{"id":50712,"date":"2020-07-27T02:30:53","date_gmt":"2020-07-27T05:30:53","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=50712"},"modified":"2020-07-26T16:00:51","modified_gmt":"2020-07-26T19:00:51","slug":"o-que-vejo-em-humanos-confinados-e-parecido-a-papagaios-enjaulados-arrancando-as-proprias-penas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/07\/27\/o-que-vejo-em-humanos-confinados-e-parecido-a-papagaios-enjaulados-arrancando-as-proprias-penas\/","title":{"rendered":"&#8216;O que vejo em humanos confinados \u00e9 parecido a papagaios enjaulados arrancando as pr\u00f3prias penas&#8217;"},"content":{"rendered":"<h4 class=\"story-body__h1\"><em><strong>&#8216;O que vejo em humanos confinados \u00e9 parecido a papagaios enjaulados arrancando as pr\u00f3prias penas&#8217;, diz cientista<\/strong><\/em><\/h4>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<p class=\"story-body__introduction\">Nosso comportamento em confinamento social n\u00e3o difere muito do de outros animais sociais quando colocados em cativeiro: estar isolado tem um efeito profundo na nossa sa\u00fade f\u00edsica e mental. Por isso a import\u00e2ncia em encontrarmos maneiras de brincar, jogar e rir no cotidiano em quarentena.<\/p>\n<p>Os ensinamentos s\u00e3o da cientista chilena Isabel Behncke, que de diferentes formas se dedica a estudar as ra\u00edzes da natureza humana e de animais sociais. Ela estudou Biologia em Santiago, Zoologia em Londres e fez p\u00f3s-gradua\u00e7\u00f5es em conserva\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica e antropologia evolutiva, tamb\u00e9m no Reino Unido.<\/p>\n<p>Para seu doutorado em primatologia na Universidade de Oxford, passou tr\u00eas anos na selva da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo estudando os bonobos, que, ao lado de chimpanz\u00e9s, s\u00e3o nossos parentes evolutivos vivos mais pr\u00f3ximos. Na quarentena, ela se dedica a escrever um livro sobre a experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Seus estudos nos ajudam a entender por que somos como somos &#8211; e os efeitos que a quarentena imposta pela pandemia exercem sobre n\u00f3s, como indiv\u00edduos e como esp\u00e9cie. E por que sentimos tanta falta de atividades triviais, como almo\u00e7ar com colegas de trabalho ou passear?<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Precisamos do ar livre<\/h2>\n<p>&#8220;Passei muitos anos seguindo primatas em seu habitat natural, por exemplo os bonobos no Congo. Mas tamb\u00e9m estudei muitos animais em cativeiro, como os pr\u00f3prios bonobos, chimpanz\u00e9s e papagaios&#8221;, conta ela \u00e0 BBC News Mundo, servi\u00e7o em espanhol da BBC.<\/p>\n<p>&#8220;Ent\u00e3o conhe\u00e7o a diferen\u00e7a de sociabilidade de animais sociais inteligentes quando est\u00e3o enjaulados versus quando est\u00e3o em liberdade. Esse \u00e9 o grande experimento que estamos vivendo agora. Somos animais inteligentes em cativeiro. E v\u00e1rias coisas foram mostradas.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 3126px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/C23C\/production\/_113442794_isabel5-nc.png?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/C23C\/production\/_113442794_isabel5-nc.png?resize=696%2C486&#038;ssl=1\" alt=\"Ilustraci\u00f3n isom\u00e9trica de una mujer acampando en la selva.\" width=\"696\" height=\"486\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Direito de imagem GETTY IMAGES\/BBC<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Antes de tudo, explica Behncke, como mam\u00edferos e como primatas, nos constitu\u00edmos em movimento e ao ar livre. &#8220;Ter que estar fechados em poucos metros quadrados sem movimento f\u00edsico e sem estar ao sol \u00e9 muito, muito dif\u00edcil.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Acho que, para alguns de n\u00f3s, (&#8230;) a pandemia nos lembrou de que somos parte, e n\u00e3o \u00e0 parte da natureza, e que ser um animal da mesma esp\u00e9cie \u00e9 uma for\u00e7a muito democr\u00e1tica, porque o v\u00edrus ataca a todos&#8221;, opina.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Animais enjaulados t\u00eam comportamentos repetitivos<\/h2>\n<p>Mas existe tamb\u00e9m uma quest\u00e3o relacionada ao nosso comportamento social.