{"id":50600,"date":"2020-07-23T02:30:37","date_gmt":"2020-07-23T05:30:37","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=50600"},"modified":"2020-07-22T16:17:53","modified_gmt":"2020-07-22T19:17:53","slug":"carteirada-e-sintoma-de-uma-cultura-que-tem-aversao-ao-igualitarismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/07\/23\/carteirada-e-sintoma-de-uma-cultura-que-tem-aversao-ao-igualitarismo\/","title":{"rendered":"&#8220;Carteirada \u00e9 sintoma de uma cultura que tem avers\u00e3o ao igualitarismo&#8221;"},"content":{"rendered":"<p class=\"intro\">Em entrevista \u00e0 DW Brasil, antrop\u00f3logo Roberto DaMatta aponta que casos de humilha\u00e7\u00e3o de fiscais escancaram a persist\u00eancia de um comportamento aristocr\u00e1tico da sociedade brasileira que remonta \u00e0 \u00e9poca colonial.<\/p>\n<div class=\"group\">\n<div class=\"longText\">\n<p>Aos 84 anos, o antrop\u00f3logo Roberto DaMatta nunca foi t\u00e3o procurado para entrevistas como agora. Sucessivos epis\u00f3dios de &#8220;carteiradas\u201d durante a pandemia trouxeram luz a um livro seu escrito h\u00e1 mais de 40 anos,&nbsp;<em>Carnavais, Malandros e Her\u00f3is: para uma sociologia do dilema brasileiro<\/em>. A obra traz um ensaio sobre os sentidos profundos da express\u00e3o &#8220;voc\u00ea sabe com quem est\u00e1 falando?\u201d.<\/p>\n<p>Foi exatamente a pergunta feita pelo desembargador Eduardo Almeida Prado&nbsp;Rocha de Siqueira, em Santos (SP), ao ser multado por um guarda municipal. O guarda ainda foi chamado de &#8220;analfabeto\u201d pelo magistrado, que estava sem m\u00e1scara, cuja utiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 obrigat\u00f3ria na cidade por um decreto municipal institu\u00eddo em abril deste ano. A multa \u00e9 de R$ 100.&nbsp;<\/p>\n<p>No in\u00edcio de julho, um fiscal que tamb\u00e9m chamava a aten\u00e7\u00e3o para as regras de distanciamento social foi humilhado por um casal no Rio de Janeiro. Na ocasi\u00e3o, uma mulher disse ao fiscal: &#8220;Cidad\u00e3o n\u00e3o, engenheiro civil, formado, melhor do que voc\u00ea&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 o sintoma de uma sociedade que tem um padr\u00e3o de comportamento aristocr\u00e1tico bastante forte\u201d, afirma DaMatta. Em entrevista \u00e0 DW Brasil, o antrop\u00f3logo relaciona os fen\u00f4menos recentes com as ra\u00edzes da forma\u00e7\u00e3o social brasileira.<\/p>\n<p><strong>DW Brasil: Os recentes epis\u00f3dios de &#8220;carteiradas\u201d lhe surpreenderam de alguma forma?<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_50601\" aria-describedby=\"caption-attachment-50601\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/roberto-Da-Matta.jpg\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-50601 size-medium\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/roberto-Da-Matta.jpg?resize=300%2C169\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/roberto-Da-Matta.jpg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/roberto-Da-Matta.jpg?resize=696%2C392&amp;ssl=1 696w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/roberto-Da-Matta.jpg?w=700&amp;ssl=1 700w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-50601\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Sem entender as implica\u00e7\u00f5es desse forte componente aristocr\u00e1tico que caracteriza a sociedade brasileira, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel compreender o &#8216;sabe com quem est\u00e1 falando?'&#8221;, diz DaMatta.