{"id":55781,"date":"2020-12-03T04:00:05","date_gmt":"2020-12-03T07:00:05","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=55781"},"modified":"2020-12-03T05:49:38","modified_gmt":"2020-12-03T08:49:38","slug":"a-meritocracia-e-uma-ilusao-diz-ex-empregada-domestica-que-se-tornou-juiza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2020\/12\/03\/a-meritocracia-e-uma-ilusao-diz-ex-empregada-domestica-que-se-tornou-juiza\/","title":{"rendered":"\u201cA meritocracia \u00e9 uma ilus\u00e3o\u201d, diz ex-empregada dom\u00e9stica que se tornou ju\u00edza"},"content":{"rendered":"<div class=\"m-head-single\">\n<h5 class=\"m-resume-single\"><em><strong>Ant\u00f4nia Marina Faleiros rejeita esse conceito e luta para que outras pessoas n\u00e3o tenham de enfrentar os mesmos obst\u00e1culos que ela superou<\/strong><\/em><\/h5>\n<\/div>\n<div class=\"m-info-post\">\n<div class=\"m-signature\">\n<div class=\"m-author\">&nbsp;<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"m-image-single \">&nbsp;<\/div>\n<div class=\"m-wrapper\">\n<div class=\"columns is-multiline\">\n<div class=\"column is-full\">\n<article class=\"m-content\">No Brasil, h\u00e1 pessoas que morrem sem nunca terem tido um registro de nascimento. Ant\u00f4nia Marina Faleiros, 57 anos, escapou de ser uma delas, mas v\u00ea exemplos todos os dias. Conviveu com essa realidade quando trabalhava em um canavial, aos 12 anos, em Minas Gerais, e tamb\u00e9m ao se tornar ju\u00edza em comarcas do interior da Bahia, aos 40.<\/p>\n<div class=\"m-banner-wrap m-banner-rectangle m-publicity-content-middle\">\n<div id=\"div-gpt-ad-brasil-quadrado-1\" class=\"ad-quadrado ad-quadrado-1\" data-google-query-id=\"CPG8hau1se0CFbUHuQYdwdoIcA\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/123935210\/brasil-quadrado-1_0__container__\">&nbsp;<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>\u201cComo ju\u00edza, reconheci um misto de mis\u00e9ria e exclus\u00e3o que eu j\u00e1 tinha vivido. Algumas pessoas passam toda uma vida sem acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade, muitas delas nunca tiveram um documento para reafirmar sua exist\u00eancia. N\u00e3o julgo papel, eu julgo gente como eu\u201d, relata.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia Marina Faleiros \u00e9 uma das poucas mulheres autodeclaradas negras que comp\u00f5em o quadro de ju\u00edzes no Brasil. Segundo levantamento do&nbsp;Conselho Nacional de Justi\u00e7a (CNJ), h\u00e1 apenas 6% de mulheres pretas ou pardas na magistratura. O&nbsp;\u00f3rg\u00e3o&nbsp;tamb\u00e9m projeta que a equidade racial no exerc\u00edcio da atividade jurisdicional brasileira s\u00f3 ser\u00e1 alcan\u00e7ada no ano de 2044.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1500804\" class=\"wp-caption aligncenter m-img-wrap\" aria-describedby=\"caption-attachment-1500804\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1500804\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/uploads.metropoles.com\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/01185248\/antonia1-1.jpg?resize=533%2C362&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 533px) 100vw, 533px\" srcset=\"https:\/\/uploads.metropoles.com\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/01185248\/antonia1-1.jpg 533w, https:\/\/uploads.metropoles.com\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/01185248\/antonia1-1-300x204.jpg 300w, https:\/\/uploads.metropoles.com\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/01185248\/antonia1-1-70x47.jpg 70w\" alt=\"\" width=\"533\" height=\"362\" data-description=\"\" data-pin=\"pinIt\"><figcaption id=\"caption-attachment-1500804\" class=\"wp-caption-text\">Fotos de Ant\u00f4nia com os pais: m\u00e3e ensinou sobre desigualdade<\/figcaption><\/figure>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, a presen\u00e7a de Ant\u00f4nia, muitas vezes, surpreende. \u201cAt\u00e9 hoje tem gente que olha para mim e diz: \u2018Dona, cad\u00ea a ju\u00edza?