{"id":47480,"date":"2020-04-20T04:00:33","date_gmt":"2020-04-20T07:00:33","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=47480"},"modified":"2020-04-20T04:25:04","modified_gmt":"2020-04-20T07:25:04","slug":"brasil-vai-pagar-o-preco-da-desigualdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/04\/20\/brasil-vai-pagar-o-preco-da-desigualdade\/","title":{"rendered":"Brasil vai pagar o pre\u00e7o da desigualdade."},"content":{"rendered":"<h4 class=\"story-body__h1\"><em><strong>Drauzio Varella prev\u00ea &#8216;trag\u00e9dia nacional&#8217; por coronav\u00edrus: &#8216;Brasil vai pagar o pre\u00e7o da desigualdade&#8217;<\/strong><\/em><span class=\"twite__share-text\"> &nbsp;<\/span><\/h4>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<p class=\"story-body__introduction\">Prestes a completar 77 anos em maio, o m\u00e9dico cancerologista Drauzio Varella diz que se arrepende de j\u00e1 ter sido otimista a respeito do novo coronav\u00edrus. Na \u00e9poca em que come\u00e7aram a surgir as primeiras informa\u00e7\u00f5es sobre o v\u00edrus na China, em dezembro do ano passado, ele diz que, como muitos, considerou que se tratava de uma doen\u00e7a de baixa letalidade, como pareciam indicar os dados dispon\u00edveis. &#8220;Eu participei desse otimismo e me recrimino por isso hoje.&#8221;<\/p>\n<p>Considerado parte do grupo de risco para a covid-19 pela faixa et\u00e1ria, o m\u00e9dico, escritor e comunicador tem vivido uma rotina profissional intensa nas \u00faltimas semanas, mesmo sem sair de casa. Concilia as reuni\u00f5es matinais di\u00e1rias do rec\u00e9m-criado grupo &#8220;Todos pela Sa\u00fade&#8221;, que ele integra como sete t\u00e9cnicos que trabalham para direcionar uma doa\u00e7\u00e3o de R$ 1 bilh\u00e3o feita pelo Ita\u00fa Unibanco ao combate do coronav\u00edrus, com as demandas que recebe como m\u00e9dico, tirando d\u00favidas e enviando orienta\u00e7\u00f5es a respeito da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Vencer o avan\u00e7o da pandemia no Brasil, pondera, exigir\u00e1 estrat\u00e9gias e obst\u00e1culos diferentes do que foi observado em pa\u00edses da Europa e da \u00c1sia. A principal peculiaridade brasileira \u00e9 a imensa desigualdade social, que imp\u00f5e condi\u00e7\u00f5es de vidas muito distintas para ricos e pobres, limitando o acesso de grande parte da popula\u00e7\u00e3o \u00e0s pr\u00e1ticas que previnem o cont\u00e1gio, como lavar as m\u00e3os, comprar \u00e1lcool gel e praticar o isolamento social.<\/p>\n<p>H\u00e1 no pa\u00eds 35 milh\u00f5es de brasileiro sem acesso \u00e0 rede de \u00e1gua pot\u00e1vel, segundo dados do Instituto Data Brasil de 2017. Em 2018, antes da crise do coronav\u00edrus, chegou a 13,5 milh\u00f5es o n\u00famero de brasileiros vivendo abaixo da linha da extrema pobreza, com menos de R$ 145 por m\u00eas.<\/p>\n<p>\u00c9 esse contexto que, na previs\u00e3o de Varella, levar\u00e1 o pa\u00eds sem d\u00favida a uma &#8220;trag\u00e9dia nacional&#8221; durante a pandemia.<\/p>\n<p>&#8220;Eu acho que n\u00f3s vamos ter um n\u00famero muito grande de mortes, vamos ter um impacto na economia enorme, uma dura\u00e7\u00e3o prolongada&#8221;, prev\u00ea, destacando que a naturaliza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica das mazelas sociais do pa\u00eds ser\u00e1 o principal determinante de tal trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>&#8220;Agora \u00e9 que n\u00f3s vamos pagar o pre\u00e7o por essa desigualdade social com a qual n\u00f3s convivemos por d\u00e9cadas e d\u00e9cadas, aceitando como uma coisa praticamente natural. Agora vem a conta a pagar. Porque \u00e9 a primeira vez que n\u00f3s vamos ter a epidemia se disseminando em larga escala em um pa\u00eds de dimens\u00f5es continentais e com tanta desigualdade&#8221;, diz, em entrevista \u00e0 BBC News Brasil, concedida por meio de teleconfer\u00eancia.<\/p>\n<p>Na pandemia, fica mais evidente a amea\u00e7a da desigualdade social a todos os segmentos da sociedade, na vis\u00e3o do m\u00e9dico. &#8220;Enquanto tivermos essa dissemina\u00e7\u00e3o em lugares impr\u00f3prios para a vida humana, voc\u00ea n\u00e3o se livra do v\u00edrus. E \u00e9 esse v\u00edrus que amea\u00e7a a todos, o tempo inteiro&#8221;, afirma Varella, que prev\u00ea que a pandemia tamb\u00e9m deixar\u00e1 mudan\u00e7as profundas na sociedade.<\/p>\n<p>&#8220;Acho que o sofrimento \u00e9 uma press\u00e3o para o aprendizado. Todos n\u00f3s vamos perder amigos, muitos v\u00e3o perder pessoas da fam\u00edlia, e isso vai nos ensinar que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel viver como n\u00f3s viv\u00edamos at\u00e9 aqui.