<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Roberto DaMatta<\/strong>:&nbsp;Sobretudo no caso do desembargador, surpreendeu a intensidade da arrog\u00e2ncia. Eu me pergunto se isso aconteceria num pa\u00eds como a Alemanha ou outro pa\u00eds democr\u00e1tico. O guarda, que \u00e9 uma autoridade p\u00fablica, n\u00e3o est\u00e1 dizendo que ele \u00e9 ladr\u00e3o ou o acusando de nada, apenas que use uma m\u00e1scara na pandemia. O cara apresenta a carteira de desembargador e s\u00f3 falta agredir o guarda, com gestos agressivos.<\/p>\n<p>Felizmente, o guarda teve autocontrole para n\u00e3o fazer nada. Quando ele recebe a multa, rasga, joga no ch\u00e3o e vai embora, antes de telefonar para um amigo que \u00e9 uma pessoa importante no governo de S\u00e3o Paulo. Nos dois casos, voc\u00ea destitui a pessoa de um papel universal, de cidad\u00e3o, usado no espa\u00e7o p\u00fablico, por outro papel. &#8220;Quem \u00e9 voc\u00ea?\u201d. Ele \u00e9 um engenheiro formado, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m. Esse papel de engenheiro formado n\u00e3o tem nada a ver com usar m\u00e1scara. \u00c9 o sintoma de uma sociedade que tem um padr\u00e3o de comportamento aristocr\u00e1tico bastante forte.<\/p>\n<p>Em todas as sociedades humanas, eu preciso saber com quem estou falando, conhecer as pessoas. Mas esse abuso, a tentativa de englobar a autoridade universalista de um guarda civil com um papel social mais sofisticado, que requer mais estudo, \u00e9 t\u00edpico de uma sociedade em que todo mundo sabia com quem estava falando. H\u00e1 um determinado momento em que a sociedade cresceu, e o anonimato aumentou. As cidades modernas se expandiram, e o papel de membro de uma grande cidade come\u00e7a a se complicar, porque voc\u00ea n\u00e3o conhece as pessoas. Por isso se adotaram as regras da vida burguesa, da cordialidade, de deixar que os mais velhos passem na frente.<\/p>\n<p><strong>Chama sua aten\u00e7\u00e3o que o livro escrito h\u00e1 mais de quatro d\u00e9cadas permane\u00e7a t\u00e3o atual?<\/strong><\/p>\n<p>Como antrop\u00f3logo, sei que as sociedades n\u00e3o mudam rapidamente, bem como as pessoas. Eu tive experi\u00eancias com dependentes de \u00e1lcool e fui dependente de fumo. Sei como \u00e9 dif\u00edcil sair desse quadro. Se isso acontece no n\u00edvel individual, imagina no n\u00edvel coletivo, em que h\u00e1 costumes legitimados por hist\u00f3rias, fatos sociais. Se n\u00f3s estiv\u00e9ssemos andando no Rio de Janeiro em 1850, qualquer negro que aparecesse em nossa frente seria um escravo ou ex-escravo. Isso \u00e9 muito importante. O que diferenciava as classes sociais na Viena do Imp\u00e9rio Austro-H\u00fangaro, ou na Berlim prussiana do s\u00e9culo XIX, era a maneira de vestir e falar. As pessoas n\u00e3o tinham educa\u00e7\u00e3o, falavam dialetos provincianos. Era o comportamento e a roupa.&nbsp;<\/p>\n<p>No Brasil, al\u00e9m desses elementos \u2013 sendo que os escravos nem usavam roupa \u00e0s vezes, com as mulheres de seio de fora \u2013 tinha a cor da pele, e o fato de eles serem estrangeiros. Eles vinham da \u00c1frica e n\u00e3o eram brancos. A servid\u00e3o europeia era feita de europeus, ent\u00e3o era mais complicado distinguir um escravo, uma pessoa que ocupava uma posi\u00e7\u00e3o \u00ednfima na R\u00fassia do s\u00e9culo 19, por exemplo, como a gente l\u00ea nos livros de Dostoi\u00e9vski ou nas novelas de Pushkin e Tchekhov. Todo mundo era branco e falava mais ou menos a mesma l\u00edngua. No caso brasileiro, eles tinham o estigma de serem africanos, n\u00e3o saberem a l\u00edngua e serem negros. Este elemento \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p>A este elemento se acrescenta outro, que tamb\u00e9m \u00e9 muito importante. O Brasil n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds colonial cl\u00e1ssico, virou o centro de um imp\u00e9rio com a vinda da fam\u00edlia real portuguesa em 1808, fugindo da invas\u00e3o napole\u00f4nica.