{"id":48092,"date":"2020-05-09T03:00:38","date_gmt":"2020-05-09T06:00:38","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=48092"},"modified":"2020-05-09T07:47:05","modified_gmt":"2020-05-09T10:47:05","slug":"primeira-capital-do-brasil-em-lockdown-tem-ruas-lotadas-e-transito-intenso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/05\/09\/primeira-capital-do-brasil-em-lockdown-tem-ruas-lotadas-e-transito-intenso\/","title":{"rendered":"Primeira capital do Brasil em lockdown tem ruas lotadas e tr\u00e2nsito intenso"},"content":{"rendered":"<h5 class=\"story-body__h1\">Feiras lotadas. Aglomera\u00e7\u00f5es nas ruas. Tr\u00e2nsito intenso. As cenas vistas nos \u00faltimos dias em algumas partes de S\u00e3o Lu\u00eds n\u00e3o s\u00e3o o que se esperaria da primeira capital do pa\u00eds a entrar em&nbsp;lockdown.<\/h5>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<p>Para evitar o colapso do sistema de sa\u00fade local, onde a ocupa\u00e7\u00e3o das unidades de tratamento intensivo da rede estadual atingiu 100% no fim de abril, a Justi\u00e7a determinou que a cidade e outros tr\u00eas munic\u00edpios da sua regi\u00e3o metropolitana adotassem na \u00faltima ter\u00e7a-feira (5\/5), por dez dias, medidas mais r\u00edgidas para reduzir a propaga\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>Entre elas, a proibi\u00e7\u00e3o de circula\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos particulares, a n\u00e3o ser para comprar alimentos ou atendimento m\u00e9dico, a entrada e sa\u00edda de ve\u00edculos da ilha e o fechamento de qualquer com\u00e9rcio n\u00e3o essencial.<\/p>\n<p>No entanto, os dados de monitoramento do isolamento social em S\u00e3o Lu\u00eds mostram que, apesar de mais gente ter ficado em casa, ainda assim isso n\u00e3o \u00e9 suficiente para controlar a epidemia na cidade, onde foram registrados 3.745 dos 5.909 casos confirmados no Maranh\u00e3o at\u00e9 a \u00faltima quinta-feira, segundo a Secretaria estadual da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>A ades\u00e3o ao isolamento foi de 55,4% no primeiro dia de lockdown e caiu desde ent\u00e3o, para 54,1% no segundo dia e para 53% no terceiro, de acordo com a empresa In Loco, que criou um \u00edndice baseado nos dados de geolocaliza\u00e7\u00e3o de 60 milh\u00f5es de celulares do pa\u00eds.<\/p>\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-parrot wsoj-component\" data-variation=\"default-0\">\n<aside class=\"parrot\" role=\"region\" aria-label=\"Talvez tamb\u00e9m te interesse\">Isso \u00e9 mais do que a m\u00e9dia de 47,1% que a cidade registrou em dias \u00fateis da semana imediatamente anterior. S\u00e3o Lu\u00eds tamb\u00e9m atingiu pela primeira vez em dias de semana um n\u00edvel de isolamento que a cidade s\u00f3 conseguia obter em domingos e feriados.<\/aside>\n<\/div>\n<p>Mas os dois primeiros dias de lockdown n\u00e3o bateram os recordes de ades\u00e3o registrados pela capital maranhense desde que o governo estadual decretou as primeiras medidas de isolamento, em 21 de mar\u00e7o. Desde ent\u00e3o, houve sete dias com \u00edndices melhores, entre 55,8% e 57,6%.<\/p>\n<p>E o patamar atual n\u00e3o \u00e9 o bastante para controlar a epidemia, diz o epidemiologista Antonio Augusto Moura da Silva, professor do departamento de Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade Federal do Maranh\u00e3o (UFMA).<\/p>\n<p>&#8220;Qualquer ganho \u00e9 um ganho, mas n\u00e3o \u00e9 o que a gente queria. N\u00e3o \u00e9 o ideal&#8221;, diz Silva.<\/p>\n<p>O epidemiologista explica que o \u00edndice teria de ser de cerca de 70% para fazer com que o n\u00famero de novos casos pare de crescer e comece a cair.<\/p>\n<p>Isso porque a taxa de cont\u00e1gio, que aponta quantas pessoas algu\u00e9m que est\u00e1 contaminado pode infectar, era de 3 no in\u00edcio da pandemia no Maranh\u00e3o, de acordo com um&nbsp;<a class=\"story-body__link-external\" href=\"https:\/\/www.imperial.ac.uk\/mrc-global-infectious-disease-analysis\/covid-19\/report-21-brazil\/\">estudo<\/a>&nbsp;do Imperial College de Londres.