&#8221;<\/p>\n<p>Ferrenho defensor do isolamento social, uma das \u00fanicas medidas comprovadamente eficazes contra o v\u00edrus (al\u00e9m da higiene frequente das m\u00e3os, por exemplo), ele alerta para as poss\u00edveis consequ\u00eancias terr\u00edveis para os pacientes graves que, por falta de infraestrutura, eventualmente ficarem sem atendimento em meio a problemas respirat\u00f3rios progressivos. &#8220;N\u00e3o \u00e9 que voc\u00ea volta para casa, sofre um pouco e passa. N\u00e3o, falta de ar \u00e9 o pior sintoma que existe. Porque se voc\u00ea tem dor, toma analg\u00e9sico, voc\u00ea tem tosse, tem jeito de bloquear. Agora ter falta de ar \u00e9 uma morte horr\u00edvel. Horr\u00edvel.&#8221;<\/p>\n<p>Leia os principais trechos da entrevista:<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Atualmente existem pelo menos duas vers\u00f5es de quarentena no Brasil. H\u00e1 pessoas que est\u00e3o em casa, com a fam\u00edlia, conseguindo fazer esse home office, tendo at\u00e9 um momento de paz, de conviver com a fam\u00edlia. E muita gente que est\u00e1 ou sem casa, ou em casas muito lotadas, sem comida, sem dinheiro. Como o senhor acha que essa situa\u00e7\u00e3o influencia o combate brasileiro ao coronav\u00edrus?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Drauzio Varella &#8211;<\/strong>&nbsp;N\u00f3s vamos saber agora. Agora \u00e9 que n\u00f3s vamos pagar o pre\u00e7o por essa desigualdade social com a qual n\u00f3s convivemos por d\u00e9cadas e d\u00e9cadas, aceitando como uma coisa praticamente natural. Agora vem a conta a pagar. Porque \u00e9 a primeira vez que n\u00f3s vamos ter a epidemia se disseminando em larga escala em um pa\u00eds de dimens\u00f5es continentais e com tanta desigualdade. Na Europa, estamos vendo os problemas que eles est\u00e3o enfrentando, mas s\u00e3o pa\u00edses que t\u00eam uma estrutura social relativamente bem organizada, fica mais f\u00e1cil dessa maneira.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6725\/production\/_111850462_drauzio.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6725\/production\/_111850462_drauzio.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Drauzio Varella\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">&#8216;Agora \u00e9 que n\u00f3s vamos pagar o pre\u00e7o por essa desigualdade social&#8217;, diz Drauzio. Direito de imagem REPRODU\u00c7\u00c3O<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Agora estamos tendo este in\u00edcio de epidemia que aconteceu entre as pessoas que introduziram o v\u00edrus ao pa\u00eds, que vieram de fora, de viagens internacionais, e trouxeram o v\u00edrus para c\u00e1. E a\u00ed estamos vendo o que acontece nas cidades que tiveram um afluxo maior desses brasileiros que viajaram. S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Manaus tamb\u00e9m, estamos tendo esse primeiro impacto.<\/p>\n<p>Vamos ter, for\u00e7osamente, a dissemina\u00e7\u00e3o dessa epidemia para as camadas sociais mais desfavorecidas. \u00c9 assim que est\u00e1 acontecendo em Nova York hoje, onde os negros s\u00e3o representados em muito maior propor\u00e7\u00e3o nas mortes que acontecem nas cidades. N\u00f3s n\u00e3o sabemos ainda o que vai acontecer quando esses 13 milh\u00f5es de brasileiros que vivem em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de habita\u00e7\u00e3o e que t\u00eam condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de sa\u00fade tamb\u00e9m v\u00e3o se infectar. N\u00e3o sabemos o que vai acontecer, vamos aprender agora a duras penas. Eu rodo muito pelo pa\u00eds, j\u00e1 gravei em periferias de quase todas as grandes cidades brasileiras. E voc\u00ea entra nessas casas, \u00e9 uma pobreza em um n\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; N\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de higiene?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Varella&nbsp;<\/strong>&#8211; Nenhuma. E voc\u00ea tem um c\u00f4modo em que moram quatro adultos e tr\u00eas, quatro crian\u00e7as. De dia aquele c\u00f4modo \u00e9 a sala de refei\u00e7\u00f5es, de noite a mesa vai para o canto e os colch\u00f5es saem da parede e v\u00e3o para o ch\u00e3o, e as pessoas dormem ali. Voc\u00ea n\u00e3o tem condi\u00e7\u00e3o m\u00ednima de separa\u00e7\u00e3o. V\u00e3o dizer &#8216;fica em casa, n\u00e3o v\u00e3o para a rua&#8217;. Como \u00e9 que essas pessoas n\u00e3o v\u00e3o para a rua?