada este ano, j\u00e1 nasceu com cromossomos femininos. O nome da ag\u00eancia, funfada por duas cientistas mulheres \u2013 a biom\u00e9dica Ana Paula Morales e a jornalista e doutora em pol\u00edtica cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica Sabine Righetthi \u2013, \u00e9 uma homenagem a uma cientista mulher.<\/p>\n<\/div>\n<p>&#8220;Desde o in\u00edcio, a gente queria o nome de uma cientista mulher. Temos muitas homenagens a cientistas homens, como as plataforma Lattes [homenagem a C\u00e9sar Lattes] e Carlos Chagas, do CNPq, mas quase n\u00e3o nos lembramos das mulheres&#8221;, comenta Righetthi. &#8220;A ideia era que ach\u00e1ssemos uma cientista mulher com papel importante na ci\u00eancia, na institucionaliza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia \u2013 e, se poss\u00edvel, com um nome sonoro e curto para facilitar a memoriza\u00e7\u00e3o. Quando chegamos em Carolina Bori n\u00e3o tivemos d\u00favida. Ela preenchia todos os requisitos.&#8221;<\/p>\n<p>Carolina Martuscelli Bori (1924-2004) foi uma psic\u00f3loga brasileira, primeira mulher a presidir a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC). De acordo com avalia\u00e7\u00e3o da Ag\u00eancia Bori, &#8220;ela \u00e9 considerada uma cientista-chave para a consolida\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia brasileira, especialmente nas d\u00e9cadas de 1960 a 1980&#8221;.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de iniciativas assim, a m\u00eddia tamb\u00e9m pode ajudar a dar&nbsp;visibilidade para mulheres que atuam na ci\u00eancia. Foi o que aconteceu com a bi\u00f3loga molecular Mayana Zatz, sobretudo no auge das descobertas do Projeto Genoma Humano. E tem sido assim nos \u00faltimos dias, com a m\u00e9dica imunologista&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/sequenciamento-gen%C3%A9tico-no-brasil-pode-ajudar-a-entender-coronav%C3%ADrus\/a-52605063\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ester Cerdeira Sabino<\/a>, pesquisadora da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) comandando os esfor\u00e7os de sequenciamento gen\u00e9tico do&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/oms-pede-que-pa%C3%ADses-levem-amea%C3%A7a-do-coronav%C3%ADrus-a-s%C3%A9rio\/a-52661193\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">novo coronav\u00edrus<\/a>&nbsp;no Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;Apesar de todas as dificuldades, conseguimos fazer ci\u00eancia de ponta. Precisamos agora sensibilizar o governo sobre a import\u00e2ncia de se investir em ci\u00eancia e tecnologia.&nbsp;E dar incentivo para a iniciativa privada investir tamb\u00e9m&#8221;, diz Zatz.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Deutsche Welle Brasil &#8211; dispon\u00edvel na internet 09\/03\/2020<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Menos de 30% dos cientistas do mundo s\u00e3o do sexo feminino. Enquanto discrimina\u00e7\u00e3o e falta de perspectiva leva brasileiras a buscar reconhecimento no exterior, iniciativas v\u00eam tentando incentivar pesquisadoras no Brasil.&nbsp;&nbsp; &#8220;Nos trabalhos de campo, homens \u2013 n\u00e3o meus pares&nbsp;\u2013 boicotaram minhas atividades, me colocando em perigo f\u00edsico&nbsp;at\u00e9. 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