{"id":50437,"date":"2020-07-18T02:30:04","date_gmt":"2020-07-18T05:30:04","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=50437"},"modified":"2020-07-17T15:25:47","modified_gmt":"2020-07-17T18:25:47","slug":"como-o-ambientalismo-se-tornou-um-ativo-financeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/07\/18\/como-o-ambientalismo-se-tornou-um-ativo-financeiro\/","title":{"rendered":"Como o ambientalismo se tornou um ativo financeiro"},"content":{"rendered":"<p class=\"intro\">Empresas e investidores se preocupam cada vez mais com preserva\u00e7\u00e3o ambiental, em busca de rentabilidade no longo prazo e temendo efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. No Brasil, cresce press\u00e3o sobre governo Bolsonaro.<span dir=\"ltr\">&nbsp;<\/span><span dir=\"ltr\">&nbsp;<\/span><span dir=\"ltr\">&nbsp;<\/span><span dir=\"ltr\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<div class=\"picBox full\">\n<p>Prote\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia: mais de 50 CEOs de empresas brasileiras lan\u00e7aram manifesto pedindo combate ao desmatamento<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"group\">\n<div class=\"longText\">\n<p>Nascida na contracultura, longe do poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico, a defesa de um ecossistema sustent\u00e1vel \u00e9 uma bandeira cada vez mais empunhada pelos donos do dinheiro grosso, como fundos de pens\u00e3o e de investimento. Al\u00e9m de novos atores, o ambientalismo financeiro tem novos motivos. Em vez do dever \u00e9tico de preservar o planeta para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es, h\u00e1 o dever de assegurar rentabilidade e estabilidade a investimentos no longo prazo.<\/p>\n<p>Diversos sinais desse ativismo apareceram no \u00faltimo m\u00eas. Um&nbsp;grupo de investidores internacionais&nbsp;respons\u00e1vel por cerca de 20 trilh\u00f5es de reais enviou cartas a embaixadas brasileiras manifestando preocupa\u00e7\u00e3o com o aumento do desmatamento na Amaz\u00f4nia. E mais de 50 CEOs de grandes empresas no pa\u00eds lan\u00e7aram&nbsp;manifesto pedindo combate ao desmatamento. Ambos os grupos foram recebidos pelo vice-presidente, Hamilton Mour\u00e3o, que preside o Conselho da Amaz\u00f4nia. Na ter\u00e7a-feira (14\/07),&nbsp;17 ex-titulares do Minist\u00e9rio da Fazenda e do Banco Central brasileiros&nbsp;lan\u00e7aram carta&nbsp;cobrando uma retomada sustent\u00e1vel da economia ap\u00f3s a pandemia.<\/p>\n<p>Tais iniciativas foram potencializadas pelo descaso do governo Jair Bolsonaro em rela\u00e7\u00e3o a quest\u00f5es ambientais, mas refletem tamb\u00e9m um movimento global, cujo ponto de inflex\u00e3o ocorreu em janeiro, no \u00faltimo F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial. Durante o encontro, na cidade su\u00ed\u00e7a de Davos, o Bank for International Settlements (BIS), conhecido como o banco central dos banco centrais, divulgou um relat\u00f3rio alertando para os riscos que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas podem trazer \u00e0 estabilidade da economia e do sistema financeiro.<\/p>\n<p>No mesmo evento, o fundo BlackRock, maior gestor de ativos do mundo, anunciou que seus novos investimentos seriam destinados apenas a companhias com responsabilidade ambiental, e que tiraria dinheiro ou usaria seu poder de voto em investimentos existentes para for\u00e7ar as empresas a caminhar nessa dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o do BlackRock se relaciona \u00e0s duas principais vari\u00e1veis que orientam os investidores sobre onde colocar dinheiro: risco e retorno. No mercado financeiro, est\u00e1 se consolidando a percep\u00e7\u00e3o de que empresas que n\u00e3o conseguem manejar de forma inteligente os recursos naturais demonstram n\u00e3o estar preparadas para se manter na lideran\u00e7a de seus setores no futuro. Portanto, seriam investimentos mais arriscados e com potencial de perda de rentabilidade, afirma \u00e0 DW Brasil Celso Funcia Lemme, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro especializado em finan\u00e7as e sustentabilidade corporativa.