{"id":69152,"date":"2022-03-26T04:52:56","date_gmt":"2022-03-26T07:52:56","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=69152"},"modified":"2022-03-25T15:34:50","modified_gmt":"2022-03-25T18:34:50","slug":"a-elite-da-elite-petroleiros-mantem-regalias-que-so-existem-na-estatal-e-vivem-situacao-privilegiada-no-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2022\/03\/26\/a-elite-da-elite-petroleiros-mantem-regalias-que-so-existem-na-estatal-e-vivem-situacao-privilegiada-no-pais\/","title":{"rendered":"A Elite da Elite: Petroleiros mant\u00eam regalias que s\u00f3 existem na estatal e vivem situa\u00e7\u00e3o privilegiada no Pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<div class=\"row\">\n<section class=\"col-xs-12\">\n<div class=\"row\">\n<section class=\"col-xs-12 col-sm-offset-1 col-sm-11\">\n<article class=\"n--noticia__header \">\n<h4><strong>\u201cJabuticabas\u201d perduram na Petrobras e turbinam ganhos de funcion\u00e1rios<\/strong><\/h4>\n<p>Com poder de press\u00e3o favorecido por \u2018monop\u00f3lio\u2019, petroleiros mant\u00eam regalias que s\u00f3 existem na estatal e vivem situa\u00e7\u00e3o privilegiada no Pa\u00eds<\/p>\n<\/article>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<div class=\"row\">\n<section class=\"col-xs-12 main-news\">\n<div id=\"pw-P_1.4016558\" class=\"pw-container\" data-acesso=\"0\" data-coluna=\"\" data-categoria=\"\">\n<div id=\"sw-P_1.4016558\" class=\"pw-container\">\n<div class=\"row n--noticia__body\">\n<section class=\"col-xs-12 col-sm-offset-1 col-sm-11\">\n<div class=\"row\">\n<section class=\"col-xs-12 col-content col-center\">\n<div class=\"box open\">\n<div id=\"n--noticia__content\" class=\"n--noticia__content content already-sliced already-checked\" data-paywall-wrapper=\"\">\n<p>Nos idos de 2015, ao se licenciar da presid\u00eancia do conselho de administra\u00e7\u00e3o da&nbsp;Petrobras, posto que acabaria deixando em definitivo dois meses depois, o executivo&nbsp;Murilo Ferreira&nbsp;fez um diagn\u00f3stico sinistro da estatal a um amigo.<\/p>\n<p>\u201cA Petrobras n\u00e3o \u00e9 do acionista majorit\u00e1rio nem do acionista minorit\u00e1rio \u2013 ela \u00e9 da corpora\u00e7\u00e3o\u201d, disse Ferreira, que tamb\u00e9m era presidente da&nbsp;Vale, de acordo com o site&nbsp;<em>Brazil Journal<\/em>. \u201cSe eu fosse morador de Nil\u00f3polis, S\u00e3o Gon\u00e7alo ou da Baixada (regi\u00f5es pobres do&nbsp;Rio, onde se situa a sede da empresa), ficaria revoltado com os privil\u00e9gios que os funcion\u00e1rios da Petrobras conseguiram garantir para si mesmos.\u201d<\/p>\n<p>Em seguida, Ferreira tirou da carteira um cart\u00e3ozinho verde e acrescentou: \u201cSabe o que \u00e9 isso? \u00c9 um cart\u00e3o com o qual posso comprar o medicamento que quiser, em qualquer farm\u00e1cia, pagando apenas R$ 15. Nenhuma empresa privada no Brasil tem um conv\u00eanio desses. Eu nunca usei, tenho vergonha de usar.\u201d Desolado com a sua impot\u00eancia para mudar a situa\u00e7\u00e3o, ele fechou o desabafo tra\u00e7ando um paralelo entre a a Vale, privatizada em 1997, e a Petrobras, s\u00edmbolo maior do gigantismo do Estado no Pa\u00eds e das benesses concedidas aos funcion\u00e1rios das estatais: \u201cNa Vale, consegui tirar os carros dos diretores. Na Petrobras, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel diminuir qualquer coisa que a corpora\u00e7\u00e3o n\u00e3o queira.