{"id":50082,"date":"2020-07-08T03:00:31","date_gmt":"2020-07-08T06:00:31","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=50082"},"modified":"2020-07-08T05:24:45","modified_gmt":"2020-07-08T08:24:45","slug":"cidadao-nao-engenheiro-formado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/07\/08\/cidadao-nao-engenheiro-formado\/","title":{"rendered":"\u2018Cidad\u00e3o, n\u00e3o. Engenheiro formado\u2019"},"content":{"rendered":"<header class=\"article-header article-header--\">\n<div class=\"article-header__container\">\n<div class=\"article-header__content\">\n<div class=\"article__subtitle\">C\u00e2meras tornaram-se um rem\u00e9dio eficaz para combater os dem\u00f3fobos.<\/div>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"article__content-container protected-content\">\n<p>A cena foi a mesma.<\/p>\n<p>Na Barra da Tijuca, um fiscal da Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria interpelou um casal num estabelecimento onde n\u00e3o se respeitava o isolamento social. O marido desafiou-o, dizendo que ele n\u00e3o tinha uma trena para medir os espa\u00e7os. O fiscal disse: \u201cT\u00e1, cidad\u00e3o\u201d. At\u00e9 a\u00ed, seria o jogo jogado, mas a senhora foi adiante:<\/p>\n<p>\u2014 Cidad\u00e3o, n\u00e3o. Engenheiro formado e melhor que voc\u00ea.<\/p>\n<p>Salvo os macacos, os b\u00edpedes passaram a usar o tratamento de \u201ccidad\u00e3o\u201d durante a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, que derrubou a hierarquia nobili\u00e1rquica.<\/p>\n<p>Dias depois a engenheira qu\u00edmica N\u00edvea Del Maestro foi demitida da empresa de transmiss\u00e3o de energia onde trabalhava. Em nota, a Taesa informou: \u201cA companhia n\u00e3o compactua com qualquer comportamento que coloque em risco a sa\u00fade de outras pessoas ou com atitudes que desrespeitem o trabalho e a dignidade de profissionais que atuam na preven\u00e7\u00e3o e no controle da pandemia.\u201d<\/p>\n<p>Com a mesma ret\u00f3rica, em maio passado, o joalheiro Ivan Storel recebeu um PM que foi \u00e0 sua casa em Alphaville (SP) atendendo a um chamado que denunciava viol\u00eancia dom\u00e9stica:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea pode ser macho na periferia, mas aqui voc\u00ea \u00e9 um bosta. Aqui \u00e9 Alphaville, mano. (&#8230;) Eu ganho R$ 300 mil por m\u00eas, voc\u00ea \u00e9 um merda de um PM que ganha R$ 1 mil.<\/p>\n<p>Storel viria a desculpar-se, dizendo que estava sob o efeito do \u00e1lcool e dos rem\u00e9dios que toma por estar em tratamento psiqui\u00e1trico.<\/p>\n<p>Dias antes, em Nova York, um cidad\u00e3o que observava passarinhos no Central Park, pediu a uma senhora que prendesse a coleira de seu cachorro. Ela se descontrolou e chamou a pol\u00edcia, dizendo que \u201cum afro-americano est\u00e1 amea\u00e7ando minha vida\u201d.<\/p>\n<p>Ela foi demitida da firma de investimentos onde ganhava US$ 70 mil d\u00f3lares anuais.<\/p>\n<p>Nos tr\u00eas casos, a arma dos ofendidos foi a c\u00e2mera de seus celulares. Postas na rede, as cenas viralizaram. \u00c9 a mesma arma que registra a viol\u00eancia policial nas periferias das grandes cidades brasileiras.<\/p>\n<p>As c\u00e2meras tornaram-se um rem\u00e9dio eficaz para combater os dem\u00f3fobos prontos para aplicar carteiradas sociais no \u201coutro\u201d, hipoteticamente inferior. Ao \u201cvoc\u00ea sabe com quem est\u00e1 falando\u201d, o progresso contrap\u00f4s o \u201cvoc\u00ea sabe que est\u00e1 sendo filmado?\u201d<\/p>\n<p>Mesmo dentro das suas l\u00f3gicas infames, as duas senhoras estavam enganadas. O fiscal da cena carioca era doutor em Medicina Veterin\u00e1ria pela Universidade Federal Rural e o afro-americano do Central Park formou-se em Harvard. O fiscal do Rio e o PM de S\u00e3o Paulo representavam o Estado, que, na cabe\u00e7a dos dem\u00f3fobos, \u00e9 um ente a servi\u00e7o do andar de cima. \u201cA gente paga voc\u00ea, filho. O seu sal\u00e1rio sai do meu bolso\u201d, ensinou a senhora da Barra da Tijuca.<\/p>\n<p>O afro-americano do Central Park lastimou que a vida da mulher tivesse virado de cabe\u00e7a para baixo por causa da notoriedade que a cena viralizada lhe deu, mas recusou-se encontr\u00e1-la para um ritual de pacifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_7217\" aria-describedby=\"caption-attachment-7217\" style=\"width: 150px\" class=\"wp-caption alignright\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7217 size-thumbnail\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/carinha_colunista_eliogaspari.jpg?resize=150%2C150\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/carinha_colunista_eliogaspari.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/carinha_colunista_eliogaspari.jpg?w=220&amp;ssl=1 220w\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-7217\" class=\"wp-caption-text\">Elio Gaspari \u00e9 jornalista<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em geral, essas cenas de humilha\u00e7\u00e3o do \u201coutro\u201d duram poucos segundos e, sem os v\u00eddeos, n\u00e3o teriam consequ\u00eancia. Gra\u00e7as a eles, custam caro.<\/p>\n<p>A vida dos brasileiros melhorar\u00e1 quando v\u00eddeos semelhantes, mostrando cenas de viol\u00eancia policial contra jovens do andar de baixo, tiverem algum efeito. Por enquanto, ele \u00e9 nulo, at\u00e9 mesmo porque em muitas cidades os policiais costumam prender quem os filma.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Elio Gaspari\/O Globo &#8211; dispon\u00edvel na internet 08\/07\/2020<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C\u00e2meras tornaram-se um rem\u00e9dio eficaz para combater os dem\u00f3fobos. &nbsp; A cena foi a mesma. Na Barra da Tijuca, um fiscal da Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria interpelou um casal num estabelecimento onde n\u00e3o se respeitava o isolamento social. O marido desafiou-o, dizendo que ele n\u00e3o tinha uma trena para medir os espa\u00e7os. O fiscal disse: \u201cT\u00e1, cidad\u00e3o\u201d. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":50083,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[135],"tags":[],"class_list":{"0":"post-50082","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-clipping"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/a0f78630-cc0d-4f39-a195-c41b54e1f275.jpg?fit=320%2C546&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50082","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50082"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50082\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/50083"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50082"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50082"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50082"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}