{"id":47383,"date":"2020-04-16T02:30:13","date_gmt":"2020-04-16T05:30:13","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=47383"},"modified":"2020-04-15T17:28:58","modified_gmt":"2020-04-15T20:28:58","slug":"o-elo-entre-desmatamento-e-epidemias-investigado-pela-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/04\/16\/o-elo-entre-desmatamento-e-epidemias-investigado-pela-ciencia\/","title":{"rendered":"O elo entre desmatamento e epidemias investigado pela ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p class=\"intro\">Cientistas alertam h\u00e1 d\u00e9cadas para o risco de novas doen\u00e7as como consequ\u00eancia da destrui\u00e7\u00e3o de florestas. Assim como a \u00c1sia, origem do novo coronav\u00edrus, a Amaz\u00f4nia \u00e9 vista como poss\u00edvel polo de enfermidades.<\/p>\n<div class=\"group\">\n<div class=\"longText\">\n<p>Faz pelo menos duas d\u00e9cadas que cientistas repetem o alerta: \u00e0 medida que popula\u00e7\u00f5es avan\u00e7am sobre as florestas, aumenta o risco de micro-organismos \u2013 at\u00e9 ent\u00e3o em equil\u00edbrio \u2013&nbsp;migrarem para o cotidiano humano e fazerem v\u00edtimas. Foi por isso que a not\u00edcia sobre a propaga\u00e7\u00e3o do novo coronav\u00edrus,&nbsp;detectado pela primeira vez na China em dezembro passado e que se espalhou pelo mundo, n\u00e3o pegou Ana L\u00facia Tourinho de surpresa. Doutora em Ecologia, ela estuda como o desequil\u00edbrio ambiental faz com que a floresta e sociedade fiquem doentes.<\/p>\n<p>&#8220;Quando um v\u00edrus que n\u00e3o fez parte da nossa hist\u00f3ria evolutiva sai do seu hospedeiro natural e entra no nosso corpo \u00e9 o caos. Est\u00e1 a\u00ed o novo coronav\u00edrus esfregando isso na nossa cara&#8221;, argumenta Tourinho, pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).<\/p>\n<p>No caso do novo coronav\u00edrus, batizado de Sars-CoV-2, muito antes de infectar os primeiros humanos e viajar a partir da China, abrigado no corpo de viajantes, para outras partes do mundo, ele habitava outros hospedeiros num ambiente selvagem \u2013&nbsp;morcegos, provavelmente.<\/p>\n<p>Isolados e em equil\u00edbrio em seu habitat, como florestas fechadas, v\u00edrus como esse n\u00e3o amea\u00e7ariam os humanos. O problema \u00e9 quando esse reservat\u00f3rio natural come\u00e7a a ser recortado, destru\u00eddo e ocupado.<\/p>\n<p>Estudos cient\u00edficos publicados anos antes da atual pandemia j\u00e1 mostravam a conex\u00e3o entre perda florestal, prolifera\u00e7\u00e3o de morcegos nas \u00e1reas degradadas e coronav\u00edrus. An\u00e1lises assinadas por Aneta Afelt, pesquisadora da Universidade de Vars\u00f3via, na Pol\u00f4nia, descrevem como os altos \u00edndices de destrui\u00e7\u00e3o florestal nos \u00faltimos 40 anos na \u00c1sia eram um indicativo de que a pr\u00f3xima doen\u00e7a infecciosa grave poderia sair dali.<\/p>\n<p>Para chegar a essa conclus\u00e3o, Afelt seguiu o rastro de pandemias pr\u00e9vias provocadas por outros coronav\u00edrus, como a da Sars, em 2002 e 2003, com taxa de mortalidade de 10%, e a Mers, em 2012, que matou 38% das v\u00edtimas infectadas.<\/p>\n<p>&#8220;Por ser uma das regi\u00f5es do mundo onde o crescimento populacional \u00e9 mais intenso, onde as condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias permanecem ruins e onde a taxa de desmatamento \u00e9 mais alta, o Sudeste Asi\u00e1tico atende a todas as condi\u00e7\u00f5es para se tornar o local de emerg\u00eancia ou reemerg\u00eancia de doen\u00e7as infecciosas&#8221;, afirmou Afelt num artigo de 2018.<\/p>\n<p>Tais condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o se aplicam apenas a essa parte do mundo. Na Amaz\u00f4nia, onde em 2019 o desmatamento bateu o recorde desta d\u00e9cada, com 9.762 km\u00b2 destru\u00eddos, e os alertas de desmatamento aumentaram 51,4% entre janeiro e mar\u00e7o de 2020 em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo anterior, o cen\u00e1rio \u00e9 parecido.