\u201d<\/p>\n<p>Passados quase sete anos do diagn\u00f3stico hiper-realista feito por Ferreira, o quadro continua praticamente o mesmo. Desde que ele deixou a companhia, o Pa\u00eds j\u00e1 teve mais dois presidentes da Rep\u00fablica \u2013&nbsp;Temer&nbsp;e&nbsp;Bolsonaro&nbsp;\u2013 e a Petrobras j\u00e1 teve quatro comandantes diferentes, mas ningu\u00e9m conseguiu at\u00e9 agora mexer para valer nas regalias de seu&nbsp;pessoal.&nbsp; Quem tentou, segundo ex-executivos&nbsp;da empresa, tornou-se alvo de amea\u00e7as e de campanhas difamat\u00f3rias promovidas pela tropa de choque da turma.<\/p>\n<h4 class=\"intertitulo\"><strong>Sal\u00e1rios generosos<\/strong><\/h4>\n<p>Os privil\u00e9gios, \u00e9 certo, v\u00eam se acumulando desde a cria\u00e7\u00e3o da Petrobras, em 1953, no governo&nbsp;Vargas. Mas, conforme relatos feitos ao&nbsp;Estad\u00e3o, foi durante os governos&nbsp;Lula&nbsp;e&nbsp;Dilma, quando sindicalistas assumiram o comando da \u00e1rea de recursos humanos, que a situa\u00e7\u00e3o degringolou de vez. \u201cSempre houve privil\u00e9gios na Petrobras, mas as concess\u00f5es feitas naquele per\u00edodo agravaram muito o problema\u201d, afirma um ex-gestor da estatal.<\/p>\n<p>Os sal\u00e1rios, que j\u00e1 eram bem mais generosos do que os pagos por empresas privadas do setor petrol\u00edfero e mesmo do que os de outras estatais, tamb\u00e9m engordaram ainda mais. Entre 2003 e 2015, de acordo com dados dos sindicatos dos petroleiros, os funcion\u00e1rios da Petrobras tiveram um ganho real (j\u00e1 descontada a&nbsp;infla\u00e7\u00e3o) de 34%, sem contar os adicionais por tempo de servi\u00e7o, que podem alcan\u00e7ar at\u00e9 45% sobre o sal\u00e1rio-base, no caso dos mais antigos. Mesmo com a perda de 5,6% registrada nos governos Temer e Bolsonaro, ainda acumulam um aumento real de 26,4%.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 vantagem que n\u00e3o tenha um peso econ\u00f4mico\u201d, diz&nbsp;Almir Pazzianotto, ex-presidente do&nbsp;Tribunal Superior do Trabalho (TST), ex-ministro do Trabalho e advogado do Sindicato dos Metal\u00fargicos de&nbsp;S\u00e3o Bernardo do Campo&nbsp;e&nbsp;Diadema, no ABC paulista, nos tempos em que&nbsp;Lula&nbsp;era o presidente da entidade, nos anos 1970 e 1980. \u201cAcho razo\u00e1vel que haja uma certa liberalidade numa grande empresa. Agora, na Petrobras, eles foram longe demais.\u201d<\/p>\n<p>Nem o economista&nbsp;Roberto Castello Branco, um liberal forjado na Escola de Chicago que comandou a Petrobras de janeiro de 2019 a abril de 2021, conseguiu promover um corte significativo nos privil\u00e9gios. Como apurou o&nbsp;Estad\u00e3o, Castello Branco preferiu concentrar esfor\u00e7os na redu\u00e7\u00e3o de alguns benef\u00edcios, de maior impacto nos custos, em vez de atacar tudo de uma vez, para n\u00e3o colocar \u201ca massa toda\u201d, como costumava dizer, contra ele e sua equipe.<\/p>\n<h4 class=\"intertitulo\"><strong>Inadimpl\u00eancia<\/strong><\/h4>\n<p>Em troca da manuten\u00e7\u00e3o de quase todos os \u201cpenduricalhos\u201d no Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) 2020-2022, ainda em vigor, a estatal conseguiu negociar com os sindicatos o \u201ccongelamento\u201d dos sal\u00e1rios por um ano, no auge da&nbsp;pandemia. Considerando que o reajuste salarial seria de cerca de 3%, conforme a varia\u00e7\u00e3o do&nbsp;\u00cdndice Nacional de Pre\u00e7os ao Consumidor (INPC<strong>)<\/strong>&nbsp;entre setembro de 2019 e agosto de 2020, a medida permitiu uma redu\u00e7\u00e3o de custos