<\/p>\n<p>Para que o n\u00famero de novos casos passe a cair, \u00e9 preciso que essa taxa seja menor do que 1. No caso maranhense, isso significa que a taxa teria de ser reduzida em mais de dois ter\u00e7os, e, para conseguir isso, a redu\u00e7\u00e3o do contato social deve ocorrer na mesma propor\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, o isolamento deve ser de 70% ou mais, afirma Silva.<\/p>\n<p>O virologista Anderson Brito, do departamento de epidemiologia da Escola de Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, aponta que um&nbsp;<a class=\"story-body__link-external\" href=\"https:\/\/arxiv.org\/pdf\/2003.10218.pdf\">estudo<\/a>&nbsp;realizado pela Universidade de Sydney, na Austr\u00e1lia, vai ao encontro dos n\u00fameros citados por Silva.<\/p>\n<p>Essa pesquisa calculou o impacto do isolamento sobre a epidemia local e indicou que, para a preval\u00eancia da covid-19 come\u00e7ar a cair no pa\u00eds, seria preciso uma ades\u00e3o de 80%.<\/p>\n<p>&#8220;Guardadas as devidas diferen\u00e7as entre o Brasil e a Austr\u00e1lia, \u00e9 esse o patamar que nos apontam as evid\u00eancias cient\u00edficas. Ent\u00e3o, S\u00e3o Lu\u00eds precisaria de uma ades\u00e3o maior para de fato eliminar as cadeias de transmiss\u00e3o&#8221;, afirma Brito.<\/p>\n<p>A BBC News Brasil procurou as secretarias municipal e estadual de Sa\u00fade para comentar os resultados do lockdown, mas n\u00e3o recebeu resposta at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Isolamento desigual<\/h2>\n<p>Fernando Spilki, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia (SBV), diz que os \u00edndices de S\u00e3o Lu\u00eds com o lockdown s\u00e3o uma &#8220;vit\u00f3ria&#8221;, porque ter\u00e3o algum efeito.<\/p>\n<p>Mas ele avalia que eles s\u00e3o insuficientes, porque a literatura cient\u00edfica aponta que isso at\u00e9 agora que \u00e9 preciso ter ao menos 70% de isolamento.<\/p>\n<p>&#8220;Essa diferen\u00e7a de 15% entre o que a cidade conseguiu e o ideal pode parecer pequena, mas tem muito impacto porque lidamos com um pat\u00f3geno muito contagioso.&#8221;<\/p>\n<p>O virologista explica ainda que, al\u00e9m da m\u00e9dia geral do isolamento, tamb\u00e9m \u00e9 preciso analisar como isso ocorreu em diferentes partes de uma cidade.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/9126\/production\/_112185173_29839f08-eabe-4feb-afbb-5cb491d57453.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/9126\/production\/_112185173_29839f08-eabe-4feb-afbb-5cb491d57453.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Ruas de S\u00e3o Lu\u00eds\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Regi\u00e3o central de S\u00e3o Lu\u00eds ficou mais vazia do que a periferia. Direito de imagem EPA<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Em S\u00e3o Lu\u00eds, as regi\u00f5es centrais ficaram mais vazias e as periferias, lotadas. Se a ades\u00e3o \u00e9 muito desigual entre diferentes regi\u00f5es da cidade, isso pode comprometer o esfor\u00e7o de se fazer um lockdown.<\/p>\n<p>&#8220;O lockdown se mostrou uma estrat\u00e9gia bastante adequada e talvez seja a \u00fanica completamente efetiva para evitar a dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus hoje, mas, se apenas uma parte da popula\u00e7\u00e3o se isola, o v\u00edrus continua a circular e a criar focos de cont\u00e1gio&#8221;, diz Spilki.<\/p>\n<p>As pessoas destas regi\u00f5es onde o coronav\u00edrus segue sendo transmitido ir\u00e3o para outras \u00e1reas e levar\u00e3o a doen\u00e7a com elas, fazendo com que haja novas ondas de cont\u00e1gio depois de algum tempo.<\/p>\n<p>Anderson Brito diz que um dos piores cen\u00e1rios poss\u00edveis \u00e9 fazer um lockdown, mas n\u00e3o haver uma ades\u00e3o em massa da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Isso cria a sensa\u00e7\u00e3o de que algo est\u00e1 sendo feito, mas n\u00e3o est\u00e1 dando resultado. Mas s\u00f3 vai dar resultado se as pessoas aderirem&#8221;, diz o virologista.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/DF46\/production\/_112185175_bine.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/DF46\/production\/_112185175_bine.