{"id":4903,"date":"2016-08-22T00:05:12","date_gmt":"2016-08-22T03:05:12","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=4903"},"modified":"2016-08-21T12:34:29","modified_gmt":"2016-08-21T15:34:29","slug":"o-dia-seguinte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2016\/08\/22\/o-dia-seguinte\/","title":{"rendered":"O dia seguinte."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 atletas que comparam o vazio depois de um p\u00f3dio \u00e0 parada brusca de uma m\u00e1quina em alta velocidade<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vai dar saudade deles. Foram lindos de ver em todas as suas muitas configura\u00e7\u00f5es \u2014 tivessem porte de mastim ou pernas que chegavam \u00e0 altura das axilas. O brit\u00e2nico William Harvey, grande figura da medicina de seu tempo, n\u00e3o se referia a atletas quando descreveu o movimento animal como \u201cm\u00fasica silenciosa do corpo humano\u201d. Mas \u00e9 em Jogos Ol\u00edmpicos que a capacidade ou n\u00e3o de controlar esse movimento com a mente fica demonstrada em toda sua plenitude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Rio 2016 n\u00e3o foi diferente. O p\u00f3dio do salto com vara masculino proporcionou o retrato-s\u00edntese das 11.547 vari\u00e1veis individuais com que os atletas de 207 pa\u00edses desembarcaram para disputar suas provas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No topo do p\u00f3dio, o jovem brasileiro Thiago Braz, de 22 anos, sereno apesar de calouro em Jogos e contido apesar de ter batido o recorde ol\u00edmpico. No degrau mais baixo, o americano Sam Kendricks, com ar de felicidade planet\u00e1ria acarinhando o bronze que para ele valia ouro. No degrau reservado ao medalhista de prata, um homem amargo, devastado e inst\u00e1vel de 27 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Renaud Lavillenie n\u00e3o fracassara na prova em si \u2014 n\u00e3o se pode chamar de fracasso uma cl\u00e1ssica derrota para um advers\u00e1rio que lhe fora inegavelmente superior. A grande derrota autoinfligida de Lavillenie foi n\u00e3o aceit\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O franc\u00eas tem farta companhia na nega\u00e7\u00e3o, apenas o que se revelou mais mesquinho e rancoroso. A valqu\u00edria holandesa Dafne Schippers, atual campe\u00e3 mundial dos 200 metros, tamb\u00e9m odiou ser atropelada em 0,13 de segundo por um furac\u00e3o jamaicano chamado Elaine Thompson. Mas tratou de escancarar logo o tamanho da decep\u00e7\u00e3o. \u201cP\u00e9ssimo. A prata para mim n\u00e3o vale nada. Vim aqui para levar o ouro\u201d, disse a atleta, ao sair da pista descal\u00e7a, tendo usado a sapatilha como proj\u00e9til de descarrego da raiva. E foi em frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o s\u00f3 quedas do Olimpo testam o equil\u00edbrio f\u00edsico e emocional de atletas. Despedidas em triunfo tamb\u00e9m podem ser dif\u00edceis de administrar depois de apagada a pira ol\u00edmpica. Uma coisa \u00e9 ser Usain Bolt e conseguir transformar o encerramento da carreira numa festa de arromba para 3,5 bilh\u00f5es de convidados. Outra \u00e9 voltar para casa em gl\u00f3ria, sem ser Bolt.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dependendo do naco de vida despendido para chegar ao topo, s\u00e3o in\u00fameros os casos de campe\u00f5es gra\u00fados que perderam o rumo diante do vazio uma vez alcan\u00e7ada a t\u00e3o cintilante meta. Depois de um ouro ol\u00edmpico apenas outro ouro ol\u00edmpico tem valor \u2014 n\u00e3o h\u00e1 campeonato mundial que tenha peso ou simbolismo equivalente. S\u00f3 que para muitos esportistas a perspectiva de ter de esperar mais quatro anos para talvez, muito talvez, voltar ao topo \u00e9 por demais cruel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ningu\u00e9m