{"id":51271,"date":"2020-08-10T02:45:09","date_gmt":"2020-08-10T05:45:09","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=51271"},"modified":"2020-08-10T05:20:34","modified_gmt":"2020-08-10T08:20:34","slug":"cientistas-apostam-em-estudos-geneticos-para-conter-a-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/08\/10\/cientistas-apostam-em-estudos-geneticos-para-conter-a-pandemia\/","title":{"rendered":"Cientistas apostam em estudos gen\u00e9ticos para conter a pandemia"},"content":{"rendered":"<p class=\"texto\">O sequenciamento do DNA, que come\u00e7ou h\u00e1 20 anos, revolucionou a forma como a medicina \u00e9 feita. Essa t\u00e9cnica proporcionou exames e tratamentos m\u00e9dicos mais refinados em \u00e1reas diversas, como a oncologia. Atualmente, a gen\u00e9tica tamb\u00e9m tem sido usada como uma das principais armas no&nbsp;combate \u00e0 covid-19. Com a ajuda dessa tecnologia, cientistas t\u00eam conseguido identificar varia\u00e7\u00f5es de cepas do novo coronav\u00edrus e seus pontos fracos, informa\u00e7\u00f5es valiosas para o desenvolvimento de medicamentos, vacinas e m\u00e9todos de diagn\u00f3stico mais precisos. Os cientistas tamb\u00e9m acreditam que os estudos feitos com base no estudo do DNA humano podem ajudar a revelar quais pessoas s\u00e3o mais vulner\u00e1veis a essa nova enfermidade.<\/p>\n<p class=\"texto\">O primeiro mapeamento gen\u00e9tico do Sars-CoV-2 foi feito em janeiro, um m\u00eas depois dos primeiros registros da infec\u00e7\u00e3o, com amostras colhidas em um dos pacientes da cidade chinesa de Wuhan, considerada o epicentro da pandemia. Gra\u00e7as a essa an\u00e1lise inicial do RNA do v\u00edrus, os pesquisadores chegaram \u00e0 primeira descoberta importante: constataram que o transmissor da covid-19 pertencia \u00e0 fam\u00edlia dos coronav\u00edrus e, por isso, tinha semelhan\u00e7as com surtos recentes, como o da s\u00edndrome respirat\u00f3ria do Oriente M\u00e9dio (Mers), em 2003.<\/p>\n<p class=\"texto\">Com a acelerada propaga\u00e7\u00e3o da covid-19, o Sars-CoV-2 sofreu uma s\u00e9rie de altera\u00e7\u00f5es na sua estrutura, o que demanda que o mapeamento gen\u00e9tico do v\u00edrus seja feito frequentemente. O Brasil foi um dos pa\u00edses que fizeram essa tarefa em menos tempo: apenas 48 horas depois do primeiro caso da doen\u00e7a ter sido registrado em territ\u00f3rio brasileiro, em 26 de fevereiro. \u201cEsse mapeamento foi feito rapidamente porque j\u00e1 est\u00e1vamos preparados, realiz\u00e1vamos pesquisas de sequenciamento com outro pat\u00f3geno, o zika\u201d, conta ao Correio Ester Cerdeira Sabino, uma das respons\u00e1veis pelo trabalho e pesquisadora da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). A cientista e sua equipe mostraram que a amostra analisada, de um paciente vindo da It\u00e1lia, tinha semelhan\u00e7as gen\u00e9ticas com as do pat\u00f3geno oriundas da Alemanha e recolhidas em janeiro.<\/p>\n<p class=\"texto\">O grupo de pesquisa expandiu a investiga\u00e7\u00e3o e, no momento, avalia mais de 500 amostras de brasileiros com a covid-19 para entender como o v\u00edrus tem se modificado durante a pandemia. \u201cNosso estudo j\u00e1 mostrou, por exemplo, que, das mais de 100 linhagens que entraram no pa\u00eds, apenas tr\u00eas vindas da Europa conseguiram fazer uma cadeia de transmiss\u00e3o, e que elas chegaram entre o fim da \u00faltima semana de fevereiro e a primeira semana de mar\u00e7o\u201d, detalha Ester Sabino.<\/p>\n<p class=\"texto\">Segundo a pesquisadora, o mapeamento \u00e9 uma tarefa essencial para o combate \u00e0 pandemia. \u201cEsse tipo de pesquisa s\u00e3o tijolinhos que constru\u00edmos. Ao montar o mapa gen\u00e9tico do v\u00edrus, ele vai ser usado como base para cientistas que buscam formas de combat\u00ea-lo\u201d, explica. \u201cPor exemplo, cientistas que testam antivirais podem ver se as altera\u00e7\u00f5es dos genes interferem na a\u00e7\u00e3o dos rem\u00e9dios. O mesmo ocorre com vacinas e diagn\u00f3sticos, que podem ter o efeito modificado devido a essas altera\u00e7\u00f5es\u201d, afirma.