{"id":50706,"date":"2020-07-27T02:00:32","date_gmt":"2020-07-27T05:00:32","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=50706"},"modified":"2020-07-26T07:14:15","modified_gmt":"2020-07-26T10:14:15","slug":"as-licoes-da-vacina-que-chegou-de-braco-em-braco-ao-brasil-em-1804","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/07\/27\/as-licoes-da-vacina-que-chegou-de-braco-em-braco-ao-brasil-em-1804\/","title":{"rendered":"As li\u00e7\u00f5es da vacina que chegou de &#8216;bra\u00e7o em bra\u00e7o&#8217; ao Brasil em 1804"},"content":{"rendered":"<div class=\"with-extracted-share-icons\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\">\n<p class=\"story-body__introduction\">A \u00fanica erradica\u00e7\u00e3o de uma doen\u00e7a na hist\u00f3ria humana levou quase 200 anos para acontecer, desde a inven\u00e7\u00e3o da vacina moderna por meio da aplica\u00e7\u00e3o de var\u00edola animal numa crian\u00e7a saud\u00e1vel at\u00e9 o \u00faltimo caso no Reino Unido. Antes, quase 30% dos infectados morriam, o que totalizou mais de 300 milh\u00f5es de v\u00edtimas no s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p>No Brasil, a mesma vacina chegaria em 1804 sendo passada de um bra\u00e7o de um negro escravizado para o de outro no navio que cruzou o Atl\u00e2ntico de Lisboa at\u00e9 a Bahia.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, a vacina\u00e7\u00e3o se tornou uma das mais bem-sucedidas medidas de sa\u00fade p\u00fablica da hist\u00f3ria, evitando hoje pelo menos 2 milh\u00f5es de mortes por ano, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS).<\/p>\n<p>Na pandemia atual, a descoberta de uma vacina segura e eficaz \u00e9 considerada o caminho mais vi\u00e1vel para retomar a vida pr\u00e9-covid-19. E a corrida por ela \u00e9 sem precedentes, com investimentos de bilh\u00f5es de d\u00f3lares e milhares de profissionais envolvidos em dezenas de pa\u00edses. Os n\u00fameros mudam com frequ\u00eancia, mas h\u00e1 hoje 163 projetos de desenvolvimento de vacinas contra a covid-19, sendo 4 na fase mais avan\u00e7ada de testes cl\u00ednicos com humanos.<\/p>\n<p>Uma vacina costuma levar anos para ser produzida, mas h\u00e1 previs\u00f5es otimistas que falam na aprova\u00e7\u00e3o de uma contra o novo coronav\u00edrus ainda em 2020.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/4CCD\/production\/_113616691_s3_l0011000_l0011550.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/4CCD\/production\/_113616691_s3_l0011000_l0011550.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Edward Jenner, inventor da vacina, aplica imuniza\u00e7\u00e3o no pr\u00f3prio filho, nos bra\u00e7os da m\u00e3e, em tela de C. Manigaud e E. Hamman\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"660\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Edward Jenner, inventor da vacina, aplica imuniza\u00e7\u00e3o no pr\u00f3prio filho, nos bra\u00e7os da m\u00e3e, em obra de E. Hamman e C. Manigaud. Direito de imagem WELLCOME COLLECTION<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Essa celeridade in\u00e9dita j\u00e1 tem seu efeito colateral, ao alimentar discursos de movimentos antivacina\u00e7\u00e3o ao redor do mundo que questionam a seguran\u00e7a de vacinas, ainda mais uma desenvolvida t\u00e3o rapidamente.<\/p>\n<p>Segundo estudo da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres (LSHTM), o n\u00famero de pessoas no Reino Unido que afirmam que recusar\u00e3o uma eventual vacina contra a covid-19 passou de 5% para 14% desde mar\u00e7o. Nos Estados Unidos, pesquisas apontam que isso chega a metade da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia contra vacinas \u00e9 quase t\u00e3o antiga quanto a pr\u00f3pria imuniza\u00e7\u00e3o induzida em si, e passa por quest\u00f5es religiosas, sanit\u00e1rias, pol\u00edticas, entre outras. Muitas delas se mant\u00eam ao longo desses dois s\u00e9culos, e ecoam na atual pandemia de coronav\u00edrus, que infectou mais de 14 milh\u00f5es de pessoas e continua acelerando em pa\u00edses populosos como Brasil, \u00cdndia e Estados Unidos.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel tra\u00e7ar paralelos entre a inven\u00e7\u00e3o da vacina moderna, a corrida atual contra a covid-19 e os movimentos de contesta\u00e7\u00e3o a ambos.<\/p>\n<p>\u00c9 aceit\u00e1vel infectar algu\u00e9m saud\u00e1vel com um v\u00edrus fatal a fim de testar a efic\u00e1cia de uma vacina? Como garantir que a imuniza\u00e7\u00e3o seja segura e n\u00e3o acarrete riscos \u00e0 sa\u00fade dos vacinados? O que \u00e9 preciso ser feito para que os avan\u00e7os cient\u00edficos n\u00e3o atendam apenas os ricos? Qual \u00e9 a melhor forma de informar aos c\u00e9ticos que a vacina\u00e7\u00e3o, em geral, \u00e9 segura, eficaz e representa ganhos imensamente maiores do que os pequenos riscos envolvidos?