<\/p>\n<p>Nesse contexto, retirar os investimentos de empresas que ignoram seu impacto ambiental \u00e9, mais do que uma op\u00e7\u00e3o, um dever dos gestores dos fundos, que t\u00eam a chamada responsabilidade fiduci\u00e1ria de agir de acordo com os interesses dos donos do dinheiro.<\/p>\n<p>H\u00e1 outros incentivos em jogo. Segundo a economista Maria Eug\u00eania Buosi, s\u00f3cia-fundadora da consultoria Resultante, o engajamento de uma empresa com sustentabilidade \u00e9 hoje interpretado como um sinal de que ela tem uma gest\u00e3o eficiente e, portanto, est\u00e1 mais bem posicionada para ter retorno financeiro no longo prazo. Al\u00e9m disso, indica uso mais eficiente de recursos como \u00e1gua e energia e menor exposi\u00e7\u00e3o a multas e passivos ambientais.<\/p>\n<p>Por fim, a performance ambiental das companhias tamb\u00e9m reduz o risco reputacional, diz Marcelo Seraphim, diretor no Brasil da Principles for Responsible Investment (PRI), organiza\u00e7\u00e3o criada com apoio da ONU para elaborar princ\u00edpios norteadores de investimentos sustent\u00e1veis.<\/p>\n<p>&#8220;Nenhum detentor de ativos, seja ele uma seguradora, um fundo de pens\u00e3o ou um family office gostaria de ver seu dinheiro financiando empresas cujas atividades envolvam trabalho escravo, desmatamento, emiss\u00e3o descontrolada de gases de efeito estufa&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>L\u00f3gica semelhante se aplica \u00e0 an\u00e1lise sobre em qual pa\u00eds os investimentos ser\u00e3o feitos, diz Seraphim. &#8220;A comunidade financeira hoje analisa a atratividade dos investimentos nos pa\u00edses tamb\u00e9m do ponto de vista dos riscos ASG [ambientais, sociais e de governan\u00e7a], exatamente como fazem com as empresas&#8221;, diz.<\/p>\n<p><strong>Risco sist\u00eamico das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m da aten\u00e7\u00e3o dos investidores aos fundamentos de cada empresa, existe preocupa\u00e7\u00e3o no mercado financeiro com os riscos sist\u00eamicos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, detalhados no relat\u00f3rio do BIS apresentado em Davos.<\/p>\n<p>O aumento da temperatura m\u00e9dia, a altera\u00e7\u00e3o do regime de chuvas e a ocorr\u00eancia de eventos extremos, como furac\u00f5es e ciclones, t\u00eam potencial de afetar diretamente diversos setores da economia.<\/p>\n<p>Um exemplo, citado por Lemme, s\u00e3o as ind\u00fastrias de refrigerantes e cerveja, que dependem de grande quantidade de \u00e1gua de qualidade. Crises h\u00eddricas, como a que ocorreu no estado de S\u00e3o Paulo de 2014 a 2016, impactam de forma emergencial essas companhias.<\/p>\n<p>Outro setor vulner\u00e1vel \u00e9 o agroneg\u00f3cio, respons\u00e1vel por 21% do PIB brasileiro de 2019 e estrat\u00e9gico para a balan\u00e7a comercial do pa\u00eds. J\u00e1 est\u00e1 comprovado que o&nbsp;desmatamento da Floresta Amaz\u00f4nica afeta os &#8220;rios a\u00e9reos&#8221;&nbsp;&nbsp;que levam umidade para outras regi\u00f5es e reduz o volume de chuvas.<\/p>\n<p>&#8220;O sistema de chuvas \u00e9 o que faz agroneg\u00f3cio, e a altera\u00e7\u00e3o do clima e da qualidade do solo afeta sua produtividade&#8221;, afirma Lemme, lembrando que pesos pesados do setor, como Amaggi e Cargill, assinaram a carta deste m\u00eas pedindo ao governo combate ao desmatamento.<\/p>\n<p>As ind\u00fastrias de cosm\u00e9ticos e medicamentos tamb\u00e9m s\u00e3o prejudicadas pela destrui\u00e7\u00e3o da floresta, pois da biodiversidade surgem ess\u00eancias e subst\u00e2ncias importantes para os produtos. E a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar e a ocorr\u00eancia de eventos extremos implicam em riscos para o setor de infraestrutura urbana, estradas e ferrovias.<\/p>\n<p><strong>A evolu\u00e7\u00e3o do &#8220;dinheiro verde&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;O movimento por mais sustentabilidade nas empresas come\u00e7ou de forma volunt\u00e1ria. Em seguida vieram acordos. E agora estamos vendo isso transitar na esfera regulat\u00f3ria&#8221;, diz Buosi.