<\/p>\n<p>E al\u00e9m do que \u00e9 um n\u00edvel de pobreza, que voc\u00ea v\u00ea o que est\u00e1 acontecendo: em dois, tr\u00eas dias essas pessoas n\u00e3o t\u00eam o que comer. Porque a luta \u00e9 sair, e conseguir passar no supermercado e levar alguma coisa para casa, diariamente. Imagina voc\u00ea o dinheiro que voc\u00ea tem n\u00e3o d\u00e1 para aguentar dois, tr\u00eas dias isolada, porque n\u00e3o vai ter o que comer. E a ajuda do governo, l\u00f3gico que \u00e9 importante, mas \u00e9 dif\u00edcil organizar tamb\u00e9m. As pessoas falam tamb\u00e9m &#8216;ah, mas devia ter chegado o dinheiro&#8217;. \u00c9, vai l\u00e1 organizar para ver como \u00e9, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Alguns dos pa\u00edses que tiveram mais problemas com a doen\u00e7a tinham suas peculiaridades. Por exemplo, a It\u00e1lia tinha muitos idosos. E os Estados Unidos, a falta de um sistema p\u00fablico de sa\u00fade. O senhor acha que essas quest\u00f5es da desigualdade e da pobreza ser\u00e3o as nossas principais fragilidades?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Varella &#8211;<\/strong>&nbsp;Eu acho que vai ser. Acho que vai ser a grande dificuldade que o Brasil vai enfrentar. Porque o v\u00edrus \u00e9 democr\u00e1tico, ele atinge qualquer pessoa. Ent\u00e3o eu disse que a gente vai pagar o pre\u00e7o dessa desigualdade social toda porque enquanto tiver gente vivendo nessas condi\u00e7\u00f5es, se infectando e transmitindo o v\u00edrus uns para os outros, esse v\u00edrus vai atingir todo mundo, porque as pessoas se interconectam de uma forma ou de outra, ou dividem espa\u00e7os comunit\u00e1rios de um jeito ou de outro.<\/p>\n<p>Enquanto tivermos essa dissemina\u00e7\u00e3o em lugares impr\u00f3prios para a vida humana, como s\u00e3o esses, voc\u00ea n\u00e3o se livra do v\u00edrus. E \u00e9 esse v\u00edrus que amea\u00e7a a todos, o tempo inteiro.<\/p>\n<p>Eu, sinceramente, eu j\u00e1 fui otimista, sabe? Acho que no in\u00edcio todos n\u00f3s fomos, o mundo foi otimista. E eu participei desse otimismo e me recrimino por isso hoje. Porque n\u00f3s receb\u00edamos as not\u00edcias da China e essas not\u00edcias eram muito ocasionais, e n\u00e3o davam ideia de como eram realmente a epidemia. Isso foi durante o fim de dezembro, que eles relataram os primeiros casos, embora a doen\u00e7a j\u00e1 tivesse se espalhando l\u00e1. Da\u00ed em janeiro, as not\u00edcias que n\u00f3s t\u00ednhamos eram da mortalidade. E os dados que eles apregoavam n\u00e3o eram t\u00e3o preocupantes.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Se falava muito, ent\u00e3o, da baixa letalidade&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Varella &#8211;<\/strong>&nbsp;Baixa letalidade. Ficava alta depois dos 80 anos, que chegava a\u00ed perto de uns 15%. Quando a epidemia chegou na It\u00e1lia, que \u00e9 um pa\u00eds democr\u00e1tico, com livre circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o, n\u00f3s vimos a\u00ed pelo come\u00e7o de fevereiro, ao redor do dia 12, 15 de fevereiro.<\/p>\n<p>A\u00ed n\u00f3s tomamos consci\u00eancia da gravidade do problema. E voc\u00ea veja que os pa\u00edses n\u00e3o tiveram tempo de se organizar. Os Estados Unidos, com todo o dinheiro que eles t\u00eam, todos os recursos e tudo, foram pegos de surpresa.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; E o senhor acha que essa precariedade em que uma parcela muito expressiva da popula\u00e7\u00e3o vive &#8211; n\u00e3o estamos falando de um nicho &#8211; sendo uma condi\u00e7\u00e3o muito antiga, hist\u00f3rica, o senhor acha que isso \u00e9 contorn\u00e1vel? Ou estamos fadados a uma trag\u00e9dia social?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Varella &#8211;<\/strong>&nbsp;D\u00e1 para fazer muita coisa, l\u00f3gico. E acho que os governos federal, estadual, est\u00e3o se movimentando para isso. Na hora que voc\u00ea sente a dimens\u00e3o do problema, todo mundo fica assustado, todo mundo pensa que tem que fazer alguma coisa. Tenho visto a movimenta\u00e7\u00e3o em todos os cantos, mas o problema \u00e9 que a transmiss\u00e3o \u00e9 muito r\u00e1pida. Eu acho que vai acontecer uma trag\u00e9dia nacional, eu n\u00e3o tenho d\u00favida disso. Eu acho que n\u00f3s vamos ter um n\u00famero muito grande de mortes, vamos ter um impacto na economia enorme, vamos ter uma dura\u00e7\u00e3o prolongada.<\/p>\n<p>Voc\u00ea v\u00ea que at\u00e9 hoje a gente n\u00e3o conseguiu definir a partir de quanto tempo n\u00f3s podemos relaxar. Quanto tempo? Dois meses? Tr\u00eas meses? Seis meses? Ningu\u00e9m sabe. Ningu\u00e9m arrisca dizer por ter responsabilidade. N\u00f3s n\u00e3o sabemos. Isso \u00e9 um v\u00edrus novo, nunca existiu uma situa\u00e7\u00e3o como essa.