{"id":50744,"date":"2020-07-27T04:15:47","date_gmt":"2020-07-27T07:15:47","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=50744"},"modified":"2020-07-27T05:32:36","modified_gmt":"2020-07-27T08:32:36","slug":"autoridade-doentia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/07\/27\/autoridade-doentia\/","title":{"rendered":"Autoridade doentia"},"content":{"rendered":"<div class=\"content-section\">\n<h5>Alguns dos piores tra\u00e7os do car\u00e1ter nacional t\u00eam se manifestado com frequ\u00eancia, nas \u00faltimas semanas, e mostrado que a propalada cordialidade brasileira n\u00e3o demora um segundo para virar ilus\u00e3o. S\u00e3o constantes as imagens de gente querendo ganhar discuss\u00f5es no grito, impondo autoridade, dando \u201ccarteiradas\u201d, agredindo inocentes e, principalmente, recusando ser chamada de cidad\u00e3 ou cidad\u00e3o, como se fosse uma afronta. Parece que a cidadania virou uma ofensa pessoal e a grosseria deveria se impor como padr\u00e3o de comportamento. Os problemas v\u00e3o muito al\u00e9m da pandemia, est\u00e3o nas nossas ra\u00edzes, mas a exig\u00eancia de uso de m\u00e1scaras para prote\u00e7\u00e3o contra a Covid-19 e a proibi\u00e7\u00e3o de aglomera\u00e7\u00f5es tornaram-se os maiores disparadores de disc\u00f3rdias. Agentes de sa\u00fade e profissionais de seguran\u00e7a, que tentam fazer as regras serem cumpridas, s\u00e3o alvos de pessoas que se acham superiores e exp\u00f5em o lado mais pern\u00f3stico da nossa cultura, que tem no rebaixamento um de seus pilares. \u201cSabe com quem est\u00e1 falando?\u201d \u00e9 a frase preferida do anticidad\u00e3o brasileiro para mostrar-se melhor do que os outros e burlar as regras.<\/h5>\n<\/div>\n<div class=\"text_imagem\">\n<figure style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/88-3.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Cr\u00e9dito: Divulga\u00e7\u00e3o\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/88-3.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Cr\u00e9dito: Divulga\u00e7\u00e3o\" width=\"696\" height=\"392\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">HUMILHA\u00c7\u00c3O O desembargador Eduardo Siqueira ofende o guarda civil de Santos, C\u00edcero Hil\u00e1rio: acima da lei (Cr\u00e9dito: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"caption\">O v\u00eddeo do desembargador do Tribunal de Justi\u00e7a de S\u00e3o Paulo Eduardo Almeida Prado de Siqueira que circulou nas redes sociais, chamando de \u201canalfabeto\u201d e \u201cguardinha\u201d o guarda civil de Santos, C\u00edcero Hil\u00e1rio, que o havia multado por falta de m\u00e1scara, \u00e9 um exemplo bem-acabado dessa s\u00edndrome de superioridade que macula o esp\u00edrito nacional. \u201cCidad\u00e3o, n\u00e3o. Desembargador, com contatos. Melhor que voc\u00ea\u201d, declarou para o profissional que tentava fazer seu trabalho. Para se justificar, Siqueira disse que o decreto municipal que tornou obrigat\u00f3rio o uso do equipamento de prote\u00e7\u00e3o \u201cn\u00e3o \u00e9 lei\u201d e amea\u00e7ou jogar a multa de R$ 100,00 na cara do guarda. Em seguida, telefonou para o secretario de Seguran\u00e7a P\u00fablica de Santos, S\u00e9rgio Del Bel, para reclamar da situa\u00e7\u00e3o, numa t\u00edpica \u201ccarteirada\u201d. \u201cEstou aqui com um analfabeto de um PM seu. Eu falei, vou ligar para ele (Del Bel) porque estou andando sem m\u00e1scara. S\u00f3 estou eu na faixa de praia que eu estou\u201d, disse para o secret\u00e1rio. O desembargador revela que para algumas pessoas ser tratado como um cidad\u00e3o, seguir certas regras que todos devem obedecer, \u00e9 um ultraje. H\u00e1 uma n\u00edtida extrapola\u00e7\u00e3o de poder, al\u00e9m de uma vontade de crescer sobre o outro, de torn\u00e1-lo inferior.