{"id":50655,"date":"2020-07-24T02:15:15","date_gmt":"2020-07-24T05:15:15","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=50655"},"modified":"2020-07-24T05:33:15","modified_gmt":"2020-07-24T08:33:15","slug":"como-sua-indignacao-nas-redes-sociais-pode-ter-efeito-contrario-ao-desejado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/07\/24\/como-sua-indignacao-nas-redes-sociais-pode-ter-efeito-contrario-ao-desejado\/","title":{"rendered":"Como sua indigna\u00e7\u00e3o nas redes sociais pode ter efeito contr\u00e1rio ao desejado"},"content":{"rendered":"<div class=\"story-body__inner\">\n<p class=\"story-body__introduction\">Em 18 de maio de 2020, uma hashtag contra judeus amanheceu entre os assuntos mais comentados do Twitter na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Vis\u00edvel para os quase 9 milh\u00f5es de usu\u00e1rios da rede social no pa\u00eds, n\u00e3o demorou para que a #sijetaitunjuif, ou #seeufossejudeu, parasse no debate p\u00fablico.<\/p>\n<p>Discuss\u00f5es foram feitas em programas jornal\u00edsticos, entidades judaicas emitiram notas de rep\u00fadio e pol\u00edticos usaram o ataque antissemita para refor\u00e7ar bandeiras.<\/p>\n<p>Mas o que parecia uma grande campanha de \u00f3dio contra os judeus &#8211; ao ponto de ficar entre os temas mais comentados naquela manh\u00e3 entre os franceses &#8211; na verdade come\u00e7ou como algo pontual e acabou crescendo justamente pela a\u00e7\u00e3o de quem se indignou com aquilo<\/p>\n<p>Um monitoramento feito pelo hacker franc\u00eas ativista no combate \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o de dados Robert Baptiste, que usa o codinome Elliot Alderson nas redes sociais, mostra que os primeiros tu\u00edtes come\u00e7aram a circular em um pequeno grupo, na noite anterior: ao todo, 54 pessoas que s\u00f3 interagiam entre si fizeram alguns posts, muitas com perfis falsos.<\/p>\n<p>O engajamento das mensagens era baixo, com pouca intera\u00e7\u00e3o e poucos compartilhamentos.<\/p>\n<p>Mas tudo mudou quando usu\u00e1rios fora dessa &#8220;bolha&#8221; descobriram a hashtag e se indignaram com ela. Com mensagens p\u00fablicas expondo a revolta, usu\u00e1rios adotaram a hashtag para pedir ao Twitter que fizesse algo.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, compartilhamentos, curtidas, coment\u00e1rios&#8230; Logo, o assunto foi parar entre os mais discutidos.<\/p>\n<p>Durante a manh\u00e3, a Liga Internacional contra o Racismo e o Antissemitismo se pronunciou sobre o assunto. Depois foi a vez de pol\u00edticos dos extremos do espectro e influencers.<\/p>\n<p>&#8220;De indigna\u00e7\u00e3o em indigna\u00e7\u00e3o, a hashtag se espalha para todos os lugares (&#8230;) \u00c9 um padr\u00e3o. As pessoas veem algo que as choca e mencionam o conte\u00fado. Fazendo isso, elas o amplificam&#8221;, disse Baptiste \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Aten\u00e7\u00e3o aos extremos<\/h2>\n<p>O exemplo n\u00e3o \u00e9 exclusividade da Fran\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 raro que postagens e v\u00eddeos sejam impulsionados nas redes sociais por aqueles que mais os repudiam.<\/p>\n<p>E isso pode ter a ver com o efeito que as redes sociais t\u00eam sobre nossas emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;O algoritmo das plataformas trabalha para que passemos mais tempo nelas. E os posts e assuntos com rea\u00e7\u00f5es mais extremas nos faz ficar mais [tempo], por causa da indigna\u00e7\u00e3o dos dois lados&#8221;, conta a professora Lilian Carvalho, coordenadora do N\u00facleo de Comunica\u00e7\u00e3o, Marketing e Redes Sociais Digitais da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV).<\/p>\n<p>E, quanto mais um determinado post envolve os usu\u00e1rios, mais ele vai ganhando destaque e alcan\u00e7ando novas pessoas. No caso do Twitter, pode parar nos Trending Topics; no Facebook, pode aparecer mais alto no feed de amigos; no YouTube, pode aparecer nos v\u00eddeos &#8220;em alta&#8221; e &#8220;recomendados&#8221;.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Economia do \u00f3dio&#8217;<\/h2>\n<p>Apesar de estarmos conectados o dia inteiro de alguma forma nas redes sociais, n\u00e3o \u00e9 sempre que achamos tempo para nos engajarmos.<\/p>\n<p>Trabalho, almo\u00e7o, estudo, tarefas dom\u00e9sticas\u2026 \u00c9 nessa disputa por nossa cada vez mais escassa aten\u00e7\u00e3o que acontece o debate de ideias nas plataformas, explica Marco Bastos, professor de comunica\u00e7\u00e3o e especialista em redes sociais da City University of London, no Reino Unido.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o tem como dar aten\u00e7\u00e3o a tudo que est\u00e1 acontecendo, ent\u00e3o os usu\u00e1rios usam o pouco tempo que t\u00eam para investir em ideias que s\u00e3o caras a eles, na guerra de quem vai falar o que ou quem vai ter mais resultado sobre aquilo. A economia do \u00f3dio atua justamente a\u00ed, no conte\u00fado que as pessoas n\u00e3o v\u00e3o conseguir evitar de olhar e comentar&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Um dos resultados disso, segundo os especialistas, \u00e9 a polariza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que os extremos repercutem mais.