<\/p>\n<p>&#8220;Somos primatas sociais e estarmos isolados tem um efeito profundo em nossa sa\u00fade f\u00edsica e mental. Quando observamos os animais enjaulados, sejam cet\u00e1ceos (baleias e golfinhos), cavalos, elefantes, papagaios, primatas ou grandes predadores, o que vemos s\u00e3o os chamados comportamentos repetitivos, como se co\u00e7ar at\u00e9 provocar les\u00f5es ou dar voltas nas jaulas&#8221;, explica.<\/p>\n<p>&#8220;E talvez voc\u00ea se pergunte: como identifico o que \u00e9 um comportamento repetitivo causado pelo estresse, versus movimentos que possam ter outras causas? Em geral n\u00e3o variam muito e n\u00e3o t\u00eam uma fun\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Ent\u00e3o, quando vejo como come\u00e7amos a fazer scroll nas redes sociais, sem interagir, simplesmente de maneira passiva, repetitiva, o que observo s\u00e3o humanos em cativeiro. N\u00e3o \u00e9 muito diferente dos papagaios enjaulados, que come\u00e7am a arrancar as (pr\u00f3prias) penas.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 549px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1105C\/production\/_113442796_isabel-monos.png?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1105C\/production\/_113442796_isabel-monos.png?resize=549%2C549&#038;ssl=1\" alt=\"Isabel Behncke em foto de arquivo\" width=\"549\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Isabel Behncke estudou o comportamento de bonobos, nossos parentes evolutivos. Direito de imagem GENTILEZA ISABEL BEHNCKE<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Para Behncke, &#8220;h\u00e1 um sofrimento muito verdadeiro, muito profundo, dos animais sociais que s\u00e3o privados de est\u00edmulos sociais e de movimento&#8221;.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a especialista explica que nossa sociedade, assim como a de chimpanz\u00e9s, bonobos e elefantes, tem um componente altamente complexo, chamado pelos cientistas de fiss\u00e3o-fus\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea acorda de manh\u00e3 e interage com seu n\u00facleo familiar. Da\u00ed sai e interage com um grupo de trabalho. Na hora do almo\u00e7o, interage com outro subgrupo e \u00e0 tarde se re\u00fane com amigos. No fundo, voc\u00ea tem uma comunidade maior e da\u00ed voc\u00ea se fissiona, se separa em pequenos grupos, que se separam e se voltam a juntar&#8221;, explica a pesquisadora.<\/p>\n<p>&#8220;Agora n\u00e3o estamos podendo exercitar essa sociabilidade de fiss\u00e3o-fus\u00e3o, natural para os seres humanos. E as pessoas enclausuradas com seu grupo familiar e com outras pessoas tamb\u00e9m est\u00e3o sofrendo, porque h\u00e1 mais conflito nessas rela\u00e7\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 diferente de o que ela observava em bonobos em cativeiro.<\/p>\n<p>&#8220;Eles s\u00e3o famosos por serem s\u00edmios muito tolerantes, n\u00e3o praticam homic\u00eddios ou infantic\u00eddios, previnem e resolvem conflitos por meio de brincadeiras e do sexo. S\u00e3o chamados de os &#8216;hippies da floresta&#8217;. Em cativeiro, quando chegava a comida, por exemplo, aumentava o estresse e, assim, aumentava o sexo. Mas, na natureza, havia muito menos sexo. Depois percebi que era porque se podia exercitar a fiss\u00e3o-fus\u00e3o, diminuindo os conflitos ao se separar em subgrupos.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Como somos humanos, achamos que tudo se soluciona conversando, mas h\u00e1 mecanismos ainda mais antigos, mais animais, de dissipa\u00e7\u00e3o de conflitos, como ir embora. \u00c9 como quando voc\u00ea briga com seu irm\u00e3o durante o almo\u00e7o de fam\u00edlia, mas, quando volta na semana seguinte, isso j\u00e1 n\u00e3o importa tanto. O estar enjaulado n\u00e3o permite fazer isso, e o estresse \u00e9 muito forte.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Brincar e festejar<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 3126px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/741C\/production\/_113442792_isabel1-nc.png?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/741C\/production\/_113442792_isabel1-nc.png?resize=696%2C486&#038;ssl=1\" alt=\"Ilustraci\u00f3n isom\u00e9trica de una fiesta con gente bailando.\" width=\"696\" height=\"486\" data-highest-encountered-width=\"624\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Direito de imagem GETTY IMAGES\/BBC<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>A chilena explica que jogos, atividades e brincadeiras s\u00e3o um exerc\u00edcio antigo e universal praticado por seres imaturos (ou seja, as crias) de mam\u00edferos e p\u00e1ssaros. Mas tem efeito crucial na popula\u00e7\u00e3o em geral, principalmente em tempos de quarentena &#8211; desde montar quebra-cabe\u00e7as e dar risada at\u00e9 cozinhar algo por prazer s\u00e3o atividades que trazem grandes benef\u00edcios.