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o com a maior floresta tropical do mundo tamb\u00e9m \u00e9 considerada um prov\u00e1vel polo de epidemias, como mostrou uma an\u00e1lise feita por uma equipe liderada por Simon Anthony, da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. S\u00f3 de coronav\u00edrus que circulam em morcegos tamb\u00e9m no Brasil, o levantamento contabilizou pelo menos 3.204 tipos.<\/p>\n<p><strong>O risco que vem da Amaz\u00f4nia<\/strong><\/p>\n<p>Tourinho n\u00e3o gosta nem de pensar sobre o impacto na sa\u00fade p\u00fablica se a destrui\u00e7\u00e3o da Floresta Amaz\u00f4nica seguir o ritmo acelerado. &#8220;Se a Amaz\u00f4nia virar uma grande savana, n\u00e3o d\u00e1 nem para imaginar o que pode sair de l\u00e1 em termos de doen\u00e7as. \u00c9 imprevis\u00edvel&#8221;, diz a pesquisadora. &#8220;Al\u00e9m de ser importante para n\u00f3s por causa do clima, da fauna, ela \u00e9 importante para nossa sa\u00fade.&#8221;<\/p>\n<p>Estudos feitos no pa\u00eds j\u00e1 tra\u00e7aram a rela\u00e7\u00e3o direta entre o corte da Amaz\u00f4nia e o aumento de doen\u00e7as. Em 2015, por exemplo, uma equipe do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea)&nbsp;constatou que, para cada 1% de floresta derrubada por ano, os casos de mal\u00e1ria aumentavam 23%.<\/p>\n<p>A pesquisa foi feita com dados de 773 cidades no Projeto de Monitoramento de Desmatamento da Amaz\u00f4nia, de 2004 a 2012. Al\u00e9m da mal\u00e1ria, a incid\u00eancia de leishmaniose tamb\u00e9m se mostrou diretamente relacionada ao desmatamento.<\/p>\n<p>&#8220;A floresta fechada \u00e9 como um escudo para que comunidades externas entrem em contato com animais que s\u00e3o hospedeiros de micro-organismos que causam doen\u00e7as. E quando a gente fragmenta a floresta, come\u00e7a a fazer vias de entrada no seu seio, isso \u00e9 uma bomba-rel\u00f3gio&#8221;, conclui Tourinho, mencionando ainda o perigo trazido por grandes empreendimentos, como hidrel\u00e9tricas na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>O entra e sai da floresta fragmentada para tirar madeira, colocar gado, abrir garimpo tamb\u00e9m \u00e9 apontado como um perigo para a sa\u00fade. &#8220;As pessoas que entram nessas \u00e1reas podem ter contato com esses v\u00edrus e levar dentro delas o problema para centros urbanos&#8221;, exemplifica Tourinho.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, ind\u00edgenas conseguem ser mais resistentes devido ao conv\u00edvio por s\u00e9culos com a floresta intocada, pontua a pesquisadora.<\/p>\n<p>&#8220;Quando esses v\u00edrus chegam \u00e0s cidades, a dissemina\u00e7\u00e3o \u00e9 muito r\u00e1pida, justamente por toda a facilidade de deslocamento nesses centros, possibilidade de deslocamentos internacionais. As cidades repetem o mesmo estilo de confinamento que a gente faz com os animais e s\u00e3o gatilhos para prolifera\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as contagiosas&#8221;, acrescenta a bi\u00f3loga.<\/p>\n<p>Uma dessas rotas pode explicar a origem da pandemia do Sars-Cov-2. A covid-19, doen\u00e7a respirat\u00f3ria provocada pelo coronav\u00edrus, infectou mais de 2 milh\u00f5es de pessoas e matou mais de 128 mil no mundo, segundo dados atualizados pela Universidade Johns Hopkins nesta quarta-feira (15\/04)<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Deutsche Welle Brasil &#8211; dispon\u00edvel na internet 16\/04\/2020<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cientistas alertam h\u00e1 d\u00e9cadas para o risco de novas doen\u00e7as como consequ\u00eancia da destrui\u00e7\u00e3o de florestas. Assim como a \u00c1sia, origem do novo coronav\u00edrus, a Amaz\u00f4nia \u00e9 vista como poss\u00edvel polo de enfermidades. 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