\u2019. O racismo de cada dia \u00e9 sutil em suas pr\u00e1ticas, ele \u00e9 travestido de uma observa\u00e7\u00e3o engra\u00e7adinha, mas que molda todo um pensamento de uma sociedade\u201d, diz.<\/p>\n<p>Ela relata o longo caminho percorrido entre o trabalho infantil, dormir na rua, trabalhar como empregada dom\u00e9stica e, atualmente, ser ju\u00edza no Tribunal de Justi\u00e7a da Bahia (TJBA).<\/p>\n<p>A mais velha entre seis filhos de trabalhadores rurais, no interior de Minas Gerais, Ant\u00f4nia sempre foi vista como uma \u201cmenina esfor\u00e7ada\u201d, que gostava de ler. No acampamento do canavial onde ajudava os pais, ela acendia uma lamparina em uma cabana para ler na escurid\u00e3o.<\/p>\n<div class=\"m-banner-wrap m-banner-rectangle m-publicity-content-middle\">\n<div id=\"div-gpt-ad-brasil-quadrado-3\" class=\"ad-quadrado\" data-google-query-id=\"CJym2bK1se0CFToHuQYdOUcFQA\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/123935210\/brasil-quadrado-3_0__container__\">&nbsp;<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Foi alfabetizada pela pr\u00f3pria m\u00e3e, aos 8 anos. Com 17, mudou-se para Belo Horizonte para ser empregada dom\u00e9stica. L\u00e1, dormiu durante 6 meses em um ponto de \u00f4nibus. \u201cN\u00e3o podia dormir na casa da patroa. Ent\u00e3o dizia para ela que eu morava com uma tia em um bairro distante, e, para minha m\u00e3e, que morava com a patroa. At\u00e9 que uma outra empregadora me estendeu a m\u00e3o\u201d, lembra a ju\u00edza.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia terminou o ensino m\u00e9dio e se tornou oficial de Justi\u00e7a. Para estudar, ela pegava do lixo as folhas descartadas por uma editora de apostilas para preparat\u00f3rios de concursos jur\u00eddicos. Nessa profiss\u00e3o, decidiu que queria ser ju\u00edza e come\u00e7ou a frequentar o curso de direito. Aos 40 anos, passou em concurso do TJBA.<\/p>\n<p>\u201cPrimeiro, eu queria conseguir estudar para comprar um sapato. Depois, meu sonho era conseguir um emprego em que eu trabalhasse na sombra, que n\u00e3o fosse na lavoura. Depois de passar no primeiro concurso, comecei a vislumbrar o n\u00edvel superior\u201d, relata.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia rejeita o t\u00edtulo de \u201cexemplo de meritocracia\u201d. Esse substantivo \u00e9 usado para definir o predom\u00ednio numa sociedade daqueles que t\u00eam mais m\u00e9ritos (os mais trabalhadores, mais dedicados, mais bem-dotados intelectualmente etc.)<\/p>\n<div>\n<div id=\"denakop-ad-0\" data-google-query-id=\"CM_Q9bK1se0CFbEAuQYdyZUDPw\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/21715141650\/desktop_intext_0__container__\">&nbsp;<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Para ela, no Brasil \u00e9 imposs\u00edvel falar em meritocracia, j\u00e1 que nem todos t\u00eam as mesmas oportunidades e um caso individual de sucesso, apesar das adversidades, n\u00e3o pode ser usado como par\u00e2metro.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1500806\" class=\"wp-caption aligncenter m-img-wrap\" aria-describedby=\"caption-attachment-1500806\"><\/figure>\n<p><em><strong>\u201cMeritocracia \u00e9 s\u00f3 uma cortina para encobrir o remorso de quem fecha as portas para os outros. Voc\u00ea fecha as portas e essa pessoa n\u00e3o consegue nada. Ent\u00e3o voc\u00ea diz: \u2018N\u00e3o conseguiu porque n\u00e3o tinha m\u00e9rito\u2019\u201d, diz.