{"id":55310,"date":"2020-11-20T03:15:05","date_gmt":"2020-11-20T06:15:05","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=55310"},"modified":"2020-11-19T19:25:17","modified_gmt":"2020-11-19T22:25:17","slug":"dia-da-consciencia-negra-quem-foi-luiz-gama-figura-chave-no-movimento-abolicionista-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/11\/20\/dia-da-consciencia-negra-quem-foi-luiz-gama-figura-chave-no-movimento-abolicionista-brasileiro\/","title":{"rendered":"Dia da Consci\u00eancia Negra: quem foi Luiz Gama, figura-chave no movimento abolicionista brasileiro"},"content":{"rendered":"<div class=\"e1j2237y2 css-1btxek-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<div class=\"css-s561j-Container e1c9i7u10\">\n<p><b>Faz 25 anos que a pesquisadora Ligia Fonseca Ferreira estuda a vida e a obra de uma figura singular da hist\u00f3ria brasileira: o abolicionista Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830-1882). Ela debru\u00e7ou-se sobre o personagem para sua tese de doutorado, iniciada em 1995 e conclu\u00edda no ano 2000 na Universidade Sorbonne Nouvelle \u2014 Paris III. E descobriu um personagem muito mais din\u00e2mico do que as poucas linhas que a historiografia consagrada lhe reservou.<\/b><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\">Se nos \u00faltimos anos, o abolicionista vem sendo reconhecido como verdadeiro advogado \u2014 autodidata, soube utilizar as leis vigentes para conseguir, pela justi\u00e7a, alforriar centenas de escravos \u2014 e figura-chave no movimento abolicionista brasileiro, Ferreira foi al\u00e9m. Professora de Letras da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), ela atentou para os talentos liter\u00e1rios e jornal\u00edsticos de Luiz Gama.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\">Apenas 12 anos depois de ter aprendido a ler, Gama publicou, em 1859, seu \u00fanico livro,&nbsp;<i class=\"css-h1y5j7 ewc4zcb0\">Primeiras Trovas Burlescas<\/i>. Foi ass\u00edduo colaborador de jornais da \u00e9poca, tendo escrito centenas de artigos para publica\u00e7\u00f5es tanto de S\u00e3o Paulo, onde morava, quanto do Rio, a capital federal de ent\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\">Nascido em Salvador, Gama era filho de uma escrava liberta com um descendente de portugueses. Quando ele tinha 10 anos, seu pr\u00f3prio pai o vendeu como escravo. Ent\u00e3o ele foi mandado para S\u00e3o Paulo. Conseguiu a alforria aos 17 anos, ainda analfabeto. Sem nunca ter tido aulas formais mas, provavelmente, frequentando a biblioteca da Faculdade de Direito do Largo S\u00e3o Francisco, tornou-se um estudioso das letras.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\">&#8220;Para a grandiosidade de Luiz Gama, o negro, o libertador de escravos, o uso da palavra \u00e9 uma coisa que nem era inesperada. Ele se colocou nesse lugar da produ\u00e7\u00e3o, na literatura e no jornalismo, depois na advocacia. S\u00e3o \u00e1reas que, sem o dom\u00ednio da palavra escrita, ele n\u00e3o podia nem ser nem se definir&#8221;, afirma a pesquisadora.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-1fct1nm-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<div class=\"css-jlgj5 ebqhneu0\">\n<section class=\" css-yr6hg1 e82toqd0\" role=\"region\" data-e2e=\"recommendations-heading\" aria-labelledby=\"recommendations-heading\">\n<div class=\"css-79elbk emhm4kg0\">Depois de organizar a edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da obra po\u00e9tica integral do autor \u2014 publicada pela editora Martins Fontes, no ano 2000 \u2014 e de publicar a antologia <i class=\"css-h1y5j7 ewc4zcb0\">Com a Palavra, Luiz Gama: Poemas, Artigos, Cartas, M\u00e1xim<\/i><i class=\"css-h1y5j7 ewc4zcb0\">as<\/i>&nbsp;\u2014 pela Imprensa Oficial, em 2011 \u2014, Ferreira est\u00e1 lan\u00e7ando&nbsp;<i class=\"css-h1y5j7 ewc4zcb0\">Li\u00e7\u00f5es de Resist\u00eancia: Artigos de Luiz Gama na Imprensa de S\u00e3o Paulo e do Rio de Janeiro, 1864-1880<\/i>, pela Edi\u00e7\u00f5es do Sesc. A obra, que traz 61 artigos escritos pelo abolicionista, \u00e9 fruto de um trabalho de pesquisa e sele\u00e7\u00e3o de tr\u00eas anos.