menos do que Michael Phelps ficou sem rumo ap\u00f3s conquistar oito ouros em Pequim. Superou o vazio, somou mais quatro p\u00f3dios em Londres e viu-se novamente \u00e0 deriva, desta vez com depress\u00e3o. Por sorte, conseguiu se reerguer na vida e na \u00e1gua, para a doce despedida das piscinas no Rio, com mais cinco ouros, uma prata e um baita sorriso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um pouco como o atleta de elite descrito por F. Scott Fitzgerald em \u201cO grande Gatsby\u201d, tamb\u00e9m Greg Louganis, nome maior do salto ornamental, despencou para o que chamou de \u201cinexplic\u00e1vel fundo do po\u00e7o\u201d, seguido de tentativa de suic\u00eddio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cS\u00f3 n\u00e3o tive depress\u00e3o nem nada parecido porque eu mesmo decidi ficar fora d\u2019\u00e1gua por seis meses depois dos Jogos de Barcelona e Atlanta\u201d, conta o grande velocista dos 50m e 100m nado livre, Alexander Popov, que s\u00f3 voltou a nadar quando se sentiu \u201cfaminto, desesperado por treino\u201d. Ele diz ter descoberto em tempo h\u00e1bil que no\u00a0<em>hard drive<\/em><em>\u00a0<\/em>do seu c\u00e9rebro ainda sobrava espa\u00e7o para outra coisa al\u00e9m de nadar .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em artigo recente sobre o tema, a rep\u00f3rter americana Maddie Crum computou em 4.990 horas a m\u00e9dia de tempo que os 11.547 atletas presentes na Olimp\u00edada do Rio dedicaram a treinos no \u00faltimo quadri\u00eanio. Considerando-se que a m\u00e9dia de idade dos participantes nos Jogos anteriores foi de 26 anos, a perspectiva de investir um quadri\u00eanio inteiro de treinos sem garantia de vir a integrar a pr\u00f3xima equipe ol\u00edmpica exige disciplina e voluntarismo not\u00e1veis por parte do atleta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Crum lembra o caso antigo do nadador Jerry Heidenreich, que n\u00e3o se classificou numa seletiva americana por 0.01 segundo, menor margem de tempo antes de um resultado ser considerado empate. Portanto, no m\u00ednimo mais quatro anos e 4.990 horas de treino se quisesse tentar novamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 atletas que comparam o vazio depois de um p\u00f3dio a um pneu que fura e fica sem ar, \u00e0 parada brusca de uma m\u00e1quina em alta velocidade, \u00e0 depress\u00e3o p\u00f3s-parto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para os que cogitam parar, o dilema tamb\u00e9m apresenta ansiedade. Ao anunciar sua aposentadoria depois de conquistar um ouro nos Jogos de Lillehammer, a esquiadora Diann Roffe foi indagada sobre seus planos dali em diante. \u201cVou me matricular na vida em sociedade\u201d, respondeu. Como todo atleta de elite, Roffe tinha at\u00e9 ent\u00e3o uma rotina autocentrada \u2014 seus treinos, batimentos card\u00edacos, nutri\u00e7\u00e3o, metas, tudo girava em torno dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo isso e muito mais n\u00e3o ficou \u00e0 vista nos 15 dias de majestosas competi\u00e7\u00f5es no Rio. Nem deveria ficar, por prematuro. E para n\u00e3o poluir o incompar\u00e1vel espet\u00e1culo dos melhores atletas do mundo em 302 disputas para a consagra\u00e7\u00e3o do melhor. Um luxo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cr\u00e9dito: Artigo publicado dia 21&#8217;\/08\/2016 na coluna opini\u00e3o do jornal O Globo \u2013 dispon\u00edvel na web 22\/08\/2016<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\"><strong>Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo.<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 atletas que comparam o vazio depois de um p\u00f3dio \u00e0 parada brusca de uma m\u00e1quina em alta velocidade Vai dar saudade deles. 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