{"id":48737,"date":"2020-05-29T01:50:51","date_gmt":"2020-05-29T04:50:51","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=48737"},"modified":"2020-05-29T05:57:44","modified_gmt":"2020-05-29T08:57:44","slug":"desigualdade-eleva-letalidade-da-covid-na-favela-diz-estudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/05\/29\/desigualdade-eleva-letalidade-da-covid-na-favela-diz-estudo\/","title":{"rendered":"Desigualdade eleva letalidade da covid na favela, diz estudo"},"content":{"rendered":"<p class=\"intro\">Mesmo se o n\u00edvel de confinamento fosse igual ao de bairros ricos, comunidades pobres teriam at\u00e9 o triplo de mortes, afirmam pesquisadores. Para eles, s\u00f3 autoridades locais poder\u00e3o solucionar epidemia no Brasil.&nbsp; <span dir=\"ltr\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<div class=\"group\">\n<div class=\"longText\">\n<p>Quase todos os dias, com ou sem pandemia, a diarista Joceliane Gomes Santos de Freitas, 29 anos, sai de casa \u00e0s 7h em Barra do Cear\u00e1, comunidade de Fortaleza onde mora com o marido e os dois filhos de 4 e 8 anos. Caminha por uma hora at\u00e9 chegar ao trabalho \u2013 &#8220;\u00e9 preciso economizar com a condu\u00e7\u00e3o&#8221;, diz. O marido encontrou um emprego m\u00eas passado, ap\u00f3s tr\u00eas anos desempregado, e agora trabalha como porteiro das 18h \u00e0s 6h. Sem creche, quem cuida dos filhos \u00e9 a m\u00e3e dela, idosa, que viaja semanalmente de outro munic\u00edpio para isso.<\/p>\n<p>Na casa de tr\u00eas c\u00f4modos, a torneira \u00e9 decorativa. \u00c9 preciso acordar todos os dias \u00e0s 3h para pegar \u00e1gua, que chega apenas a uma bica do lado de fora, com baldes. O \u00e1lcool em gel e os produtos de limpeza s\u00e3o garantidos por doa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Para quem mora em bairros como Barra do Cear\u00e1, o home office e a quarentena s\u00e3o fic\u00e7\u00e3o. Mesmo com a ajuda de R$ 600 que Freitas tem recebido do governo federal, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel abrir m\u00e3o do trabalho. &#8220;A gente tem medo de pegar&nbsp;coronav\u00edrus, mas tem que buscar o alimento.&#8221;<\/p>\n<p>Em Fortaleza, uma das capitais mais desiguais do pa\u00eds e a que tem o segundo maior \u00edndice de infectados com coronav\u00edrus por 100 mil habitantes, a pandemia escancarou a disparidade socioecon\u00f4mica e mostrou que quem vive em locais de baixo \u00cdndice de Desenvolvimento Humano (IDH) tem mais chances de se infectar e morrer.<\/p>\n<p>Conforme dados obtidos com exclusividade pela DW Brasil, no bairro Meireles, com IDH pr\u00f3ximo da Noruega, com um n\u00edvel de confinamento de 70% \u2013 a meta estadual \u2013, a taxa de infectados \u00e9 de 6%, e a de letalidade, de 0,5%.<\/p>\n<p>J\u00e1 em Barra do Cear\u00e1, com IDH inferior a pa\u00edses como o Sud\u00e3o do Sul, se houvesse o mesmo n\u00edvel de isolamento, a taxa de infectados seria de 16%, e a de letalidade triplicaria, o que mostra que o coronav\u00edrus avan\u00e7a mais rapidamente e de forma mais letal em comunidades carentes, segundo os autores do estudo.<\/p>\n<p>O levantamento,&nbsp;<a class=\"icon external\" href=\"https:\/\/simulacovid.github.io\/covid19\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener noreferrer\">feito pelo grupo interdisciplinar de pesquisadores A\u00e7\u00e3o Covid-19<\/a>, mostra que a necessidade de confinamento \u00e9 maior em \u00e1reas mais pobres \u2013&nbsp;justamente onde \u00e9 mais dif\u00edcil manter a popula\u00e7\u00e3o em casa devido a&nbsp;um conjunto de fatores que facilitam a transmiss\u00e3o, como saneamento inadequado, educa\u00e7\u00e3o deficiente, moradias lotadas e m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o, que se refletem no IDH.<\/p>\n<p>Enquanto o n\u00edvel de confinamento de Meireles se manteve em 70% \u2013 ainda considerado insuficiente pelos pesquisadores, que dizem ser necess\u00e1rio atingir 80% \u2013, em Barra do Cear\u00e1 esse n\u00edvel foi de 50%, diante de uma necessidade calculada de 86%.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros oficiais, mesmo considerando a subnotifica\u00e7\u00e3o, j\u00e1 d\u00e3o uma no\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a. Barra do Cear\u00e1, de 1\u00ba de abril at\u00e9 26 de maio, registrou 400 casos de coronav\u00edrus e 58 mortes, ou uma taxa de mortalidade de 14,5%, enquanto em Meireles houve 649 casos e 27 v\u00edtimas, ou uma mortalidade de 4,2% nesse per\u00edodo.<\/p>\n<p>O bairro carioca de Copacabana \u00e9 outro exemplo. Para achatar a curva de infectados, os pesquisadores estimam que o confinamento teria de ser aumentado da meta de 70% para ao menos 80%. Na comunidade Pav\u00e3o-Pav\u00e3ozinho, que fica dentro de Copacabana, o \u00edndice ideal seria de 92%.