{"id":50652,"date":"2020-07-24T03:00:36","date_gmt":"2020-07-24T06:00:36","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=50652"},"modified":"2020-07-24T05:26:21","modified_gmt":"2020-07-24T08:26:21","slug":"a-rotina-de-ameacas-e-expulsoes-de-entregadores-terceirizados-do-ifood","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/07\/24\/a-rotina-de-ameacas-e-expulsoes-de-entregadores-terceirizados-do-ifood\/","title":{"rendered":"A rotina de amea\u00e7as e expuls\u00f5es de entregadores terceirizados do IFood"},"content":{"rendered":"<div class=\"story-body__inner\">\n<p class=\"story-body__introduction\">Um dos principais aplicativos de delivery no Brasil e fonte de renda para milhares de pessoas sem emprego formal, o IFood gerencia o trabalho de sua massa de entregadores \u2014 pelo menos 170 mil \u2014 por meio de dois sistemas principais: &#8220;Nuvem&#8221; e &#8220;Operador Log\u00edstico (OL)&#8221;.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 aquele entregador que espera uma corrida geralmente parado em ruas com concentra\u00e7\u00e3o de restaurantes e supermercados. Se ele estiver cansado, por\u00e9m, pode simplesmente desligar o celular e voltar para casa. De certa forma, quem &#8220;organiza&#8221; o trabalho do &#8220;entregador nuvem&#8221; \u00e9 ele pr\u00f3prio e tamb\u00e9m o aplicativo: em resumo, o app escolhe algu\u00e9m pr\u00f3ximo ao estabelecimento, envia o pedido a ele e, depois do servi\u00e7o, efetua seu pagamento.<\/p>\n<p>J\u00e1 o sistema de operador log\u00edstico \u00e9 diferente: ele tem sido visto como uma terceiriza\u00e7\u00e3o de parte dos colaboradores do IFood. H\u00e1 quem diga que esse modelo proporcione uma renda maior aos entregadores, mas cr\u00edticos e outros trabalhadores enxergam o OL como uma forma de aumentar o controle sobre o trabalho: o sistema seria mais um fator que contraria o discurso de autonomia sempre ressaltado pelos aplicativos.<\/p>\n<p>Na verdade, operador log\u00edstico \u00e9 uma empresa menor, subcontratada pelo IFood para organizar e gerenciar uma frota de entregadores fixos. Segundo a companhia, essas terceirizadas &#8220;contribuem em diversos cen\u00e1rios, como atendimento a localidades espec\u00edficas, como shoppings, abertura de novas regi\u00f5es, complemento da frota em determinados dias e hor\u00e1rios.&#8221;<\/p>\n<p>Algumas dessas frotas t\u00eam at\u00e9 400 pessoas rodando por S\u00e3o Paulo, segundo apurou a reportagem. Usam principalmente moto, mas tamb\u00e9m bicicletas e patinetes (esses precisam ser alugados por uma di\u00e1ria de R$ 21,50). Dentro da categoria, quem faz entregas no sistema \u00e9 conhecido como &#8220;entregador OL&#8221; \u2014 os gerentes dessas pequenas empresas s\u00e3o chamados &#8220;l\u00edderes de pra\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>Nesse modelo, o entregador tem uma escala de trabalho semanal: ele precisa cumprir um hor\u00e1rio fixo todos os dias, al\u00e9m de ter direito a uma folga por semana, desde que ela seja combinada com anteced\u00eancia. Por\u00e9m, diferente do &#8220;entregador nuvem&#8221;, o OL n\u00e3o pode desligar o aplicativo quando quiser nem decidir ficar em casa em determinado dia.<\/p>\n<p>Apesar de cumprir jornadas e escalas pr\u00e9-determinadas, ao estilo de um trabalhador formal registrado pela CLT, o entregador OL do IFood n\u00e3o tem sal\u00e1rio fixo, f\u00e9rias e folgas remuneradas, ou mesmo 13\u00ba sal\u00e1rio. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o ganha qualquer remunera\u00e7\u00e3o quando fica parado esperando por corridas \u2014 s\u00f3 recebe se fizer alguma.