{"id":57503,"date":"2021-01-16T03:00:10","date_gmt":"2021-01-16T06:00:10","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=57503"},"modified":"2021-01-16T05:28:37","modified_gmt":"2021-01-16T08:28:37","slug":"a-saida-da-ford-do-brasil-e-um-mau-pressagio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2021\/01\/16\/a-saida-da-ford-do-brasil-e-um-mau-pressagio\/","title":{"rendered":"A sa\u00edda da Ford do Brasil \u00e9 um mau press\u00e1gio"},"content":{"rendered":"<p class=\"intro\">Decis\u00e3o tem mais a ver com a estrat\u00e9gia global da montadora do que com o Brasil, mas mostra que o pa\u00eds est\u00e1 perdendo import\u00e2ncia para a ind\u00fastria mundo afora \u2013 e isso n\u00e3o se aplica apenas ao setor automotivo.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi um bom come\u00e7o de ano para a economia brasileira. Ap\u00f3s 113 anos de presen\u00e7a no Brasil, a&nbsp;Ford anunciou o fechamento de suas tr\u00eas f\u00e1bricas no pa\u00eds. Isso afeta cerca de 5 mil funcion\u00e1rios, mas tamb\u00e9m toda uma ind\u00fastria de fornecedores e distribuidores. O an\u00fancio causou uma forte rea\u00e7\u00e3o: porque a Ford n\u00e3o \u00e9 uma montadora qualquer no Brasil.<\/p>\n<p>Ela foi uma das primeiras empresas estrangeiras a produzir carros modernos no Brasil, os sonhos de consumo de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es. Durante anos, Ford, GM, Volkswagen e, mais tarde, a Fiat, foram as que mais venderam ve\u00edculos no Brasil. O pa\u00eds sempre foi estrategicamente importante para a montadora de Detroit: em 1920, Henry Ford chegou a querer produzir a borracha para pneus em Fordl\u00e2ndia, na Amaz\u00f4nia \u2013 e fracassou.<\/p>\n<p>Mas agora a Ford est\u00e1 desistindo de um mercado no qual ainda tinha sucesso com seus modelos compactos: cerca de 7% de participa\u00e7\u00e3o no sexto maior mercado mundial de carros \u2013 era de se pensar que uma fabricante global n\u00e3o fosse desistir disso voluntariamente. Ent\u00e3o por que a Ford est\u00e1 fazendo isso?&nbsp;<span dir=\"ltr\">&nbsp;<\/span><span dir=\"ltr\">&nbsp;<\/span><span dir=\"ltr\">&nbsp;<\/span><span dir=\"ltr\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<div class=\"picBox full\">\n<figure style=\"width: 700px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"overlayLink init\" href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/a-sa%C3%ADda-da-ford-do-brasil-%C3%A9-um-mau-press%C3%A1gio\/a-56240704#\" rel=\"nofollow\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"F\u00e1brica da Ford\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.dw.com\/image\/52849746_303.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"F\u00e1brica da Ford\" width=\"696\" height=\"392\"><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">A Ford foi uma das primeiras empresas estrangeiras a produzir carros modernos no Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<div class=\"group\">\n<div class=\"longText\">\n<p>Na pol\u00edtica brasileira, as atribui\u00e7\u00f5es de culpa&nbsp;come\u00e7aram imediatamente: enquanto o presidente do Congresso, Rodrigo Maia, viu a falta de credibilidade da pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo como o motivo da retirada, o presidente Jair Bolsonaro explicou que a Ford esperava por subs\u00eddios que n\u00e3o existir\u00e3o sob seu governo. Entre a equipe econ\u00f4mica de Bolsonaro circulou que a decis\u00e3o teve mais a ver com a estrat\u00e9gia global da Ford do que com o Brasil.<\/p>\n<p>Os argumentos s\u00e3o todos v\u00e1lidos. E esse \u00e9 precisamente o problema.<\/p>\n<p>Por exemplo, a Ford anunciou h\u00e1 dois anos que n\u00e3o iria lan\u00e7ar uma nova linha de modelos para seus carros compactos. A Ford tamb\u00e9m fechar\u00e1 seis f\u00e1bricas na Europa at\u00e9 o final do ano e dispensar\u00e1 12 mil trabalhadores. A Ford quer focar principalmente em ve\u00edculos el\u00e9tricos e em utilit\u00e1rios leves.