&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil conseguir tanto isolamento. Exige medidas integradas, com a coopera\u00e7\u00e3o de todas as esferas de poder, movimentos sociais, iniciativa privada e popula\u00e7\u00e3o&#8221;, diz o cientista da computa\u00e7\u00e3o Carlos dos Santos, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC).<\/p>\n<p><strong>Pol\u00edticas p\u00fablicas locais<\/strong><\/p>\n<p>Esses altos n\u00edveis de confinamento&nbsp;n\u00e3o s\u00e3o fact\u00edveis, especialmente nas comunidades pobres, onde a maior parte da popula\u00e7\u00e3o precisa sair de casa para trabalhar. &#8220;Esse n\u00edvel de confinamento n\u00e3o \u00e9 real, mas mostra que \u00e9 preciso ter a\u00e7\u00f5es voltadas especificamente para essas comunidades&#8221;, diz a f\u00edsica Patricia Camargo Magalh\u00e3es, da Universidade de Bristol, que faz parte do grupo de pesquisadores.<\/p>\n<p>Segundo o presidente da Central \u00danica de Favelas (Cufa), Preto Zez\u00e9, a dificuldade maior \u00e9 a alimenta\u00e7\u00e3o. &#8220;Como a pessoa vai ficar em casa se ela n\u00e3o tem o que comer e precisa sair para trabalhar e comprar comida?&#8221; Al\u00e9m disso, lembra, s\u00e3o os moradores de comunidades como essas que est\u00e3o em trabalhos hoje considerados essenciais, como supermercados e postos de gasolina.<\/p>\n<p>&#8220;O n\u00edvel de confinamento social \u00e9 muito dif\u00edcil para esses territ\u00f3rios, at\u00e9 a no\u00e7\u00e3o de casa \u00e9 diferente, a rua muitas vezes faz parte da casa. O que tem de ser feito \u00e9 diminuir a chance de transmiss\u00e3o de pessoa para pessoa, dar condi\u00e7\u00f5es para as pessoas n\u00e3o se contaminarem, ter equipamento individual, renda, porque as pessoas est\u00e3o saindo de casa para trabalhar&#8221;, afirma o economista Jos\u00e9 Paulo Guedes Pinto, professor da UFABC, que tamb\u00e9m faz parte do grupo A\u00e7\u00e3o Covid-19.<\/p>\n<div class=\"col2\">\n<div class=\"standaloneWrap\">\n<div class=\"imgTeaserM video\" data-media-id=\"53374108\">\n<div class=\"mediaItem\" data-media-id=\"53374108\">\n<div class=\"teaserContentWrap information\">\n<h2>Moradores de Parais\u00f3polis entram em campo contra covid-19<\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Segundo o economista, o sucesso do Brasil no controle da epidemia depender\u00e1 das gest\u00f5es locais. &#8220;O governo federal j\u00e1 colocou um pouco o limite de onde vai atuar. O Brasil vai sair dessa dependendo muito do poder local, com o munic\u00edpio levando \u00e1gua para a comunidade, por exemplo, deixando de podar \u00e1rvores em bairros ricos para levar o essencial para bairros pobres.&#8221;<\/p>\n<p>Para o professor e pesquisador da Faculdade de Medicina da USP de Ribeir\u00e3o Preto, que trabalha com proje\u00e7\u00f5es no grupo de pesquisadores Covid-19 Brasil, \u00e9 necess\u00e1rio estabelecer metas distintas de confinamento para bairros diferentes. &#8220;Fortaleza tem claramente duas pandemias&#8221;, diz, em refer\u00eancia ao estudo.<\/p>\n<p>No caso de Fortaleza, a prefeitura afirma estarem sendo realizadas a\u00e7\u00f5es voltadas especificamente para combate \u00e0 covid-19 em bairros e grupos mais vulner\u00e1veis socioeconomicamente, o que inclui a distribui\u00e7\u00e3o de 130 mil cestas b\u00e1sicas e a transfer\u00eancia de R$ 200, em parcela \u00fanica, para feirantes, aut\u00f4nomos e ambulantes cadastrados no munic\u00edpio.<\/p>\n<p>Organiza\u00e7\u00f5es sociais t\u00eam feito parte do trabalho. Em Barra do Cear\u00e1, a Cufa auxiliou 4 mil fam\u00edlias com 300 mil reais distribu\u00eddos em vale-g\u00e1s, vale-alimenta\u00e7\u00e3o \u2013 com um voucher digital que s\u00f3 pode ser usado no com\u00e9rcio local \u2013, aux\u00edlio em dinheiro a m\u00e3es, que representam quase metade das chefias de fam\u00edlia no bairro, entre outras a\u00e7\u00f5es. A verba vem principalmente de doa\u00e7\u00f5es de empresas.<\/p>\n<p>No dia 17 de mar\u00e7o, a prefeitura de Fortaleza decretou situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia em sa\u00fade p\u00fablica e definiu medidas como a suspens\u00e3o de aulas e eventos p\u00fablicos. Mas somente em 8 de maio estado e munic\u00edpio&nbsp; decretaram um isolamento social mais r\u00edgido, com restri\u00e7\u00e3o na circula\u00e7\u00e3o de pessoas e ve\u00edculos em espa\u00e7os p\u00fablicos, permitida somente com justificativa, como busca a servi\u00e7os essenciais.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito:&nbsp; Deutsche Welle Brasil &#8211; dispon\u00edvel na internet 29\/05\/2020<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mesmo se o n\u00edvel de confinamento fosse igual ao de bairros ricos, comunidades pobres teriam at\u00e9 o triplo de mortes, afirmam pesquisadores. 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