da ordem de R$ 650 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Favorecida pela Resolu\u00e7\u00e3o 23\/2018, do antigo Minist\u00e9rio do Planejamento, que limitava a participa\u00e7\u00e3o das estatais no custeio de planos de sa\u00fade, a Petrobras tamb\u00e9m conseguiu incluir no ACT a eleva\u00e7\u00e3o das contribui\u00e7\u00f5es dos funcion\u00e1rios de 30% para 40% do total em 2021 e de 40% para 50% em 2022, com um impacto no caixa de cerca de R$ 750 milh\u00f5es em dois anos. Mas, no ano passado, com a aprova\u00e7\u00e3o de um projeto de decreto legislativo apresentado pela deputada&nbsp;Erika Kokay (PT-DF), o dispositivo criado no governo Temer perdeu validade e a fatia dos funcion\u00e1rios acabou congelada nos 40% j\u00e1 praticados na ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0 margem do ACT, por meio de a\u00e7\u00f5es administrativas, a Petrobras ainda cortou 1.500 cargos comissionados&nbsp;\u2013 muitos dos quais haviam sido criados para abrigar apadrinhados de antigos gestores \u2013, que ofereciam um ganho extra a seus ocupantes de at\u00e9 R$ 60 mil por m\u00eas. Houve tamb\u00e9m um controle maior da \u201cind\u00fastria\u201d de horas extras que prosperava na empresa. Um ex-executivo da Petrobras conta que havia funcion\u00e1rios que chegavam a receber R$ 80 mil por m\u00eas gra\u00e7as \u00e0s horas extras contabilizadas em suas jornadas. \u201cEles teriam de trabalhar quase 24 horas por dia para ganhar tanta hora extra\u201d, afirma. A companhia tamb\u00e9m endureceu o jogo com os inadimplentes do&nbsp;<a href=\"https:\/\/tudo-sobre.estadao.com.br\/plano-de-saude\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>plano de sa\u00fade<\/strong><\/a>, que acumulavam uma pend\u00eancia de R$ 280 milh\u00f5es, sem perder o benef\u00edcio por falta de pagamento.<\/p>\n<h4 class=\"intertitulo\"><strong>Regalias<\/strong><\/h4>\n<p>Por fim, a Petrobras conseguir cortar&nbsp;em cerca de 20% o n\u00famero de funcion\u00e1rios, de 57,1 mil em 2019 para 44,9 mil em 2021, incluindo suas controladas, gra\u00e7as principalmente a um plano de demiss\u00e3o volunt\u00e1ria que atraiu mais de 10 mil trabalhadores que atendiam \u00e0s condi\u00e7\u00f5es estabelecidas pela empresa. Com os desligamentos, a estatal calcula que ter\u00e1 uma redu\u00e7\u00e3o de custos com pessoal de R$ 18 bilh\u00f5es at\u00e9 2025, j\u00e1 deduzido o total de R$ 4 bilh\u00f5es gasto com o pagamento das indeniza\u00e7\u00f5es, que variam de R$ 400 mil a R$ 1 milh\u00e3o per capita.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-69154 size-large\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/e81a1079-a90e-4422-90d8-495e36dd556d.jpg?resize=696%2C997\" alt=\"\" width=\"696\" height=\"997\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/e81a1079-a90e-4422-90d8-495e36dd556d.jpg?resize=715%2C1024&amp;ssl=1 715w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/e81a1079-a90e-4422-90d8-495e36dd556d.jpg?resize=210%2C300&amp;ssl=1 210w, 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class=\"uva-graphic\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-69156 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/904c8b67-d5e5-48ca-8c2f-13300dbe3d90.jpg?resize=696%2C764\" alt=\"\" width=\"696\" height=\"764\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/904c8b67-d5e5-48ca-8c2f-13300dbe3d90.jpg?w=739&amp;ssl=1 739w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/904c8b67-d5e5-48ca-8c2f-13300dbe3d90.jpg?resize=273%2C300&amp;ssl=1 