<\/strong><\/em><\/p>\n<div>\n<div id=\"denakop-ad-1\" data-google-query-id=\"CJmGsbO1se0CFe8muQYdOBYMQQ\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/21715141650\/desktop_intext_1__container__\">&nbsp;<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Ant\u00f4nia define a meritocracia como uma ilus\u00e3o, uma figura de ret\u00f3rica que n\u00e3o se sustenta. \u201cEu sou exemplo da n\u00e3o meritocracia. Muitos como eu n\u00e3o conseguiram realizar seus sonhos, por diferentes fatores. Nosso horizonte \u00e9 delimitado pelo nosso ponto de observa\u00e7\u00e3o\u201d, descreve.<\/p>\n<blockquote><p><em><strong>\u201cCresci ouvindo que quem tem a cama feita pode ser uma pessoa mais ou menos. Minha m\u00e3e sempre dizia: \u2018Voc\u00eas t\u00eam que ser muito bons no que fazem\u2019. Eu tinha que dar mil quando outros dariam s\u00f3 100. Era uma pessoa semianalfabeta, do interior de Minas, ao modo dela, nos falando sobre desigualdade.\u201d<\/strong><\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>As cotas raciais, por exemplo, s\u00e3o instrumentos para compensar essa desigualdade, ela defende. \u201cEsse discurso liberal de cada um por si \u00e9 perverso e predat\u00f3rio. \u00c9 preciso, para se aferir meritocracia, aferir o ponto de partida de cada competidor. Se partiram do mesmo ponto, a\u00ed podemos falar sobre isso. Se as condi\u00e7\u00f5es foram diferentes, pode-se falar em recompensa pela luta, mas n\u00e3o meritocracia.\u201d<\/p>\n<blockquote class=\"m-blockquote\"><p><em><strong>A diversidade \u00e9 enriquecedora para o corpo social. \u00c9 justo ter mecanismos que compensem as desigualdades. N\u00e3o se trata de facilitar as coisas para ningu\u00e9m, mas que se d\u00ea condi\u00e7\u00f5es iguais . <span style=\"color: #000000; font-family: Roboto, sans-serif; font-size: 13px;\">ANT\u00d4NIA FALEIROS<\/span><\/strong><\/em><\/p><\/blockquote>\n<h5><b>Manual de sobreviv\u00eancia<\/b><\/h5>\n<p>Em 30 de outubro, Ant\u00f4nia Marina Faleiros lan\u00e7ou seu primeiro livro, intitulado Retalhos, colcha de hist\u00f3rias para Mel dormir, dedicado \u00e0 neta de 1 ano e 8 meses. S\u00e3o lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia permeada por dificuldades, mas tamb\u00e9m repleta de mem\u00f3rias afetivas.<\/p>\n<p>\u201cEu quis resgatar o olhar infantil de quem n\u00e3o sabia que aquilo tinha um nome: pobreza extrema. Relato quando n\u00e3o tinha o que comer \u00e0 noite e minha m\u00e3e fazia um ch\u00e1 de funcho e n\u00f3s tom\u00e1vamos. Ela dizia que era \u00f3timo para n\u00e3o gripar. Na verdade, era porque n\u00e3o tinha outra coisa para tomar. Quis revisitar esse sentimento que eu tinha de achar legal ter o ch\u00e1, esse cuidado\u201d, afirma.<\/p>\n<p>S\u00e3o mem\u00f3rias de uma crian\u00e7a que precisou trabalhar, cuidar da casa, mas tamb\u00e9m relatos de como essa mesma menina via as rezas, os rem\u00e9dios caseiros, os saberes populares da comunidade rural, a conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias que mantinham as crian\u00e7as seguras em noites de chuva forte na cabana.<\/p>\n<p><em><strong>\u201cEssas hist\u00f3rias acabaram virando um manual de sobreviv\u00eancia da tia Maria, a minha tia idosa que tinha uma express\u00e3o: o passado \u00e9 igual um vagalume, de longe \u00e9 bonito e at\u00e9 brilha. De perto \u00e9 um grilinho desajeitado.\u201d&nbsp;<\/strong><\/em><\/p>\n<h5><strong>Servi\u00e7o<\/strong><\/h5>\n<p>Para adquirir o livro, basta entrar em contato com a ju\u00edza:&nbsp;<em>antoniafaleiros@gmail.com<\/em><\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Leilane Menezes\/Metr\u00f3poles &#8211; @internet 03\/12\/2020<\/strong><\/p>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f4nia Marina Faleiros rejeita esse conceito e luta para que outras pessoas n\u00e3o tenham de enfrentar os mesmos obst\u00e1culos que ela superou &nbsp; &nbsp; No Brasil, h\u00e1 pessoas que morrem sem nunca terem tido um registro de nascimento. Ant\u00f4nia Marina Faleiros, 57 anos, escapou de ser uma delas, mas v\u00ea exemplos todos os dias. 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