<\/p>\n<p>Quem paga efetivamente o trabalhador n\u00e3o \u00e9 o IFood, como no modelo &#8220;nuvem&#8221;. A companhia remunera a empresa terceirizada, que fica respons\u00e1vel por pagar todos os membros de sua frota. Nos termos de uso da plataforma, que devem ser assinados por quem queira fazer entregas como OL, o IFood explica como funciona:<\/p>\n<p>&#8220;Para os entregadores vinculados aos Operadores Log\u00edsticos, as entregas e as gorjetas pagas pelos clientes finais s\u00e3o pagas pelo IFood diretamente aos Operadores Log\u00edsticos e estes remuneram os seus entregadores nos crit\u00e9rios acordados entre os Operadores Log\u00edsticos e seus entregadores, n\u00e3o tendo o IFood qualquer inger\u00eancia na forma, periodicidade e valores pagos pelos Operadores Log\u00edsticos&#8221;.<\/p>\n<p>O motoboy Robson (nome fict\u00edcio), de 30 anos, conta ter tido uma experi\u00eancia ruim durante o ano que trabalhou em uma empresa de motoboys da zona sul de S\u00e3o Paulo. &#8220;Para mim, foi como estar registrado na CLT mas sem ter nenhum direito, nem sal\u00e1rio. Era tudo controlado pelo gerente OL, que tinha o poder de me bloquear no app&#8221;, explica.<\/p>\n<p>No OL, o trabalho come\u00e7a \u00e0s 10h30 e vai at\u00e9 meia-noite, per\u00edodo dividido em tr\u00eas turnos. Entre eles, h\u00e1 a previs\u00e3o de um intervalo de 20 minutos para descanso. Segundo relatos ouvidos pela BBC News Brasil, normalmente os trabalhadores fazem dois turnos \u2014 um das 14h30 at\u00e9 18h, seguido por outro das 18h \u00e0 meia-noite, por exemplo.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 outros que trabalham nos tr\u00eas hor\u00e1rios, como conta Robson. &#8220;Eu tinha de trabalhar todos os dias, das 10h30 \u00e0 meia-noite, sem negocia\u00e7\u00e3o. E, se eu n\u00e3o trabalhasse ou chegasse atrasado, podia ser suspenso pelo meu gerente. Se eu recusasse uma corrida, tamb\u00e9m era suspenso. Se eu reclamasse de algo, podia ser bloqueado. No OL, voc\u00ea vive no clima de amea\u00e7a o tempo todo&#8221;, diz.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Amea\u00e7as no app<\/h2>\n<p>\u00c1udios com amea\u00e7as de bloqueios no aplicativo, supostamente enviados por gerentes OL, t\u00eam circulado em grupos de entregadores no WhatsApp. Em um deles, um homem afirma que n\u00e3o aceitava que seu subordinados participassem de uma greve no in\u00edcio deste m\u00eas.<\/p>\n<p>&#8220;A gente que \u00e9 OL \u00e9 diferenciado, outra qualidade de entregador. A gente n\u00e3o se envolve em nenhum tipo de manifesta\u00e7\u00e3o. Se algu\u00e9m estiver descontente com a plataforma, me procura na base que eu te mando para nuvem. Se voc\u00ea tiver com adesivo (de protesto) na bag, vou pedir para voc\u00ea tirar. Se estiver descontente, a gente resolve essa quest\u00e3o e voc\u00ea se vira na nuvem&#8221;<\/p>\n<p>Em outro \u00e1udio obtido pela reportagem, um l\u00edder OL reclama que seus entregadores vazaram para outro grupo amea\u00e7as feitas por ele contra quem participasse da paralisa\u00e7\u00e3o. &#8220;Quero saber quem fez isso comigo. Estou lidando com voc\u00eas a\u00ed, no dia a dia. Eu simplesmente falei que quem quiser aderir (\u00e0 greve) n\u00e3o vai mais fazer parte da equipe, s\u00f3 isso&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p>J\u00e1 em outro \u00e1udio, enviado por um entregador \u00e0 reportagem, uma suposta gerente OL &#8220;demite&#8221; o trabalhador pelo WhatsApp pelo mesmo motivo. &#8220;A\u00ed, Jo\u00e3o, qual \u00e9 a sua? Voc\u00ea est\u00e1 contra n\u00f3s ou com n\u00f3s? De onde vem o seu sal\u00e1rio, meu filho? Para mim voc\u00ea est\u00e1 fora&#8221;, diz.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 621px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1162A\/production\/_113601217_39a884ed-21e1-4ab0-bd3e-43b074b7b52a.