273w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/904c8b67-d5e5-48ca-8c2f-13300dbe3d90.jpg?resize=696%2C764&amp;ssl=1 696w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/904c8b67-d5e5-48ca-8c2f-13300dbe3d90.jpg?resize=383%2C420&amp;ssl=1 383w\" sizes=\"auto, (max-width: 696px) 100vw, 696px\" \/><\/figure>\n<p><img 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Quase todas as \u201cjaboticabas\u201d, como alguns ex-executivos costumam chamar os privil\u00e9gios que s\u00f3 os funcion\u00e1rios da estatal t\u00eam, continuam por a\u00ed. Pelos c\u00e1lculos de um ex-gestor de RH da empresa, o custo das \u201cjaboticabas\u201d alcan\u00e7a cerca de R$ 7 bilh\u00f5es por ano, o equivalente a um ter\u00e7o do gasto total de pessoal, de R$ 21,7 bilh\u00f5es em 2020.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do aux\u00edlio-farm\u00e1cia largo, mencionado por Ferreira no in\u00edcio desta reportagem, os funcion\u00e1rios da Petrobras recebem 100% a mais por hora extra, em vez do adicional de 50% previsto na&nbsp;Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho (CLT). Enquanto os demais trabalhadores ganham um adicional de 33,33% nas f\u00e9rias, eles embolsam 100% a mais. Recebem tamb\u00e9m, o reembolso de at\u00e9 90% dos gastos com matr\u00edculas e mensalidades escolares de filhos de at\u00e9 18 anos e uma \u201cajuda de custo\u201d para assist\u00eancia alimentar de R$ 1.254 por m\u00eas, mais R$ 192 de vale-refei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h4 class=\"intertitulo\"><strong>\u2018Coisa de louco\u2019<\/strong><\/h4>\n<p>Nas plataformas, a jornada funciona no esquema de 14 dias de trabalho por 21 dias de folga, em vez dos 14 dias de trabalho por 14 de folga praticados pela ind\u00fastria de petr\u00f3leo mundo afora, de acordo com um ex-dirigente&nbsp;da companhia. O sistema \u00e9 t\u00e3o&nbsp;<em>light<\/em>, em sua avalia\u00e7\u00e3o, que h\u00e1 funcion\u00e1rios de plataformas que moram nos&nbsp;Estados Unidos, em&nbsp;Portugal&nbsp;e em outros pa\u00edses. Chegam no aeroporto do Gale\u00e3o, no Rio, v\u00e3o direto para o heliporto usado pela empresa&nbsp;em Jacarepagu\u00e1, na zona oeste da cidade, passam duas semanas em alto mar e depois fazem o caminho inverso. S\u00f3 voltam a trabalhar tr\u00eas semanas depois. Como moram fora do Rio, ainda t\u00eam um benef\u00edcio adicional: o tempo gasto na viagem de ida e volta de helic\u00f3ptero conta como se j\u00e1 estivessem trabalhando.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma chuva de privil\u00e9gios sem precedentes no setor privado\u201d, diz&nbsp;Paulo Uebel, ex-secret\u00e1rio especial de Desburocratiza\u00e7\u00e3o, Gest\u00e3o e Governo Digital&nbsp;do&nbsp;Minist\u00e9rio da Economia&nbsp;e ex-secret\u00e1rio municipal de Gest\u00e3o de S\u00e3o Paulo. \u201cO acordo coletivo da Petrobras \u00e9 uma coisa de louco, diferente de tudo o que eu conhe\u00e7o\u201d, afirma Pazzianotto. \u201cTem muita concess\u00e3o para os trabalhadores, para a fam\u00edlia dos trabalhadores, para os agregados. Tudo o que foi poss\u00edvel fazer foi feito para conceder uma situa\u00e7\u00e3o privilegiada para o pessoal da Petrobras.