{"id":49654,"date":"2020-06-27T02:30:13","date_gmt":"2020-06-27T05:30:13","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=49654"},"modified":"2020-06-26T13:58:57","modified_gmt":"2020-06-26T16:58:57","slug":"cientistas-trabalham-ate-de-graca-na-pesquisa-sobre-covid","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/06\/27\/cientistas-trabalham-ate-de-graca-na-pesquisa-sobre-covid\/","title":{"rendered":"Cientistas trabalham at\u00e9 de gra\u00e7a na pesquisa sobre covid"},"content":{"rendered":"<p class=\"intro\">No mundo cient\u00edfico, h\u00e1 um consenso: a crise s\u00f3 vai acabar de fato quando houver vacina. Mas no Brasil, a verba, de t\u00e3o escassa, for\u00e7a pesquisadores a fazerem vaquinha e tirarem dinheiro do pr\u00f3prio bolso para investigar.<\/p>\n<div class=\"group\">\n<div class=\"longText\">\n<p>Ap\u00f3s ter seu projeto negado no edital do governo voltado para a covid, o professor e pesquisador Heitor Evangelista&nbsp;decidiu fazer sua pesquisa por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>O projeto tinha como objetivo o monitoramento de carga viral em locais de grande circula\u00e7\u00e3o. E, segundo o professor e pesquisador do departamento de Biof\u00edsica e Biometria da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), poderia trazer uma forma de monitorar o quanto um grupo populacional est\u00e1 contaminado sem precisar fazer testes individuais, escassos no Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;Temos o apoio de um laborat\u00f3rio da Uerj, que faz nossas an\u00e1lises usando a estrutura deles, e vamos pegando dinheiro aqui e ali, fazendo vaquinha com dinheiro nosso e do que sobra de algum projeto&#8221;, conta o professor. O caso de Evangelista&nbsp;exemplifica a situa\u00e7\u00e3o de cientistas envolvidos com a pesquisa da covid-19 no Brasil, onde a verba \u00e9 escassa.<\/p>\n<p>Quando a crise do coronav\u00edrus se tornou global, v\u00e1rios pa\u00edses lan\u00e7aram pacotes de ajuda econ\u00f4mica e, dentro deles, de investimento em ci\u00eancia e pesquisa para a busca de solu\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 pandemia.<\/p>\n<p>O Brasil tamb\u00e9m lan\u00e7ou seus editais para pesquisa cient\u00edfica na \u00e1rea, mas, conforme mostra um levantamento do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea), o valor \u00e9 pequeno, mesmo quando comparado com o pr\u00f3prio or\u00e7amento do pa\u00eds para o setor. Isso&nbsp;faz com que os cientistas como Evangelista&nbsp;peregrinem para conseguir mais verba ou at\u00e9 toquem projetos com dinheiro do pr\u00f3prio bolso.&nbsp;<\/p>\n<p>Os Estados Unidos, por exemplo, destinaram 6,1 bilh\u00f5es de d\u00f3lares adicionais para pesquisas relacionadas ao novo coronav\u00edrus, verba extra, ou seja, al\u00e9m do que j\u00e1 era previsto para a ci\u00eancia neste ano. A cifra&nbsp;equivale a 4,1% do or\u00e7amento total americano para o setor.<\/p>\n<p>Na Alemanha, um or\u00e7amento suplementar prev\u00ea o equivalente a 2,34 bilh\u00f5es de d\u00f3lares para pesquisa e inova\u00e7\u00e3o especificamente para tratamentos da covid-19, equivalente a 6,3% do or\u00e7amento total do pa\u00eds para pesquisa.<\/p>\n<p>J\u00e1 no Brasil, segundo o Ipea, foram disponibilizados 470 milh\u00f5es de reais (ou 100 milh\u00f5es de d\u00f3lares) para pesquisa e inova\u00e7\u00e3o no combate \u00e0 doen\u00e7a. O valor corresponde a 1,8% do or\u00e7amento para pesquisa do pa\u00eds. O levantamento do Ipea levou em considera\u00e7\u00e3o apenas verba federal para todos os pa\u00edses.