{"id":50552,"date":"2020-07-22T03:30:00","date_gmt":"2020-07-22T06:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=50552"},"modified":"2020-07-22T08:23:17","modified_gmt":"2020-07-22T11:23:17","slug":"e-o-maior-desafio-da-minha-carreira-brasileiro-dorme-4h-por-noite-e-lidera-pesquisa-de-vacina-em-oxford","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/07\/22\/e-o-maior-desafio-da-minha-carreira-brasileiro-dorme-4h-por-noite-e-lidera-pesquisa-de-vacina-em-oxford\/","title":{"rendered":"&#8216;\u00c9 o maior desafio da minha carreira&#8217;: brasileiro dorme 4h por noite e lidera pesquisa de vacina em Oxford"},"content":{"rendered":"<div class=\"story-body__inner\">\n<p>Mestre em sa\u00fade p\u00fablica, o m\u00e9dico infectologista Pedro Folegatti j\u00e1 trabalhou pesquisando doen\u00e7as tropicais, infecciosas e parasit\u00e1rias no Brasil, na Tanz\u00e2nia, em Uganda e no Reino Unido, antes de se tornar um dos cientistas do instituto que leva o nome do inventor da vacina\u00e7\u00e3o, Edward Jenner, na Universidade de Oxford.<\/p>\n<p>O ponto alto da carreira, no entanto, come\u00e7ou em fevereiro deste ano, quando Folegatti se tornou um dos respons\u00e1veis pelos milhares de testes que vem sendo realizados no desenvolvimento de uma das vacinas mais promissoras contra o novo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>&#8220;Temos trabalhado dia e noite, fim de semana, feriado, desde o final de fevereiro, para fazer esses ensaios cl\u00ednicos acontecerem&#8221;, conta o m\u00e9dico de 34 anos, que tem dormido em m\u00e9dia 4 horas por noite, em entrevista por telefone \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p>O empreendimento foi not\u00edcia no mundo inteiro na segunda-feira (20), quando um artigo co-assinado pelo brasileiro sobre testes com 1.077 volunt\u00e1rios nas fases 1 e 2 da vacina apontou que ela \u00e9 segura e tem capacidade de gerar uma resposta positiva no sistema imunol\u00f3gico.<\/p>\n<p>A pr\u00f3xima etapa envolve volunt\u00e1rios no mundo inteiro \u2014 incluindo 5 mil brasileiros. Mas a miss\u00e3o ainda est\u00e1 come\u00e7ando.<\/p>\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-parrot wsoj-component\" data-variation=\"default-0\">&nbsp;<\/div>\n<p>&#8220;O que os resultados preliminares mostram \u00e9 que, sim, a vacina \u00e9 segura ao n\u00e3o induzir efeitos colaterais graves em nenhum dos 1077 participantes que foram recrutados (&#8230;). E sabemos que, sim, existem diversos anticorpos sendo induzidos por uma ou duas doses da vacina. A qualidade desses anticorpos \u00e9 boa, no sentido de que ele n\u00e3o s\u00f3 existe em quantidade suficiente, mas tamb\u00e9m \u00e9 capaz de neutralizar o v\u00edrus. E induz tamb\u00e9m outro peda\u00e7o da resposta imune, que chamamos de imunidade celular por linf\u00f3cito T&#8221;, diz.<\/p>\n<p>&#8220;Agora, o passo que precisa ser dado \u00e9 saber se essa resposta imune que \u00e9 induzida pela vacina \u00e9 suficiente para garantir prote\u00e7\u00e3o contra o coronav\u00edrus.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c0 reportagem, o \u00fanico brasileiro na linha de frente da produ\u00e7\u00e3o da vacina no Reino Unido detalhou a velocidade in\u00e9dita das pesquisas \u2014 &#8220;O processo costuma acontecer em torno de muitos e muitos e muitos meses. A gente conseguir recrutar 1077 volunt\u00e1rios em um per\u00edodo de um m\u00eas \u00e9 sem d\u00favida uma coisa sem precedentes&#8221; \u2014 e faz alertas sobre a responsabilidade compartilhada por meio de um &#8220;pacto social&#8221; em meio \u00e0 pandemia.<\/p>\n<p>&#8220;O fato de uma pessoa escolher n\u00e3o se vacinar ou n\u00e3o usar uma m\u00e1scara n\u00e3o \u00e9 uma escolha individual e repercute de forma bastante significativa na sociedade como um todo. Essas coisas se traduzem em aumento de custos no sistema de sa\u00fade e fundamentalmente em milhares de vidas perdidas&#8221;, diz.