\u201d<\/p>\n<p>Mesmo se a empresa cortasse as&nbsp;\u201cjabuticabas\u201d, os petroleiros n\u00e3o poderiam reclamar da vida. Pesquisas encomendadas pela Petrobras apontam que seus funcion\u00e1rios ganham de duas a tr\u00eas vezes mais do que a m\u00e9dia paga no mercado para fun\u00e7\u00f5es semelhantes. Um \u201cinspetor de seguran\u00e7a\u201d, respons\u00e1vel pela prote\u00e7\u00e3o das portarias, por exemplo, recebe de R$ 7 mil a R$ 8 mil por m\u00eas, enquanto no mercado a m\u00e9dia gira em torno de R$ 2,5 mil. Como trabalha em sistema de turno, seus ganhos podem chegar, com todos os \u201cpenduricalhos\u201d, a cerca de R$ 15 mil por m\u00eas.<\/p>\n<p>J\u00e1 um t\u00e9cnico de opera\u00e7\u00e3o, que atua nas&nbsp;refinarias, recebe, em m\u00e9dia, R$ 20 mil mensais, enquanto o valor pago no setor privado n\u00e3o passa de R$ 7 mil. Nos cargos de n\u00edvel superior, como engenheiro, ge\u00f3logo e psic\u00f3logo, a remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dia \u00e9 de R$ 25 mil por m\u00eas, podendo chegar a R$ 40 mil, dependendo do tempo de servi\u00e7o, enquanto no setor privado a m\u00e9dia fica ao redor de R$ 12 mil.<\/p>\n<h4 class=\"intertitulo\"><strong>Quebra do \u2018monop\u00f3lio\u2019<\/strong><\/h4>\n<p>Segundo um levantamento divulgado recentemente pela Secretaria de Coordena\u00e7\u00e3o e Governan\u00e7a das Empresas Estatais (Sest), vinculada ao Minist\u00e9rio da Economia, a remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dia dos funcion\u00e1rios da Petrobras atingiu R$ 25.164 por m\u00eas em 2020, o equivalente a dez vezes o ganho m\u00e9dio dos brasileiros, de cerca de R$ 2,5 mil, conforme dados do&nbsp;IBGE. A maior remunera\u00e7\u00e3o mensal na companhia foi de R$ 145,2 mil e a menor, de R$ 1,5 mil. Pelo estudo, que incluiu as 46 estatais de controle direto da Uni\u00e3o, o ganho m\u00e9dio na Petrobras, s\u00f3 foi menor do que no&nbsp;Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES), onde chegou a R$ 31 mil.<\/p>\n<p>Embora os dados divulgados pela Sest tenham sido fornecidos pela pr\u00f3pria Petrobras, a empresa agora contesta as informa\u00e7\u00f5es e apresenta n\u00fameros&nbsp;diferentes. Em resposta a um questionamento do&nbsp;Estad\u00e3o, a Petrobras informou que, na verdade, a remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dia em 2020 ficou em R$ 18,6 mil por m\u00eas, enquanto a maior foi de R$ 97,7 mil e a menor, de R$ 3,3 mil. Mesmo que a retifica\u00e7\u00e3o seja procedente, n\u00e3o altera muito o quadro. A remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dia na Petrobras ainda seria equivalente a 7,5 vezes a m\u00e9dia do Pa\u00eds.&nbsp;Em vez de ocupar o segundo lugar na lista das maiores remunera\u00e7\u00f5es m\u00e9dias das estatais, a companhia&nbsp;ficaria na terceira posi\u00e7\u00e3o, atr\u00e1s tamb\u00e9m da&nbsp;Embrapa, onde o&nbsp;ganho m\u00e9dio alcan\u00e7ou R$ 20,2 mil em 2020.<\/p>\n<p>Quando se considera o custo total de pessoal, que inclui todos os \u201cpenduricalhos\u201d e os encargos socias e tribut\u00e1rios, o gasto m\u00e9dio anual da Petrobras por funcion\u00e1rio atingiu R$ 449,3 mil, quase o dobro da m\u00e9dia das estatais. Apesar de representar 10,6% de todo o efetivo das estatais, o gasto com pessoal da Petrobras foi equivalente a 20,6% do total.