<\/p>\n<p>Sem entender as implica\u00e7\u00f5es desse forte componente aristocr\u00e1tico que caracteriza a sociedade brasileira, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel compreender o &#8220;sabe com quem est\u00e1 falando?\u201d. Pode-se achar que \u00e9 um desvio de conduta a ser punido. O diagn\u00f3stico \u00e9 correto, mas at\u00e9 certo ponto. Isso faz parte de uma mentalidade, uma cultura na qual existe uma forte avers\u00e3o ao igualitarismo, o que promove uma enorme contradi\u00e7\u00e3o com a democracia republicana que a gente quer estabelecer no Brasil e estamos lutando para conquistar.<\/p>\n<p><strong>No livro, o senhor contrasta essa postura manifestada por esses casos com o Carnaval. Por que essa escolha?&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>O Carnaval \u00e9 o ritual do qual os brasileiros se orgulham, da alegria, do abra\u00e7o, do encontro, no qual voc\u00ea inverte as posi\u00e7\u00f5es sociais. O &#8220;sabe com quem est\u00e1 falando\u201d \u00e9 justamente o contr\u00e1rio, do qual os brasileiros n\u00e3o falam.<\/p>\n<p>\u00c9 o ritual da desigualdade, porque eu digo a voc\u00ea: est\u00e1 pensando que somos iguais? Voc\u00ea segue a regra, mas eu n\u00e3o sou obrigado a seguir. Evidentemente, isso contraria de maneira frontal, ileg\u00edtima e criminosa a regra b\u00e1sica de um regime democr\u00e1tico, de que todos n\u00f3s somos submetidos a leis que governam o espa\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o posso atravessar uma avenida correndo sem que o sinal esteja fechado, preciso esperar, seja eu presidente da Rep\u00fablica, Papa ou rainha da Inglaterra. O seu direito termina onde o meu come\u00e7a e vice-versa. Esse tipo de entendimento e discuss\u00e3o parece muito simples, mas n\u00e3o \u00e9 muito simples em sociedades fortemente personalistas \u00ad\u00ad\u2014 caso do Brasil.<\/p>\n<p><strong>Apesar das ra\u00edzes coloniais do problema, o que explica o fato de n\u00e3o terem ocorrido maiores transforma\u00e7\u00f5es desde ent\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o houve, no Brasil, uma revolu\u00e7\u00e3o como a que aconteceu nos Estados Unidos, onde eles lutaram contra os ex\u00e9rcitos ingleses para proclamar a independ\u00eancia. N\u00e3o estou dizendo que revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 necessariamente boa. As sociedades t\u00eam hist\u00f3rias diferentes, determinadas nuances. No caso alem\u00e3o, a unifica\u00e7\u00e3o s\u00f3 acontece no final do s\u00e9culo XIX, com Bismarck e os prussianos, em um processo lento como italiano. O Brasil come\u00e7a centralizado e, depois, se descentraliza. Hoje, a gente ainda n\u00e3o sabe se vai ser uma rep\u00fablica federativa com os limites da federa\u00e7\u00e3o ou altamente centralizada. Quanto mais centralidade, mais f\u00e1cil o caminho para o totalitarismo. O lado negativo da hierarquia est\u00e1 muito mais pr\u00f3ximo de sociedades assim.<\/p>\n<p>At\u00e9 cinco minutos atr\u00e1s, em perspectiva hist\u00f3rica, todo senador era bar\u00e3o no Brasil, e quem andava de carruagem ou cavalo era um aristocrata. N\u00e3o precisava saber, bastava voc\u00ea olhar para a pessoa. O que os alem\u00e3es e ingleses faziam? Usavam a peruca branca para sinalizar a aristocracia. A mesma coisa com os&nbsp;<em>sans-culottes<\/em>, que usavam meias brancas e os sapatos da aristocracia francesa. Um dos elementos trazidos pela Revolu\u00e7\u00e3o Fran\u00e7esa era n\u00e3o usar o&nbsp;<em>culotte<\/em>, e tentou-se mudar a pr\u00f3pria roupa e as datas nacionais.