<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\">Para ela, reconhecer o Gama escritor \u00e9 fundamental para que sua biografia n\u00e3o seja reduzida a &#8220;um relato chapado, a umas poucas linhas na hist\u00f3ria do abolicionismo&#8221;. &#8220;Ele \u00e9 dono de uma escrita bastante complexa, poderosa, liter\u00e1ria. Naquele momento, a imagem precisava ser constru\u00edda com a palavra e ele era o homem da imagem. Escrevia assumindo o foco narrativo, como se tivesse uma c\u00e2mera&#8221;, afirma.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\">Um dos trechos que ele usa para destacar o estilo est\u00e1 no texto Emancipa\u00e7\u00e3o, publicado pela Gazeta do Povo em 1\u00ba de dezembro de 1880. &#8220;Em n\u00f3s, at\u00e9 a cor \u00e9 um defeito, um v\u00edcio imperdo\u00e1vel de origem, o estigma de um crime; e v\u00e3o ao ponto de esquecer que esta cor \u00e9 a origem da riqueza de milhares de salteadores, que nos insultam ; que esta cor convencional da escravid\u00e3o, (&#8230;) \u00e0 semelhan\u00e7a da terra, (a)trav\u00e9s da escura superf\u00edcie, encerra vulc\u00f5es, onde arde o fogo sagrado da liberdade. Vim (lembrar ao) ofensor do cidad\u00e3o Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio por que n\u00f3s, os abolicionistas, animados de uma s\u00f3 cren\u00e7a, dirigidos por uma s\u00f3 ideia, formamos uma s\u00f3 fam\u00edlia, visando um sacrif\u00edcio \u00fanico, cumprimos um s\u00f3 dever.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\"><b>BBC News Brasil: Por que at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s Luiz Gama mal era citado como um dos abolicionistas?<\/b><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\"><b>Ligia Fonseca Ferreira:&nbsp;<\/b>Voc\u00ea sabia que (o abolicionista) Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio (1853-1905) era negro? Talvez nos livros did\u00e1ticos, quando se ensinava aboli\u00e7\u00e3o, isso nem se falava\u2026<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\"><b>BBC News Brasil: Sinceramente, n\u00e3o sei precisar se j\u00e1 tinha essa consci\u00eancia ou se foi uma mem\u00f3ria constru\u00edda depois, j\u00e1 adulto\u2026 Mas por que Luiz Gama foi deixado de lado?<\/b><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\"><b>Ferreira:&nbsp;<\/b>Ele era lembrado como o abolicionista Luiz Gama, tinha l\u00e1 uma est\u00e1tua de bronze. Mas realmente sua personalidade est\u00e1 sendo trazida agora, por isso meu prop\u00f3sito em identificar a grandeza de sua obra. N\u00e3o temos a obra jornal\u00edstica de Joaquim Nabuco, de Jos\u00e9 de Alencar, do pr\u00f3prio Machado de Assis? Luiz Gama n\u00e3o foi coisa pouca. Havia uma lei de 1837 que proibia negros de irem \u00e0 escola. Ent\u00e3o o fato de ele escrever e optar por isso, ele deve ter sido um superdotado. Depois, ao escrever nos jornais onde estavam os homens brancos letrados, ele passou a ocupar uma inst\u00e2ncia de poder.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\">Esta sua pergunta eu tamb\u00e9m me fiz: por que Luiz Gama n\u00e3o est\u00e1 mais presente na hist\u00f3ria do abolicionismo? Porque a hist\u00f3ria da aboli\u00e7\u00e3o, como nos chegou e foi perpetuada, bem, eu tenho algumas hip\u00f3teses. Ela foi contada pela Rep\u00fablica, que Luiz Gama n\u00e3o viu (ele morreu sete anos antes da Proclama\u00e7\u00e3o). E era uma Rep\u00fablica madrasta, que queria apagar logo essa coisa da escravid\u00e3o. Mas isso em um per\u00edodo de cren\u00e7as, de preconceito, de acreditar que a &#8220;ra\u00e7a negra&#8221; era inferior, isso de modo sistematizado e com ares cient\u00edficos.