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o de Paulo Uebel, a situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 chegou a esse ponto porque a Petrobras det\u00e9m o monop\u00f3lio no setor&nbsp;de fato, embora n\u00e3o&nbsp;de direito, j\u00e1 que a \u201creserva de mercado\u201d que a favorecia caiu oficialmente em 1997. Isso, segundo ele, d\u00e1 um poder enorme para os sindicatos e possibilita a realiza\u00e7\u00e3o de greves que t\u00eam enorme impacto na vida dos cidad\u00e3os e das empresas. Uebel \u00e9&nbsp;favor\u00e1vel \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o da Petrobras, combatida de forma feroz pelos sindicatos, mas pondera&nbsp;que, enquanto ela n\u00e3o vier, o&nbsp;<strong>C<\/strong>onselho Administrativo de Defesa Econ\u00f4mica (Cade)&nbsp;deveria limitar a participa\u00e7\u00e3o da empresa no mercado, nas diferentes \u00e1reas em que atua, a no m\u00e1ximo 60%.<\/p>\n<p>Ele lembra que, nos Estados Unidos, no in\u00edcio do s\u00e9culo passado,&nbsp;a Standard Oil, do magnata John D.&nbsp;Rockfeller, que&nbsp;detinha praticamente o monop\u00f3lio no setor, foi fatiada de forma compuls\u00f3ria, com bons resultados. \u201c\u00c9 preciso quebrar o monop\u00f3lio n\u00e3o s\u00f3 de direito, mas de fato, para que haja v\u00e1rias empresas competindo com a Petrobras\u201d, diz. \u201cS\u00f3 assim ser\u00e1 poss\u00edvel reduzir a for\u00e7a da corpora\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<h4 class=\"intertitulo\"><strong>Conflito de interesses<\/strong><\/h4>\n<p>Uebel tamb\u00e9m atribui o quadro atual \u00e0s decis\u00f5es da&nbsp;Justi\u00e7a do Trabalho,&nbsp;que garantem estabilidade no emprego para os funcion\u00e1rios de estatais, apesar de eles serem contratados pela CLT e poderem negociar aumentos salariais e benef\u00edcios por meio de acordo coletivo. \u201cNo poder p\u00fablico isso n\u00e3o existe: ou voc\u00ea tem estabilidade e s\u00f3 pode criar benef\u00edcios e definir reajustes salariais por meio de lei ou voc\u00ea n\u00e3o tem estabilidade e a\u00ed pode negociar tudo por meio de acordo coletivo\u201d, afirma. \u201cAgora, nas estatais, voc\u00ea tem o pior dos mundos, porque voc\u00ea tem&nbsp;estabilidade, que a Justi\u00e7a do Trabalho garante, e ao mesmo tempo tem a prerrogativa de gerar benef\u00edcios por meio de acordo coletivo.\u201d<\/p>\n<p>Uma sa\u00edda, para ele, seria realizar uma reforma administrativa que inclu\u00edsse o corte dos privil\u00e9gios existentes nas estatais, sujeitando seus funcion\u00e1rios aos mesmos princ\u00edpios e regras da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica direta, inclusive em rela\u00e7\u00e3o ao teto constitucional, hoje de R$ 39,3 mil. Uebel conta que quis incluir esse ponto no projeto de reforma administrativa que elaborou, mas n\u00e3o conseguiu. \u201cO pessoal era contra. Eles falavam que as estatais precisam competir com as empresas privadas, mas isso n\u00e3o \u00e9 verdade\u201d, diz. \u201cAs estatais n\u00e3o deveriam competir com as empresas privadas. Elas teriam de existir s\u00f3 quando n\u00e3o houvesse empresa privada em atividade na mesma \u00e1rea.\u201d<\/p>\n<p>Pazzianotto vai mais ou menos na mesma linha. Ele afirma que, se houvesse cinco refinarias privadas competindo com a Petrobras, o poder de press\u00e3o dos trabalhadores&nbsp;seria bem menor. \u201cTudo isso \u00e9 resultado do nosso corporativismo, do sindicato \u00fanico, da interven\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a do Trabalho\u201d, afirma. \u201cAgora, nada disso \u00e9 definitivo. S\u00f3 \u00e9 definitivo o que est\u00e1 na Constitui\u00e7\u00e3o e na lei.