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"content-section content\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1206922\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/92-3.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/92-3.jpg 1024w, https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/92-3-102x57.jpg 102w, https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/92-3-418x235.jpg 418w, https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/92-3-576x324.jpg 576w, https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/92-3-768x432.jpg 768w\" alt=\"\" width=\"696\" height=\"392\"><\/p>\n<figure id=\"attachment_1206922\" class=\"wp-caption aligncenter\"><figcaption class=\"wp-caption-text\"><strong>A MARCA DA BARB\u00c1RIE<\/strong>&nbsp;No bairro de Parelheiros, em S\u00e3o Paulo, o policial Jo\u00e3o Paulo Servato imobilizou uma cidad\u00e3 pisando no seu pesco\u00e7o. A v\u00edtima foi uma mulher negra de 51 anos, dona de um bar na regi\u00e3o e m\u00e3e de cinco filhos. Estava completamente indefesa e sem capacidade de rea\u00e7\u00e3o. Ela foi para o hospital com ferimentos no rosto e a perna quebrada (Cr\u00e9dito:Divulga\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>V\u00edcio estrutural<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 41 anos, o antrop\u00f3logo e professor titular da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica (PUC-RJ) Roberto DaMatta publicou um livro chamado \u201cCarnavais, Malandros e Her\u00f3is \u2013 Para uma sociologia do dilema brasileiro\u201d, no qual deixou claro que esse sentimento de superioridade que afeta as rela\u00e7\u00f5es sociais tem suas origens na sua pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds e no seu desenvolvimento. DaMatta mostrou que a frase \u201csabe com quem est\u00e1 falando?\u201d exp\u00f5e um profundo v\u00edcio estrutural de uma terra de homens e mulheres que rejeitam a igualdade. N\u00e3o se trata apenas de um comportamento isolado e individual, como o do desembargador, mas de uma manifesta\u00e7\u00e3o obscura que aparece em momentos cr\u00edticos. No cap\u00edtulo 4 da obra, ele classifica a pergunta como um rito cultural, um tra\u00e7o persistente da cultura nacional forjada na escravid\u00e3o e na desigualdade. \u201cO Brasil \u00e9 uma sociedade especializada em esconder coisas embaixo do tapete, \u00e9 aristocr\u00e1tico e al\u00e9rgico \u00e0 igualdade\u201d, disse DaMatta \u00e0 ISTO\u00c9. \u201cO que estamos vivendo de maneira intensa \u00e9 a dificuldade de lidar com o regime democr\u00e1tico, que exige autocr\u00edtica\u201d. Segundo o antrop\u00f3logo, o fato da sociedade brasileira ter sido constru\u00edda por escravos e n\u00e3o por oper\u00e1rios explica, em parte, essa distor\u00e7\u00e3o de comportamento. \u201cVejo uma rea\u00e7\u00e3o violenta ao elemento b\u00e1sico da democracia, que \u00e9 a igualdade. Para o brasileiro, quem manda d\u00e1 ordem e obedecer \u00e9 sinal de inferioridade. Isso ficou bem claro nesse caso do desembargador. Ele se recusou a acatar a ordem do guarda, que ele julga que se trata de um ser inferior\u201d, afirmou.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1206921\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1206921\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/91-3.