<\/p>\n<p>Na virada do s\u00e9culo, pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis eram um nicho de mercado e estrat\u00e9gia de marketing de empresas. Em 2006, foi lan\u00e7ado o PRI, que busca engajar o mercado financeiro por meio da persuas\u00e3o. Em 2015, o Banco Central brasileiro passou a exigir que todas as institui\u00e7\u00f5es financeiras tenham uma pol\u00edtica de responsabilidade socioambiental.<\/p>\n<p>Em 2017, o bilion\u00e1rio e ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg liderou o lan\u00e7amento da For\u00e7a-tarefa para Divulga\u00e7\u00f5es Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD, na sigla em ingl\u00eas), que pressiona empresas a divulgarem dados sobre seu impacto clim\u00e1tico para que investidores usem esses indicadores em suas decis\u00f5es.<\/p>\n<p>Paralelamente, vem crescendo o apetite de investidores por &#8220;t\u00edtulos verdes&#8221;, instrumentos financeiros negociados no mercado de capitais que det\u00eam um selo atestando o comprometimento com o controle ou revers\u00e3o do impacto ambiental.<\/p>\n<p><strong>Oportunidades para o Brasil<\/strong><\/p>\n<p>Os especialistas consultados pela DW Brasil s\u00e3o un\u00e2nimes em afirmar que o atual governo brasileiro provocou retrocessos na \u00e1rea e desperdi\u00e7a oportunidades de atrair recursos que buscam financiar projetos sustent\u00e1veis.<\/p>\n<p>&#8220;At\u00e9 dois anos atr\u00e1s, o pa\u00eds&nbsp;era visto como protagonista na preserva\u00e7\u00e3o ambiental, e os dados de combate ao desmatamento na Amaz\u00f4nia s\u00e3o provas disso. O pa\u00eds caminhava para obter os louros desse protagonismo, quando passaria a atrair capital de investidores respons\u00e1veis. No entanto, houve uma guinada muito prejudicial na forma como os gestores p\u00fablicos passaram a ver a quest\u00e3o. De repente, nossa floresta tropical passou da condi\u00e7\u00e3o de b\u00f4nus para se transformar num \u00f4nus&#8221;, afirma Seraphim, para quem o governo &#8220;enfraqueceu a posi\u00e7\u00e3o at\u00e9 ent\u00e3o de vantagem comparativa que o Brasil tinha&#8221;.<\/p>\n<p>Para Buosi, o Brasil precisa sair do &#8220;discurso reativo&#8221;&nbsp;na \u00e1rea ambiental e olhar para a sustentabilidade como um meio de buscar verbas, dada a abund\u00e2ncia de recursos de fundos, bancos multilaterais e linhas de financiamento destinadas a iniciativas ambientalmente corretas.<\/p>\n<p>Segundo ela, esse &#8220;dinheiro verde&#8221;&nbsp;tem a vantagem de superar restri\u00e7\u00f5es hoje impostas do Brasil, como ser um pa\u00eds sem grau de investimento e que n\u00e3o faz parte da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e o Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE). &#8220;S\u00e3o entraves que barram a vinda de alguns investidores, mas o &#8216;dinheiro verde&#8217;&nbsp;\u00e9 capaz de contorn\u00e1-los&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Uma estrat\u00e9gia que poderia ser mais explorada, diz Lemme, \u00e9 o pagamento por servi\u00e7os ambientais, nos quais se busca recursos para projetos que preservam o meio ambiente e ao mesmo tempo criam alternativas sustent\u00e1veis de gera\u00e7\u00e3o de renda.<\/p>\n<p>&#8220;Temos um potencial enorme. \u00c9 um ativo colossal para negocia\u00e7\u00f5es internacionais, aberturas diplom\u00e1ticas e desenvolvimento social, econ\u00f4mico e ambiental, e n\u00e3o um passivo a ser resolvido com serra e fogo&#8221;, afirma.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito:&nbsp; Deutsche Welle &#8211; dispon\u00edvel na internet 18\/07\/2020<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Empresas e investidores se preocupam cada vez mais com preserva\u00e7\u00e3o ambiental, em busca de rentabilidade no longo prazo e temendo efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. 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