<\/p>\n<p class=\"texto\">A m\u00e9dica tamb\u00e9m ressalta que o mapeamento do v\u00edrus \u00e9 algo que precisar\u00e1 ser feito durante toda a pandemia e por pesquisadores de todo o mundo. \u201cAs perguntas que temos sobre esse v\u00edrus n\u00e3o v\u00e3o ser respondidas com apenas uma an\u00e1lise gen\u00e9tica, precisamos do trabalho de todos especialistas, e que eles troquem essas informa\u00e7\u00f5es. Aqui no Brasil, temos muitos nessa \u00e1rea. Com todos esses trabalhos que t\u00eam sido feitos nos \u00faltimos meses, vamos conseguir reunir muitas informa\u00e7\u00f5es valiosas sobre a covid-19\u201d, aposta.<\/p>\n<h3>UnB<\/h3>\n<p class=\"texto\">Entre as d\u00favidas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 covid-19, est\u00e3o o fato de algumas pessoas adquirem formas graves da enfermidade e outras, n\u00e3o, e por que as pessoas respondem de forma diferente ao tratamento. As respostas para essas quest\u00f5es podem estar no DNA humano, segundo especialistas da Universidade de Bras\u00edlia (UnB) que investigam esses fen\u00f4menos em parceria com institui\u00e7\u00f5es de ensino internacionais.<\/p>\n<p class=\"texto\">O grupo pretende coletar 12 mil amostras de sangue de pessoas com perfis diversos que tiveram a enfermidade. \u201cEstamos reunindo dados de indiv\u00edduos com idade e sexo distintos, al\u00e9m de informa\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas, como tratamentos usados e sintomas apresentados\u201d, conta Silviene Oliveira, pesquisadora do Departamento de Gen\u00e9tica e Morfologia da UnB e uma das cientistas envolvidas no projeto.<\/p>\n<p class=\"texto\">Os pesquisadores pretendem realizar o mapeamento gen\u00e9tico das amostras recolhidas para analisar se altera\u00e7\u00f5es no DNA podem estar relacionadas \u00e0 forma como os volunt\u00e1rios manifestaram a doen\u00e7a. \u201cReuniremos o m\u00e1ximo de informa\u00e7\u00f5es poss\u00edveis para entender se existe alguma explica\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica para que um tratamento tenha sido positivo para uma pessoa e para outra, n\u00e3o, por exemplo, ou por que um indiv\u00edduo sofreu com mais sintomas em compara\u00e7\u00e3o com outros\u201d, diz a cientista.<\/p>\n<p class=\"texto\">Al\u00e9m do Brasil (em Bras\u00edlia e em outras cidades), as amostras est\u00e3o sendo recolhidas na Europa e em outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. \u201cA maioria dos estudos gen\u00e9ticos \u00e9 feita com foco apenas na popula\u00e7\u00e3o europeia e na americana. Nesse trabalho, temos dados mais diversos e pr\u00f3ximos do nosso pa\u00eds, como Argentina, Chile, M\u00e9xico, al\u00e9m da Espanha e da It\u00e1lia. Essa variedade \u00e9 muito importante porque somos mais miscigenados, e isso pode influenciar muito o resultado\u201d, afirma Silviene Oliveira.<\/p>\n<p class=\"texto\">Caso a pesquisa consiga mostrar altera\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas relacionadas \u00e0 covid-19, as informa\u00e7\u00f5es poder\u00e3o ser valiosas no atendimento aos pacientes. \u201cSe n\u00f3s encontrarmos marcadores relacionados \u00e0 forma grave, por exemplo, podemos avaliar a necessidade de realizar o tratamento com mais cuidado, mantendo o paciente no hospital por mais tempo\u201d, ilustra. \u201cIsso \u00e9 algo semelhante ao que temos no c\u00e2ncer, hoje. Se voc\u00ea tem determinada muta\u00e7\u00e3o relacionada a um tumor espec\u00edfico, sua chance de ter a doen\u00e7a aumenta, e, com isso, seu cuidado tamb\u00e9m precisa ser maior.\u201d<\/p>\n<h3>Fita simples<\/h3>\n<p class=\"texto\">Os genes cont\u00eam as informa\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis para a reprodu\u00e7\u00e3o e a replica\u00e7\u00e3o dos seres vivos. No caso dos humanos, esse material est\u00e1 presente no DNA, uma estrutura de fita dupla. Em alguns organismos, est\u00e1 no RNA, que tamb\u00e9m \u00e9 uma fita, s\u00f3 que simples. O v\u00edrus da covid-19 faz parte do grupo de v\u00edrus que t\u00eam RNA como base de sua forma\u00e7\u00e3o, chamados de retrov\u00edrus, assim como o sarampo.