{"id":4698,"date":"2016-08-13T07:01:05","date_gmt":"2016-08-13T10:01:05","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=4698"},"modified":"2016-08-13T07:01:05","modified_gmt":"2016-08-13T10:01:05","slug":"rio-medalha-de-ouro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2016\/08\/13\/rio-medalha-de-ouro\/","title":{"rendered":"Rio, medalha de ouro."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil \u00e9 uma pot\u00eancia cultural, o que ignoravam todos os que anunciaram, antes do tempo, s\u00f3 cat\u00e1strofes e fracassos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi desde sempre o mar. Foi esse mar que desde sempre acaricia as costas do Rio, que insiste em chamar essa cidade de linda, foi esse mar que invadiu o gramado do Maracan\u00e3 para inaugurar a noite mais esplendorosa que a cidade j\u00e1 viveu. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 um exagero, n\u00e3o h\u00e1 que subestimar o que se passou na noite de 5 de agosto na abertura dos Jogos Ol\u00edmpicos no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa noite, o povo brasileiro tinha um encontro marcado consigo mesmo. Na v\u00e9spera, Lars Grael carregou a tocha sem muletas, o que lhe custou um trabalho de meses; o grande Ivo Pitanguy, algumas horas antes de morrer, quis emprestar \u00e0 tocha a energia benfazeja de suas m\u00e3os de escultor. Zagallo tamb\u00e9m, ambos idosos e doentes. No dia seguinte, Gilberto Gil saindo do hospital, convalescente, subiu ao palco e cantou para bilh\u00f5es de espectadores. Brava gente brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gisele B\u00fcndchen, uma deusa dourada que pisou com passo firme e leve a mais longa e dif\u00edcil passarela de sua vida, contou que antes, em sua carreira, quem desfilava era s\u00f3 ela, mas ali n\u00e3o, ela era todos n\u00f3s. E que pedira aos c\u00e9us prote\u00e7\u00e3o para n\u00e3o errar. Todos que estiveram em cena foram, ali, o Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paulinho da Viola, o menino mulato e pobre da Portela, abriu alas para o Brasil passar cantando o hino que ser\u00e1 para sempre o verdadeiro balan\u00e7o da na\u00e7\u00e3o brasileira. Esse o milagre dessa noite encantada: o n\u00f3s que emergiu da emo\u00e7\u00e3o coletiva, no reconhecer-se nos mesmos s\u00edmbolos e na mesma hist\u00f3ria, nas mesmas m\u00fasicas e poemas, nos mesmos ritmos, na voz inconfund\u00edvel de Fernanda, no \u201cPa\u00eds tropical\u201d do Benjor, na \u201cConstru\u00e7\u00e3o\u201d de Chico. Na nossa cultura, esse patrim\u00f4nio comum de artistas e an\u00f4nimos. N\u00f3s, os brasileiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s que n\u00e3o somos uma pot\u00eancia econ\u00f4mica, que n\u00e3o somos uma pot\u00eancia militar, que n\u00e3o somos super atletas, nossa \u00fanica for\u00e7a, imbat\u00edvel, \u00e9 justamente a cultura. O que os pol\u00edticos nunca descobriram \u2014\u00a0<em>et pour cause<\/em>\u00a0\u2014 mas sabem os artistas e sabe o povo que \u00e9 o verdadeiro autor dessa festa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil \u00e9 uma pot\u00eancia cultural, o que ignoravam todos os que anunciaram, antes do tempo, s\u00f3 cat\u00e1strofes e fracassos. Os que olham com desconfian\u00e7a e soberba os pa\u00edses pobres e mesti\u00e7os, supostamente desorganizados e incompetentes, ro\u00eddos por todos os v\u00edcios que seus detratores s\u00e3o incapazes de reconhecer em si mesmos. Foi essa pot\u00eancia cultural que recebeu com exuberante alegria e talento os olhos do mundo todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquela noite o Brasil n\u00e3o foi o pa\u00eds de fulano ou beltrano, ocupantes transit\u00f3rios de pal\u00e1cios, foi essa terra muito antiga, onde vive uma gente original, sedimentada por s\u00e9culos de miscigena\u00e7\u00e3o, exemplo da diversidade que se fez identidade \u2014 o que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil para outros povos \u2014 que se gerou a si mesma e se est\u00e1 gerando, ainda, e que conhece bem \u201ca dor e a del\u00edcia de ser o que \u00e9\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que vivemos n\u00e3o foi o sonho de uma noite encantada que logo ali adiante vai esbarrar na aspereza dos conflitos, \u00e0s vezes do \u00f3dio, e acordar em pesadelo. Foi um reencontro com o melhor de n\u00f3s mesmos, uma lembran\u00e7a de para onde devemos olhar quando o pessimismo e a baixa estima voltarem a nos afligir ou quando acreditarmos que podemos ser inimigos. N\u00e3o somos. Somos um povo que enfrenta diverg\u00eancias e m\u00e1goas, problemas bem mais sol\u00faveis do que os que desafiam hoje outros povos da Terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nosso pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 nenhum para\u00edso e todos sabem disso. Vive um momento particularmente dram\u00e1tico. Mas olhar somente para tudo que nos falta \u00e9 uma injusti\u00e7a e um masoquismo que n\u00e3o ajuda o pa\u00eds a ser melhor nem a n\u00f3s a sermos mais felizes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No gramado do Maracan\u00e3 submerso por um mar de cores e ritmos, da bateria das escolas de samba emergiu a multiplicidade de que somos feitos, a fraternidade de que somos capazes, a alegria que vem Deus sabe de onde, o muito que sonhamos para n\u00f3s mesmos e que estamos longe de realizar, mas que existe na cultura como desejo e persiste como horizonte. Como os verdejantes an\u00e9is ol\u00edmpicos e as sementes que os melhores atletas do mundo, gente forjada no esfor\u00e7o, na persist\u00eancia e na excel\u00eancia, v\u00e3o deixar plantadas no nosso ch\u00e3o. Esfor\u00e7o, persist\u00eancia e excel\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Rio de janeiro continua lindo, o Rio de Janeiro continua sendo, sendo essa fonte de criatividade que espelhou a cultura brasileira com impec\u00e1vel fidelidade e refundou uma autoestima que andava perdida em um povo desencontrado. Foi pela linguagem da arte e da beleza que os brasileiros voltaram a cantar em coro o orgulho de si mesmos, se fizeram escutar e o resto do mundo ecoou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Rio de Janeiro ganha, por tudo isso, a mais merecida Medalha de Ouro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cr\u00e9dito: Artigo publicado na coluna opini\u00e3o do jornal O Globo \u2013 dispon\u00edvel na web 13\/08\/2016<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333399;\"><strong>Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo.<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil \u00e9 uma pot\u00eancia cultural, o que ignoravam todos os que anunciaram, antes do tempo, s\u00f3 cat\u00e1strofes e fracassos Foi desde sempre o mar. 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