<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Uma hist\u00f3ria da vacina no Brasil e no mundo<\/h2>\n<p>\u00c9 consenso que a vacina\u00e7\u00e3o \u00e9 um m\u00e9todo seguro e eficaz de prote\u00e7\u00e3o das pessoas contra doen\u00e7as antes que elas fiquem doentes. Isso acontece a partir do treino do sistema imunol\u00f3gico para criar defesas como os anticorpos, segundo defini\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>Para isso, as vacinas cont\u00eam geralmente formas enfraquecidas ou inativadas de v\u00edrus ou bact\u00e9rias que n\u00e3o colocam a sa\u00fade em risco. O corpo ent\u00e3o identifica esses micr\u00f3bios, produz defesas contra eles e cria uma esp\u00e9cie de mem\u00f3ria de combate que servir\u00e1 contra ataques futuros por anos ou d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Quando uma parte consider\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 protegida via vacina\u00e7\u00e3o, atinge-se o patamar de imunidade coletiva (ou imunidade de rebanho). O ideal \u00e9 imunizar a popula\u00e7\u00e3o inteira, mas em alguns casos vacinar 80% dela j\u00e1 surtiria o efeito esperado porque derruba a probabilidade de uma pessoa infectada contaminar algu\u00e9m suscet\u00edvel. O sarampo, altamente contagioso, demanda 95%.<\/p>\n<p>O surgimento da vacina como a conhecemos hoje derivou de t\u00e9cnicas centen\u00e1rias de preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as, entre elas a varioliza\u00e7\u00e3o, que utilizava crostas de feridas ou pus de uma manifesta\u00e7\u00e3o branda da var\u00edola humana de algu\u00e9m infectado para gerar imunidade em pessoas saud\u00e1veis.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 consenso sobre onde e quando surgiu esse tipo de processo, mas ele provavelmente come\u00e7ou entre chineses, indianos ou \u00e1rabes. Um dos principais problemas dessas t\u00e9cnicas era a falta de seguran\u00e7a \u00e0 sa\u00fade das pessoas imunizadas.<\/p>\n<p>H\u00e1 registros mais fartos sobre essas aplica\u00e7\u00f5es a partir do s\u00e9culo 16. Havia dois pontos importantes na pr\u00e1tica. O combate bem-sucedido do sistema imunol\u00f3gico a um primeiro \u201cataque\u201d induzido da doen\u00e7a evitava novos ataques. Uma pessoa infectada com a forma moderada da doen\u00e7a poderia adquirir essa prote\u00e7\u00e3o de modo seguro.<\/p>\n<p>Esse processo desenvolvido ao longo de s\u00e9culos s\u00f3 seria impulsionado pela ci\u00eancia no fim do s\u00e9culo 18, gra\u00e7as \u00e0 pr\u00e1tica da medicina baseada em evid\u00eancias por parte do m\u00e9dico brit\u00e2nico Edward Jenner, precursor da imunologia.<\/p>\n<p>Segundo relatos hist\u00f3ricos, em 1796 Jenner observou que uma jovem que ordenhava vacas havia contra\u00eddo a var\u00edola bovina e n\u00e3o se infectava pela var\u00edola humana. O m\u00e9dico decidiu ent\u00e3o coletar part\u00edculas de les\u00f5es da m\u00e3o dessa mulher e inseri-las em um garoto de oito anos que n\u00e3o havia tido nenhuma das duas doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Dois meses depois, Jenner inocularia o v\u00edrus da var\u00edola humana no menino para verificar se ele estava imunizado, e este n\u00e3o desenvolveu a doen\u00e7a. Os resultados deste e de outros experimentos para criar a primeira vacina, batizada a partir da palavra vaca em latim (vacca), seriam publicados em 1798.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/10B2D\/production\/_112879386_viruela1.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/10B2D\/production\/_112879386_viruela1.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o dos efeitos da var\u00edola\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Muitos dos pacientes de var\u00edola ficavam com cicatrizes terr\u00edveis no rosto e no corpo. Direito de imagem GETTY IMAGES<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Dois s\u00e9culos depois, um programa global de erradica\u00e7\u00e3o da var\u00edola capitaneado pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade levaria \u00e0 erradica\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a. O \u00faltimo caso de transmiss\u00e3o natural da doen\u00e7a foi registrado na Som\u00e1lia, em 1977 &#8211; no ano seguinte, haveria dois cont\u00e1gios em laborat\u00f3rio no Reino Unido.<\/p>\n<p><strong>De bra\u00e7o em bra\u00e7o&nbsp;<\/strong><strong>at\u00e9 a<\/strong><strong>&nbsp;Bahia<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil come\u00e7ou a usar vacinas em 1804 em importa\u00e7\u00e3o feita pelo marechal Caldeira Brand Pontes, o marqu\u00eas de Barbacena. Segundo documentos oficiais e estudos hist\u00f3ricos, o transporte do v\u00edrus vacinal de Lisboa para a Bahia foi feito a partir do cont\u00e1gio de um negro escravizado para o outro, uma conserva\u00e7\u00e3o da linfa bra\u00e7o a bra\u00e7o ao longo de quase 40 dias de navega\u00e7\u00e3o no Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Segundo o historiador Sidney Chalhoub, as cobaias eram sete crian\u00e7as da propriedade do marqu\u00eas, acompanhadas ao longo da viagem por um m\u00e9dico que aprendeu a t\u00e9cnica da vacina\u00e7\u00e3o e foi as infectando sucessivamente. No ano seguinte, algumas prov\u00edncias j\u00e1 adotariam vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria para a popula\u00e7\u00e3o a partir de institutos vac\u00ednicos.