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 importante que as pessoas tenham ci\u00eancia de que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma gripezinha, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um resfriado, existem milhares de vidas perdidas por conta dessa doen\u00e7a e as pessoas precisam fazer o papel delas: ficar em casa, usar m\u00e1scara em ambientes p\u00fablicos, lembrar de lavar as m\u00e3os v\u00e1rias vezes ao dia. Essas medidas s\u00e3o bastante importantes como estrat\u00e9gia de conten\u00e7\u00e3o do v\u00edrus na aus\u00eancia de um tratamento ou vacina eficaz&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Ele resume sua mensagem: &#8220;Precisamos basear nossas a\u00e7\u00f5es no que a evid\u00eancia cient\u00edfica diz que funciona ou n\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Leia os principais trechos da entrevista:<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 624px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/18C0\/production\/_113563360_49a9e6be-5da2-4deb-b3ea-efe039326581.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/18C0\/production\/_113563360_49a9e6be-5da2-4deb-b3ea-efe039326581.jpg?resize=624%2C351&#038;ssl=1\" alt=\"laborat\u00f3rio de testes de vacina\" width=\"624\" height=\"351\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">&#8216;O fato de uma pessoa escolher n\u00e3o se vacinar ou n\u00e3o usar uma m\u00e1scara n\u00e3o \u00e9 uma escolha individual e repercute de forma bastante significativa na sociedade como um todo&#8217;, diz cientista brasileiro. Direito de imagem OXFORD UNIVERSITY<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Antes de tudo, parab\u00e9ns pelo an\u00fancio. Imagino que a adrenalina esteja l\u00e1 em cima.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pedro Folegatti &#8211;&nbsp;<\/strong>Obrigado. Est\u00e1 tudo bastante ca\u00f3tico na verdade. Muito, muito trabalho, mas \u00e9 gratificante ver que as coisas est\u00e3o come\u00e7ando a acontecer e da forma que a gente esperava. \u00c9 um resultado bastante positivo.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Qual \u00e9 exatamente o papel do senhor nesta pesquisa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pedro Folegatti &#8211;&nbsp;<\/strong>Sou um dos cl\u00ednicos respons\u00e1veis pela condu\u00e7\u00e3o dos ensaios cl\u00ednicos e tenho uma participa\u00e7\u00e3o bastante variada &#8211; desde a concep\u00e7\u00e3o do estudo, escrever os protocolos, implementa\u00e7\u00e3o e seguimento dos volunt\u00e1rios. Meu papel principal \u00e9 garantir que a gente fa\u00e7a o seguimento do ponto de vista de seguran\u00e7a dos volunt\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; O que \u00e9 exatamente esse seguimento de seguran\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pedro Folegatti &#8211;&nbsp;<\/strong>O que a gente fez nesses ensaios cl\u00ednicos, nessa fase em que reportamos os resultados, \u00e9 recrutar volunt\u00e1rios saud\u00e1veis. Eles s\u00e3o divididos em dois grupos: o primeiro recebe a vacina que queremos investigar, a nossa vacina contra o coronav\u00edrus, e o outro grupo \u00e9 de controle e recebe outra vacina qualquer, que esperamos que n\u00e3o tenha efeito contra o coronav\u00edrus. A gente segue essas pessoas por um per\u00edodo m\u00ednimo de seis meses a um ano e observa quaisquer efeitos adversos induzidos pelas duas vacinas.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; O nome do senhor aparece em primeiro no relat\u00f3rio de resultados da pesquisa. Isso sugere lideran\u00e7a nesse processo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pedro Folegatti &#8211;&nbsp;<\/strong>Mais ou menos. Como em qualquer publica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, os primeiros autores s\u00e3o os respons\u00e1veis pela maior parte do estudo, os que contribu\u00edram de forma mais importante para o estudo, e os \u00faltimos autores s\u00e3o os autores s\u00eaniores no processo \u2014 o chefe, as pessoas que desenvolveram a vacina de fato e os imunologistas tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Essa vacina est\u00e1 sendo produzida em uma velocidade sem precedentes. Pode falar sobre como tem sido esse processo em uma perspectiva mais pessoal? Imagino que o cotidiano esteja bastante intenso e queria entender bastidores desse trabalho.