<\/p>\n<p>Mas &#8216;ah, a gripe espanhola&#8217;. N\u00e3o compare, s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es diferentes, o mundo era diferente h\u00e1 cento e tantos anos atr\u00e1s. N\u00e3o sabemos, estamos aprendendo agora, vendo o que est\u00e1 acontecendo em diversos pa\u00edses. Mas a realidade que vale para um pa\u00eds n\u00e3o vale para todos.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Quando o senhor fala de muitos mortos, claro que n\u00e3o d\u00e1 para fazer uma proje\u00e7\u00e3o, mas quando o senhor pensa nesse cen\u00e1rio ruim ou prov\u00e1vel, o que o senhor v\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Varella &#8211;&nbsp;<\/strong>Pensa como \u00e9 a doen\u00e7a. Voc\u00ea pega com v\u00edrus, que se transmite com muita facilidade, isso est\u00e1 provado no mundo inteiro. Come\u00e7a e n\u00e3o para mais. Ele tem uma fase que \u00e9 muito tranquila, um pouquinho de dor de garganta, uma tossezinha irritativa, a pessoa perde o olfato, uma febre baixa, nada muito importante. Esse per\u00edodo dura mais ou menos uns cinco dias, de cinco a dez dias, mais ou menos. E a\u00ed voc\u00ea tem uma diverg\u00eancia. Tem gente que se recupera, tiveram sintomas m\u00ednimos, \u00e0s vezes at\u00e9 ausentes, m\u00ednimos.<\/p>\n<p>Depois desses cinco a dez dias voc\u00ea divide os infectados em dois grupos: aqueles que v\u00e3o se recuperar, mais uma semana, vai melhorando aquele cansa\u00e7o, passa, ficam bons. E tem aqueles que desenvolvem falta de ar. Esses que desenvolvem falta de ar s\u00e3o os que t\u00eam pneumonia associada ao coronav\u00edrus. Essa pneumonia tem v\u00e1rias explica\u00e7\u00f5es fisiopatol\u00f3gicas, mas enfim: a\u00ed voc\u00ea tem os doentes que v\u00e3o parar nos hospitais. Esses que v\u00e3o parar, uma parte se recupera recebendo oxig\u00eanio por m\u00e1scaras. E tem os que v\u00e3o para insufici\u00eancia respirat\u00f3ria progressiva. Esses t\u00eam que ser entubados.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o por que se defende o isolamento? Primeiro porque ele \u00e9 a \u00fanica evid\u00eancia de medida que reduziu o n\u00famero de pessoas que procuram os hospitais. A gente diz que [existe o risco de que] o sistema de sa\u00fade entre em colapso. As pessoas est\u00e3o acostumadas com essa coisa de ir ao pronto socorro e demora para atender, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 atendido \u00e0s vezes, ou \u00e9 mal atendido e volta para casa.<\/p>\n<p>S\u00f3 que agora \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o diferente. Voc\u00ea s\u00f3 vai para o hospital quando voc\u00ea tem falta de ar. E essa falta de ar \u00e9 progressiva, voc\u00ea tem que ter os recursos de ventila\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea n\u00e3o tiver esses recursos, o que vai acontecer? N\u00e3o \u00e9 que voc\u00ea volta para casa, sofre um pouco e passa. N\u00e3o, falta de ar \u00e9 o pior sintoma que existe. Porque se voc\u00ea tem dor, toma analg\u00e9sico, voc\u00ea tem tosse, tem jeito de bloquear. Agora ter falta de ar \u00e9 uma morte horr\u00edvel. Horr\u00edvel.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea ouve dizer na It\u00e1lia os m\u00e9dicos que t\u00eam que decidir quais s\u00e3o os que v\u00e3o para a UTI, quem vai ter entuba\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o, quer dizer que os outros morrem de falta de ar. Essa \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o real e isso que tem que ser colocado para a popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 que vai morrer gente. Vai morrer gente com um enorme sofrimento. Por isso que os m\u00e9dicos defendem: vamos segurar, para que as pessoas n\u00e3o tenham que morrer desse jeito, que \u00e9 um jeito inaceit\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; O isolamento, no Brasil, tamb\u00e9m tem algumas peculiaridades. H\u00e1 protestos contra o isolamento, at\u00e9 por medo do impacto econ\u00f4mico, h\u00e1 ru\u00eddo nas mensagens do governo, em que um fala uma coisa e o outro fala outra. O nosso n\u00edvel de isolamento \u00e9 preocupante?