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, a vacina\u00e7\u00e3o funcionava como uma cadeia de transmiss\u00e3o com a inocula\u00e7\u00e3o do v\u00edrus animal em uma pessoa, que depois era extra\u00eddo e utilizado em outra pessoa saud\u00e1vel. Mas \u00e0s vezes a vacina se \u201cextinguia\u201d nesse processo. Depois tentou-se substituir esse m\u00e9todo pela utiliza\u00e7\u00e3o direta do v\u00edrus da var\u00edola extra\u00eddo de bovinos.<\/p>\n<p>O nome mais marcante da vacina\u00e7\u00e3o no pa\u00eds \u00e9 o do m\u00e9dico Oswaldo Cruz, que liderou a campanha de combate sanit\u00e1rio contra a var\u00edola, a peste bub\u00f4nica e a febre amarela. As tr\u00eas seriam erradicadas em poucos anos do Rio de Janeiro, ent\u00e3o capital federal.<\/p>\n<p>Seu nome batizaria d\u00e9cadas depois a Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz, que surgiu em 1900 a partir do Instituto Soroter\u00e1pico Federal, criado para fabricar soros e vacinas contra a peste bub\u00f4nica. Refer\u00eancia em pesquisa e estrat\u00e9gia de sa\u00fade p\u00fablica do pa\u00eds, a institui\u00e7\u00e3o est\u00e1 atualmente \u00e0 frente da produ\u00e7\u00e3o no pa\u00eds da chamada \u201cvacina de Oxford\u201d, uma das candidatas mais promissoras contra a covid-19. H\u00e1 previs\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o inicial de 30 milh\u00f5es de doses at\u00e9 o come\u00e7o de 2021.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F27D\/production\/_112477026_casteloearredores_fiocruz.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F27D\/production\/_112477026_casteloearredores_fiocruz.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Castelo de Manguinhos e arredores da Fiocruz\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">O Castelo da Fiocruz foi erguido na fazenda de Manguinhos, em Inha\u00fama, na periferia da antiga capital federal. Direito de imagem ACERVO CASA DE OSWALDO CRUZ<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Cruz \u00e9 bastante conhecido tamb\u00e9m pela rea\u00e7\u00f5es que gerou. Ent\u00e3o chefe da Dire\u00e7\u00e3o-Geral de Sa\u00fade P\u00fablica (equivalente a ministro da Sa\u00fade), ele defendeu a ado\u00e7\u00e3o da vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria contra var\u00edola, o que desencadeou diversas rea\u00e7\u00f5es violentas de parte da popula\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 vivia forte opress\u00e3o social. Uma delas foi a Revolta da Vacina, em 1904, que levaria \u00e0 revoga\u00e7\u00e3o da obrigatoriedade naquele mesmo ano.<\/p>\n<p>Mas em 1908, em meio a um grave surto de var\u00edola no Rio de Janeiro, a popula\u00e7\u00e3o passaria a buscar voluntariamente a imuniza\u00e7\u00e3o. A doen\u00e7a seria erradicada do pa\u00eds em 1971.<\/p>\n<p>H\u00e1 outras hist\u00f3rias bem-sucedidas (e outras nem tanto) de vacinas ao longo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>1. Vacina contra sarampo salva mais de 1 milh\u00e3o de vidas por ano<\/strong><\/p>\n<p>Estima-se que a vacina\u00e7\u00e3o contra essa doen\u00e7a altamente contagiosa tenha evitado 21 milh\u00f5es de mortes entre 2000 e 2017. Morriam 2,6 milh\u00f5es de pessoas por ano antes da primeira vacina, na d\u00e9cada de 1960. Mas ainda 110 mil pessoas morrem por ano de sarampo, a maioria menores de cinco anos de idade. Com a dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es falsas e grupos antivacina\u00e7\u00e3o, a doen\u00e7a tem ganhado for\u00e7a em alguns pa\u00edses.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/BEEA\/production\/_107447884_xy4aqu_i.png?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace aligncenter\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/BEEA\/production\/_107447884_xy4aqu_i.png?resize=696%2C572&#038;ssl=1\" alt=\"grafico\" width=\"696\" height=\"572\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><\/span><\/figure>\n<p><strong>2. Poliomielite foi praticamente erradicada<\/strong><\/p>\n<p>Uma das principais doen\u00e7as incapacitantes no mundo, a poliomielite poderia at\u00e9 matar em alguns casos. A vacina\u00e7\u00e3o, impulsionada por diversas iniciativas internacionais, levou quase \u00e0 erradica\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Em 1996, por exemplo, Nelson Mandela liderou um esfor\u00e7o bem-sucedido de vacinar 50 milh\u00f5es de crian\u00e7as do continente africano naquele mesmo ano. O n\u00famero de casos caiu de 350 mil por ano em 1988 para 29 em 2018. O \u00faltimo caso no Brasil foi notificado em 1989, pouco depois do surgimento do personagem Z\u00e9 Gotinha.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/11F81\/production\/_107410637_lmnhel7s.png?