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1162A\/production\/_113601217_39a884ed-21e1-4ab0-bd3e-43b074b7b52a.jpg?resize=621%2C351&#038;ssl=1\" alt=\"Entregador do IFood comendo\" width=\"621\" height=\"351\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">O IFood afirmou que uma minoria de entregadores faz parte do sistema de Operador Log\u00edstico. Direito de imagem LINCON ZARBIETTI<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Em entrevista \u00e0 BBC News Brasil, o motoboy Robson afirma que foi exclu\u00eddo do aplicativo depois de fazer v\u00eddeos no WhatsApp convidando colegas para participar de uma manifesta\u00e7\u00e3o no in\u00edcio da pandemia de covid-19. &#8220;O gerente viu os v\u00eddeos e simplesmente me excluiu, n\u00e3o teve conversa&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Expulso, Robson agora entrou em uma lista de espera para voltar \u00e0 vida de entregador do IFood na modalidade &#8220;nuvem&#8221;, mas est\u00e1 h\u00e1 tr\u00eas meses esperando ser aceito pela plataforma novamente.<\/p>\n<p>J\u00e1 Iuri Veloso Santos, 27, conta ter sido exclu\u00eddo do sistema OL depois de recusar algumas corridas longas demais, no Rio. &#8220;\u00c0s vezes, eu recebia chamados de 5 km para ganhar R$ 6, de bicicleta. Percebi que valia mais a pena fazer entregas mais curtas, porque ganhava a mesma coisa. Nesta semana, meu gerente OL me mandou mensagem dizendo que estava me excluindo porque eu recusei corridas. Mas fiz muito mais corridas do que recusei. Mesmo assim, n\u00e3o teve conversa, ele s\u00f3 escreveu: &#8216;se voc\u00ea quiser trabalhar para voc\u00ea mesmo, melhor sair&#8217;.<\/p>\n<p>O IFood afirma que &#8220;defende e apoia o direito \u00e0 livre manifesta\u00e7\u00e3o e (que) espera dos nossos parceiros o mesmo compromisso&#8221;. Segundo a empresa, esse posicionamento foi expresso a todos os operadores log\u00edsticos no dia da paralisa\u00e7\u00e3o. A companhia diz, ainda, que possui um c\u00f3digo de conduta e \u00e9tica &#8220;a ser seguido por todos os seus parceiros, e viola\u00e7\u00f5es podem levar ao rompimento do contrato.&#8221;<\/p>\n<p>O movimento de entregadores promete fazer uma nova paralisa\u00e7\u00e3o da categoria neste s\u00e1bado (25).<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Por que existe o Operador Log\u00edstico?<\/h2>\n<p>Sem citar n\u00fameros, o IFood afirmou que os entregadores OL s\u00e3o minoria em sua massa de colaboradores.<\/p>\n<p>Segundo pesquisadores do setor, o OL seria uma maneira de a empresa manter um n\u00famero expressivo de entregadores nas ruas para atender a uma demanda por delivery que cresce a cada dia, principalmente nos \u00faltimos meses com o isolamento social.<\/p>\n<p>&#8220;O entregador &#8216;nuvem&#8217; pode desligar o aplicativo a hora que quiser. O do OL, n\u00e3o. Esse sistema serve para que o IFood consiga garantir, por meio do gerenciamento feito por &#8216;l\u00edderes de pra\u00e7a&#8217;, que a plataforma vai atender a demanda de entregas&#8221;, afirma Leo Vinicius Liberato, doutor em sociologia pol\u00edtica pela Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisador da \u00e1rea de seguran\u00e7a e sa\u00fade no trabalho.<\/p>\n<p>Segundo ele, que tem realizado pesquisas na \u00e1rea, em momentos de chuva forte ou de paralisa\u00e7\u00e3o, por exemplo, o n\u00famero de entregadores dispon\u00edveis tende a cair. &#8220;A empresa terceirizada \u00e9 uma forma de o IFood disciplinar o trabalhador, estipulando um hor\u00e1rio que ele precisa cumprir todos os dias, de modo a garantir que haja sempre uma massa de pessoas nas ruas, algo que o aplicativo n\u00e3o consegue fazer por si s\u00f3&#8221;, diz.