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Varella &#8211;&nbsp;<\/strong>Em alguns lugares est\u00e1 indo bem. A\u00ed voltamos \u00e0 quest\u00e3o social. Voc\u00ea pega quem mora em um c\u00f4modo com tr\u00eas, quatro crian\u00e7as, como voc\u00ea mant\u00e9m essas crian\u00e7as? Voc\u00ea v\u00ea as palafitas, que s\u00e3o os piores lugares que eu conheci no Brasil, como voc\u00ea mant\u00e9m aquelas crian\u00e7as em um barrac\u00e3o de madeira, no Norte ou Nordeste do pa\u00eds, em uma temperatura que durante o dia chega a 40 graus, 45, 50 graus l\u00e1 dentro. Como \u00e9 que as pessoas v\u00e3o ficar l\u00e1 dentro? Sem \u00e1gua tratada, muitas vezes, que v\u00e3o buscar de balde em alguns lugares. E a gente diz lave as m\u00e3os, olha como voc\u00ea lava, faz tudo direitinho. \u00c9 bonito para quem tem pia em casa.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Desde o come\u00e7o da pandemia os representantes das favelas t\u00eam batido muito na tecla de que \u00e9 preciso ter um plano espec\u00edfico para as favelas. E at\u00e9 agora eles reclamam que n\u00e3o houve medida direcionada a essas localidades. O senhor acha que medidas espec\u00edficas s\u00e3o necess\u00e1rias?&#8217;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Varella &#8211;<\/strong>&nbsp;Eu acho que sim. H\u00e1 iniciativas, o que n\u00e3o h\u00e1 s\u00e3o iniciativas que partam de \u00f3rg\u00e3os governamentais direcionadas a esse p\u00fablico. Eu tenho confiado mais at\u00e9 na organiza\u00e7\u00e3o que eles estabelecem. Voc\u00ea v\u00ea Parais\u00f3polis, em S\u00e3o Paulo, que \u00e9 um exemplo maravilhoso. Puseram praticamente um inspetor ou inspetora em cada quarteir\u00e3o da favela para fazer esse monitoramento. A pr\u00f3pria sociedade tem condi\u00e7\u00f5es de se articular. O que as autoridades t\u00eam que fazer \u00e9 ter planos diretivos, que apontem o que a gente pretende com esse determinado plano.<\/p>\n<p>Esse pessoal que diz que n\u00e3o, &#8216;vamos fazer as crian\u00e7as voltarem para a escola, os jovens que n\u00e3o v\u00e3o ter doen\u00e7a grave podem se movimentar na cidade&#8217;. Primeiro: isso n\u00e3o foi feito em lugar nenhum do mundo, esse chamado isolamento vertical: separa os mais velhos, os fr\u00e1geis, e deixa os mais jovens irem ao trabalho. N\u00e3o foi feito em lugar nenhum por alguma raz\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 verdade? A Europa inteira, todos os pa\u00edses desenvolvidos, inclusive nos EUA em que o governo federal de in\u00edcio foi contra, acabaram for\u00e7ados pelas circunst\u00e2ncias a adotar o isolamento.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 prova de que esse isolamento funcione, e provavelmente n\u00e3o vai funcionar mesmo, porque voc\u00ea pode ser jovem mas os brasileiros s\u00e3o greg\u00e1rios, moram muito pr\u00f3ximos, voc\u00ea pode pegar o v\u00edrus na rua e trazer para a sua casa. Nesse momento o que n\u00f3s sabemos fazer \u00e9 isolar. A\u00ed as pessoas dizem: vai dar uma crise econ\u00f4mica. A crise econ\u00f4mica j\u00e1 est\u00e1 estabelecida. quando voc\u00ea tem uma epidemia desse jeito, se voc\u00ea deixar as pessoas sa\u00edrem, se infectarem pela rua, \u00e0 vontade, a crise econ\u00f4mica vai acontecer da mesma maneira. Isso \u00e9 irrevers\u00edvel. N\u00f3s vamos ter a crise. O que os m\u00e9dicos defendem, e muitos economistas defendem: a crise n\u00f3s vamos enfrentar de qualquer jeito. Ent\u00e3o vamos tentar reduzir o n\u00famero de doentes para abreviar dura\u00e7\u00e3o da crise.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; O senhor citou esse projeto do Ita\u00fa, que causou muito burburinho esta semana. O que vai dar para fazer, qual o foco desse R$ 1 bilh\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Varella &#8211;&nbsp;<\/strong>Esse projeto est\u00e1 na fase inicial e correndo com toda pressa do mundo porque n\u00e3o temos tempo para ficar fazendo grandes planejamentos, temos que adotar medidas pr\u00e1ticas. Temos nos reunidos todos os dias, nos dividimos em \u00e1reas que o dia todo ficamos em discuss\u00f5es, a parte executiva \u00e9 tocada pelo doutor Maur\u00edcio Ceschin (ex-diretor-presidente da Ag\u00eancia Nacional de Sa\u00fade).<\/p>\n<p>N\u00f3s estamos focando em alguns aspectos: o primeiro \u00e9 a prote\u00e7\u00e3o dos profissionais de sa\u00fade. E isso n\u00e3o \u00e9 uma coisa corporativa, ao contr\u00e1rio, porque sem os profissionais de sa\u00fade n\u00e3o temos condi\u00e7\u00e3o de dar atendimento \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Se muitos se infectarem, n\u00e3o vamos ter como substitu\u00ed-los. Uma coisa fundamental neste momento \u00e9 que todo mundo use m\u00e1scara quando est\u00e1 na rua.