{"id":6737,"date":"2016-10-30T00:01:05","date_gmt":"2016-10-30T03:01:05","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=6737"},"modified":"2016-10-29T09:03:35","modified_gmt":"2016-10-29T12:03:35","slug":"vitima-de-encantos-mil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2016\/10\/30\/vitima-de-encantos-mil\/","title":{"rendered":"V\u00edtima de encantos mil"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">No caso de uma cidade como o Rio, \u00e9 indispens\u00e1vel que o poder p\u00fablico se fa\u00e7a presente muito al\u00e9m da mera ocupa\u00e7\u00e3o territorial<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qualquer que seja o ganhador da elei\u00e7\u00e3o, a cidade corre o risco de perder muito. Continuar a perder. J\u00e1 vem perdendo desde que deixou de ser a capital federal, h\u00e1 mais de meio s\u00e9culo, e herdou v\u00e1rios \u00f4nus sem manter os b\u00f4nus. Talvez a carga mais pesada, entre tantas, seja uma bagun\u00e7a administrativa sem tamanho, num jogo de empurra entre \u00f3rg\u00e3os que nunca podem nem querem resolver os problemas, porque jamais se consegue estabelecer se as dificuldades s\u00e3o da esfera municipal, estadual ou federal. Mas os efeitos da m\u00e1 gest\u00e3o recaem sobre os cariocas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abastecimento de \u00e1gua e saneamento talvez sejam o exemplo mais \u00f3bvio desse jogo, mas n\u00e3o o \u00fanico. Moradia popular, (in)seguran\u00e7a p\u00fablica, vexaminosa precariedade dos transportes, tr\u00e2nsito infernal configuram outra constela\u00e7\u00e3o de exemplos, ligados entre si, interdependentes de inst\u00e2ncias diferentes. Seguem a receita de complicar para n\u00e3o resolver, ainda que todo mundo acene com promessas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos fartos e temos motivos. Ainda agora, quando a sa\u00edda do Beltrame assinala outra perda, a da esperan\u00e7a, e se esvai a perspectiva de paz que as UPPs pareceram abrir, nos vemos patinando no mesmo ponto, sem sair do lugar \u2014 enquanto n\u00e3o piorar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A seguran\u00e7a p\u00fablica est\u00e1 ligada a uma situa\u00e7\u00e3o geral. N\u00e3o depende diretamente da prefeitura. N\u00e3o pode ser discutida sem que se examine a militariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia. Inclui as armas e as drogas que v\u00eam de fora. Precisa levar em conta a falta de recursos, a diminui\u00e7\u00e3o dos royalties do petr\u00f3leo, os excessos e distor\u00e7\u00f5es da folha de pagamento, a falta de uma pol\u00edtica nacional no setor \u2014 que funcione e decida se considera a Rep\u00fablica como um todo ou se d\u00e1 real autonomia federativa aos estados. E, no caso de uma cidade como o Rio, \u00e9 indispens\u00e1vel que o poder p\u00fablico se fa\u00e7a presente muito al\u00e9m da mera ocupa\u00e7\u00e3o territorial \u2014 como o ex-secret\u00e1rio Beltrame cansou de enfatizar, desde o in\u00edcio da implanta\u00e7\u00e3o da primeira UPP. Precisa haver habita\u00e7\u00e3o decente, postos de sa\u00fade, escolas, transporte eficiente, coleta de lixo regular, possibilidade de que ambul\u00e2ncia, bombeiro, correio e pol\u00edcia cheguem a todo canto. Se a \u00fanica mudan\u00e7a \u00e9 passar do nome de favela ao de comunidade, \u00e9 s\u00f3 conversa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o d\u00e1 para fazer essas interven\u00e7\u00f5es urbanas se n\u00e3o for poss\u00edvel garantir as desapropria\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, coibir novas invas\u00f5es, enfrentar as liga\u00e7\u00f5es entre mandachuvas locais e autoridades em gabinetes. Para n\u00e3o falar nos transportes, sempre apontados como bra\u00e7os do crime organizado, pelas possibilidades que oferecem para lavagem de dinheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A certeza da impunidade se manifesta em todas as \u00e1reas. Vai al\u00e9m da corrup\u00e7\u00e3o e da desenvoltura crescente do crime organizado em todas as suas ramifica\u00e7\u00f5es. Recai sobre o meio ambiente, de modo espantoso. Com \u00f3dio ao que a cidade tem de bom e atrapalha o ganho f\u00e1cil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cCidade maravilhosa, cheia de encantos mil\u201d, garante o hino. Pois que se liquide com isso&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cRio que mora no mar\u201d, cantou a bossa nova. Ent\u00e3o que se acabe com o mar. Parece uma cruzada pela polui\u00e7\u00e3o das \u00e1guas, na ba\u00eda, nas lagoas, nos aterros variados, eliminando ilhas, emporcalhando os rios que descem em cascatas pela floresta e viram cloacas pelo caminho. A literatura nos fala de dezenas de praias que n\u00e3o existem mais, h\u00e1 fotos de canoas na areia ao p\u00e9 da Igreja de Santa Luzia. Hoje se filmam despejos de esgoto\u00a0<em>in natura<\/em>\u00a0na Enseada de Botafogo, no cost\u00e3o de S\u00e3o Conrado, no sistema lagunar da Barra da Tijuca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cRio, serras de veludo\u201d, continuava a can\u00e7\u00e3o. Pois ent\u00e3o, que se derrubem os morros, se eliminem as matas, se invada o que puder. Chegando \u00e0 estupidez de querer transformar o Jardim Bot\u00e2nico em \u00e1rea habitacional, sob prote\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos. Uma cidade t\u00e3o absurda que os cuidados com \u00e1rvores, jardins e parques ficam por conta da Comlurb, a do lixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSorrio pro meu Rio, que sorri de tudo&#8230;\u201d Pois agora, na polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que nos assola, as pessoas andam quase rosnando quando mostram os dentes. \u00c9 essa a tristeza maior. O Rio j\u00e1 vem perdendo tanto. N\u00e3o pode perder sua alma, o esp\u00edrito carioca de acolher e zombar, se divertir com irrever\u00eancia, criando pontes de humor entre as diferen\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Polo de atra\u00e7\u00e3o, transformada em megal\u00f3pole superpopulosa e atulhada, o destino da cidade n\u00e3o pode ecoar a bela foto de Lalo de Almeida esta semana na \u201cFolha\u201d: a copa gloriosa de um ip\u00ea-amarelo destacada no veludo verde da floresta, atraindo os olhares como estrela brilhante a guiar na noite escura. Indica o caminho aos madeireiros clandestinos. Basta sobrevoar, anotar as coordenadas, proteger-se por baixo das copas das outras \u00e1rvores e ir l\u00e1 derrubar. Nenhuma autoridade impedir\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como o Rio. Sucumbe, v\u00edtima da pr\u00f3pria beleza. De seus encantos mil, cobi\u00e7ados por milh\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: artigo publicado dia 29\/10\/2016 na p\u00e1gina da internet de JUSTIFICANDO \u00a0\u2013 dispon\u00edvel na web 30\/10\/2016<\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #000080;\">Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo<\/span><\/strong>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No caso de uma cidade como o Rio, \u00e9 indispens\u00e1vel que o poder p\u00fablico se fa\u00e7a presente muito al\u00e9m da mera ocupa\u00e7\u00e3o territorial Qualquer que seja o ganhador da elei\u00e7\u00e3o, a cidade corre o risco de perder muito. Continuar a perder. 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