{"id":52589,"date":"2020-09-14T02:31:06","date_gmt":"2020-09-14T05:31:06","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=52589"},"modified":"2020-09-13T17:40:34","modified_gmt":"2020-09-13T20:40:34","slug":"dois-pesos-e-duas-medidas-por-que-temer-depos-por-escrito-e-bolsonaro-tera-de-ir-em-pessoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/09\/14\/dois-pesos-e-duas-medidas-por-que-temer-depos-por-escrito-e-bolsonaro-tera-de-ir-em-pessoa\/","title":{"rendered":"Dois pesos e duas medidas? Por que Temer dep\u00f4s por escrito e Bolsonaro ter\u00e1 de ir em pessoa"},"content":{"rendered":"<div class=\"story-body__inner\">\n<p class=\"story-body__introduction\">Na manh\u00e3 desta sexta-feira (11\/9), o Supremo Tribunal Federal (STF) divulgou decis\u00e3o do ministro Celso de Mello determinando que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) compare\u00e7a em pessoa para prestar depoimento em um inqu\u00e9rito que tramita na Corte.<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o apura as acusa\u00e7\u00f5es do ex-ministro da Justi\u00e7a Sergio Moro, segundo quem Bolsonaro teria tentado intervir na Pol\u00edcia Federal para proteger seus familiares e aliados de investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o de Celso de Mello irritou os apoiadores de Bolsonaro.<\/p>\n<p>V\u00e1rios deles lembraram que, em 2017, o mesmo STF permitiu ao ent\u00e3o presidente Michel Temer (MDB) prestar depoimento por escrito em um dos v\u00e1rios dos inqu\u00e9ritos contra si \u2014 naquele caso, a apura\u00e7\u00e3o era sobre suspeitas de corrup\u00e7\u00e3o no setor portu\u00e1rio.<\/p>\n<p>Se foi assim com o ex-presidente Temer, por que Bolsonaro n\u00e3o poderia agora se beneficiar da mesma regra e tamb\u00e9m prestar depoimento por escrito?<\/p>\n<div class=\"social-embed\">\n<div class=\"social-embed-post social-embed-fallbacktwitter embed-image-wrap\">\n<figure class=\"media-landscape full-width embed-screenshot-js\">\n<p><figure style=\"width: 465px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/485\/socialembed\/https:\/\/twitter.com\/JanainaDoBrasil\/status\/1304444852831166465~\/portuguese\/brasil-54125543\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/485\/socialembed\/https:\/\/twitter.com\/JanainaDoBrasil\/status\/1304444852831166465~\/portuguese\/brasil-54125543\" alt=\"Twitter post de @JanainaDoBrasil: Respeitosamente, eu queria entender por qual raz\u00e3o o ex-presidente Michel Temer, que chegou a ser, inclusive, indiciado e denunciado, teve a prerrogativa de depor por escrito e Bolsonaro n\u00e3o!?\" width=\"465\" height=\"265\" data-highest-encountered-width=\"485\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Direitos da imagem @JanainaDoBrasil@JANAINADOBRASIL<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Segundo advogados criminalistas ouvidos pela BBC News Brasil, a regra sempre foi o depoimento presencial dos investigados \u2014 inclusive Presidentes da Rep\u00fablica. Em 2017, Fachin abriu uma exce\u00e7\u00e3o para Michel Temer.<\/p>\n<p>Ele deixou o emedebista responder \u00e0s perguntas por escrito porque nem o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e nem os outros investigados no processo tinham interesse em que o depoimento fosse presencial.<\/p>\n<p>J\u00e1 no caso de Bolsonaro, Celso de Mello entendeu que era importante dar aos advogados de Sergio Moro o direito de questionar o presidente \u2014 o ex-juiz da Lava Jato tamb\u00e9m \u00e9 investigado no inqu\u00e9rito.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o a Bolsonaro, o Minist\u00e9rio P\u00fablico tamb\u00e9m tinha concordado com o depoimento por escrito: o procurador-geral da Rep\u00fablica, Augusto Aras, defendeu o direito de Bolsonaro de prestar depoimento por escrito, o que n\u00e3o dever\u00e1 acontecer.<\/p>\n<p>Agora, cabe \u00e0 Pol\u00edcia Federal determinar a data, hor\u00e1rio e local do depoimento do Presidente da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Na condi\u00e7\u00e3o de investigado, Bolsonaro tem o direito de permanecer calado. Como o inqu\u00e9rito no STF \u00e9 p\u00fablico, \u00e9 prov\u00e1vel que o depoimento do presidente tamb\u00e9m seja divulgado.