<\/p>\n<p>Faltam m\u00e1scaras no mundo inteiro. Estamos focando em um projeto conseguindo formas de produ\u00e7\u00e3o nacional por empresas brasileiras do maior n\u00famero de m\u00e1scaras poss\u00edvel. O governo tem dinheiro para isso, as secretarias estaduais t\u00eam dinheiro, mas n\u00e3o conseguem comprar nessa fase. Estamos buscando criar um estoque regulador nosso e ajudando as secretarias estaduais a conseguirem m\u00e1scara pelo pre\u00e7o mais baixo poss\u00edvel.<\/p>\n<p>O outro caminho \u00e9 verificar quais s\u00e3o os problemas que n\u00f3s temos neste momento nos hospitais e nas secretarias estaduais, criando gabinetes de crise. Como s\u00e3o: primeiro, nas secretarias de sa\u00fade ajudar a monitorar a quantidade de casos locais e os recursos hospitalares. Por exemplo: voc\u00ea tem uma coisa na engenharia hospitalar que diz o seguinte: em m\u00e9dia, cada hospital voc\u00ea consegue aumentar em 20% o n\u00famero de leitos pelo simples remanejamento da estrutura hospitalar, sem construir nada. Sem investir nada em instala\u00e7\u00f5es voc\u00ea consegue fazer esse aumento.<\/p>\n<p>Quando a gente fala em R$ 1 bilh\u00e3o, fala nossa, \u00e9 muito dinheiro. Seria muito dinheiro nas nossas vidas pessoais. Mas se pensar que o SUS investe R$ 240 bilh\u00f5es por ano, \u00e9 uma grande ajuda, mas n\u00e3o \u00e9 um dinheiro ilimitado tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; O SUS \u00e9 um ponto forte do Brasil, temos um sistema de sa\u00fade gratuito. O que o senhor diria que s\u00e3o os maiores gargalos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Varella &#8211;&nbsp;<\/strong>\u00c9 a desigualdade. O SUS \u00e9 o maior programa de sa\u00fade p\u00fablica do mundo. Os brasileiros desvalorizam o SUS. Quando eu vejo os ingleses, que p\u00f5em aquela sigla NHS (National Health Service, sistema nacional de sa\u00fade em tradu\u00e7\u00e3o livre) em tudo que \u00e9 lugar, o NHS deles \u00e9 uma brincadeira perto do SUS. Tem dinheiro, uma popula\u00e7\u00e3o de alto n\u00edvel educacional, um pa\u00eds com 66 milh\u00f5es de habitantes. Quero ver voc\u00ea dar sa\u00fade gratuita para 209 milh\u00f5es em um pa\u00eds desigual e pobre como o nosso. Quero ver.<\/p>\n<p>Imagina se nesse momento n\u00f3s n\u00e3o tiv\u00e9ssemos o SUS. Ent\u00e3o voc\u00ea tem um bom seguro sa\u00fade, te d\u00e1 acesso aos melhores hospitais, \u00f3timo, voc\u00ea pode ficar tranquila. N\u00e3o, n\u00e3o pode. Por qu\u00ea? Porque pode acontecer de o hospital maravilhoso ao qual voc\u00ea tem direito n\u00e3o tenha vaga para voc\u00ea. Olha o que est\u00e1 acontecendo nos EUA. Por que est\u00e3o morrendo muito mais negros l\u00e1 do que brancos? Porque os negros s\u00e3o mais pobres. E eles evitam ir para o hospital porque eles sabem que isso pode ser a fal\u00eancia da fam\u00edlia inteira. porque n\u00e3o tem SUS. Voc\u00ea vai ter que pagar pelo menos uma parte do atendimento que ele vai receber. E ele no fim diz bom, eu vou morrer no hospital e deixar minha fam\u00edlia endividada? Ent\u00e3o ele segura, s\u00f3 vai em \u00faltima consequ\u00eancia, como \u00faltimo recurso.<\/p>\n<p>O SUS, na verdade, \u00e9 um sistema perfeito. O problema qual foi, desde sempre? A falta de recursos. O governo federal vem h\u00e1 anos diminuindo sua participa\u00e7\u00e3o no SUS. Teoricamente teria que cobrir 50% dos gastos do SUS, os munic\u00edpios 25% e o Estado outros 25%. O governo federal vem diminuindo e est\u00e1 dando agora cerca de 44%. E os munic\u00edpios, porque o prefeito est\u00e1 em contato com outros prefeitos, est\u00e3o elevando o investimento no SUS e n\u00e3o t\u00eam tantos recursos, Mantivemos o SUS com problema de baixo financiamento e m\u00e1 gest\u00e3o.<\/p>\n<p>Por que o Brasil chegou nessa situa\u00e7\u00e3o? Nos \u00faltimos dez anos, n\u00f3s tivemos 13 ministros da Sa\u00fade. A m\u00e9dia de perman\u00eancia no cargo foi de dez meses, porque o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade foi usado como troca pol\u00edtica, o partido tal, para apoiar o governo, quer o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, d\u00e1 para ele. O que voc\u00ea faz em dez meses em um pa\u00eds desse tamanho? O minist\u00e9rio tem um corpo t\u00e9cnico muito bom, com gente preparada que \u00e9 o que tem segurado nessa quest\u00e3o pol\u00edtica toda. Agora temos que nos organizar muito depressa e isso \u00e9 problema.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; \u00c9 preocupante trocar o ministro nesta altura do campeonato?