<\/p>\n<p>Essa transforma\u00e7\u00e3o de uma sociedade aristocr\u00e1tica, que \u00e9 im\u00f3vel, para uma sociedade com mobilidade \u2014 caso cl\u00e1ssico do modelo estadunidense, onde, em teoria, qualquer um pode virar um Bill Gates \u2014 tem ocorrido, mas com lentid\u00e3o muito maior por causa desses entraves, de matrizes aristocr\u00e1ticas que persistem no nosso inconsciente. Quando a gente estuda antropologia, dedica-se aos costumes que s\u00e3o dif\u00edceis de explicar. Quanto mais dif\u00edcil de explicar um costume, mais ele \u00e9 revelador da sociedade. \u00c9 imposs\u00edvel explicar por que os alem\u00e3es falam alem\u00e3o, uma tautologia.<\/p>\n<p><strong>Muito tem se falado sobre o p\u00f3s-pandemia no Brasil e no mundo. Qual \u00e9 a sua perspectiva?<\/strong><\/p>\n<p>A pandemia d\u00e1 um soco muito forte na onipot\u00eancia tecnol\u00f3gica. Estamos falando em conquistar o planeta Marte e temos rel\u00f3gios digitais que marcam o pulso. Isso cria uma onipot\u00eancia, um sentimento ocidental de que a sociedade est\u00e1 sempre mudando de forma positiva, porque tem a ver com progresso.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a pandemia revela a fragilidade dos seres humanos, mesmo nas sociedades mais industrializadas, que mais deram um salto no sentido de ocidentalizar determinadas dimens\u00f5es da sua vida \u2013 caso da China e demais Tigres Asi\u00e1ticos, bem como pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul.&nbsp;&nbsp;A pandemia revela as desigualdades entre sociedades de maneira muito clara, bem como a brutalidade de concentra\u00e7\u00e3o de renda e a ambi\u00e7\u00e3o comercial, at\u00e9 mesmo na venda de rem\u00e9dios no contexto da pandemia.<\/p>\n<p>O mundo pode sair da pandemia otimista, mas consciente que o mundo globalizado deveria ser mais humano e igualit\u00e1rio do que \u00e9, com mais compaix\u00e3o do que existe no mundo de hoje. As fronteiras nacionais devem existir, sem d\u00favidas, mas deveriam ser mais aplacadas para que a gente pudesse espalhar pelo planeta n\u00e3o as diferen\u00e7as, mas um bem-estar que fosse maior.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso haver maior compreens\u00e3o sobre as diferen\u00e7as entre grupos \u00e9tnicos, bem como entre pobres e ricos, com sistemas de vida diferentes, ponto fundamental da antropologia. Acredito que a pandemia pode ser uma dimens\u00e3o capaz de nos levar a esse tipo de compreens\u00e3o de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Ela nos ataca biologicamente, e isso \u00e9 um denominador comum, porque n\u00e3o h\u00e1 qualquer sociedade humana em que n\u00e3o exista a morte, e a pandemia tem a ver com a morte. Mais do que a pol\u00edtica ou religi\u00f5es, este \u00e9 um denominador comum que pode levar a um mundo mais compreensivo, capaz de se autocriticar, um ponto fundamental do que acredito ser o verdadeiro humanismo.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Deutsche Welle Brasil &#8211; dispon\u00edvel na internet 23\/07\/2020<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista \u00e0 DW Brasil, antrop\u00f3logo Roberto DaMatta aponta que casos de humilha\u00e7\u00e3o de fiscais escancaram a persist\u00eancia de um comportamento aristocr\u00e1tico da sociedade brasileira que remonta \u00e0 \u00e9poca colonial. Aos 84 anos, o antrop\u00f3logo Roberto DaMatta nunca foi t\u00e3o procurado para entrevistas como agora. 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