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/91-3.jpg 1024w, https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/91-3-102x57.jpg 102w, https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/91-3-418x235.jpg 418w, https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/91-3-576x324.jpg 576w, https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/91-3-768x432.jpg 768w\" alt=\"\" width=\"696\" height=\"392\"><figcaption class=\"wp-caption-text\"><strong>\u201cMELHOR QUE VOC\u00ca\u201d<\/strong>&nbsp;Na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, uma mulher ofendeu o fiscal da vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria Fl\u00e1vio Gra\u00e7a. Incomodada em ser repreendida por n\u00e3o cumprir normas de distanciamento social, ela tentou humilhar o agente de sa\u00fade. \u201cCidad\u00e3o, n\u00e3o. Engenheiro civil formado e melhor que voc\u00ea\u201d, disse, comparando o fiscal com o colega que a acompanhava (Cr\u00e9dito:Divulga\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Devido \u00e0 pandemia, houve uma mudan\u00e7a repentina da realidade, que disparou uma crise comportamental com a qual muita gente n\u00e3o est\u00e1 sabendo lidar. Casos de ofensas e de agress\u00f5es verbais gratuitas e desproporcionais pipocam toda hora em v\u00eddeos divulgados pelas redes sociais. Al\u00e9m do epis\u00f3dio de Siqueira, v\u00e1rias outras situa\u00e7\u00f5es expuseram os piores instintos dos brasileiros. No Rio de Janeiro, no in\u00edcio do m\u00eas, uma mulher e um homem ofenderam o superintendente de Inova\u00e7\u00e3o, Pesquisa e Educa\u00e7\u00e3o em Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria da Prefeitura local, Fl\u00e1vio Gra\u00e7a, durante uma opera\u00e7\u00e3o de fiscaliza\u00e7\u00e3o em bares e restaurantes da Barra da Tijuca que n\u00e3o cumpriam as normas de distanciamento social. Assim que Gra\u00e7a chamou o homem de cidad\u00e3o, a mulher retrucou: \u201cCidad\u00e3o, n\u00e3o. Engenheiro civil formado e melhor que voc\u00ea\u201d, disse ao fiscal. Sentindo-se admoestada, algo que muitos brasileiros adultos t\u00eam dificuldade em aceitar, a mulher tentou impor sua superioridade. E mais uma vez, a condi\u00e7\u00e3o espezinhada foi a de cidad\u00e3o, posi\u00e7\u00e3o que muitos consideram inferior, uma denomina\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica para uma pessoa qualquer.<\/p>\n<p><strong>Direitos e deveres<\/strong><\/p>\n<div class=\"GqaP9owC\">\n<p>Pelo que se v\u00ea, o Brasil deve ser o \u00fanico pa\u00eds do mundo em que a pessoa se sente ofendida e rebaixada ao ser chamada de cidad\u00e3o. O conceito de cidadania, que envolve uma percep\u00e7\u00e3o clara de direitos e deveres, ganhou forma a partir do Iluminismo e da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, na segunda metade do s\u00e9culo 18, quando a posi\u00e7\u00e3o da aristocracia, que vivia acima da lei, passou a ser questionada na Fran\u00e7a. O que define um cidad\u00e3o, basicamente, \u00e9 usufruir de seus direitos civis, em especial, \u00e0 liberdade, \u00e0 propriedade e \u00e0 igualdade e cumprir seus deveres legalmente estabelecidos. Mas no Brasil ser igual aos demais \u00e9 um inc\u00f4modo e tripudiar com o semelhante \u00e9 um v\u00edcio nacional. Enquanto o brasileiro diz \u201csabe com quem est\u00e1 falando\u201d, um americano diria \u201cquem voc\u00ea pensa que \u00e9\u201d. \u201cO desejo de humilhar e a vontade hierarquizante fazem parte de um ritual de destitui\u00e7\u00e3o da cidadania\u201d, afirmou DaMatta.