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\">O pr\u00f3prio Luiz Gama brinca com isso em um versinho, no qual ele dizia &#8220;ci\u00eancias e letras n\u00e3o s\u00e3o para ti; pretinho da costa n\u00e3o \u00e9 gente aqui&#8221;. Luiz Gama era o contr\u00e1rio de tudo aquilo, ele era o negro que escrevia, o negro que lia. Ele era praticamente uma contradi\u00e7\u00e3o. Numa rep\u00fablica de \u00edmpeto embranquecedor, a hist\u00f3ria foi contada tendo as grandes fam\u00edlias, as fam\u00edlias poderosas (nos pap\u00e9is principais).<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hxtc46-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<figure class=\"css-m91nxa-Figure e6bmn90\">\n<div class=\"css-2d6yrt-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<div class=\"css-2d6yrt-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<div class=\"css-eytg6c-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<div class=\"css-oijotl-ImagePlaceholder e1whu0\">\n<div class=\"lazyload-wrapper\">\n<figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"css-1vsigzm-StyledImg-fadeIn e1enwo3v0\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/11529\/production\/_115535907_ligiaferreira08.jpg?resize=696%2C305&#038;ssl=1\" alt=\"Ligia Fonseca Ferreira\" width=\"696\" height=\"305\"><figcaption class=\"wp-caption-text\">Ferreira est\u00e1 lan\u00e7ando &#8220;Li\u00e7\u00f5es de Resist\u00eancia: Artigos de Luiz Gama na Imprensa de S\u00e3o Paulo e do Rio de Janeiro, 1864-1880&#8221;, pela Edi\u00e7\u00f5es do Sesc.@EDITORA SESC\/ DIVULGA\u00c7\u00c3O<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\"><b>BBC News Brasil: Mas como se deu o resgate de Luiz Gama, essa figura um tanto esquecida, sobre quem pouco se falava at\u00e9 duas d\u00e9cadas atr\u00e1s?<\/b><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\"><b>Ferreira:&nbsp;<\/b>Esse resgate tem a ver com alguns trabalhos no campo da hist\u00f3ria e, sou obrigada a falar, tamb\u00e9m por causa das minhas pesquisas. Luiz Gama foi ganhando as dimens\u00f5es \u00e0 medida que vamos conhecendo sua obra. Ele foi um int\u00e9rprete do Brasil.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\"><b>BBC News Brasil: No sentido do pensamento de Luiz Gama, o que os artigos do seu novo livro revelam de novo, al\u00e9m do que tem sido destacado nos \u00faltimos anos?<\/b><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\"><b>Ferreira:&nbsp;<\/b>Ele j\u00e1 foi reconhecido como advogado, como abolicionista\u2026 Eu, por uma deforma\u00e7\u00e3o profissional, quero mostrar o Luiz Gama homem da palavra escrita. Quero mostrar a figura do jornalista que teve grande audi\u00eancia, grande influ\u00eancia, que escrevia nos principais jornais, criava pol\u00eamicas incr\u00edveis, denunciava, usava da for\u00e7a da liberdade de imprensa para se expressar como voz negra daquele momento.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\">Quem voc\u00ea colocaria no mesmo p\u00e9 na hist\u00f3ria da imprensa? Quem conhecemos? N\u00e3o s\u00e3o as cr\u00f4nicas do dia a dia de Machado de Assis. \u00c9 diferente. Hoje voc\u00ea percebe que \u00e9 preciso &#8220;provar&#8221; que o Machado era negro e se interessou pela aboli\u00e7\u00e3o. Eu diria para voc\u00ea que Luiz Gama n\u00e3o renegou em nenhum momento sua carapinha, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que era um homem negro, n\u00e3o precisamos fazer campanha para enegrecer Luiz Gama como foi feito para o Machado.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\">Ele estava l\u00e1, dizendo: &#8220;quero que o mundo me encarando veja um retumbante Orfeu de carapinha&#8221;. A\u00ed voc\u00ea vai ler os artigos e ele diz que todo mundo sabe de seu passado, que &#8220;eu ombreio com os infelizes&#8221;, porque ele j\u00e1 tinha sido escravizado. E ele vai dizendo isso de v\u00e1rias formas.