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pedro Folegatti &#8211;&nbsp;<\/strong>Sem d\u00favida. Na maioria das vezes, nos estudos em fase 1 ou 2, a gente recruta uma quantidade de volunt\u00e1rios significativamente menor do que recrutamos para esse ensaio cl\u00ednico espec\u00edfico. E esse processo costuma acontecer em torno de muitos e muitos e muitos meses. A gente conseguir recrutar 1077 volunt\u00e1rios em um per\u00edodo de um m\u00eas \u00e9 sem d\u00favida uma coisa sem precedentes para um ensaio cl\u00ednico como este.<\/p>\n<p>A gente come\u00e7ou a trabalhar a vacina desde o momento em que a sequ\u00eancia do genoma do coronav\u00edrus foi divulgada pelos cientistas chineses e as prepara\u00e7\u00f5es para os ensaios cl\u00ednicos vem acontecendo desde o final de fevereiro. \u00c9 muito papel, s\u00e3o v\u00e1rias etapas de aprova\u00e7\u00e3o necess\u00e1rias nesse processo: as principais s\u00e3o aprova\u00e7\u00e3o por um comit\u00ea de \u00e9tica independente e da ag\u00eancia regulat\u00f3ria.<\/p>\n<p>O processo tem sido acelerado de forma bastante substancial, sim, mas sem comprometer itens importantes com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 seguran\u00e7a dos volunt\u00e1rios inclu\u00eddos no estudo. Temos basicamente trabalhado dia e noite, fim de semana, feriado, desde o final de fevereiro, para fazer esses ensaios cl\u00ednicos acontecerem.<\/p>\n<p>Normalmente a gente recrutaria 25 ou 50 pessoas em um estudo cl\u00ednico de fase 1, em um processo que levaria de 6 meses a 1 ano. A gente fez muito mais do que isso: recrutamos 1077 indiv\u00edduos em um prazo de um m\u00eas, em uma log\u00edstica e infraestrutura gigantes. Existem mais de 250 pessoas envolvidas na execu\u00e7\u00e3o desses ensaios cl\u00ednicos na Universidade de Oxford apenas, fora os outros diversos parceiros nos centros de pesquisa que tamb\u00e9m participam do estudo.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; O senhor tem dormido quantas horas por noite?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pedro Folegatti &#8211;&nbsp;<\/strong>Varia bastante, mas tenho dormido em m\u00e9dia quatro (horas, desde fevereiro). (Risos)<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Ontem foi anunciado ao mundo que a vacina \u00e9 segura e gera uma resposta imunol\u00f3gica no organismo. O que isso significa para quem n\u00e3o acompanha a literatura cient\u00edfica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pedro Folegatti &#8211;&nbsp;<\/strong>A vacina mostrou que n\u00e3o existe nenhum evento adverso grave induzido pela vacina nesse espa\u00e7o de tempo curto em que temos assistido aos volunt\u00e1rios. Isso \u00e9 importante ressaltar: \u00e9 uma limita\u00e7\u00e3o deste estudo. N\u00f3s come\u00e7amos a recrutar esses volunt\u00e1rios em abril e os dados que temos at\u00e9 agora mostram que n\u00e3o houve nenhum efeito adverso grave com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vacina. Eles geralmente costumam acontecer nos primeiros dias e semanas depois da vacina.<\/p>\n<p>O que os resultados preliminares mostram \u00e9 que, sim, a vacina \u00e9 segura ao n\u00e3o induzir efeitos colaterais graves em nenhum dos 1077 participantes que foram recrutados. E foi capaz de induzir uma resposta do sistema imunol\u00f3gico, que a gente precisa entender melhor ainda como se traduz em efic\u00e1cia contra o coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>Sabemos que, sim, existem diversos anticorpos sendo induzidos por uma ou duas doses da vacina. A qualidade desses anticorpos \u00e9 boa, no sentido de que ele n\u00e3o s\u00f3 existe em quantidade suficiente, mas tamb\u00e9m \u00e9 capaz de neutralizar o v\u00edrus. E induz tamb\u00e9m outro peda\u00e7o da resposta imune, que chamamos de imunidade celular por linf\u00f3cito T.