{"id":4733,"date":"2016-08-15T00:04:47","date_gmt":"2016-08-15T03:04:47","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=4733"},"modified":"2016-08-14T20:06:48","modified_gmt":"2016-08-14T23:06:48","slug":"morreu-e-obvio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2016\/08\/15\/morreu-e-obvio\/","title":{"rendered":"Morreu, \u00e9 \u00f3bvio."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">No fundo, estamos todos na posi\u00e7\u00e3o do cego que n\u00e3o quer ver<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A genialidade de Nelson Rodrigues criou a express\u00e3o \u201c\u00d3bvio ululante\u201d. \u00c9 \u00f3bvio, vis\u00edvel, n\u00edtido, ulula na sua frente, mas, ainda assim, n\u00e3o \u00e9 percebido, \u00e9 ignorado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mesmo, de forma transversa, aparece na sabedoria popular: \u201cO pior cego \u00e9 o que n\u00e3o quer ver\u201d. Todo cego que \u00e9 consciente de sua cegueira quer ver, mas todos n\u00f3s, humanos, sem exce\u00e7\u00e3o, por medo, culpa, interesse, conservadorismo, neurose, optamos inconscientemente por n\u00e3o querer ver algo, geralmente alguma verdade bem evidente sobre n\u00f3s mesmos, que n\u00e3o reunimos a coragem para enfrentar ou que optamos pelo conforto de n\u00e3o mudar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s, brasileiros, nessa quadra da hist\u00f3ria nacional, somos, por medo, interesse, op\u00e7\u00e3o pela zona de conforto ou sentimento de impot\u00eancia, cegos que n\u00e3o queremos ver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reduzimos o debate a algo raso e a uma busca de culpados pela profunda e sist\u00eamica crise nacional. Intelectual e emocionalmente, temos nossas opini\u00f5es sobre quem s\u00e3o os bandidos da vida p\u00fablica e quem s\u00e3o os que podem nos levar \u00e0 solu\u00e7\u00e3o de nossos problemas. Mas creio que, no fundo, estamos todos na posi\u00e7\u00e3o do cego que n\u00e3o quer ver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata apenas do reducionismo decorrente da polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, seja no diagn\u00f3stico da crise, seja ao tentar justificar bandidagens pol\u00edtico-eleitorais com o argumento, quase integralmente verdadeiro, de que todos as praticam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso, ao contr\u00e1rio, que esse reducionismo decorre do sentimento de impot\u00eancia e consequente covardia de todos n\u00f3s para apontar, sem hesita\u00e7\u00e3o, o \u00f3bvio que est\u00e1 ululando \u00e0 nossa frente: a Rep\u00fablica que criamos em 1988 morreu, seu figurino n\u00e3o cabe no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Lava-Jato revelou mais do que a organiza\u00e7\u00e3o criminosa que operou para minar o fundamento democr\u00e1tico da altern\u00e2ncia de poder. A essa altura, s\u00f3 cegos que n\u00e3o querem ver podem deixar de enxergar o \u00f3bvio ululante de que o sistema pol\u00edtico-eleitoral brasileiro est\u00e1 morto, podre e zumbi, mordendo o pesco\u00e7o da na\u00e7\u00e3o para chupar seu sangue.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 um sebastianismo muito renitente pode explicar a esperan\u00e7a de enfrentar a grav\u00edssima crise econ\u00f4mica e encontrar um caminho de produtividade e bem-estar crescente para o Brasil com esse modelo eleitoral apoiado quase exclusivamente no poder do dinheiro e o sistema pol\u00edtico quase nulo na capacidade de transformar ideias em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como disse o primeiro grande escritor negro americano, James Baldwin: \u201cNem tudo que se enfrenta pode ser transformado, mas nada do que n\u00e3o \u00e9 enfrentado ser\u00e1 transformado.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rei morreu, viva o rei. A Rep\u00fablica morreu, viva a Rep\u00fablica. \u00c9 hora do parto, n\u00e3o de esperar Dom Sebasti\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parafraseando o grande poeta espanhol Antonio Machado quando a ditadura franquista agonizava: \u201cJ\u00e1 h\u00e1 um brasileiro que quer viver e a viver come\u00e7a, entre um Brasil que morre e outro Brasil que boceja. Brasileirinho que vem, ao mundo te guarde Deus. Um dos dois Brasis vai gelar seu cora\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cr\u00e9dito: Artigo publicado dia 14\/08\/16 na coluna opini\u00e3o do jornal O Globo \u2013 dispon\u00edvel na web 15\/08\/2016<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #000080;\">Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo.<\/span><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No fundo, estamos todos na posi\u00e7\u00e3o do cego que n\u00e3o quer ver A genialidade de Nelson Rodrigues criou a express\u00e3o \u201c\u00d3bvio ululante\u201d. \u00c9 \u00f3bvio, vis\u00edvel, n\u00edtido, ulula na sua frente, mas, ainda assim, n\u00e3o \u00e9 percebido, \u00e9 ignorado. 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