{"id":52506,"date":"2020-09-11T03:15:00","date_gmt":"2020-09-11T06:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=52506"},"modified":"2020-09-10T18:46:46","modified_gmt":"2020-09-10T21:46:46","slug":"se-nao-tem-arroz-que-comam-macarrao-4-fatos-sobre-a-substituicao-proposta-por-supermercados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/09\/11\/se-nao-tem-arroz-que-comam-macarrao-4-fatos-sobre-a-substituicao-proposta-por-supermercados\/","title":{"rendered":"Se n\u00e3o tem arroz, que comam macarr\u00e3o? 4 fatos sobre a substitui\u00e7\u00e3o proposta por supermercados"},"content":{"rendered":"<div class=\"story-body__inner\">\n<p class=\"story-body__introduction\">Depois de se reunir com o presidente Jair Bolsonaro, o presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Supermercados (Abras), Jo\u00e3o Sanzovo Neto, defendeu a substitui\u00e7\u00e3o do consumo de arroz por macarr\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Vamos estar promovendo o consumo de massa, macarr\u00e3o, que \u00e9 o substituto do arroz. E vamos orientar o consumidor que n\u00e3o estoque&#8221;, disse.<\/p>\n<p>Em meio ao aumento no pre\u00e7o de alimentos, a sugest\u00e3o levou logo a compara\u00e7\u00f5es com a frase &#8220;N\u00e3o tem p\u00e3o? Que comam brioches!&#8221;, que virou lenda ao ser atribu\u00edda a Maria Antonieta, embora n\u00e3o haja registro de que tenha sido de fato dita por ela. A express\u00e3o virou s\u00edmbolo da falta de entendimento da nobreza em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De tempos em tempos, o brasileiro ouve uma sugest\u00e3o de produto a ser substitu\u00eddo na mesa. Em setembro de 2014, diante de uma alta da infla\u00e7\u00e3o de alimentos, o ent\u00e3o secret\u00e1rio de Pol\u00edtica Econ\u00f4mica do Minist\u00e9rio da Fazenda, M\u00e1rcio Holland, sugeriu que a popula\u00e7\u00e3o brasileira ficasse atenta para a possibilidade de substituir carne por aves e ovos.<\/p>\n<p>Agora, a discuss\u00e3o est\u00e1 nos carboidratos. Embora outros alimentos tenham tido uma alta de pre\u00e7o ainda maior neste ano, \u00e9 o arroz que vem dominando o debate \u2014 ele&nbsp;ficou quase 20% mais caro desde o in\u00edcio do ano, enquanto o pre\u00e7o do feij\u00e3o mulatinho subiu 32,6%, da abobrinha, 46,8%, e da cebola, 50,4%, segundo dados divulgados na quarta (09\/09) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE).<\/p>\n<p>A BBC News Brasil ouviu especialistas nas \u00e1reas de nutri\u00e7\u00e3o, sociologia e economia sobre quais fatores devem ser levados em conta ao se falar em substitui\u00e7\u00e3o do arroz pelo macarr\u00e3o. Um spoiler: ao menos no munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo, o macarr\u00e3o continua saindo mais caro que o arroz.<\/p>\n<p><strong>1.<\/strong><strong>Infla\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A sugest\u00e3o da substitui\u00e7\u00e3o veio diante da alta de pre\u00e7o do arroz: enquanto ele subiu 19,25% neste ano at\u00e9 agosto, o pre\u00e7o do macarr\u00e3o ficou est\u00e1vel, segundo os dados do IBGE.<\/p>\n<p>O arroz subiu em todas as regi\u00f5es pesquisadas, chegando a uma alta de 27,8% em Salvador. J\u00e1 o pre\u00e7o do macarr\u00e3o cresceu um pouco em algumas regi\u00f5es e caiu em outras, resultando em uma varia\u00e7\u00e3o igual a zero quando pensamos no pa\u00eds todo.<\/p>\n<p>Professor de economia da Universidade Federal do ABC, o economista F\u00e1bio Terra explica que a l\u00f3gica por tr\u00e1s da sugest\u00e3o na troca dos produtos \u00e9 o chamado efeito substitui\u00e7\u00e3o, que, nesse caso, consiste em substituir a demanda do arroz pela demanda do macarr\u00e3o. No entanto, ele pondera que, na pr\u00e1tica, a mudan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 simples como quer a teoria econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>&#8220;A racionalidade que colocamos na teoria da economia n\u00e3o considera cultura, gosto, rotina, h\u00e1bito. Ent\u00e3o \u00e9 muito f\u00e1cil falar pra substituir arroz por macarr\u00e3o, mas 95% dos brasileiros comem arroz. N\u00e3o \u00e9 uma mudan\u00e7a t\u00e3o simples de ser feita.