\u201d&nbsp;<\/p>\n<p>Pazzianotto sugere que a Petrobras contrate \u201cgente de fora\u201d para conduzir as negocia\u00e7\u00f5es trabalhistas com os sindicatos. \u201c\u00c9 uma forma de evitar poss\u00edvel conflito de interesses por parte advogados da empresa, que tamb\u00e9m se beneficiam do acordo coletivo ou de uma decis\u00e3o favor\u00e1vel aos trabalhadores na Justi\u00e7a.\u201d Para justificar sua posi\u00e7\u00e3o, ele relata&nbsp;o caso de um processo trabalhista envolvendo o Banco do Brasil, no qual os trabalhadores reivindicavam o pagamento de um adicional de car\u00e1ter especial \u201cque n\u00e3o existia\u201d. \u201cComo tamb\u00e9m eram parte interessada, os advogados do Banco do Brasil&nbsp;perdiam os prazos judiciais e n\u00e3o compareciam \u00e0s audi\u00eancias.\u201d<\/p>\n<h4 class=\"intertitulo\"><strong>Pre\u00e7os dos combust\u00edveis<\/strong><\/h4>\n<p>Os sindicatos dos petroleiros, obviamente, rejeitam a percep\u00e7\u00e3o&nbsp;de que os benef\u00edcios recebidos pelos funcion\u00e1rios da Petrobras sejam \u201cprivil\u00e9gios\u201d e de que o sal\u00e1rio m\u00e9dio na Petrobras seja maior do que os pagos por outras empresas do setor. \u201cA CLT \u00e9 um piso\u201d, diz o presidente do Sindipetro de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos (SP), Rafael Prado, secret\u00e1rio de comunica\u00e7\u00e3o da FNP (Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Petroleiros), uma dissid\u00eancia \u00e0 esquerda da FUP (Federa\u00e7\u00e3o \u00danica dos Petroleiros). \u201cIsso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o seja poss\u00edvel negociar um acordo coletivo com melhores condi\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>Prado cita um estudo elaborado pelo economista Eric Gil Dantas, assessor da FNP, segundo o qual a Petrobras paga sal\u00e1rios menores do que quatro das grandes petrol\u00edferas do mundo \u2013 Shell e BP (Reino Unido), Equinor (Noruega) e Total (Fran\u00e7a). Mesmo que o estudo esteja baseado em dados compar\u00e1veis do ponto de vista financeiro, ao dividir os gastos com sal\u00e1rios de cada companhia pelo seu n\u00famero de funcion\u00e1rios, ele n\u00e3o faz a pondera\u00e7\u00e3o pela paridade do poder de compra de cada pa\u00eds, o que acaba distorcendo o resultado. No ranking dos 170 pa\u00edses com os maiores pre\u00e7os de gasolina, por exemplo, o Brasil ocupa o 89\u00ba lugar. Mas, na lista dos pa\u00edses com o maior custo para encher um tanque de 60 litros em rela\u00e7\u00e3o ao sal\u00e1rio m\u00e9dio mensal, aparece na quarta posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De acordo com Prado, os altos lucros da Petrobras justificariam os benef\u00edcios e sal\u00e1rios recebidos pelos seus funcion\u00e1rios. \u201cIsso precisa ser encarado dentro da realidade do setor de petr\u00f3leo e g\u00e1s. Como ele tem uma rentabilidade muito superior \u00e0 m\u00e9dia da economia, paga sal\u00e1rios melhores aos seus funcion\u00e1rios\u201d, afirma. \u201cIsso significa que uma parte da riqueza gerada no setor fica com os trabalhadores.\u201d<\/p>\n<p>Mais uma vez, \u00e9 preciso fazer uma ressalva aqui. Al\u00e9m&nbsp;dos fartos benef\u00edcios e sal\u00e1rios pagos a&nbsp;seus funcion\u00e1rios, a Petrobras j\u00e1 lhes concede uma participa\u00e7\u00e3o nos lucros a cada ano, conforme seus resultados. Oferece&nbsp;tamb\u00e9m um programa de b\u00f4nus&nbsp;baseado no desempenho individual e coletivo, como muitas empresas, que \u00e9 outra forma de reconhecer o papel dos trabalhadores no neg\u00f3cio. \u201cVoc\u00ea est\u00e1 questionando a pequena fatia que fica com a maioria que produz a riqueza\u201d, diz Prado. \u201cA fatia que fica com os trabalhadores \u00e9 \u00ednfima perto do lucro que eles produzem.