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Varella &#8211;<\/strong>&nbsp;\u00c9 claro que \u00e9. O minist\u00e9rio [sob a gest\u00e3o de Luiz Henrique Mandetta] tem se comportado muito bem, tem obedecido as orienta\u00e7\u00f5es da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, tem respeitado as medidas que foram tomadas em outros pa\u00edses com sistemas de sa\u00fade muito mais organizados que o nosso, como \u00e9 o caso da Alemanha, do Reino Unido, da Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Eu acho que nessa hora voc\u00ea tirar um ministro que est\u00e1 fazendo um bom trabalho&#8230; Porque n\u00e3o \u00e9 um ministro, \u00e9 a equipe dele inclusive. Voc\u00ea tirar uma equipe que est\u00e1 fazendo um trabalho muito bem feito, tirar por raz\u00f5es pol\u00edticas, \u00e9 muito duro isso.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; O senhor est\u00e1 no grupo de risco, vivendo em quarentena e trabalhando. Como o senhor est\u00e1 lidando com a ansiedade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Varella &#8211;&nbsp;<\/strong>\u00c9 dif\u00edcil porque eu, desde que realizei que ia acontecer uma trag\u00e9dia no Brasil, eu j\u00e1 acordo de manh\u00e3 com uma ang\u00fastia, \u00e9 uma ang\u00fastia permanente. Pelo trabalho em educa\u00e7\u00e3o, em sa\u00fade, que eu venho realizando h\u00e1 muitos anos, eu me sinto respons\u00e1vel, sabe. Como sei l\u00e1, como se eu fosse o ministro da Sa\u00fade. Vendo que tem que fazer, o que podemos fazer para ajudar, de que maneira o meu trabalho pode ser mais \u00fatil para as popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o me liga l\u00e1 no Rio Negro, uma regi\u00e3o que eu conhe\u00e7o pouco, que \u00e9 S\u00e3o Gabriel da Cachoeira. &#8216;Ah, o senhor faz umas mensagens para a gente, para os ind\u00edgenas ficarem em casa&#8217;, nas comunidades. Eu n\u00e3o tenho como dizer n\u00e3o, ent\u00e3o preparo as mensagens, leva tempo. Vem vindo as coisas de todos os lugares e eu tento selecionar para ver onde a minha atua\u00e7\u00e3o pode ter um impacto maior. Mas \u00e9 muito dif\u00edcil essa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu lembro quando a epidemia de Aids, que a minha gera\u00e7\u00e3o viveu bem de perto. Eu estava fazendo um est\u00e1gio em um hospital em Nova York e percebi que isso ia acontecer no Brasil. E eu fiquei muito angustiado tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Falei essa doen\u00e7a vai se espalhar pelo Brasil, na \u00e9poca n\u00e3o havia rem\u00e9dio, nem se sabia qual era o agente, o HIV n\u00e3o tinha sido descoberto ainda. E eu lembro que tive a mesma sensa\u00e7\u00e3o. Mas ali havia um problema, porque voc\u00ea tinha que atacar o comportamento sexual. Que tudo bem, \u00e9 dific\u00edlimo tamb\u00e9m, mas era um ponto espec\u00edfico. Aqui n\u00e3o, \u00e9 um v\u00edrus que se espalha pelo ar, pode atingir todos. Eu de fato n\u00e3o consigo ficar tranquilo.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; O senhor tem algum cuidado com a sua sa\u00fade mental? Alguma rotina nesse sentido?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Varella &#8211;<\/strong>&nbsp;Olha, para medita\u00e7\u00e3o n\u00e3o tenho essa sabedoria (risos). Porque se eu parar e ficar meditando eu s\u00f3 vou pensar nos problemas, onde est\u00e1 agora, estou preocupado com o Amap\u00e1, l\u00e1 n\u00e3o tem estrutura, n\u00e3o tem UTI. A\u00ed n\u00e3o d\u00e1 certo para mim n\u00e3o. O que eu tento fazer \u00e9 estudar, acompanhar bem o que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p>Pela primeira vez na vida, acho que eu parei de estudar oncologia, que \u00e9 minha especialidade, e estou estudando s\u00f3 a epidemia. Eu \u00e0s vezes leio alguma coisinha de oncologia, mas n\u00e3o consigo manter a aten\u00e7\u00e3o por muito tempo. Eu procuro ler bastante, vejo tudo o que est\u00e1 sendo publicado nas revistas internacionais, que agora abriram, voc\u00ea n\u00e3o precisa mais ser assinante da revista em tudo o que se refere ao coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>E eu procuro me manter calmo em rela\u00e7\u00e3o a isso, escrever um pouco nos intervalos. E agir, da forma que eu consigo interferir, isolado desse jeito.