<\/p>\n<p>O IFood n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica empresa do ramo a terceirizar parte de seus entregadores. A Loggi, que trabalha com entregas de escrit\u00f3rios e outros tipos de compras, tamb\u00e9m tem seu modelo de operador log\u00edstico, chamado &#8220;Leve&#8221;. Ela contrata pequenas empresas que passam a gerenciar uma frota pr\u00f3pria de motoboys, organizando o delivery e fazendo pagamentos aos colaboradores.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria Loggi ajuda as pessoas a criarem uma terceirizada, dando consultoria por meio de reuni\u00f5es agendadas em seu site. Na p\u00e1gina, a empresa afirma ser poss\u00edvel se tornar um operador log\u00edstico &#8220;em poucos dias, investindo R$ 5 mil, com retorno financeiro em dois meses&#8221;.<\/p>\n<p>Para Rodrigo Carelli, procurador do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho e professor do curso de direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro, o operador log\u00edstico \u00e9 &#8220;mais um fator de precariza\u00e7\u00e3o do trabalho nesse setor, e um modelo antigo antigo e tradicional em outras \u00e1reas tamb\u00e9m prec\u00e1rias, como a constru\u00e7\u00e3o civil, pecu\u00e1ria e t\u00eaxtil&#8221;.<\/p>\n<p>O procurador, que se tornou uma das vozes mais cr\u00edticas \u00e0 chamada uberiza\u00e7\u00e3o, acredita que o sistema seja tamb\u00e9m uma maneira de &#8220;bagun\u00e7ar&#8221; o jogo jur\u00eddico caso as grandes empresas enfrentem processos de reconhecimento de v\u00ednculo empregat\u00edcio entre elas e os colaboradores.<\/p>\n<p>&#8220;O operador log\u00edstico \u00e9 um complicador e um obst\u00e1culo no processo judicial. As empresas de aplicativos podem alegar que n\u00e3o t\u00eam v\u00ednculo com os entregadores, porque elas s\u00e3o apenas intermedi\u00e1rias. Esse v\u00ednculo seria com as terceirizadas. Na minha vis\u00e3o, h\u00e1 elementos claros de v\u00ednculo com os dois&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Em decis\u00f5es dos \u00faltimos anos, a Justi\u00e7a do Trabalho normalmente n\u00e3o tem reconhecido v\u00ednculo empregat\u00edcio entre trabalhadores de aplicativos e as empresas. Em janeiro, por exemplo, a Justi\u00e7a negou uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica que pedia essa vincula\u00e7\u00e3o com o IFood. Segundo a ju\u00edza Shirley Aparecida de Souza Lobo Escobar, essa nova rela\u00e7\u00e3o de trabalho \u00e9 &#8220;inovadora&#8221; por ser intermediada por tecnologia e se enquadra no &#8220;modo aut\u00f4nomo&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo o site jur\u00eddico Conjur, a magistrada escreveu na decis\u00e3o: &#8220;Restou demonstrado que o trabalhador se coloca a disposi\u00e7\u00e3o para trabalhar no dia que escolher trabalhar, iniciando e terminando a jornada no momento que decidir, escolhendo a entrega que quer fazer e escolhendo para qual aplicativo vai fazer, uma vez que pode se colocar \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo, para quantos aplicativos desejar&#8221;.<\/p>\n<p>O IFood afirmou que o modelo &#8220;\u00e9 totalmente transparente e est\u00e1 de acordo com as leis vigentes&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo Ludmila Costhek Ab\u00edlio, pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp, o modelo OL \u00e9 uma atualiza\u00e7\u00e3o do mercado de motoboys que existia antes da chegada dos aplicativos. &#8220;At\u00e9 2014, havia o chamado motoboy espor\u00e1dico, que tinha uma remunera\u00e7\u00e3o fixa e menor, mas tamb\u00e9m recebia por cada servi\u00e7o prestado. E havia o contratado, que era registrado pela CLT na terceirizada, mas atuava de maneira fixa em outra empresa. O que temos hoje com o OL \u00e9 uma novidade: h\u00e1 a figura do trabalhador fixo, mas que n\u00e3o tem direitos nem nenhuma remunera\u00e7\u00e3o fixa garantida.