<\/p>\n<p class=\"texto\">&#8220;Cientistas que testam antivirais podem ver se as altera\u00e7\u00f5es dos genes interferem na a\u00e7\u00e3o dos rem\u00e9dios. O mesmo ocorre com vacinas e diagn\u00f3sticos, que podem ter o efeito modificado devido a essas altera\u00e7\u00f5es\u201d<br \/>\nEster Cerdeira Sabino, pesquisadora da Universidade de S\u00e3o Paulo<\/p>\n<div class=\"materia-title\">\n<h3>Palavra de especialista<\/h3>\n<h4>Ferramenta para atualizar vacinas<\/h4>\n<\/div>\n<p class=\"texto\">\u201cA gen\u00e9tica tem nos ajudado com pilares das pesquisas sobre a covid-19. O primeiro \u00e9 o sequenciamento gen\u00e9tico do v\u00edrus, que nos ajuda a conhec\u00ea-lo. Temos, tamb\u00e9m, a an\u00e1lise de DNA de quem contraiu a enfermidade, para saber se alguma varia\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica pode estar relacionada \u00e0 gravidade da doen\u00e7a. Por fim, temos o uso dessa tecnologia para o desenvolvimento de mais m\u00e9todos de diagn\u00f3stico. O PCR, que \u00e9 o mais apurado, n\u00e3o \u00e9 suficiente. Nosso grupo tem trabalhado em um teste diagn\u00f3stico com base no mapeamento gen\u00e9tico para auxiliar essa \u00e1rea, justamente para cumprir essa demanda e gerar resultados mais apurados. Acredito, tamb\u00e9m, que essa tecnologia ser\u00e1 imprescind\u00edvel no futuro. Depois da pandemia, vamos precisar de recursos para controlar a covid-19, e, para realizar essa tarefa, ser\u00e1 necess\u00e1rio manter o mapeamento do v\u00edrus circulante no pa\u00eds, pois ele pode sofrer muta\u00e7\u00f5es. Essas mudan\u00e7as t\u00eam que ser acompanhadas a fim de manter as vacinas eficazes. \u00c9 o mesmo caso da gripe. A cada ano, precisamos mudar a f\u00f3rmula da imuniza\u00e7\u00e3o para garantir que ela funcione.&#8221;&nbsp;<strong>Gustavo Campana<\/strong>, patologista e diretor m\u00e9dico da Dasa (Grupo do Laborat\u00f3rio Exame).<\/p>\n<div class=\"materia-title\">\n<h3>Maior risco respirat\u00f3rio<\/h3>\n<\/div>\n<p class=\"texto\">O DNA humano e sua poss\u00edvel influ\u00eancia na covid-19 tamb\u00e9m foram tema de um estudo realizado por cientistas alem\u00e3es. No trabalho, a equipe mostrou ind\u00edcios de que uma parte do DNA do Sars-CoV-2 pode estar relacionada a maiores danos respirat\u00f3rios. Os pesquisadores analisaram amostras gen\u00e9ticas de 3.199 pacientes e observaram que os indiv\u00edduos que tinham um grupo de genes localizado no terceiro cromossomo apresentaram 70% mais risco de apresentar insufici\u00eancia card\u00edaca.<\/p>\n<p class=\"texto\">\u201cPercebemos que a presen\u00e7a de um certo variante de DNA aumentou consideravelmente a probabilidade de ocorr\u00eancia de sintomas graves\u201d, ressalta, em comunicado, Hugo Zeberg, pesquisador do Instituto Max Planck e um os autores do trabalho, publicado no site de dep\u00f3sito de pesquisas m\u00e9dicas Biorxv.<\/p>\n<p class=\"texto\">Os especialistas tamb\u00e9m destacam que a altera\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica observada pode ter sido herdada dos neandertais, uma popula\u00e7\u00e3o de homin\u00eddeos pr\u00e9-hist\u00f3ricos que viveu entre 200 mil e 30 mil anos atr\u00e1s. \u201cNosso estudo ainda \u00e9 inicial, e precisamos que mais an\u00e1lises sejam feitas, mas acreditamos, sim, que essa variante do genoma relacionada aos neandertais possa estar relacionada a efeitos mais severos da covid-19\u201d, frisa Zeberg.<\/p>\n<div id=\"tags\" class=\"tags\">\n<h4><strong>Cr\u00e9dito: Vilhena Soares\/Correio Braziliense &#8211; dispon\u00edvel na internet 10\/08\/2020<\/strong><\/h4>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sequenciamento do DNA, que come\u00e7ou h\u00e1 20 anos, revolucionou a forma como a medicina \u00e9 feita. Essa t\u00e9cnica proporcionou exames e tratamentos m\u00e9dicos mais refinados em \u00e1reas diversas, como a oncologia. Atualmente, a gen\u00e9tica tamb\u00e9m tem sido usada como uma das principais armas no&nbsp;combate \u00e0 covid-19. Com a ajuda dessa tecnologia, cientistas t\u00eam conseguido [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":51272,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[135],"tags":[],"class_list":{"0":"post-51271","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-clipping"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/1_cats-6215556.jpg?fit=412%2C282&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51271","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=51271"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51271\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/51272"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=51271"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=51271"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=51271"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}