<\/p>\n<\/div>\n<figure id=\"attachment_1206925\" class=\"wp-caption alignleft\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-news_small_vertical wp-image-1206925\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/94-1-418x235.jpg?resize=418%2C235&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 418px) 100vw, 418px\" srcset=\"https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/94-1-418x235.jpg 418w, https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/94-1-102x57.jpg 102w, https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/94-1-576x324.jpg 576w, https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/94-1-768x432.jpg 768w, https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/94-1.jpg 1024w\" alt=\"\" width=\"418\" height=\"235\"><figcaption class=\"wp-caption-text\"><strong>\u201cGanho R$ 300 mil\u201d<\/strong>&nbsp;O engenheiro Ivan Storel humilhou dois PMs que foram verificar uma den\u00fancia de viol\u00eancia dom\u00e9stica em sua casa. \u201cPasso por tratamento psiqui\u00e1trico e estava sob efeito de \u00e1lcool e de rem\u00e9dio. Pe\u00e7o perd\u00e3o \u00e0 PM pela minha atitude\u201d, justificou (Cr\u00e9dito:Divulga\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em Alphaville, bairro luxuoso da regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo, o engenheiro Ivan Storel, em mais uma demonstra\u00e7\u00e3o de barb\u00e1rie, surtou, no final de maio, com dois policiais militares, um cabo e um soldado, que foram \u00e0 sua casa para verificar uma den\u00fancia de viol\u00eancia dom\u00e9stica feita por sua esposa. Com um discurso furioso, ele revelou seu lado mais preconceituoso e violento e recusou-se a atender os guardas cordialmente. \u201cVoc\u00ea pode ser macho na periferia, mas aqui voc\u00ea \u00e9 um bosta. Aqui \u00e9 Alphaville, mano\u201d, disse, ao berros, para o cabo da PM que tentava realizar seu servi\u00e7o. \u201cVoc\u00ea n\u00e3o me conhece, ganho R$ 300 mil por m\u00eas e voc\u00ea \u00e9 um merda de um PM que ganha R$ 1 mil\u201d. Para os fomentadores da desigualdade, o mais importante \u00e9 a profiss\u00e3o, o diploma, o alto sal\u00e1rio e n\u00e3o as regras que precisam ser cumpridas e o respeito ao pr\u00f3ximo. H\u00e1 uma esquisita autopercep\u00e7\u00e3o de status e poder, que impulsiona o transgressor a fugir de suas responsabilidades.<img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1206940\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/95-1.jpg?resize=696%2C608&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/95-1.jpg 1024w, https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/95-1-418x365.jpg 418w\" alt=\"\" width=\"696\" height=\"608\"><\/p>\n<p>Num ponto extremo de rebaixamento e anticidadania, um policial militar pisou no pesco\u00e7o de uma mulher em Parelheiros, na zona sul de S\u00e3o Paulo. Num v\u00eddeo exibido pelo programa Fant\u00e1stico, da TV Globo, no domingo 12, a mulher, uma comerciante negra de 51 anos, m\u00e3e de cinco filhos e dona de um bar no bairro, aparece ca\u00edda no ch\u00e3o e imobilizada. \u201cQuanto mais eu me debatia, mais ele apertava a botina no meu pesco\u00e7o\u201d, declarou a v\u00edtima. O policial Jo\u00e3o Paulo Servato, 34 anos, alegou que foi atacado por uma barra de ferro e que estava se defendendo, uma situa\u00e7\u00e3o que as imagens desmentem. Disse que usou o \u201cmeio necess\u00e1rio para conter a comerciante\u201d. Depois de sofrer viol\u00eancia e humilha\u00e7\u00e3o, a mulher foi levada a um hospital, com ferimentos no rosto e a perna quebrada. Foi mais uma cidad\u00e3 brasileira humilhada por uma autoridade doentia.<\/p>\n<div class=\"SljyjgXX\">&nbsp;<\/div>\n<figure id=\"attachment_1206919\" class=\"wp-caption alignright\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-news_small_vertical wp-image-1206919\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/89-3-418x235.jpg?resize=418%2C235&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 418px) 100vw, 418px\" srcset=\"https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/89-3-418x235.jpg 418w, https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/89-3-102x57.jpg 102w, https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/89-3-576x324.jpg 