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace aligncenter\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/11F81\/production\/_107410637_lmnhel7s.png?resize=696%2C512&#038;ssl=1\" alt=\"grafico\" width=\"696\" height=\"512\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><\/span><\/figure>\n<p><strong>3. BCG protege crian\u00e7as contra formas graves de tuberculose<\/strong><\/p>\n<p>A vacina BCG garante prote\u00e7\u00e3o de at\u00e9 80% das pessoas das formas mais graves de tuberculose, doen\u00e7a que em suas diversas formas mata quase 1,3 milh\u00e3o de pessoas. A BCG \u00e9 efetiva contra a tuberculose infantil, mas ainda n\u00e3o h\u00e1 uma vacina efetiva contra a doen\u00e7a em adolescentes e adultos. H\u00e1 uma candidata promissora, segundo a OMS. Durante a pandemia de covid-19, aventou-se a&nbsp;possibilidade de a BCG contribuir para a imunidade contra a doen\u00e7a, mas os estudos ainda n\u00e3o foram completamente conclu\u00eddos.<\/p>\n<p><strong>4. Primeira vacina contra polio nos EUA levou a aumento de casos<\/strong><\/p>\n<p>Em 1955, mais de 200 mil crian\u00e7as nos Estados Unidos receberam uma vacina com defeito na inativa\u00e7\u00e3o do v\u00edrus vivo. A trag\u00e9dia gerou 40 mil casos de poliomielite, matando 10 crian\u00e7as e deixando outras 200 com graus distintos de paralisia. O epis\u00f3dio levou a regula\u00e7\u00f5es mais duras do setor de vacinas e gerou descr\u00e9dito da imuniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>5. Vacina atual da dengue pode levar a casos graves em que n\u00e3o teve a doen\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Doen\u00e7a que mata quase 20 mil pessoas por ano no mundo, a dengue \u00e9 end\u00eamica em mais de 120 pa\u00edses. H\u00e1 diversas iniciativas para desenvolver vacinas, uma delas do Instituto Butantan, em S\u00e3o Paulo, desde 2007. Os testes devem ir at\u00e9 2024. A \u00fanica j\u00e1 em uso no mundo contra a doen\u00e7a transmitida pelo mosquito&nbsp;<i>Aedes aegypti&nbsp;<\/i>\u00e9 a Dengvaxia, produzida pela multinacional Sanofi Pasteur. Mas estudos da pr\u00f3pria fabricante indicaram que ela apresentava riscos para pessoas que nunca tiveram contato com nenhum dos v\u00edrus da dengue. Elas poderiam desenvolver formas mais graves da doen\u00e7a, al\u00e9m da baixa efic\u00e1cia (em torno de 66%).<\/p>\n<p><strong>O que essa trajet\u00f3ria diz sobre a corrida atual por vacina contra a covid-19?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 pelo menos tr\u00eas pontos centrais em comum entre o surgimento da vacina no fim do s\u00e9culo 18 e a corrida sem precedentes por uma vacina contra o novo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p><strong>1. Seguran\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Por que uma solu\u00e7\u00e3o aparentemente eficaz e barata, como a vacina\u00e7\u00e3o, amea\u00e7a dividir a sociedade?<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria remonta \u00e0 descoberta de Edward Jenner. Inicialmente ela foi ridicularizada, mas em cinco anos a vacina j\u00e1 era adotada na Europa e em uma d\u00e9cada se tornou global, mesmo sem que se soubesse como funcionavam direito seus mecanismos. Os resultados falavam por si. Mas a oposi\u00e7\u00e3o foi imediata, feroz e m\u00faltipla: sanit\u00e1ria, religiosa, cient\u00edfica e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u201cAlguns acharam que o m\u00e9todo, que usava material de vaca, n\u00e3o era saud\u00e1vel ou n\u00e3o era crist\u00e3o, ao usar material de criaturas inferiores. Outros questionavam se a var\u00edola passava de uma pessoa para outra, mas muitos simplesmente rejeitavam que dissessem o que era bom para eles\u201d, resumiu \u00e0 BBC a historiadora da medicina Kristin Hussey.<\/p>\n<p>As vacinas \u00e0 \u00e9poca n\u00e3o eram seguras como s\u00e3o hoje. A medicina moderna ainda estava engatinhando. Em 1841, o censo brit\u00e2nico apontava que um ter\u00e7o dos m\u00e9dicos n\u00e3o eram qualificados. Em 1850, a expectativa de vida era de quase 40 anos (hoje passa de 80), e 15% das crian\u00e7as morriam antes de completar um ano (hoje est\u00e1 em 0,4% at\u00e9 completar 5 anos).<\/p>\n<p>Naquele ponto, a imuniza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m estava em sua inf\u00e2ncia, e o material produzido naturalmente a partir da var\u00edola bovina variava muito de qualidade.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/E5FA\/production\/_107447885_-zjlyc_m.png?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace aligncenter\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/E5FA\/production\/_107447885_-zjlyc_m.png?resize=696%2C579&#038;ssl=1\" alt=\"grafico\" width=\"696\" height=\"579\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><\/span><\/figure>\n<p>A primeira liga antivacina\u00e7\u00e3o surgiu em Leicester em 1869, e ganharia apoio do establishment m\u00e9dico na d\u00e9cada seguinte. Parte dos questionamentos passava por direitos civis. Para muitos, o governo havia imposto restri\u00e7\u00f5es a suas liberdades ao adotar uma vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria sem seguran\u00e7a garantida. O mesmo argumento pode ser ouvido at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Atualmente, qualquer vacina licenciada \u00e9 submetida a testes rigorosos em v\u00e1rias fases antes de sua chegada ao mercado, e depois \u00e9 monitorada por anos em busca de sinais de risco \u00e0 sa\u00fade. Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, um dos principais indicadores de seguran\u00e7a das vacinas \u00e9 que a grande maioria delas \u00e9 usada h\u00e1 d\u00e9cadas por milh\u00f5es de pessoas em quase todos os pa\u00edses. A quase totalidade das rea\u00e7\u00f5es adversas s\u00e3o leves, como febre ou dor da inje\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A velocidade sem precedentes de cria\u00e7\u00e3o das candidatas a vacinas de covid-19 tem tamb\u00e9m, por outro lado, alimentado o ceticismo sobre sua eventual seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas especialistas envolvidos com as principais pesquisas no mundo negam que a seguran\u00e7a esteja sendo deixada de lado.<\/p>\n<p>\u201cO processo tem sido acelerado de forma bastante substancial, sim, mas sem comprometer itens importantes com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 seguran\u00e7a dos volunt\u00e1rios inclu\u00eddos no estudo. (&#8230;) Normalmente a gente recrutaria 25 ou 50 pessoas em um estudo cl\u00ednico de fase 1, em um processo que levaria de 6 meses a 1 ano. A gente fez muito mais do que isso: recrutamos 1077 indiv\u00edduos em um prazo de um m\u00eas, em uma log\u00edstica e infraestrutura gigantes\u201d, explicou o m\u00e9dico infectologista brasileiro Pedro Folegatti&nbsp;em entrevista \u00e0 BBC News Brasil, um dos respons\u00e1veis pelos milhares de testes que vem sendo realizados no desenvolvimento da \u201cvacina de Oxford\u201d.<\/p>\n<p><strong>2. Bio\u00e9tica<\/strong><\/p>\n<p>O procedimento adotado por Edward Jenner em sua pesquisa pioneira sobre vacina n\u00e3o passaria nos atuais crit\u00e9rios cient\u00edficos e \u00e9ticos para aprovar uma vacina. A exemplo da introdu\u00e7\u00e3o deliberada em um garoto de 8 anos de um v\u00edrus que matava ao menos 30% dos infectados, a fim de testar se ele estava imunizado por seu experimento.<\/p>\n<p>Na pandemia atual, h\u00e1 pesquisadores que defendem uma varia\u00e7\u00e3o desse m\u00e9todo de contamina\u00e7\u00e3o, chamado de ensaio de desafio. A principal justificativa \u00e9 o elevado n\u00famero de mortes por covid-19 (cerca de 5.000 por dia).<\/p>\n<p>Nessa estrat\u00e9gia, os volunt\u00e1rios que receberam doses de vacinas em testes s\u00e3o expostos de forma proposital e controlada ao v\u00edrus contra o qual foram imunizados. O objetivo, novamente, \u00e9 descobrir se essas pessoas est\u00e3o protegidas contra a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Esse experimento substituiria a demorada fase 3, em que milhares de pessoas recebem doses das candidatas a vacina e s\u00e3o acompanhadas por meses ou anos a fim de verificar a efic\u00e1cia e a seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Se a doen\u00e7a deixa de circular nesse \u00ednterim, a avalia\u00e7\u00e3o tradicional fica prejudicada, por isso testes t\u00eam sido feitos em lugares onde a doen\u00e7a avan\u00e7a, como o Brasil e a \u00cdndia.<\/p>\n<p>Mas essa busca por respostas r\u00e1pidas gera s\u00e9rias implica\u00e7\u00f5es bio\u00e9ticas, entre outros motivos por ser uma doen\u00e7a fatal sem tratamento que evite mortes. Mesmo que os volunt\u00e1rios selecionados sejam adultos que n\u00e3o integram grupos de risco do novo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>Em&nbsp;artigo sobre o tema, um trio de pesquisadores das universidade Rutgers, Harvard e Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres afirmam que obviamente expor volunt\u00e1rios \u00e0 covid-19 acarreta riscos de formas graves da doen\u00e7a ou mesmo a morte, mas \u201cao acelerar o processo de avalia\u00e7\u00e3o da vacina, isso poderia reduzir o fardo global das mortes relacionadas ao coronav\u00edrus\u201d.<\/p>\n<p>Mais de 30 mil pessoas de 140 pa\u00edses j\u00e1 se voluntariaram o projeto&nbsp;1 Day Sooner&nbsp;para eventuais ensaios de desafio. A press\u00e3o pela realiza\u00e7\u00e3o desses experimentos \u00e9 crescente, mas nenhum deles saiu do papel at\u00e9 agora.<\/p>\n<p>Para Ruth Macklin, professora em\u00e9rita de bio\u00e9tica da Escola de Medicina Albert Einstein, em Nova York, como j\u00e1 h\u00e1 diversas vacinas em desenvolvimento, \u201cacelerar por meio de estudos de desafio humano para uma doen\u00e7a grave sem tratamento efeito \u00e9&nbsp;eticamente injustific\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p><strong>3. Avan\u00e7o cient\u00edfico e coopera\u00e7\u00e3o internacional<\/strong><\/p>\n<p>\u201cAs doen\u00e7as infecciosas est\u00e3o evoluindo muito mais rapidamente do que n\u00f3s e nossas defesas. \u00c9 profundamente ing\u00eanuo achar que n\u00f3s vamos conseguir lidar com elas\u201d. Essa \u00e9 a opini\u00e3o de Richard Hatchett, chefe-executivo da Coaliz\u00e3o para Inova\u00e7\u00f5es em Prepara\u00e7\u00e3o para Epidemias (Cepi, na sigla em ingl\u00eas), em entrevista \u00e0 BBC.