<\/p>\n<p>Para Lilian Carvalho, as postagens no &#8220;meio termo&#8221;, mesmo que concordemos com elas, n\u00e3o despertam o nosso interesse.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o digo que a pessoa n\u00e3o deve se indignar, mas entender o que essa indigna\u00e7\u00e3o significa no ambiente das redes sociais e como as plataformas utilizam de gatilhos emocionais para manipular nossas emo\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>No caso espec\u00edfico do Twitter, o professor Marco Bastos ressalta ainda que mudan\u00e7as feitas pela plataforma alteraram o aparecimento de assuntos na lista do Trending Topics, que re\u00fane os assuntos mais comentados.<\/p>\n<p>Se antes, ela era baseada apenas na quantidade de posts, hoje leva em considera\u00e7\u00e3o a diversidade de grupos que falam sobre o mesmo assunto.<\/p>\n<p>Ou seja, se todos os ambientalista do mundo &#8211; mas apenas eles &#8211; resolverem impulsionar uma hashtag, s\u00f3 v\u00e3o conseguir emplacar caso o assunto seja discutido fora da &#8220;bolha&#8221; e gere algum tipo de embate.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/5E17\/production\/_113578042_montagem.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/5E17\/production\/_113578042_montagem.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Montagem\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Protesto contra YouTuber Felipe Neto ficou entre os assuntos mais comentados, mas muitas mensagens o defendiam. Direito de imagem TWITTER<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Na ter\u00e7a-feira (21), a hashtag #Fam\u00edliasContraFelipeNeto, por exemplo, apareceu entre os assuntos mais comentados na rede social.<\/p>\n<p>A ideia era protestar contra os posicionamentos pol\u00edticos do popular youtuber brasileiro. Uma simples busca pelo termo, por\u00e9m, mostra que alguns dos posts com mais engajamento, na verdade, eram de apoio a Felipe Neto.<\/p>\n<p>Ainda assim, a not\u00edcia sobre a popularidade do termo foi tema de posts de blogs e sites de not\u00edcias.<\/p>\n<p>Em outros casos, grupos contr\u00e1rios conseguem, de fato, se apropriar de uma hashtag e dar um novo significado a ela.<\/p>\n<p>Um exemplo recente \u00e9 a #WhiteLivesMatter, ou Vidas Brancas Importam, que come\u00e7ou como rea\u00e7\u00e3o ao movimento antirracista Vidas Negras Importam.<\/p>\n<p>O termo acabou sendo&nbsp;&#8220;sequestrado&#8221; por f\u00e3s da m\u00fasica pop sul-coreana, o k-pop, que dilu\u00edram mensagens racistas num mar de posts sobre seus \u00eddolos.<\/p>\n<p>A lista de assuntos mais comentados no Twitter \u00e9 muito utilizada para pautar jornalistas e em debates na TV no Brasil, como no programa matutino&nbsp;<i>Encontro com F\u00e1tima Bernardes<\/i>, da Rede Globo.<\/p>\n<p>&#8220;Acho que o usu\u00e1rio sabe que, ao falar sobre o assunto, o est\u00e1 impulsionando. Mas essa n\u00e3o \u00e9 a preocupa\u00e7\u00e3o principal dele no momento que ele quer impor seu ponto de vista&#8221;. explica o professor Marco Bastos.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">\u00c0 espera dos compartilhamentos<\/h2>\n<p>Chamar a aten\u00e7\u00e3o dos usu\u00e1rios com as rea\u00e7\u00f5es extremas \u00e9 apenas um dos artif\u00edcios das redes sociais para estimular mais o uso de suas plataformas.<\/p>\n<p>A estrutura tamb\u00e9m nos faz esperar por rea\u00e7\u00f5es ou &#8220;fazer parte de uma comunidade&#8221;, como explica Bastos. Quando nos posicionamos, desejamos curtidas, coment\u00e1rios e compartilhamentos.<\/p>\n<p>Em&nbsp;recente entrevista \u00e0 BBC, a jornalista espanhola Marta Peirano, autora do livro&nbsp;<i>El Enemigo Conoce El Sistema<\/i>&nbsp;(O inimigo conhece o sistema, em tradu\u00e7\u00e3o livre), ressaltou que a estrutura das redes sociais nos faz ficar viciados.<\/p>\n<p>&#8220;Somos viciados em inje\u00e7\u00f5es de dopamina que certas tecnologias inclu\u00edram em suas plataformas. Isso n\u00e3o \u00e9 por acaso, \u00e9 deliberado&#8221;.<\/p>\n<p>A dopamina \u00e9 um neurotransmissor cuja atividade est\u00e1 ligada \u00e0 motiva\u00e7\u00e3o que temos para fazer as coisas&nbsp;e pode ser acionada por uma s\u00e9rie de est\u00edmulos externos, de um barulho a uma notifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Temos que lembrar que tudo isso \u00e9 muito novo, estamos aprendendo. Antes, quando s\u00f3 consum\u00edamos TV, era f\u00e1cil controlar. Era s\u00f3 mudar de canal para a gente deixar de ver o que n\u00e3o quer\u00edamos reagir. Agora n\u00e3o, estamos na m\u00e3o do algoritmo, que coloca o assunto que quer na nossa frente&#8221;, conclui a professora Lilian Carvalho.<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Vitor Tavares d<\/span><span class=\"byline__title\">a BBC News Brasil em S\u00e3o Paulo &#8211; dispon\u00edvel na internet 24\/07\/2020<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 18 de maio de 2020, uma hashtag contra judeus amanheceu entre os assuntos mais comentados do Twitter na Fran\u00e7a. Vis\u00edvel para os quase 9 milh\u00f5es de usu\u00e1rios da rede social no pa\u00eds, n\u00e3o demorou para que a #sijetaitunjuif, ou #seeufossejudeu, parasse no debate p\u00fablico. 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