576w, https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/89-3-768x432.jpg 768w, https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/89-3.jpg 1024w\" alt=\"\" width=\"418\" height=\"235\"><figcaption class=\"wp-caption-text\"><strong>\u201cA gente v\u00ea que uma postura nossa gerou admira\u00e7\u00e3o, nosso trabalho foi reconhecido e isso trouxe orgulho para minha fam\u00edlia\u201d&nbsp;<\/strong>C\u00edcero Hil\u00e1rio, guarda civil de Santos (Cr\u00e9dito:Divulga\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cAinda n\u00e3o resolvemos a contradi\u00e7\u00e3o entre o senhor e o escravo, entre a casa grande e a senzala\u201d, diz o historiador Marco Antonio Villa. \u201cN\u00f3s passamos 130 anos de Rep\u00fablica, mas a quest\u00e3o da igualdade ainda \u00e9 um tra\u00e7o de resist\u00eancia.\u201d Segundo ele, aqueles que se sentem donos do poder e dos espa\u00e7os sociais continuam vendo o cidad\u00e3o comum como \u201carraia-mi\u00fada, plebe ignara\u201d. Percebe-se no \u201caristocrata\u201d brasileiro uma vontade de rebaixar o pr\u00f3ximo para elevar sua pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o. H\u00e1, por\u00e9m, uma rea\u00e7\u00e3o vigorosa das institui\u00e7\u00f5es e da sociedade diante das agress\u00f5es, o que, de alguma forma, revela uma evolu\u00e7\u00e3o social. \u201cA gente observa que essas manifesta\u00e7\u00f5es existem, mas s\u00e3o cada vez mais dissonantes. Hoje vira um esc\u00e2ndalo. Isso \u00e9 positivo. O Conselho Nacional de Justi\u00e7a (CNJ) agiu rapidamente, o que mostra que o pr\u00f3prio Poder Judici\u00e1rio rejeita esse comportamento do desembargador\u201d, explicou.<\/p>\n<p>No caso de Siqueira, a rea\u00e7\u00e3o institucional foi imediata. O corregedor nacional de Justi\u00e7a, ministro Humberto Martins, determinou a abertura de um pedido de provid\u00eancia para investigar sua conduta com os guardas civis. Martins deu um prazo de 15 dias para que o desembargador d\u00ea informa\u00e7\u00f5es sobre sua atitude. O ministro do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) Marco Aur\u00e9lio Mello criticou Siqueira. \u201cA autoridade na rua \u00e9 o guarda, n\u00e3o o desembargador\u201d, afirmou Mello. \u201cSomos autoridades no tribunal, com a capa nas costas. Na rua, somos cidad\u00e3os.\u201d Os guardas municipais agredidos, C\u00edcero Hil\u00e1rio e Roberto Guilhermino, que tamb\u00e9m participou da a\u00e7\u00e3o, foram homenageados pela Prefeitura da cidade por causa da conduta exemplar no epis\u00f3dio. Os dois mantiveram a calma e ouviram Siqueira respeitosamente. \u201cA gente v\u00ea que uma postura nossa gerou admira\u00e7\u00e3o, nosso trabalho foi reconhecido e isso trouxe orgulho para minha fam\u00edlia\u201d, disse C\u00edcero ao ser condecorado.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1206920\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1206920\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/90-3.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/90-3.jpg 1024w, https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/90-3-102x57.jpg 102w, https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/90-3-418x235.jpg 418w, https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/90-3-576x324.jpg 576w, https:\/\/cdn-istoe-ssl.akamaized.net\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/07\/90-3-768x432.jpg 768w\" alt=\"\" width=\"696\" height=\"392\"><figcaption class=\"wp-caption-text\"><strong>HERAN\u00c7A DA ESCRAVID\u00c3O&nbsp;<\/strong>Segundo o antrop\u00f3logo Roberto DaMatta (\u00e0 direita), a sociedade brasileira \u00e9 \u201cal\u00e9rgica \u00e0 igualdade\u201d. \u201cAqui, quem manda d\u00e1 ordem e obedecer \u00e9 sinal de inferioridade\u201d, diz. Para o