{"id":5195,"date":"2016-08-31T06:10:29","date_gmt":"2016-08-31T09:10:29","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=5195"},"modified":"2016-08-31T06:10:29","modified_gmt":"2016-08-31T09:10:29","slug":"o-velho-e-a-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2016\/08\/31\/o-velho-e-a-politica\/","title":{"rendered":"O velho e a pol\u00edtica."},"content":{"rendered":"<p>Ganha-se sozinho uma fortuna. Mas eis que \u00e9 preciso dividi-la. No momento da distin\u00e7\u00e3o, surgem os predadores, e eles chegam de todos os lados<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018\u00c9 uma estupidez n\u00e3o ter esperan\u00e7a, pensou. Al\u00e9m disso, acho que \u00e9 um pecado perder a esperan\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ernest Hemingway, no seu consagrado livro \u201cO velho e o mar\u201d ouve o velho Santiago \u2014 um pescador pobre e azarado, mas \u00edntegro e inteiramente e orgulhoso do seu papel de ca\u00e7ador de peixes \u2014 refletir sobre a virtude apaziguadora chamada esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao leitor que n\u00e3o passou pelo livro, lembro que Santiago estava \u201csaloio\u201d ou azarado. Na Amaz\u00f4nia brasileira, dir-se-ia \u201cempanemado\u201d porque abusou de pescar em demasia algum peixe ou porque exagerou na ca\u00e7a de algum animal, tirando do meio ambiente, do qual o predador faz parte, mais do que seria suficiente para a sua sobreviv\u00eancia. Nos anos 60 (imagine!) publiquei um estudo desse princ\u00edpio revelador de que, para al\u00e9m da oposi\u00e7\u00e3o entre sociedade e natureza, h\u00e1 in\u00fameras e claras interdepend\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Azarado h\u00e1 dezenas de dias, Santiago sai em seu barco de uma s\u00f3 e solit\u00e1ria vela e, por obra do que chamamos de acaso, pesca um colossal espadarte ou marlim. Uma peixe imenso, forte, poderoso e belo na sua integridade animal, com a qual ele dialoga. Realmente, a todo momento, o velho Santiago questiona-se a si mesmo se ele realmente mereceria esse presente t\u00e3o imenso quanto a mudan\u00e7a de sua sorte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hemingway perpetuou no \u201cVelho e o mar\u201d a sua mais pungente par\u00e1bola. Um cr\u00edtico abalizado poderia dizer que tudo o que escreveu foi mitologia, mas eu n\u00e3o preciso ir t\u00e3o fundo ou insinuar um peixe t\u00e3o grande. Apenas sugiro que, como um velho ainda mais velho que o velho Santiago, eu reitero o que seria para mim, que n\u00e3o me entendo como azarado (mas teria muitos motivos para faz\u00ea-lo), o que seria encontrar nos oceanos deste mundo um extraordin\u00e1rio marlim?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria como ganhar sozinho uma loteria e, aparentemente, desfrutar de uma forma de liberdade que at\u00e9 hoje n\u00e3o me foi facultada? Que sonhos pode um velho sonhar? Ali\u00e1s, ser\u00e1 que os velhos sonham com grandes espadartes ou somente \u2014 como o velho Santiago \u2014 com os le\u00f5es que ele, um dia, admirou nas areias de uma praia africana?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que sucede com um velho que pega um enorme peixe, o qual lhe apascente o seu respeit\u00e1vel sentimento de finitude? No caso do velho Santiago, h\u00e1 um enorme regalo inesperado; h\u00e1 a luta para domin\u00e1-lo e \u2014 em seguida \u2014 o inevit\u00e1vel: a presen\u00e7a dos tubar\u00f5es que come\u00e7am a devorar a suculenta e nobre carne do peixe pescado&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ganha-se sozinho uma fortuna. Mas eis que \u00e9 preciso dividi-la. No momento da distin\u00e7\u00e3o, surgem os predadores, e eles chegam de todos os lados, pois s\u00e3o da casa e da rua, do por\u00e3o e do s\u00f3t\u00e3o, do jardim e do quintal. Cada qual abre um sulco na carne do peixe pescado e come furiosamente o seu peda\u00e7o. O velho Santiago, como todo velho que por sorte pegou um peix\u00e3o, luta para defender o s\u00edmbolo de sua ressurrei\u00e7\u00e3o. Nesta luta contra o roubo do seu trabalho, ele fere as m\u00e3os, usa uma faca sem fio e sente o imenso cansa\u00e7o dos velhos. Mas Santiago n\u00e3o desiste nem mesmo quando v\u00ea o sonho desabar e verifica que n\u00e3o h\u00e1 vida sem tubar\u00f5es ladravazes, safados e fa\u00e7anhudos \u2014 de dentes afiados e, acima de tudo, famintos ao seu redor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inveja, ressentimento, feiura, doen\u00e7a, m\u00e1-f\u00e9, burrice, incompet\u00eancia, hipocrisia, tristeza, pregui\u00e7a, agressividade, \u00f3dio, medo, ignor\u00e2ncia, radicalismo, desonestidade \u2014 essas doen\u00e7as todas s\u00e3o (e est\u00e3o) nos tubar\u00f5es, mas tamb\u00e9m n\u00e3o podem ser ignoradas no pescador nem no marlim. A vida tem suas quotas de maldade e bondade, de amor e \u00f3dio, de inten\u00e7\u00e3o e de acaso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem sabe os velhos n\u00e3o mere\u00e7am suas velhices viris, alegres, repletas de saudade e prazer? Quem sabe a f\u00e1bula do velho Hemingway n\u00e3o \u00e9 sobre essa capacidade de lutar contra predadores com virilidade? Ou sobre a transitoriedade das riquezas sendo devoradas pelos vermes, como dizia o velho Machado de Assis?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reli Hemingway obrigando-me a assistir aos cap\u00edtulos finais desse bizarro impeachment de Dilma Rousseff. A pescaria do marlim, com sua quota de hero\u00edsmo e esperan\u00e7a, d\u00e1-me alento nesses tempos sombrios que eu jamais esperava viver na minha velhice.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria um despaut\u00e9rio tentar for\u00e7ar um drama no outro. Afora a minha identifica\u00e7\u00e3o com a velhice do velho Santiago, eu, no drama do impeachment, apenas vi tubar\u00f5es e tabaroas. Uma delas legitimando moralmente o seu clube. Vi igualmente tubar\u00f5es esbravejantes, mas todos mordendo. Um tubar\u00e3o gra\u00fado perdeu o rumo, sugeriu maluquice. A ideologia, eis o que aprendo, substitui o instinto. De minha parte, eu fa\u00e7o como velho Santiago: n\u00e3o perco a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cr\u00e9dito: Artigo publicado na coluna Opini\u00e3o do Jornal O Globo \u00a0\u2013 dispon\u00edvel na web 31\/08\/2016<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #000080;\">Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo.<\/span><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ganha-se sozinho uma fortuna. Mas eis que \u00e9 preciso dividi-la. No momento da distin\u00e7\u00e3o, surgem os predadores, e eles chegam de todos os lados \u2018\u00c9 uma estupidez n\u00e3o ter esperan\u00e7a, pensou. 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