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Fiscaliza\u00e7\u00e3o de tr\u00e2nsito em S\u00e3o Lu\u00eds\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Regi\u00f5es da capital maranhense tiveram tr\u00e2nsito intenso. Direito de imagem AG\u00caNCIA S\u00c3O LU\u00cdS<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Al\u00e9m disso, explica ele, ainda \u00e9 cedo para saber se o lockdown vai surtir o resultado esperado, porque uma pessoa infectada pelo novo coronav\u00edrus leva at\u00e9 14 dias para ter sintomas e quem \u00e9 internado fica no hospital por 18 dias em m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel ver os resultados dos novos n\u00edveis de isolamento sobre os \u00edndices de casos, mortes e ocupa\u00e7\u00e3o de leitos daqui a tr\u00eas ou quatro semanas semanas ao menos.<\/p>\n<p>&#8220;Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio n\u00e3o s\u00f3 contar com a ades\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m com a confian\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o de que isso est\u00e1 dando certo&#8221;, afirma Brito.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Vulnerabilidade social<\/h2>\n<p>O epidemiologista Antonio Augusto Moura da Silva diz quem um dos maiores obst\u00e1culos para a cidade ter \u00edndices de isolamento maiores \u00e9 a vulnerabilidade social da popula\u00e7\u00e3o do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>O Estado tem a maior propor\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o vivendo em situa\u00e7\u00e3o de pobreza, segundo dados Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE): 54,1% dos 6,8 milh\u00f5es de maranhenses vivem com menos de R$ 406 por m\u00eas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o Maranh\u00e3o tem o maior percentual do pa\u00eds de trabalhadores informais \u2014 s\u00e3o 64,9% dos trabalhadores ocupados, segundo dados de 2018.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/B541\/production\/_112210464_52cdb9ce-27ed-45e2-afe9-b6376d79919b.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/B541\/production\/_112210464_52cdb9ce-27ed-45e2-afe9-b6376d79919b.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Pessoas usando m\u00e1scara em S\u00e3o Lu\u00eds\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Vulnerabilidade social \u00e9 um obst\u00e1culo para isolamento no Maranh\u00e3o. Direito de imagem AG\u00caNCIA S\u00c3O LU\u00cdS<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>&#8220;A gente j\u00e1 desconfiava que a gente n\u00e3o ia conseguir manter todo mundo em casa. N\u00e3o porque as pessoas n\u00e3o querem aderir. Mas porque \u00e9 dif\u00edcil para elas fazer isso porque precisam sair de casa todo dia para ganhar dinheiro. Para fazer o lockdown, teria que ampliar o programa do governo de aux\u00edlio emergencial para atingir o maior n\u00famero de pessoas poss\u00edvel. Sem uma coisa ou outra, elas v\u00e3o passar fome&#8221;, diz Silva.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 caso da empregada dom\u00e9stica Maria Barros, de 51 anos. Ela est\u00e1 h\u00e1 quase um m\u00eas sem trabalhar e j\u00e1 gastou todo seu \u00faltimo sal\u00e1rio anterior para quitar o aluguel e as contas e abastecer a despensa.<\/p>\n<p>Seu filho tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 conseguindo trabalho como pedreiro e ele n\u00e3o sabe se vai conseguir ganhar algum dinheiro para passar o m\u00eas que vem.<\/p>\n<p>Socorro est\u00e1 na mesma situa\u00e7\u00e3o. Ela estava em regime de experi\u00eancia na casa onde trabalha e n\u00e3o tem ainda carteira assinada. Por isso, n\u00e3o tem qualquer garantia de que receber\u00e1 o pr\u00f3ximo sal\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8220;Eu quero ficar em casa, mas, se a minha patroa n\u00e3o me pagar, eu vou ter que sair. Precisa entrar pelo menos R$ 100 para comprar comida.&#8221;<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Rafael Barifouse d<\/span><span class=\"byline__title\">a BBC News Brasil em S\u00e3o Paulo &#8211; dispon\u00edvel na internet 09\/05\/2020<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Feiras lotadas. Aglomera\u00e7\u00f5es nas ruas. Tr\u00e2nsito intenso. As cenas vistas nos \u00faltimos dias em algumas partes de S\u00e3o Lu\u00eds n\u00e3o s\u00e3o o que se esperaria da primeira capital do pa\u00eds a entrar em&nbsp;lockdown. 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