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Interpreta\u00e7\u00e3o do STF segue a mesma, diz criminalista<\/h2>\n<p>A rigor, o entendimento do STF segue o mesmo pelo menos desde o ano 2000.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o acho que houve uma mudan\u00e7a de entendimento (do STF), e vou explicar o porqu\u00ea. O C\u00f3digo de Processo Penal \u00e9 muito claro em facultar para algumas autoridades, de alto escal\u00e3o, a possibilidade de, na condi\u00e7\u00e3o de testemunhas, prestarem depoimento por escrito. \u00c9 uma op\u00e7\u00e3o dada a elas&#8221;, diz o advogado criminalista e professor Fernando Castelo Branco.<\/p>\n<p>&#8220;Tanto Michel Temer (em 2017) quanto Bolsonaro n\u00e3o est\u00e3o na condi\u00e7\u00e3o de testemunhas. Mas por que ent\u00e3o o Michel p\u00f4de prestar por escrito naquele momento? Na \u00e9poca, o ministro Fachin reconheceu a reconheceu a vig\u00eancia e deu validade ao que disp\u00f5e o C\u00f3digo de Processo Penal&#8221;, diz ele.<\/p>\n<p>&#8220;Mas, como o Minist\u00e9rio P\u00fablico n\u00e3o se op\u00f4s, e ningu\u00e9m se op\u00f4s naquele momento a que ele (Temer) prestasse o seu depoimento por escrito, ele (Fachin) excepcionalmente autorizou isso&#8221;, diz Castelo Branco, que \u00e9 professor de processo penal no curso de Direito da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC-SP).<\/p>\n<p>No despacho sobre Temer, Fachin cita uma decis\u00e3o anterior do pr\u00f3prio Celso de Mello \u2014 do ano de 2000 \u2014 para reafirmar o entendimento de que apenas testemunhas t\u00eam direito a responder por escrito.<\/p>\n<p>&#8220;No que pertine \u00e0 oitiva do Presidente da Rep\u00fablica, Michel Miguel Elias Temer Lulia, sabido que, no entendimento do Supremo Tribunal Federal, &#8216;a exce\u00e7\u00e3o estabelecida para testemunhas n\u00e3o se estende nem a investigado nem a r\u00e9u, os quais, independentemente da posi\u00e7\u00e3o funcional que ocupem, dever\u00e3o comparecer, perante a autoridade competente, em dia, hora e local por esta unilateralmente designados'&#8221;, escreveu Fachin na ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o existe nenhuma prerrogativa do Presidente da Rep\u00fablica que autorize que ele seja ouvido por escrito. Ele det\u00e9m essa prerrogativa caso seja testemunha em algum caso. O que n\u00e3o \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o em tela, nem do Temer e nem do Bolsonaro&#8221;, refor\u00e7a a advogada criminalista Fernanda de Almeida Carneiro.<\/p>\n<p>Na decis\u00e3o sobre Bolsonaro, Celso de Mello frisou a necessidade de preservar o direito do outro investigado no inqu\u00e9rito (Sergio Moro) de questionar o presidente da Rep\u00fablica sobre o assunto.<\/p>\n<p>&#8220;O Senhor Presidente da Rep\u00fablica, por ostentar a condi\u00e7\u00e3o de investigado, n\u00e3o disp\u00f5e de qualquer das prerrogativas (pr\u00f3prias e exclusivas de quem apenas figure como testemunha ou v\u00edtima) a que se refere o art. 221 (do C\u00f3digo de Processo Penal), a significar que a inquiri\u00e7\u00e3o do Chefe de Estado, no caso ora em exame, dever\u00e1 observar o procedimento normal de interrogat\u00f3rio&#8221;, escreveu Celso de Mello na&nbsp;decis\u00e3o&nbsp;sobre Bolsonaro.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Regra deveria garantir direitos do investigado, diz criminalista<\/h2>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o do STF foi necess\u00e1ria porque o C\u00f3digo de Processo Penal (CPP) permite a algumas autoridades prestar depoimento por escrito quando forem testemunhas.<\/p>\n<p>Mas o CPP n\u00e3o traz uma regra expl\u00edcita para o caso dessas autoridades serem investigadas. E nem todos os advogados criminalistas ouvidos pela BBC News Brasil concordam com essa interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 preciso olhar de forma ampliativa as garantias dos investigados, e n\u00e3o de forma restritiva. Significa que, especialmente quando h\u00e1 prerrogativas funcionais (decorrentes do cargo), n\u00e3o se pode restringir as garantias do investigado. Deve-se ampli\u00e1-las, porque esse \u00e9 o esp\u00edrito do texto constitucional&#8221;, diz o advogado criminalista Thiago Turbay, s\u00f3cio do escrit\u00f3rio Turbay Boaventura Advogados.