<\/p>\n<p>S\u00e3o duas partes diferentes do sistema imune. Agora, se isso se traduz de fato em efic\u00e1cia e prote\u00e7\u00e3o contra o coronav\u00edrus, isso o segmento dos estudos e os estudos maiores de fase 3 poder\u00e3o dizer.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; O an\u00fancio gerou certa euforia, por\u00e9m, como o senhor disse, ainda n\u00e3o h\u00e1 um resultado definitivo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pedro Folegatti &#8211;&nbsp;<\/strong>Os resultados s\u00e3o importantes? Sim. S\u00e3o encorajadores? Sim. Agora, o passo que precisa ser dado \u00e9 saber se essa resposta imune que \u00e9 induzida pela vacina \u00e9 suficiente para garantir prote\u00e7\u00e3o contra o coronav\u00edrus.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Quando o senhor fala suficiente para garantir prote\u00e7\u00e3o&#8230; isso significa ser suficiente para nos tornar imunes permanentemente?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pedro Folegatti &#8211;&nbsp;<\/strong>Essa pergunta \u00e9 importante e ainda n\u00e3o temos resposta para ela. Existe uma variabilidade grande no que entendemos como prote\u00e7\u00e3o contra o coronav\u00edrus. Pode ser que a vacina proteja contra infec\u00e7\u00e3o grave, interna\u00e7\u00e3o hospitalar, interna\u00e7\u00e3o por UTI, morte, por exemplo. Pode ser que a vacina induza a uma prote\u00e7\u00e3o contra os casos mais leves e assintom\u00e1ticos. Num ponto ideal, a vacina garantiria prote\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m nos casos assintom\u00e1ticos, as pessoas que n\u00e3o t\u00eam sintoma nenhum. Isso seria um papel importante com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o de transmiss\u00e3o do coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>Mas o que interessa de fato \u00e9 que as vacinas previnam morte por coronav\u00edrus, ent\u00e3o essas nuances de quanto a vacina vai funcionar s\u00e3o o que os estudos de efic\u00e1cia v\u00e3o come\u00e7ar a nos mostrar nos pr\u00f3ximos meses.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Cinco mil pessoas participam desta fase de testes no Brasil, em S\u00e3o Paulo, na Bahia e no Rio de Janeiro. Pode explicar essa etapa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pedro Folegatti &#8211;&nbsp;<\/strong>A primeira fase do processo de testagem \u00e9 pegar o volunt\u00e1rio adulto, jovem e saud\u00e1vel e ver se a vacina induz \u00e0 resposta imunol\u00f3gica que esperamos dessa popula\u00e7\u00e3o. Uma vez que estabelecemos isso, seguimos em frente e procuramos testar a vacina em outros grupos. Nos estudos de fase 2 e 3, aqui no Reino Unido, come\u00e7amos a recrutar pessoas com mais de 56 anos, h\u00e1 volunt\u00e1rios com mais de 70 anos, algumas pessoas com comorbidades como diabetes, press\u00e3o alta, essas doen\u00e7as mais comuns na popula\u00e7\u00e3o em geral. Essa \u00e9 uma pergunta importante a ser respondida, se essa vacina funciona t\u00e3o bem em pessoas que tenham outras condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade. Esses estudos v\u00eam acontecendo logo em seguida. E a\u00ed partimos para os estudos de fase 3, em que vacinamos um n\u00famero muito grande de pessoas.<\/p>\n<p>A forma como vemos a efic\u00e1cia nesta etapa \u00e9 dando a vacina para grupos diferentes e para pessoas que esperamos que naturalmente se tornem infectadas com o v\u00edrus. Ent\u00e3o, a gente s\u00f3 consegue ver efic\u00e1cia se existe transmiss\u00e3o local acontecendo no lugar onde os volunt\u00e1rios foram vacinados. Quando os ensaios cl\u00ednicos come\u00e7aram, aqui no Reino Unido, a ideia original era que, com a quantidade de casos que v\u00edamos no in\u00edcio do ano, que consegu\u00edssemos ver esse sinal de efic\u00e1cia aqui no Reino Unido. Quando os casos come\u00e7aram a diminuir, come\u00e7amos a procurar outros lugares no mundo em que o processo da epidemia ainda estivesse em ascens\u00e3o de casos. Foi a\u00ed ent\u00e3o que come\u00e7amos a buscar parceiros internacionais e o fato de eu ser brasileiro tamb\u00e9m tem um pouco a ver com isso \u2014 em tentar conversar com as equipes aqui e tentar levar os estudos para o Brasil. Depois de alguma insist\u00eancia, o investigador-chefe daqui ent\u00e3o conversou com o contato que ele tinha no Brasil para fazer essa parceria come\u00e7ar a funcionar.