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o surgiu ap\u00f3s a epidemia de ebola em 2014, quando uma vacina foi desenvolvida, mas era tarde demais para ter algum impacto no espalhamento da doen\u00e7a (que j\u00e1 havia sido contida por outras estrat\u00e9gias).<\/p>\n<p>Com quase R$ 4 bilh\u00f5es em recursos, oriundos de governos e organiza\u00e7\u00f5es privadas, a Cepi mira a produ\u00e7\u00e3o bem mais r\u00e1pida de vacinas, algo essencial em epidemias.<\/p>\n<p>Para isso, mira revolucionar o processo de desenvolvimento, que passa geralmente por vers\u00f5es inativadas ou enfraquecidas de v\u00edrus ou bact\u00e9rias.<\/p>\n<p>A Cepi \u00e9 uma entre diversas organiza\u00e7\u00f5es, empresas e universidades que tentam inventar formas mais r\u00e1pidas e baratas de criar vacinas, com t\u00e9cnicas que envolvem, por exemplo, mol\u00e9culas que carregam instru\u00e7\u00f5es para o corpo construir prote\u00ednas e treinar o sistema imunol\u00f3gico.<\/p>\n<p>\u201cEssa \u00e9 a era de ouro das vacinas\u201d, resume William \u201cRip\u201d Ballou, chefe de pesquisas de vacinas da gigante farmac\u00eautica GSK, uma das maiores empresas do setor, com vacinas para 21 doen\u00e7as. O mercado era estimado em cerca de US$ 50 bilh\u00f5es em 2019 e deve dobrar at\u00e9 o fim desta d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Mas a erradica\u00e7\u00e3o da var\u00edola tamb\u00e9m mostrou que grandes avan\u00e7os sanit\u00e1rios n\u00e3o se resumem a avan\u00e7os cient\u00edficos.<\/p>\n<p>Enormes esfor\u00e7os pol\u00edticos, econ\u00f4micos e sociais tamb\u00e9m s\u00e3o necess\u00e1rios para que as campanhas de sa\u00fade sejam bem-sucedidas. E especialistas concordam que talvez a maior li\u00e7\u00e3o de erradica\u00e7\u00e3o da var\u00edola seja a import\u00e2ncia da coopera\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>De um lado h\u00e1 estrat\u00e9gias como a dos Estados Unidos na pandemia atual. Quando estudos apontaram que o remdesivir poderia diminuir casos graves de covid-19, o governo de Donald Trump comprou o estoque inteiro dos tr\u00eas meses seguintes. O mesmo foi feito com a compra de todas as vacinas da Pfizer e BioNTech, que ainda n\u00e3o foram nem aprovadas.<\/p>\n<p>De outro lado, h\u00e1 iniciativas como a Gavi, alian\u00e7a global para vacinas, que re\u00fane recursos e esfor\u00e7os de diversos pa\u00edses para garantir que a imuniza\u00e7\u00e3o seja feita mesmo em lugares pobres quando a vacina contra a covid-19 for descoberta.<\/p>\n<p>A infectologista Cristiana Toscano, representante da Sociedade Brasileira de Imuniza\u00e7\u00f5es (SBIm) em Goi\u00e1s e professora do Instituto de Patologia Tropical e Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade Federal de Goi\u00e1s, \u00e9 a \u00fanica brasileira a integrar o Grupo de Trabalho de Vacinas para covid-19 criado pelo SAGE (Grupo Estrat\u00e9gico Internacional de Experts em Vacinas e Vacina\u00e7\u00e3o), da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>Para ela, a coopera\u00e7\u00e3o internacional \u00e9 o fator mais importante para conter a pandemia. \u201cTem que se pensar como um v\u00edrus global, em uma transmiss\u00e3o que n\u00e3o respeita fronteiras. N\u00e3o adianta proteger um s\u00f3 pa\u00eds porque isso n\u00e3o vai acabar com a pandemia em lugar nenhum\u201d, afirmou em entrevista \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p>Sem coopera\u00e7\u00e3o, poderia se repetir o que aconteceu na primeira pandemia do s\u00e9culo 21, a de H1N1 (v\u00edrus da gripe su\u00edna) em 2009, quando os pa\u00edses desenvolvidos receberam a vacina seis meses antes dos demais. Na pandemia atual, isso poderia representar novas ondas de infec\u00e7\u00e3o se realimentando ao redor do mundo.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Movimentos antivacinas<\/h2>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade declarou recentemente que a &#8220;recusa vacinal&#8221; \u00e9 uma das dez maiores amea\u00e7as \u00e0 sa\u00fade global.<\/p>\n<p>Desconfian\u00e7as sobre vacina\u00e7\u00e3o est\u00e3o por a\u00ed h\u00e1 praticamente tanto tempo quando as pr\u00f3prias vacinas modernas.<\/p>\n<p>No passado, as pessoas eram c\u00e9ticas por quest\u00f5es religiosas, por achar que a vacina\u00e7\u00e3o era impura, ou por sentirem que a imuniza\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria infringia a liberdade de escolha.<\/p>\n<p>Em 1840, o Ato de Vacina\u00e7\u00e3o tornaria obrigat\u00f3ria a imuniza\u00e7\u00e3o contra a var\u00edola no Reino Unido. E 29 anos depois surgiria a primeira liga antivacina, que defendia alternativas como o isolamento de pacientes (algo que n\u00e3o funcionaria na pandemia atual, na qual infectados sem sintomas podem transmitir a doen\u00e7a).