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Quanto ganha um OL?<\/h2>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar com certeza quanto ganha em m\u00e9dia um entregador OL. Oficialmente, o IFood nunca afirmou que trabalhadores desse modelo recebem mais ou menos pedidos do que os atuam na &#8220;nuvem&#8221;.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, alguns entregadores afirmam que no sistema terceirizado conseguem ter uma renda maior. Nesse sentido, h\u00e1 diversos v\u00eddeos no YouTube com relatos de aumento de renda. Um deles foi feito Jeff Fernandes, de 23 anos, que faz entregas no Recife e tem uma canal de v\u00eddeos onde conta sua rotina.<\/p>\n<p>&#8220;Quando eu era &#8216;nuvem&#8217;, precisava trabalhar 12 ou 13 horas para ganhar R$ 80 por dia. Hoje, como entregador OL, ganho R$ 100 em pouco mais de sete horas di\u00e1rias. Hoje consigo ganhar entre R$ 2.800 e R$ 3.100 por m\u00eas, bem mais do que eu recebia na &#8216;nuvem'&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Por outro lado, segundo Jeff, n\u00e3o d\u00e1 para creditar seu aumento de renda apenas ao modelo que utiliza. Nessa conta, entra tamb\u00e9m sua pontua\u00e7\u00e3o alta no app \u2014 uma m\u00e9dia de avalia\u00e7\u00f5es feitas por clientes, entre outros fatores. &#8220;Meu score \u00e9 alto e isso tem influ\u00eancia nas corridas que eu recebo&#8221;, diz.<\/p>\n<p>J\u00e1 Hannah Jacomme Gouv\u00eaa, de 31 anos, conta nunca ter ganhado mais de R$ 840 por quinzena. Para ela, que atuou tr\u00eas meses como OL, o trabalho no modelo &#8220;n\u00e3o vale a pena, pois os gastos e riscos s\u00e3o muitos&#8221; \u2014 e o n\u00famero de corridas depende muito de sua pontua\u00e7\u00e3o no app, diz. Por meio de mensagens de WhatsApp, a entregadora fez um desabafo sobre sua rotina estressante de trabalho:<\/p>\n<p>&#8220;Somos n\u00f3s que custeados tudo: pneu furado, gasolina, capacete, comida e at\u00e9 a mochila. Se quebra a al\u00e7a da mochila ou o isopor, n\u00f3s que pagamos. O app n\u00e3o tem filtro e manda a gente buscar compras dignas de quem tem carro, e eu n\u00e3o estou exagerando. J\u00e1 fui buscar compra que tinha balde, vassoura, sab\u00e3o em p\u00f3, gal\u00e3o grande de amaciante e c\u00e2ndida, frango, farinha de trigo, tudo isso para eu levar na bag. E, sim, me lembro dessa compra, porque foi um dos dias mais estressantes: fiquei no mercado mais de uma hora, esperando o app mandar outro entregador pra me ajudar. Depois desse tempo todo, o suporte disse que n\u00e3o tinha conseguido nenhum e que era para eu levar apenas o que pudesse. Chegando no cliente, tive que explicar toda essa ladainha. E isso para nada, porque ele ficou bravo comigo do mesmo jeito. E com certeza me avaliou mal no app, e isso faz o qu\u00ea? Baixa a pontua\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Leandro Machado d<\/span><span class=\"byline__title\">a BBC News Brasil em S\u00e3o Paulo &#8211; dispon\u00edvel na internet 24\/07\/2020<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos principais aplicativos de delivery no Brasil e fonte de renda para milhares de pessoas sem emprego formal, o IFood gerencia o trabalho de sua massa de entregadores \u2014 pelo menos 170 mil \u2014 por meio de dois sistemas principais: &#8220;Nuvem&#8221; e &#8220;Operador Log\u00edstico (OL)&#8221;. 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