<\/p>\n<p>Escolhemos o Brasil por ser infelizmente um lugar onde a quantidade de casos talvez fosse nos dar uma resposta mais r\u00e1pida com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 efic\u00e1cia da vacina.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Ent\u00e3o o fato de Brasil fazer parte dessa etapa \u00e9 por conta do alto volume de casos por l\u00e1 e de transmiss\u00e3o local.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pedro Folegatti &#8211;&nbsp;<\/strong>Mais ou menos. Tem um pouco disso, sim, mas existem outros lugares em que o v\u00edrus estava em ascens\u00e3o e a gente optou por n\u00e3o fazer por l\u00e1. Acho que tem um pouco das colabora\u00e7\u00f5es entre os cientistas daqui e do Brasil e da infraestrutura de pesquisa no Brasil, que permite que a gente fa\u00e7a esses ensaios cl\u00ednicos em larga escala por l\u00e1.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 porque o Brasil se encontra em situa\u00e7\u00e3o epidemiol\u00f3gica bastante desfavor\u00e1vel do ponto de vista da doen\u00e7a, mas favor\u00e1vel do ponto de vista de testagem de novas vacinas e novos medicamentos, mas tamb\u00e9m pela infraestrutura de ci\u00eancia atual do pa\u00eds, que permite que a gente fa\u00e7a essas coisas com o rigor e a qualidade necess\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; H\u00e1 um forte movimento antivacina pelo mundo. V\u00ea-se muitas not\u00edcias falsas, boatos, e \u00e9 importante que esses mitos sejam desfeitos. O que o senhor tem a dizer para quem acredita ou espalha estas mensagens?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pedro Folegatti &#8211;&nbsp;<\/strong>Esse \u00e9 um problema crescente no Brasil e no mundo inteiro. A gente v\u00ea ondas de movimentos antivacina e a gente v\u00ea muita desinforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 importante que as pessoas chequem as fontes de onde obt\u00e9m determinadas informa\u00e7\u00f5es. \u00c9 importante que a gente fa\u00e7a as coisas baseados em evid\u00eancias e no que a ci\u00eancia diz.<\/p>\n<p>Como pudemos observar na pandemia atual, a gente precisa, e muito, da colabora\u00e7\u00e3o de todos. \u00c9 importante que as pessoas se vacinem, sim, para garantir que a maior propor\u00e7\u00e3o de pessoas esteja coberta pela vacina e para que se evite mortes pelo coronav\u00edrus. E isso depende bastante das pessoas entrarem nesse pacto social. O fato de uma pessoa escolher n\u00e3o se vacinar ou n\u00e3o usar uma m\u00e1scara n\u00e3o \u00e9 uma escolha individual e repercute de forma bastante significativa na sociedade como um todo. Essas coisas se traduzem em aumento de custos no sistema de sa\u00fade e fundamentalmente em milhares de vidas perdidas.<\/p>\n<p>O que tenho a dizer \u00e9 isso, que as pessoas precisam pensar um pouco mais no coletivo e tomar determinadas decis\u00f5es sobre vacinar baseadas na informa\u00e7\u00e3o correta. H\u00e1 muita desinforma\u00e7\u00e3o por a\u00ed com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 seguran\u00e7a de vacinas de forma geral.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; O senhor \u00e9 o \u00fanico m\u00e9dico brasileiro nessa equipe aqui em Oxford?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pedro Folegatti &#8211;&nbsp;<\/strong>Na equipe tocando o estudo em Oxford, sim. Existem outros pesquisadores brasileiros colaborando com outros centros de pesquisa, mas no centro principal de Oxford, sim. Estou no Instituto Jenner da Universidade de Oxford j\u00e1 h\u00e1 4 anos.