<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, os argumentos e as cren\u00e7as praticamente n\u00e3o mudaram, e o uso da tecnologia ampliou a efic\u00e1cia e a capacidade de transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es do movimento.<\/p>\n<p>Para a professora Beate Kampman, diretora do Centro de Vacinas da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres (LSHTM), o longo processo de imuniza\u00e7\u00e3o em larga escala levou parte dos cidad\u00e3os a perder a no\u00e7\u00e3o das consequ\u00eancias graves de algumas doen\u00e7as porque elas n\u00e3o aparecem mais. Algumas pessoas \u201cs\u00f3 enxergam a dor no bra\u00e7o ou a febre, mas isso n\u00e3o se compara \u00e0 experi\u00eancia da doen\u00e7a real\u201d, afirmou \u00e0 BBC.<\/p>\n<p>Mas a atual onda de desconfian\u00e7a internacional tem ra\u00edzes nas d\u00e9cadas de 1970, 80 e 90, a exemplo de um estudo no Reino Unido que, sem evid\u00eancias cient\u00edficas, que associava a vacina tr\u00edplice viral a danos neurol\u00f3gicos em crian\u00e7as. Como consequ\u00eancia, a cobertura vacinal no Reino Unido despencou de 77% para 33% em 1977. Mas a hip\u00f3tese foi derrubada por um estudo com todas as crian\u00e7as hospitalizadas do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Outra raiz passa por uma das figuras-chave na hist\u00f3ria recente do movimento antivacina.<\/p>\n<p>Em 1998, o m\u00e9dico Andrew Wakefield, de Londres, coassinou um artigo publicado na conceituada revista Lancet com resultados de uma pesquisa preliminar descrevendo 12 crian\u00e7as que desenvolveram comportamentos autistas e inflama\u00e7\u00e3o intestinal grave. Em comum, dizia o estudo, as crian\u00e7as tinham vest\u00edgios do v\u00edrus do sarampo no corpo.<\/p>\n<p>Wakefield e seus colegas de estudo levantaram a possibilidade de um &#8220;v\u00ednculo causal&#8221; desses problemas com a vacina MMR, que protege contra sarampo, rub\u00e9ola e caxumba e que havia sido aplicada em 11 das crian\u00e7as estudadas.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico reconhecia que se tratava apenas de uma hip\u00f3tese de que as vacinas poderiam causar problemas gastrointestinais, os quais levariam a uma inflama\u00e7\u00e3o no c\u00e9rebro &#8211; e talvez ao autismo. Foi o suficiente, por\u00e9m, para que \u00edndices de vacina\u00e7\u00e3o de MMR come\u00e7assem a cair no Reino Unido e, mais tarde, ao redor do mundo.<\/p>\n<p>Nos anos seguintes ao estudo de Wakefield, a pol\u00eamica chegou aos EUA. L\u00e1 o v\u00ednculo com o autismo n\u00e3o foi feito com a MMR, mas sim com o timerosal, componente antibactericida que est\u00e1 presente em algumas vacinas.<\/p>\n<p>Foram necess\u00e1rios muitos anos de debate para que ambas as teorias fossem desmontadas e para que o elo entre autismo e vacinas fosse descartado pela comunidade cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Anos depois, descobriu-se que Wakefield havia feito um pedido de patente para uma vacina contra sarampo que concorreria com a MMR e fraudado o estudo. Acabou proibido de exercer a profiss\u00e3o de m\u00e9dico.<\/p>\n<p>A associa\u00e7\u00e3o falsa entre vacina e autismo esteve ligada a uma das maiores epidemias de sarampo nos EUA em d\u00e9cadas, cujo epicentro foi uma comunidade judaica ultraortodoxa de Nova York que distribuiu panfletos com essas informa\u00e7\u00f5es incorretas.<\/p>\n<p>Como a maioria das vacinas \u00e9 aplicada durante a inf\u00e2ncia, a responsabilidade sobre o cumprimento do calend\u00e1rio obrigat\u00f3rio cabe aos pais ou respons\u00e1veis.<\/p>\n<p>E o que os leva a adotarem postura antivacina? Estudos apontam que o problema de sa\u00fade p\u00fablica tem m\u00faltiplos fatores, e o trio de pesquisadoras de institui\u00e7\u00f5es canadenses Eve Dub\u00e9, Maryline Vivion e Noni E. MacDonald&nbsp;reuniram os principais motivos em revis\u00e3o de diversos artigos sobre o tema, entre eles:<\/p>\n<ul class=\"story-body__unordered-list\">\n<li class=\"story-body__list-item\"><strong>contextual<\/strong>: influ\u00eancia de meios de comunica\u00e7\u00e3o que consomem, valores religiosos, press\u00e3o social, boatos, percep\u00e7\u00e3o sobre governantes.<\/li>\n<\/ul>\n<ul class=\"story-body__unordered-list\">\n<li class=\"story-body__list-item\"><strong>organizacional<\/strong>: oferta e qualidade dos servi\u00e7os de vacina\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n<ul class=\"story-body__unordered-list\">\n<li class=\"story-body__list-item\"><strong>individual<\/strong>: conhecimento dos pais sobre imuniza\u00e7\u00e3o, caracter\u00edsticas sociodemogr\u00e1ficas como faixa et\u00e1ria e escolaridade, al\u00e9m de cren\u00e7as como uma sobrecarga do sistema imunol\u00f3gico das crian\u00e7as com \u201ctantas vacinas\u201d e medo de agulha.