&#8221;<\/p>\n<p>Um estudo da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), publicado em 2015, menciona que &#8220;quase 95% dos brasileiros consomem arroz e mais da metade o fazem no m\u00ednimo uma vez por dia&#8221;. O mesmo documento aponta que a prefer\u00eancia nacional de consumo \u00e9 pelo arroz da classe longo fino, comercialmente conhecido como &#8220;arroz-agulhinha&#8221;.<\/p>\n<p>Terra lembra que o aumento do pre\u00e7o do arroz \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o de fatores, e muitos est\u00e3o fora do Brasil. &#8220;Est\u00e1 acontecendo um choque que se d\u00e1, em parte, porque pode ter ocorrido aumento de demanda (pelo fato de as pessoas estarem mais em casa, e n\u00e3o pelo aux\u00edlio emergencial), e isso est\u00e1 combinado com a colheita de produtores internacionais ainda n\u00e3o ter come\u00e7ado e com exporta\u00e7\u00f5es do Brasil terem aumentado significativamente.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">2. Pre\u00e7o na prateleira e rendimento<\/h2>\n<p>O ritmo de aumento do pre\u00e7o do arroz n\u00e3o significa, no entanto, que o quilo do arroz tenha necessariamente ficado mais caro que o macarr\u00e3o, especialmente considerando as diferen\u00e7as regionais.<\/p>\n<p>Dados do levantamento do Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos (Dieese) em 17 capitais aponta uma m\u00e9dia de pre\u00e7o do quilo do arroz que vai de R$ 3,20 em Curitiba a R$ 4,54 no Rio de Janeiro em agosto. Em S\u00e3o Paulo, a m\u00e9dia \u00e9 de R$ 3,37.<\/p>\n<p>O pre\u00e7o m\u00e9dio do pacote de 500g de macarr\u00e3o em agosto ficou em R$ 2,64 no munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo. Isso significa que a m\u00e9dia do quilo do macarr\u00e3o (R$ 5,28) ainda \u00e9 mais cara que a m\u00e9dia do quilo de arroz. (N\u00e3o h\u00e1 dados do pre\u00e7o de macarr\u00e3o em outras capitais pois o item n\u00e3o integra a cesta b\u00e1sica do Dieese.)<\/p>\n<p>A coordenadora da pesquisa da cesta b\u00e1sica do Dieese, Patr\u00edcia Costa, lembra que o macarr\u00e3o \u00e9 feito de farinha de trigo, e grande parte do trigo consumido do Brasil \u00e9 importado. &#8220;Importar alimentos com o real desvalorizado significa pagar mais pelo gr\u00e3o em real e encarece o valor m\u00e9dio dos derivados \u2014 como se observa no pre\u00e7o do macarr\u00e3o e do p\u00e3o franc\u00eas.&#8221;<\/p>\n<p>Ela destaca, ainda, que &#8220;\u00e9 muito complicado para as fam\u00edlias brasileiras pagarem pelo aumento de produtos t\u00e3o b\u00e1sicos e t\u00e3o importantes como arroz, macarr\u00e3o, carne bovina, leite, p\u00e3o franc\u00eas&#8221;.<\/p>\n<p>A professora de Nutri\u00e7\u00e3o da UnB Raquel Botelho lembra que, para n\u00e3o cair em armadilha, \u00e9 importante comparar os pre\u00e7os levando em conta o valor do quilo, e n\u00e3o do pacote de macarr\u00e3o (que, em geral, cont\u00e9m 500g do produto).<\/p>\n<p>Especialista na \u00e1rea de t\u00e9cnica diet\u00e9tica, que contempla cozinha e prepara\u00e7\u00f5es, ela tamb\u00e9m destaca que o arroz rende mais que o macarr\u00e3o. Segundo ela, um saco de um quilo de arroz, bem preparado, rende na panela pelo menos 2kg. Se for um arroz do tipo 1, chega a virar 2,5kg ap\u00f3s o preparo. J\u00e1 o macarr\u00e3o, segundo ela, a tend\u00eancia \u00e9 n\u00e3o passar de 2kg.<\/p>\n<p><strong>3.<\/strong><strong>Caracter\u00edsticas nutritivas<\/strong><\/p>\n<p>O soci\u00f3logo Carlos Alberto D\u00f3ria, autor do livro&nbsp;<i>A culin\u00e1ria caipira da Paulist\u00e2nia<\/i>, diz que h\u00e1 uma &#8220;perspectiva colonialista&#8221; na fala do representante dos supermercados, que aponta apenas o macarr\u00e3o como substituto do arroz. Ele lembra que o Brasil tem alternativas de qualidade nutricional e sabor.<\/p>\n<p>&#8220;Ao arroz n\u00e3o se contrap\u00f5e apenas o macarr\u00e3o, mas tamb\u00e9m a outros carboidratos, como farinha de milho, farinha de mandioca, o cuscuz \u2014 importante na alimenta\u00e7\u00e3o brasileira de norte a sul.