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea tem os pa\u00edses se mobilizando para investir em medicamento e vacina, com base no fato de que essa crise s\u00f3 vai acabar quando tiver uma vacina&#8221;&nbsp;, diz a pesquisadora do Centro de Pesquisa em Ci\u00eancia, Tecnologia e Sociedade do Ipea Fernanda de Negri, uma das autoras do estudo. Segundo ela, sai mais barato investir em pesquisa para encontrar solu\u00e7\u00f5es do que arcar com os custos de uma economia parcialmente paralisada.&nbsp;<\/p>\n<p>Boa parte do valor vem de um cr\u00e9dito suplementar aprovado em favor do MCTI, de R$ 352,8 milh\u00f5es de reais, sendo 307 milh\u00f5es para o Fundo Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (FNDCT). No entanto, o montante n\u00e3o recomp\u00f5e contingenciamentos. Principal fonte de financiamento de pesquisa no pa\u00eds, o FNDCT tem um or\u00e7amento previsto de 5,2 bilh\u00f5es de reais para este ano, dos quais 4,2 bilh\u00f5es est\u00e3o contingenciados.<\/p>\n<p>&#8220;Isso significa que o Brasil est\u00e1 investindo pouco, muito menos do que deveria, se a gente faz essa compara\u00e7\u00e3o (com outros pa\u00edses). Estamos fazendo uma campanha para libera\u00e7\u00e3o integral da verba do FNDCT porque \u00e9 um absurdo completo ficar um recurso congelado quando ele \u00e9 essencial para enfrentar a pandemia&#8221;, diz o presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC), Ildeu de Castro Moreira.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio ministro de Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00f5es, Marcos Pontes, afirmou na \u00faltima quarta-feira&nbsp;(24\/6)&nbsp;que 90% dos recursos do fundo permanecem bloqueados pelo governo. &#8220;Todos os minist\u00e9rios sofrem com a falta de recursos, mas o investimento em ci\u00eancia e tecnologia \u00e9 essencial para o desenvolvimento do pa\u00eds e pode ser solu\u00e7\u00e3o para a crise&#8221;, declarou em comiss\u00e3o na C\u00e2mara dos Deputados.<\/p>\n<p>&#8220;Os pesquisadores que est\u00e3o trabalhando (na pesquisa da covid no Brasil) s\u00e3o os que j\u00e1 tem recursos de pesquisa aprovados em momentos anteriores, e que est\u00e3o direcionando a verba para a covid&#8221;, afirma, por sua vez,&nbsp;Fernanda de Negri.<\/p>\n<p><strong>Funda\u00e7\u00f5es estaduais<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m da verba federal, houve tamb\u00e9m dinheiro das 17 funda\u00e7\u00f5es estaduais de amparo \u00e0 pesquisa (FAPs) direcionado para pesquisa em covid. Segundo levantamento da Conselho Nacional das Funda\u00e7\u00f5es Estaduais de Amparo \u00e0 Pesquisa (Confap) feito a pedido da DW Brasil, ao todo foram destinados 105 milh\u00f5es de reais nestes novos editais de 15 funda\u00e7\u00f5es &#8211; duas n\u00e3o informaram valores.<\/p>\n<p>Do total, cerca de 16,6 milh\u00f5es s\u00e3o de verba n\u00e3o prevista originalmente nos or\u00e7amentos. \u00c9 preciso levar em conta tamb\u00e9m que 81% do valor se concentra em tr\u00eas unidades da federa\u00e7\u00e3o: S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal. Nas demais, a verba \u00e9 relativamente menor e se torna bastante pulverizada entre os projetos.<\/p>\n<p>Mesmo sem o valor total necess\u00e1rio, alguns pesquisadores t\u00eam tocado seus projetos. Em Santa Catarina, por exemplo, a Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado (Fapesc) destinou 100 mil reais para um projeto que pretende testar a vacina oral da p\u00f3lio contra a covid-19, conduzido por um grupo de professores e pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).