<\/p>\n<p>&#8220;L\u00e1 (no C\u00f3digo de Processo Penal) h\u00e1 a men\u00e7\u00e3o \u00e0 palavrinha &#8216;inquiri\u00e7\u00e3o&#8217; (depoimento). O texto n\u00e3o discriminou se seria na qualidade de investigado ou n\u00e3o. E quando est\u00e1 na qualidade de investigado, a\u00ed sim que tem que haver mais garantias ainda&#8221;, diz Turbay.<\/p>\n<p>&#8220;Mas tem mais coisas. O Regimento Interno do STF e a Lei 8.038 (de 1990, que determina normas para investiga\u00e7\u00f5es no STJ e no STF) tamb\u00e9m trazem essa prerrogativa relacionada \u00e0 inquiri\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, se temos essas normas dizendo que a inquiri\u00e7\u00e3o policial deve ser organizada de forma a ampliar garantias (&#8230;), eu n\u00e3o posso interpretar isso de forma restritiva&#8221;, complementa Turbay.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Do que Bolsonaro \u00e9 acusado?<\/h2>\n<p>Sergio Moro \u2014 que tamb\u00e9m \u00e9 investigado no inqu\u00e9rito \u2014 j\u00e1 prestou depoimento \u00e0 Pol\u00edcia Federal.<\/p>\n<p>Ele falou \u00e0 PF durante quase nove horas seguidas na Superintend\u00eancia da corpora\u00e7\u00e3o em Curitiba (PR), em maio deste ano.<\/p>\n<p>Ao deixar o cargo de ministro da Justi\u00e7a, Moro acusou Bolsonaro de querer remover do cargo o ex-diretor-geral da Pol\u00edcia Federal Maur\u00edcio Valeixo para proteger seus familiares e aliados de investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Bolsonaro nega que fosse essa a inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em seu discurso de despedida do governo, Moro disse que o presidente reclamou mais de uma vez sobre a necessidade de ter algu\u00e9m no comando da PF que lhe passasse&nbsp;informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;O presidente me disse, mais de uma vez, que ele queria ter uma pessoa do contato dele que ele pudesse ligar, que ele pudesse colher informa\u00e7\u00f5es, colher relat\u00f3rios de intelig\u00eancia&#8221;, disse Moro \u00e0 \u00e9poca, ponderando que n\u00e3o \u00e9 apropriado que o Presidente da Rep\u00fablica tenha acesso direto a esse tipo de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No mesmo dia em que pediu demiss\u00e3o, Moro encaminhou ao Jornal Nacional, da TV Globo, trechos de uma conversa dele com Bolsonaro em um aplicativo de mensagens. Na imagem, o presidente envia um link de uma reportagem segundo a qual a PF est\u00e1 &#8220;na cola&#8221; de 10 a 12 deputados bolsonaristas.<\/p>\n<p>&#8220;Mais um motivo para a troca&#8221;, disse Bolsonaro, se referindo \u00e0 mudan\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Logo depois do discurso de despedida de Moro, Jair Bolsonaro fez um&nbsp;pronunciamento&nbsp;no Pal\u00e1cio do Planalto para rebater as acusa\u00e7\u00f5es formuladas pelo ex-ministro.<\/p>\n<p>Em seu discurso, Bolsonaro reafirmou que queria trocar o comando da Pol\u00edcia Federal, mas disse que as mudan\u00e7as eram necess\u00e1rias por que a PF o estaria deixando mal informado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o presidente disse temer pela seguran\u00e7a de seus familiares.<\/p>\n<p>Sob Sergio Moro, a Policia Federal tamb\u00e9m teria negligenciado as investiga\u00e7\u00f5es a respeito do atentado a faca sofrido por ele em Juiz de Fora (MG), durante a campanha eleitoral.<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Andr\u00e9 Shalders d<\/span><span class=\"byline__title\">a BBC News Brasil &#8211; dispon\u00edvel na internet 14\/09\/2020<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na manh\u00e3 desta sexta-feira (11\/9), o Supremo Tribunal Federal (STF) divulgou decis\u00e3o do ministro Celso de Mello determinando que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) compare\u00e7a em pessoa para prestar depoimento em um inqu\u00e9rito que tramita na Corte. 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