historiador Marco Antonio Villa, a recusa \u00e0 igualdade \u00e9 evidente, mas h\u00e1 sinais de evolu\u00e7\u00e3o. \u201cEssas manifesta\u00e7\u00f5es existem, mas s\u00e3o cada vez mais dissonantes. Hoje vira um esc\u00e2ndalo\u201d, afirma (Cr\u00e9dito:Divulga\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Indigna\u00e7\u00e3o social<\/strong><\/p>\n<p>A mulher que ofendeu a fiscal da Prefeitura do Rio perdeu o emprego. A empresa do setor el\u00e9trico Taesa, onde ela trabalhava, emitiu uma nota em que afirma que \u201ccompartilha a indigna\u00e7\u00e3o da sociedade em rela\u00e7\u00e3o a este lament\u00e1vel epis\u00f3dio\u201d, destacando que a funcion\u00e1ria desrespeitou \u201ca pol\u00edtica vigente da empresa de isolamento social e preven\u00e7\u00e3o ao novo coronav\u00edrus\u201d. O homem que ofendeu os policiais em Alphaville publicou um v\u00eddeo pedindo desculpas e atribuiu seu descontrole a um problema m\u00e9dico. \u201cN\u00e3o quero me eximir de responsabilidade, mas passo por tratamento psiqui\u00e1trico e estava sob efeito de \u00e1lcool e de rem\u00e9dio. Pe\u00e7o perd\u00e3o \u00e0 PM pela minha atitude\u201d, disse Storel. A PM informou que os policiais envolvidos no caso da comerciante agredida em Parelheiros foram afastados e permanecer\u00e3o fora das atividades operacionais at\u00e9 a conclus\u00e3o das investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A s\u00edndrome de superioridade que afeta muitos brasileiros ganhou dimens\u00f5es de patologia social. A pandemia abriu uma nova frente de improp\u00e9rios e viol\u00eancias verbais contra profissionais que contribuem para inibir o avan\u00e7o do coronav\u00edrus. Em pleno estado de calamidade p\u00fablica, ainda h\u00e1 pessoas que n\u00e3o sabem se comportar, cometem atos de desobedi\u00eancia civil e querem ficar impunes. H\u00e1 gente que acha que n\u00e3o deve usar m\u00e1scaras porque se trata de algo in\u00fatil ou de uma invas\u00e3o de privacidade. Agentes sanit\u00e1rios sofrem amea\u00e7as frequentes em opera\u00e7\u00f5es de fiscaliza\u00e7\u00e3o e encontram v\u00e1rias pessoas se comportando de maneira agressiva e arredia. \u00c9 uma pena. J\u00e1 est\u00e1 na hora de algunsbrasileiros deixarem de se sentir melhores do que os outros e passarem a respeitar a suprema condi\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Vicente Vilardaga\/ Revista Isto\u00c9 &#8211; dispon\u00edvel na internet 27\/07\/2020<\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alguns dos piores tra\u00e7os do car\u00e1ter nacional t\u00eam se manifestado com frequ\u00eancia, nas \u00faltimas semanas, e mostrado que a propalada cordialidade brasileira n\u00e3o demora um segundo para virar ilus\u00e3o. S\u00e3o constantes as imagens de gente querendo ganhar discuss\u00f5es no grito, impondo autoridade, dando \u201ccarteiradas\u201d, agredindo inocentes e, principalmente, recusando ser chamada de cidad\u00e3 ou cidad\u00e3o, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":50745,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[133],"tags":[],"class_list":{"0":"post-50744","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-destaques"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/imagesutoridade.jpg?fit=225%2C225&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50744","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50744"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50744\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/50745"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50744"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50744"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50744"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}