<\/p>\n<p>Isso tamb\u00e9m explica sua colabora\u00e7\u00e3o global com a Volkswagen. A empresa de Wolfsburg fornecer\u00e1 as plataformas nas quais a Ford montar\u00e1 seus novos modelos el\u00e9tricos. Em compensa\u00e7\u00e3o, a Ford fabricar\u00e1 pick-ups como a Ranger, que continuar\u00e1 a montar na Argentina e, em troca, a Volkswagen deve deixar de produzir seu Amarok no pa\u00eds em breve.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a sa\u00edda da Ford do Brasil n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil, pois o mercado est\u00e1 em baixa e parece que n\u00e3o vai melhorar em breve. Fabricantes est\u00e3o operando com preju\u00edzo desde 2014. Dos cinco milh\u00f5es de ve\u00edculos que produziram, menos da metade foi vendida em 2020. Enquanto Volkswagen, Toyota, GM, Renault e acima de tudo a FiatChrysler (que em breve se fundir\u00e1 com a PSA Peugeut Citroen) est\u00e3o investindo pesadamente em novos modelos no pa\u00eds, a Ford suspendeu seus investimentos.<\/p>\n<p>O fato de as montadoras terem permanecido no Brasil apesar da crise se deveu principalmente a programas de subs\u00eddios como o Innovar-Auto e, depois, o Rota 2030. Os governos de Dilma Rousseff e Michel Temer compensaram os baixos rendimentos&nbsp;com incentivos fiscais. Em troca, as empresas prometeram inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas \u2013 mas isso quase n\u00e3o foi controlado.<\/p>\n<p>O benef\u00edcio econ\u00f4mico desses programas \u00e9 controverso: os subs\u00eddios custam muito dinheiro ao Estado brasileiro, que tem que compensar com impostos mais altos. Assim, os brasileiros est\u00e3o pagando muito dinheiro por carros ultrapassados.<\/p>\n<p>Por outro lado, os programas t\u00eam ajudado a ind\u00fastria a continuar proporcionando empregos bem pagos a trabalhadores industriais, que j\u00e1 eram raros e est\u00e3o se tornando cada vez mais raros no Brasil. Eles s\u00e3o a raz\u00e3o de ainda existirem hoje cerca de 30 fabricantes \u2013 de carros a caminh\u00f5es e tratores \u2013 produzindo no pa\u00eds. Mas o n\u00famero vai encolher mais: a&nbsp;Mercedes anunciou no final do ano passado que n\u00e3o produziria mais ve\u00edculos de passeio no Brasil, e a Audi tamb\u00e9m est\u00e1 considerando fazer isso.<\/p>\n<p>\u00c9 principalmente a falta de reformas no governo Bolsonaro que tem frustrado as esperan\u00e7as do setor de uma melhoria no clima de investimentos em breve.<\/p>\n<p>A contra\u00e7\u00e3o de um dos setores-chave da ind\u00fastria \u00e9 dram\u00e1tica: o setor automotivo est\u00e1 atualmente passando por uma das maiores transforma\u00e7\u00f5es desde a inven\u00e7\u00e3o do motor de combust\u00e3o interna. Envolve a eletrifica\u00e7\u00e3o e a digitaliza\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos, o uso de&nbsp;<em>big data<\/em>, a dire\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma. N\u00e3o h\u00e1 lugar previsto para o Brasil na nova divis\u00e3o de trabalho do setor mundo afora. Operar no Brasil \u00e9 muito caro, sua economia \u00e9 muito isolada das cadeias de valor globais e, em \u00faltima an\u00e1lise, o poder de compra dos brasileiros \u00e9 muito baixo.<\/p>\n<p>Esta perda de import\u00e2ncia do Brasil n\u00e3o se aplica apenas ao setor automotivo, mas amea\u00e7a toda a ind\u00fastria. Talvez a sa\u00edda da Ford vai se revelar um mau press\u00e1gio.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: &nbsp;Deutsche Welle Brasil &#8211; @internet 16\/01\/2021<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Decis\u00e3o tem mais a ver com a estrat\u00e9gia global da montadora do que com o Brasil, mas mostra que o pa\u00eds est\u00e1 perdendo import\u00e2ncia para a ind\u00fastria mundo afora \u2013 e isso n\u00e3o se aplica apenas ao setor automotivo. N\u00e3o foi um bom come\u00e7o de ano para a economia brasileira. 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