\u201d<\/p>\n<p>Com os pre\u00e7os dos combust\u00edveis na estratosfera, a tenta\u00e7\u00e3o de atribuir a alta aos privil\u00e9gios e \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o generosa dos petroleiros \u00e9 grande. Mas n\u00e3o d\u00e1 para dizer, segundo ex-gestores da Petrobras, que o impacto nos pre\u00e7os seja significativo. O que se pode afirmar \u00e9 que isso afeta a efici\u00eancia e a produtividade da companhia, assim como a capacidade de investimento e de pagamento de dividendos aos acionistas, inclusive a pr\u00f3pria Uni\u00e3o, o que n\u00e3o \u00e9 pouca coisa.<\/p>\n<p>\u201cCom o pr\u00e9-sal e os t\u00e9cnicos, os ativos e a tecnologia que a Petrobras tem, ela poderia estar entre as maiores e melhores empresas de petr\u00f3leo do mundo, mas n\u00e3o est\u00e1, porque tudo isso retira a capacidade da empresa de ser produtiva\u201d, afirma um deles. \u201cEmbora o custo de extra\u00e7\u00e3o seja muito baixo,&nbsp;h\u00e1 uma estrutura muito pesada em cima, que \u00e9 muito cara. O custo de refino tamb\u00e9m \u00e9 muito caro por causa disso.\u201d&nbsp;<\/p>\n<p>Como parece improv\u00e1vel que o presidente Jair Bolsonaro tome qualquer atitude para viabilizar a privatiza\u00e7\u00e3o da Petrobras, abrindo espa\u00e7o para a redu\u00e7\u00e3o de seus custos e a melhoria de sua competitividade,&nbsp;talvez ele pudesse&nbsp;contribuir para reduzir, desde j\u00e1, as benesses conferidas aos funcion\u00e1rios da empresa, em vez de tentar interferir em sua&nbsp;pol\u00edtica de pre\u00e7os. A julgar, por\u00e9m, pelas suas posi\u00e7\u00f5es em defesa de interesses corporativistas de outras categorias, tudo indica que os privil\u00e9gios existentes na Petrobras v\u00e3o continuar por a\u00ed at\u00e9 que apare\u00e7a algu\u00e9m disposto a enfrentar a quest\u00e3o de frente.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Jos\u00e9 Fucs, O Estado de S.Paulo &#8211; @dispon\u00edvel na internet 26\/03\/2022<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"n--noticias__more\">&nbsp;<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cJabuticabas\u201d perduram na Petrobras e turbinam ganhos de funcion\u00e1rios Com poder de press\u00e3o favorecido por \u2018monop\u00f3lio\u2019, petroleiros mant\u00eam regalias que s\u00f3 existem na estatal e vivem situa\u00e7\u00e3o privilegiada no Pa\u00eds Nos idos de 2015, ao se licenciar da presid\u00eancia do conselho de administra\u00e7\u00e3o da&nbsp;Petrobras, posto que acabaria deixando em definitivo dois meses depois, o executivo&nbsp;Murilo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":69159,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[133],"tags":[],"class_list":{"0":"post-69152","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-destaques"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/supersalarios.jpg?fit=1000%2C644&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69152","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=69152"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69152\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/69159"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=69152"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=69152"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=69152"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}