<\/p>\n<p>&#8220;Isso \u00e9 muito importante para a sa\u00fade f\u00edsica e mental, para a resili\u00eancia e para a criatividade&#8221;, explica Behncke.<\/p>\n<p>&#8220;Mas a brincadeira \u00e9 uma conduta sens\u00edvel ao medo. Quando aumenta o estresse, aumenta a resposta fisiol\u00f3gica, que por sua vez tende a diminuir e suprimir o jogo. Por isso, temos que prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 frequ\u00eancia com a qual estamos dando risada, se na pandemia podemos encontrar maneiras de rir todos os dias, falar por videochamada com algu\u00e9m que te divirta, ler literatura, ver com\u00e9dias.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 preciso fazer o que for necess\u00e1rio, diz ela, &#8220;para manter a brincadeira na vida, sobretudo em tempos nos quais \u00e9 mais dif\u00edcil faz\u00ea-lo, por medo ou incerteza&#8221;.<\/p>\n<figure id=\"attachment_50713\" aria-describedby=\"caption-attachment-50713\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/confinamento.png\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-50713 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/confinamento.png?resize=696%2C486\" alt=\"\" width=\"696\" height=\"486\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/confinamento.png?w=800&amp;ssl=1 800w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/confinamento.png?resize=300%2C210&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/confinamento.png?resize=1024%2C715&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/confinamento.png?resize=768%2C537&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/confinamento.png?resize=1536%2C1073&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/confinamento.png?resize=2048%2C1431&amp;ssl=1 2048w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/confinamento.png?resize=696%2C486&amp;ssl=1 696w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/confinamento.png?resize=1392%2C973&amp;ssl=1 1392w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/confinamento.png?resize=1068%2C746&amp;ssl=1 1068w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/confinamento.png?resize=1920%2C1341&amp;ssl=1 1920w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/confinamento.png?resize=601%2C420&amp;ssl=1 601w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/confinamento.png?resize=1202%2C840&amp;ssl=1 1202w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/confinamento.png?resize=100%2C70&amp;ssl=1 100w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/confinamento.png?resize=200%2C140&amp;ssl=1 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 696px) 100vw, 696px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-50713\" class=\"wp-caption-text\">Direito de imagemGETTY IMAGES\/BBC<\/figcaption><\/figure>\n<p>&#8220;Mas h\u00e1 outro ponto. Diferentemente de outros animais, n\u00f3s humanos desenvolvemos rituais sociais, como ir a shows, missa, sair para dan\u00e7ar ou a bares. Os rituais coletivos s\u00e3o muito importantes porque sincronizam os grupos: eu me movo contigo, rio contigo, canto contigo e forjo um la\u00e7o contigo. Pense nos gritos (das torcidas) de futebol no est\u00e1dio.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Tudo isso est\u00e1 desaparecido com o v\u00edrus, e \u00e9 um experimento impressionante. N\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o temos os rituais coletivos, como estamos vivendo um trauma coletivo. Por isso acho que vamos precisar voltar a restaurantes e pubs, ao est\u00e1dio, a shows e a dan\u00e7ar nas festas.<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Ana Pais da <\/span><span class=\"byline__title\">BBC News Mundo &#8211; dispon\u00edvel na internet 27\/07\/2020<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;O que vejo em humanos confinados \u00e9 parecido a papagaios enjaulados arrancando as pr\u00f3prias penas&#8217;, diz cientista Nosso comportamento em confinamento social n\u00e3o difere muito do de outros animais sociais quando colocados em cativeiro: estar isolado tem um efeito profundo na nossa sa\u00fade f\u00edsica e mental. 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