<\/p>\n<p>O ideal, diz o coordenador do estudo e pesquisador da UFSC Edison Fedrizzi, seria 1,5 milh\u00e3o de reais. Descobrir que empresas privadas poderiam doar para o projeto e peregrinar com o pires na m\u00e3o virou parte da rotina de Fedrizzi. &#8220;No Brasil, a gente tem que rebolar para fazer ci\u00eancia.&#8221;<\/p>\n<p>Nos EUA, diz, h\u00e1 estudos semelhantes para a vacina BCG, e um artigo recente da revista&nbsp;<em>Science<\/em>, de coautoria de Robert Gallo, cientista que descobriu o HIV, fala da estimula\u00e7\u00e3o da imunidade inata por vacinas, citando que a oral da p\u00f3lio poderia proteger temporariamente contra o Sars-Cov-2.<\/p>\n<p><strong>Burocracia \u00e9 entrave adicional<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m da verba ser escassa, h\u00e1 a quest\u00e3o da burocracia. Segundo a pesquisadora do Ipea, em outros pa\u00edses, como EUA e Inglaterra, houve mecanismos de aprova\u00e7\u00e3o r\u00e1pida das verbas para a ci\u00eancia diante da emerg\u00eancia da pandemia.<\/p>\n<p>&#8220;Em meados de maio j\u00e1 t\u00ednhamos pesquisadores trabalhando com recursos novos para isso em outros pa\u00edses. O Brasil tinha lan\u00e7ado dois editais, e os resultados s\u00f3 iam sair agora, enquanto nos EUA a pesquisa j\u00e1 est\u00e1 acontecendo h\u00e1 meses&#8221;, diz De Negri. &#8220;O que temos acontecendo de pesquisa aqui&nbsp;\u00e9 muito por conta da vontade dos pesquisadores\u201d.<\/p>\n<p>No caso do edital do CNPq espec\u00edfico para a covid, lan\u00e7ado em abril, os 45,3 milh\u00f5es de reais aprovados devem come\u00e7ar a chegar em agosto para os 90 projetos aprovados. Por meio de nota, o conselho afirma que &#8220;a demanda superou as expectativas, com 2.219 propostas apresentadas&#8221;&nbsp;e que houve um &#8220;prazo encurtado para submiss\u00e3o de propostas que a urg\u00eancia da a\u00e7\u00e3o exigia (21 dias)&#8221;.&nbsp;<\/p>\n<p>O grupo independente de monitoramento A\u00e7\u00e3o Covid-19, criado na segunda quinzena de mar\u00e7o, optou por ir em busca de verba privada por conta da agilidade e tamb\u00e9m por n\u00e3o se enquadrarem no escopo de prioridades do governo. Composto por 24 membros, entre professores e pesquisadores, o grupo procura entender como a desigualdade afeta a evolu\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a no Brasil e criou um simulador do avan\u00e7o da covid no territ\u00f3rio brasileiro, dividido por bairros.<\/p>\n<p>&#8220;Inscrevemos o projeto para a Universidade Federal do Grande ABC (UFABC), e foi aprovado sem recursos. Fiquei sabendo que a Funda\u00e7\u00e3o Tide Setubal lan\u00e7ou um edital e apresentei o projeto&#8221;, diz o idealizador do grupo, o economista Jos\u00e9 Paulo Guedes Pinto, professor da UFABC.<\/p>\n<p>&#8220;V\u00e1rias pessoas que s\u00e3o reticentes com dinheiro de funda\u00e7\u00e3o privada resolveram aceitar porque era um dinheiro r\u00e1pido.&#8221;&nbsp; Para ele, embora os editais tenham sido lan\u00e7ados com agilidade pelo governo federal, houve demora na aprova\u00e7\u00e3o dos projetos.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Deutsche Welle Brasil &#8211; dispon\u00edvel na internet 27\/06\/2020<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No mundo cient\u00edfico, h\u00e1 um consenso: a crise s\u00f3 vai acabar de fato quando houver vacina. Mas no Brasil, a verba, de t\u00e3o escassa, for\u00e7a pesquisadores a fazerem vaquinha e tirarem dinheiro do pr\u00f3prio bolso para investigar. 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