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\">Luiz Gama tinha uma escrita que merece ser destacada. E ele n\u00e3o era um ativista que ia simplesmente denunciando. Era um formador de opini\u00e3o com intelig\u00eancia. Ele argumentava, coisa que no Brasil de hoje est\u00e1 muito dif\u00edcil, n\u00e9? Em seus textos, existe um di\u00e1logo cr\u00edtico instaurado.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\"><b>BBC News Brasil: De certa forma, percebe-se um racioc\u00ednio de jurista, n\u00e3o?<\/b><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\"><b>Ferreira:&nbsp;<\/b>Mas ele levava a p\u00fablico, dizia que &#8220;o Brasil tem de saber&#8221;. Por isso ele trazia para a imprensa. Fazia todo um arrazoado, comentava, desconstru\u00eda. Dizia que tinha de mostrar &#8220;o modo extravagante como se administra a justi\u00e7a no Brasil&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\">Acho que essa frase do Luiz Gama poderia valer para hoje, para os \u00faltimos tempos, para os dias de hoje. Mas ele era um homem da comunica\u00e7\u00e3o. Mais do que, digamos, s\u00f3 abolicionista. Luiz Gama foi um homem que preencheu uma cena, um momento, um lugar de ideias em S\u00e3o Paulo. E fez isso de maneira bastante intensa.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\"><b>BBC News Brasil: Em artigo publicado no Correio Paulistano em novembro de 1871, ele escreveu: &#8220;Se algum dia (&#8230;) os respeit\u00e1veis ju\u00edzes do Brasil, esquecidos do respeito que devem \u00e0 lei, e dos imprescind\u00edveis deveres, que contra\u00edram perante a moral e a na\u00e7\u00e3o, corrompidos pela venalidade ou pela a\u00e7\u00e3o delet\u00e9ria do poder, abandonando a causa sacrossanta do direito, e, por uma inexplic\u00e1vel aberra\u00e7\u00e3o, faltarem com a devida justi\u00e7a aos infelizes que sofrem escravid\u00e3o ind\u00e9bita, eu, por minha pr\u00f3pria conta, sem impetrar o aux\u00edlio de pessoa alguma, e sob minha \u00fanica responsabilidade, aconselharei e promoverei, n\u00e3o a insurrei\u00e7\u00e3o, que \u00e9 um crime, mas a &#8216;resist\u00eancia&#8217;, que \u00e9 uma virtude c\u00edvica (\u2026).&#8221; Juntando-se a isso o fato de que ele conseguia alforriar escravos por meio da esfera judicial, podemos inferir que Luiz Gama defendia uma aboli\u00e7\u00e3o que seria feita com respeito \u00e0s leis? Ele era um legalista?<\/b><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\"><b>Ferreira:&nbsp;<\/b>Legalista em defesa dos escravos. Uma coisa que ele fez foi desenterrar a bendita lei de 1831 (Lei Feij\u00f3, que proibia a importa\u00e7\u00e3o de escravos para o Brasil), colocando na cabe\u00e7a dos outros. Ele era um defensor dos direitos. Dizia &#8220;n\u00f3s temos leis&#8221;. Pedia que as leis existentes fossem aplicadas.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\">Ent\u00e3o ele puxava as leis e pegava no p\u00e9 dos ju\u00edzes, lembrando que ele mesmo era filho de uma africana, que ele mesmo tinha sido escravizado. Ele sabia o que era ser africano. O que era ser escravo. Ele mexeu no vespeiro. Calculou que de 1831 at\u00e9 o fim da d\u00e9cada de 1870, entraram no Brasil contrabandeados quase 750 mil africanos.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\"><b>BBC News Brasil: Mas ele acreditava que a aboli\u00e7\u00e3o viria somente do cumprimento dessas leis?<\/b><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\"><b>Ferreira:<\/b>&nbsp;N\u00e3o. Para ele, a escravid\u00e3o teria de se encerrar. Ele era pela aboli\u00e7\u00e3o, era abolicionista radical.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\"><b>BBC News Brasil: Gama tamb\u00e9m era republicano, em um texto chega a chamar o governo de dom Pedro 2\u00ba de &#8220;imoral&#8221;. Como imaginava que seria feita a Rep\u00fablica? O que ele pensava de um Brasil republicano?