&#8221;<\/p>\n<p>O&nbsp;<i>Guia alimentar para a popula\u00e7\u00e3o brasileira<\/i>, do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, aponta que o arroz \u00e9 o principal representante do grupo dos cereais no Brasil e que o consumo mais frequente \u00e9 na mistura com o feij\u00e3o. No grupo dos cereais, tamb\u00e9m est\u00e3o milho (incluindo gr\u00e3os e farinha) e trigo (incluindo gr\u00e3os, farinha, macarr\u00e3o e p\u00e3es), al\u00e9m de aveia e centeio.<\/p>\n<p>Por que, ent\u00e3o, mencionar apenas o macarr\u00e3o? D\u00f3ria diz que \u00e9 a &#8220;l\u00f3gica do supermercado&#8221;: o macarr\u00e3o \u00e9 mais padronizado e tem v\u00e1rias faixas de pre\u00e7os, enquanto solu\u00e7\u00f5es mais regionais est\u00e3o ligadas principalmente \u00e0 agricultura familiar ou pequenas ind\u00fastrias locais.<\/p>\n<p>Raquel Botelho diz que, analisando puramente os macronutrientes, o macarr\u00e3o \u00e9, sim, substituto do arroz, mas desencoraja a substitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Em termos de calorias, se for arroz puro e macarr\u00e3o puro, n\u00e3o faz diferen\u00e7a. S\u00e3o parecidos. Mas a gente n\u00e3o come puro \u2014 e sim alho e \u00f3leo, molho de tomate, molho branco. Dependendo de como combinar, tem um adicional de calorias.&#8221;<\/p>\n<p>J\u00e1 o valor do arroz, ela diz, est\u00e1 exatamente na popular combina\u00e7\u00e3o com o feij\u00e3o. Por isso, ela diz, deve-se encorajar a popula\u00e7\u00e3o a consumir arroz com feij\u00e3o, que \u00e9 &#8220;marcador de identidade no Brasil&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;A combina\u00e7\u00e3o arroz com feij\u00e3o \u00e9 muito feliz porque o arroz tem amino\u00e1cido que o feij\u00e3o n\u00e3o tem e vice-versa. Eles se completam. Por isso que, como nutricionistas, encorajamos o consumo, principalmente em popula\u00e7\u00f5es que n\u00e3o consomem tanta prote\u00edna animal. \u00c9 uma forma de garantir minimamente o aporte desses amino\u00e1cidos.&#8221;<\/p>\n<p>Ela destaca que o feij\u00e3o \u00e9 fonte de ferro e de fibra, especialmente importante numa popula\u00e7\u00e3o que come cada vez menos frutas e vegetais.<\/p>\n<p>&#8220;Tirando o arroz com feij\u00e3o, voc\u00ea tira quantidade de fibra da dieta do brasileiro.&#8221;<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o pode comer macarr\u00e3o com feij\u00e3o?<\/p>\n<p>Pode. Raquel Botelho diz, no entanto, que a combina\u00e7\u00e3o s\u00f3 dos dois n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o comum no Brasil quanto o arroz com feij\u00e3o.<\/p>\n<p>D\u00f3ria lembra da popular pasta e fagioli na It\u00e1lia, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de sopa de feij\u00e3o com macarr\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Quando as pessoas falam que n\u00e3o combina, h\u00e1 primeiro um vi\u00e9s elitista e segundo um desconhecimento, porque uma das coisas mais populares no Brasil \u00e9 o arroz, feij\u00e3o e macarr\u00e3o, juntos no mesmo prato.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">4. Sensibilidade ao gl\u00faten<\/h2>\n<p>Outro fator importante apontado pela nutricionista \u00e9 que o macarr\u00e3o cont\u00e9m gl\u00faten.<\/p>\n<p>Como a estimativa \u00e9 de que 10% da popula\u00e7\u00e3o seja sens\u00edvel ao gl\u00faten, segundo ela, o macarr\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o para essas pessoas. Esse percentual inclui cel\u00edacos, al\u00e9rgicos e pessoas com sensibilidade ao gl\u00faten.<\/p>\n<p>&#8220;A alternativa seria o macarr\u00e3o de&#8230; arroz&#8221;, diz.<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: La\u00eds Alegretti d<\/span><span class=\"byline__title\">a BBC News Brasil em Londres &#8211; dispon\u00edvel&nbsp; na internet 11\/09\/2020<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de se reunir com o presidente Jair Bolsonaro, o presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Supermercados (Abras), Jo\u00e3o Sanzovo Neto, defendeu a substitui\u00e7\u00e3o do consumo de arroz por macarr\u00e3o. &#8220;Vamos estar promovendo o consumo de massa, macarr\u00e3o, que \u00e9 o substituto do arroz. E vamos orientar o consumidor que n\u00e3o estoque&#8221;, disse. 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