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; O senhor tem alguma mensagem ao p\u00fablico brasileiro? H\u00e1 um conflito muito grande de informa\u00e7\u00f5es no pa\u00eds em rela\u00e7\u00e3o a prote\u00e7\u00e3o, a isolamento, m\u00e1scaras, cloroquina&#8230; O que o senhor recomenda aos brasileiros e qual \u00e9 a melhor maneira de se evitar o pr\u00f3prio cont\u00e1gio e proteger quem est\u00e1 em volta?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pedro Folegatti &#8211;&nbsp;<\/strong>Em uma situa\u00e7\u00e3o em que os casos no Brasil continuam acontecendo de forma muito ascendente e em que a gente v\u00ea quantidade significativa de mortes acontecendo pa\u00eds afora, na aus\u00eancia de um tratamento eficaz ou vacina eficaz, n\u00e3o h\u00e1 outra op\u00e7\u00e3o que n\u00e3o ficar em casa. \u00c9 um pouco dif\u00edcil falar sobre isso estando fora do Brasil j\u00e1 h\u00e1 algum tempo, mas \u00e9 importante que as pessoas tenham ci\u00eancia de que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma gripezinha, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um resfriado, existem milhares de vidas perdidas por conta dessa doen\u00e7a e as pessoas precisam fazer o papel delas: ficar em casa, usar m\u00e1scara em ambientes p\u00fablicos, lembrar de lavar as m\u00e3os v\u00e1rias vezes ao dia.<\/p>\n<p>Essas medidas s\u00e3o bastante importantes como estrat\u00e9gia de conten\u00e7\u00e3o do v\u00edrus na aus\u00eancia de um tratamento ou vacina eficaz. N\u00e3o existe outra op\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja aderir \u00e0 recomenda\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os oficiais, da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade. A gente tem a responsabilidade de n\u00e3o recomendar coisas que possam fazer mais mal do que bem. A mensagem \u00e9: precisamos basear nossas a\u00e7\u00f5es no que a evid\u00eancia cient\u00edfica diz que funciona ou n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; O senhor teve algum desafio t\u00e3o grande na sua carreira quanto esse que o senhor vive agora?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pedro Folegatti &#8211;&nbsp;<\/strong>Esse tem sido o maior desafio da minha carreira, sem d\u00favida, fazer essas coisas acontecerem em um espa\u00e7o de tempo t\u00e3o curto. Ter a oportunidade de me envolver com esse projeto se d\u00favida sem foi a coisa mais empolgante da minha carreira at\u00e9 o momento e vai ser dif\u00edcil bater essa a\u00ed.<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Ricardo Senra d<\/span><span class=\"byline__title\">a BBC Brasil em Londres &#8211; dispon\u00edvel na internet 22\/07\/2020<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mestre em sa\u00fade p\u00fablica, o m\u00e9dico infectologista Pedro Folegatti j\u00e1 trabalhou pesquisando doen\u00e7as tropicais, infecciosas e parasit\u00e1rias no Brasil, na Tanz\u00e2nia, em Uganda e no Reino Unido, antes de se tornar um dos cientistas do instituto que leva o nome do inventor da vacina\u00e7\u00e3o, Edward Jenner, na Universidade de Oxford. O ponto alto da carreira, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":50553,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[135],"tags":[],"class_list":{"0":"post-50552","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-clipping"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Pedro-Folegatti-%C3%A9-M%C3%A9dico-Infectologisra-e-Mestre-em-sa%C3%BAde-p%C3%BAblica.jpg?fit=624%2C351&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50552","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50552"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50552\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/50553"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50552"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50552"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50552"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}