<\/b><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\"><b>Ferreira:&nbsp;<\/b>Ele n\u00e3o falava de programas ou de um programa republicano. Mas Luiz Gama n\u00e3o se chamava de s\u00fadito, e sim de cidad\u00e3o. Naquele momento, isso era como dizer &#8220;eu sou democrata&#8221;. Ele afirmava uma identidade pol\u00edtica: sou cidad\u00e3o, n\u00e3o sou s\u00fadito de ningu\u00e9m. E aquelas frases c\u00e9lebres: tenho um sonho sublime, um Brasil sem reis e sem escravos. Para o grupo dele, ter um monarca era outro tipo de escravid\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\">Ele acreditava numa rep\u00fablica com aquela tr\u00edade de garantias de igualdade, liberdade e fraternidade. N\u00e3o podemos esquecer que era uma corrente progressista e alinhada aos ideais da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. O programa para a rep\u00fablica estava embutido no fato de eles serem abolicionistas e quererem um pa\u00eds de iguais. Ele tamb\u00e9m falava em um Brasil americano, no modelo dos Estados Unidos. Queria um modelo de rep\u00fablica federativa.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\"><b>BBC News Brasil: De que maneira seus textos ajudam a compreender o Brasil de hoje?<\/b><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\"><b>Ferreira:&nbsp;<\/b>Ele escreveu que &#8220;no Brasil, ladr\u00e3o que muito furta \u00e9 protegido&#8221;. Pega esse Luiz Gama: ele est\u00e1 falando do Brasil de hoje, da rachadinha, parece que est\u00e1 falando dessas figuras presentes aqui. Tem um poema dele, chamado&nbsp;<i class=\"css-h1y5j7 ewc4zcb0\">Quem Sou Eu?<\/i>&nbsp;que \u00e9 uma esp\u00e9cie de retrato, uma fotografia socio-racial do Brasil.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\">Ele antecipa aquilo que anos mais tarde seria o movimento da negritude. Ele mostra que os negros e os afrodescendentes est\u00e3o na sociedade brasileira inteira. Fala das camadas sociais, enfatiza que todos t\u00eam sua afro-ascend\u00eancia. Essa que Machado tentou calar, mas Luiz Gama, n\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\">Ele sempre foi muito espec\u00edfico nessa quest\u00e3o. Nos textos jornal\u00edsticos ele deixava bem claro como era alvo de preconceitos e de racismos. Quando dizia &#8220;em n\u00f3s at\u00e9 a cor \u00e9 um defeito, um v\u00edcio imperdo\u00e1vel de origem&#8221;, estava dizendo como n\u00f3s negros somos v\u00edtimas do racismo. Ele denunciava que esse &#8220;defeito&#8221; inclusive impedia a entrada de negros no exerc\u00edcio de algumas fun\u00e7\u00f5es. Mas uma coisa interessante \u00e9 que Luiz Gama deixava claro que o abolicionismo e o projeto republicano n\u00e3o era um projeto s\u00f3 de negros, exclusivo.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\">E a gente comete alguns equ\u00edvocos quando falamos da luta antirracista: n\u00e3o \u00e9 um problema s\u00f3 nosso, mas uma coisa que precisa ser abra\u00e7ada por negros e brancos, um conjunto de valores e princ\u00edpios que devem ser comungados por todas as pessoas e n\u00e3o apenas por negros.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"css-hl9dz2-GridComponent e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"css-1jxihfd-Paragraph e1c0huex0\">O Brasil precisa redescobrir isso. Luiz Gama interessa ao Brasil. O Brasil precisa saber que n\u00f3s tivemos esse patrim\u00f4nio. Quando eu olho para essa hist\u00f3ria, Luiz Gama \u00e9 o pico mais elevado do s\u00e9culo 19. Ele \u00e9 meu Everest, n\u00e3o d\u00e1 para comparar, n\u00e3o d\u00e1 para dizer que tudo \u00e9 igual.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Edison Veiga\/De Bled (Eslov\u00eania) para a BBC News Brasil. @20\/11\/2020<\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Faz 25 anos que a pesquisadora Ligia Fonseca Ferreira estuda a vida e a obra de uma figura singular da hist\u00f3ria brasileira: o abolicionista Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830-1882). Ela debru\u00e7ou-se sobre o personagem para sua tese de doutorado, iniciada em 1995 e conclu\u00edda no ano 2000 na Universidade Sorbonne Nouvelle \u2014 Paris III. 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