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Voltando \u00e0 quest\u00e3o da desigualdade com que come\u00e7amos a entrevista, o senhor acha que com esse problema evidenciado na quarentena, quando a pandemia passar, o senhor acha que, do ponto de vista de sociedade vai mudar alguma coisa? Como isso vai influenciar a sociedade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Varella&nbsp;<\/strong>&#8211; Acho que sim, acho que vamos sair dessa experi\u00eancia de maneira diferente. Acho que o sofrimento \u00e9 uma press\u00e3o para o aprendizado. Todos n\u00f3s vamos perder amigos, muitos v\u00e3o perder pessoas da fam\u00edlia, e isso vai nos ensinar que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel viver como n\u00f3s viv\u00edamos at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p>Voc\u00ea v\u00ea, anos atr\u00e1s, n\u00f3s decidimos sediar a Copa do Mundo e a Olimp\u00edada no Brasil. Bonito, n\u00e9. Da\u00ed constru\u00edmos esses elefantes brancos que hoje s\u00e3o um problema para os governos estaduais, que os mant\u00eam com dificuldade. Na \u00e9poca a gente dizia p\u00f4, mas esse dinheiro tem que ir para sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem sentido fazer est\u00e1dios. E o que eles diziam? Que n\u00f3s \u00e9ramos parte da elite, que queria negar aos pobres as alegrias do futebol. Muito bom. Agora estamos pegando esses est\u00e1dios e transformando em qu\u00ea? Em hospitais.<\/p>\n<p>Essa irresponsabilidade social que n\u00f3s temos tido no decorrer de tantos anos est\u00e1 nos levando a uma situa\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil agora, e isso vai deixar um aprendizado. Primeiro: o SUS nunca mais vai ser o mesmo, porque n\u00f3s agora estamos conscientes da import\u00e2ncia dele. H\u00e1 quanto tempo a gente escreve e fala que o SUS \u00e9 fundamental. Eu sempre cito uma frase do Gonzalo Vecina Neto (ex-presidente da Anvisa), que \u00e9 um sanitarista muito respeitado por todos n\u00f3s, que \u00e9; sem o SUS, \u00e9 o caos. Imagina agora o que seria se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos o SUS?<\/p>\n<p>N\u00e3o pode ser relegado a terceiro, quarto plano nas preocupa\u00e7\u00f5es governamentais. Ele tem que ter prioridade. A sa\u00fade tem que ter prioridade porque n\u00f3s n\u00e3o vamos conseguir construir um pa\u00eds civilizado com esse desn\u00edvel de acesso, onde alguns t\u00eam acesso \u00e0 melhor tecnologia, aos melhores m\u00e9dicos, aos melhores hospitais, e outros ficam relegados ao que \u00e9 poss\u00edvel dar para eles. E o que \u00e9 poss\u00edvel dar para eles n\u00e3o \u00e9 grande coisa, porque o investimento \u00e9 pequeno e a gest\u00e3o \u00e9 prec\u00e1ria. Eu acho que vamos sair disso diferentes.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Tem mais alguma coisa que o senhor gostaria de abordar que eu n\u00e3o perguntei?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Varella &#8211;&nbsp;<\/strong>Olha, eu acho que nesse momento a gente tem que dar uma import\u00e2ncia muito grande \u00e0s m\u00e1scaras. As crian\u00e7as t\u00eam que usar m\u00e1scaras. porque ensinando as crian\u00e7as n\u00f3s vamos ensinar os adultos. N\u00e3o foi assim com o cinto de seguran\u00e7a? A crian\u00e7a entrava no carro, puxava o cinto de seguran\u00e7a e olhava para o pai: pai, p\u00f5e o cinto. O pai ficava sem gra\u00e7a de o filho pequeno estar mandando ele colocar o cinto e passou a usar o cinto Foi assim com o cigarro tamb\u00e9m, n\u00e3o foi? Ensina as crian\u00e7as que n\u00e3o pode fumar, que voc\u00ea vai morrer, vai ter doen\u00e7as graves, a crian\u00e7a chegava em casa \u00f4 pai, voc\u00ea vai morrer, para de fumar, eu n\u00e3o quero ficar sem voc\u00ea. Um est\u00edmulo forte, uma crian\u00e7a que diz uma coisa dessas. A mesma coisa tem que ser com as m\u00e1scaras. N\u00f3s n\u00e3o temos dinheiro, n\u00e3o encontramos m\u00e1scara no mercado, faz em casa.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; E \u00e9 uma coisa que vamos ter que usar por muito tempo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Varella &#8211;&nbsp;<\/strong>Muito tempo. Porque esse v\u00edrus vai ficar um bom tempo entre n\u00f3s. N\u00e3o com essas caracter\u00edsticas que est\u00e1 tendo agora, promovendo essa mortalidade absurda, mas ele vai levar muito tempo para desaparecer do contato com a humanidade.<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Ligia Guimar\u00e3es d<\/span><span class=\"byline__title\">a BBC News Brasil em S\u00e3o Paulo &#8211; dispon\u00edvel na internet 20\/04\/2020<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Drauzio Varella prev\u00ea &#8216;trag\u00e9dia nacional&#8217; por coronav\u00edrus: &#8216;Brasil vai pagar o pre\u00e7o da desigualdade&#8217; &nbsp; Prestes a completar 77 anos em maio, o m\u00e9dico cancerologista Drauzio Varella diz que se arrepende de j\u00e1 ter sido otimista a respeito do novo coronav\u00edrus. 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