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Segundo as pesquisadoras, parte dos argumentos usados por ativistas antivacina no s\u00e9culo 19 ainda s\u00e3o usados, como \u201cvacinas s\u00e3o ineficientes ou causam doen\u00e7as; vacinas s\u00e3o usadas para gerar lucro; vacinas cont\u00eam subst\u00e2ncias perigosas; os males causados pelas vacinas s\u00e3o escondidos pelas autoridades; vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria viola direitos civis; imunidade natural \u00e9 melhor do que imunidade induzida por vacinas; abordagens naturais e produtos alternativos, como vitaminas e homeopatia, s\u00e3o superiores \u00e0 vacina na preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma grande diferen\u00e7a do perfil dos ativistas desde o in\u00edcio do movimento.<\/p>\n<p>Antes, eles eram majoritariamente membros do proletariado que se opunham \u00e0 interven\u00e7\u00e3o do Estado em seus corpos e nos de seus filhos. Atualmente, grande parte \u00e9 formada por pais de classe m\u00e9dia ou alta com ensino superior que demandam o direito de tomar uma \u201cdecis\u00e3o informada\u201d &#8211; esta express\u00e3o e a de \u201cdefesa de vacinas seguras\u201d aparecem como rea\u00e7\u00e3o ao r\u00f3tulo de antivacina.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem fale em uma era de ouro tamb\u00e9m do movimento antivacina\u00e7\u00e3o, gra\u00e7as \u00e0 capacidade de espalhamento da mensagem via redes sociais. Segundo&nbsp;uma pesquisa do Centro de Combate ao \u00d3dio Digital, uma ONG brit\u00e2nica, cerca de 400 perfis e p\u00e1ginas contra a imuniza\u00e7\u00e3o reuniam mais de 58 milh\u00f5es de seguidores apenas nos Estados Unidos, sendo 8 milh\u00f5es atra\u00eddos apenas em 2019.<\/p>\n<p>No Brasil, o movimento antivacina\u00e7\u00e3o \u00e9 menor do que nos EUA ou no Reino Unido, mas tem ganhado for\u00e7a na internet. Em 2019,&nbsp;uma reportagem da BBC News Brasil&nbsp;identificou grupos fechados no Facebook e v\u00eddeos no YouTube sobre o assunto.<\/p>\n<p>A maioria do material publicado na plataforma de v\u00eddeos do Google reproduzia teorias da conspira\u00e7\u00e3o importadas dos Estados Unidos. H\u00e1 uso de especialistas falsos ou sem autoridade, sele\u00e7\u00e3o de dados para confirmar hip\u00f3teses infundadas e pr\u00e1tica de descr\u00e9dito de governantes e especialistas.<\/p>\n<p>Desde a d\u00e9cada de 1990, o Brasil tem boa cobertura vacinal. Mas dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade mostram que todas as vacinas destinadas a crian\u00e7as menores de dois anos de idade no Brasil v\u00eam registrando queda desde 2011. Segundo o governo, a redu\u00e7\u00e3o pode ter diferentes causas: o sucesso do programa nacional de imuniza\u00e7\u00f5es no pa\u00eds &#8211; j\u00e1 que a elimina\u00e7\u00e3o de algumas doen\u00e7as no pa\u00eds pode ter levado a &#8220;uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 mais necessidade de se vacinar porque a popula\u00e7\u00e3o mais jovem n\u00e3o conhece o risco&#8221; e o acesso dos pais aos servi\u00e7os de sa\u00fade.<\/p>\n<p>De acordo com diversos estudos, os m\u00e9dicos t\u00eam um papel fundamental no refor\u00e7o da import\u00e2ncia da vacina\u00e7\u00e3o. Nos Estados Unidos, por exemplo, esses profissionais s\u00e3o respons\u00e1veis pela maior fatia de pais que mudam de ideia sobre n\u00e3o vacinar os filhos.<\/p>\n<p>Segundo a antrop\u00f3loga Heidi J. Larson, professora e diretora do Vaccine Confidence Project, da LSHTM, novas vacinas sempre s\u00e3o recebidas com desconfian\u00e7a e uma comunica\u00e7\u00e3o eficaz sobre benef\u00edcios e riscos \u00e9 fundamental. \u201cN\u00f3s precisamos fazer um trabalho melhor como comunidade cient\u00edfica para explicar porque ela \u00e9 mais r\u00e1pida, que n\u00e3o se trata apenas de uma vers\u00e3o curta e acelerada dos testes tradicionais\u201d, concluiu em entrevista \u00e0 r\u00e1dio BBC na Esc\u00f3cia.<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Matheus Magenta d<\/span><span class=\"byline__title\">a BBC News Brasil em Londres &#8211; dispon\u00edvel na internet 27\/07\/2020<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00fanica erradica\u00e7\u00e3o de uma doen\u00e7a na hist\u00f3ria humana levou quase 200 anos para acontecer, desde a inven\u00e7\u00e3o da vacina moderna por meio da aplica\u00e7\u00e3o de var\u00edola animal numa crian\u00e7a saud\u00e1vel at\u00e9 o \u00faltimo caso no Reino Unido. Antes, quase 30% dos infectados morriam, o que totalizou mais de 300 milh\u00f5es de v\u00edtimas no s\u00e9culo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":50707,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[135],"tags":[],"class_list":{"0":"post-50706","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-clipping"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/vacina-scaled.jpg?fit=394%2C600&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50706","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50706"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50706\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/50707"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50706"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50706"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50706"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}