{"id":7325,"date":"2016-11-21T07:14:32","date_gmt":"2016-11-21T10:14:32","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=7325"},"modified":"2016-11-21T07:14:32","modified_gmt":"2016-11-21T10:14:32","slug":"comecar-de-novo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2016\/11\/21\/comecar-de-novo\/","title":{"rendered":"Come\u00e7ar de novo."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O governo federal se mexe em torno da economia, com leis precisas contra a quebradeira. Mas nenhuma proposta de futuro para o pa\u00eds desmoralizado, sem autoestima<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O melhor \u00e9 come\u00e7ar tudo de novo. Est\u00e1 dif\u00edcil encontrar na pol\u00edtica brasileira um porto seguro, algu\u00e9m em quem possamos confiar sem limites e sobressaltos. N\u00e3o estou me referindo s\u00f3 \u00e0 honestidade pessoal j\u00e1 t\u00e3o rara, mas tamb\u00e9m aos planos e projetos que ningu\u00e9m nos prop\u00f5e. Minha impress\u00e3o \u00e9 a de que quem j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 mofando na cadeia faz do sil\u00eancio sua defesa pr\u00e9via, uma estrat\u00e9gia contra a condu\u00e7\u00e3o coercitiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O governo federal se mexe em torno da economia, com leis precisas contra a quebradeira. Mas nenhuma proposta de futuro para o pa\u00eds desmoralizado, sem autoestima ou o m\u00ednimo de entusiasmo para seguir em frente. A espada de D\u00e2mocles, que costuma estar pendurada sobre a cabe\u00e7a dos l\u00edderes, desta vez se encontra, segura por um fino fio, sobre a da popula\u00e7\u00e3o em geral. Como C\u00edcero, o tribuno romano, comentava a prop\u00f3sito daquela espada, \u201cn\u00e3o pode haver felicidade para aqueles que est\u00e3o sob apreens\u00f5es constantes.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenho para mim que a viol\u00eancia, que hoje assola o cotidiano brasileiro, \u00e9 tamb\u00e9m o resultado de nosso desgosto, da sensa\u00e7\u00e3o de que o Armagedon nacional em que vivemos nos permite todos os gestos de desespero, mesmo aqueles que sabemos n\u00e3o serem justos. As estat\u00edsticas est\u00e3o todo dia nos jornais \u2014 em um ano, 58.495 seres humanos sofreram morte violenta no pa\u00eds, em assaltos ou querelas particulares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa semana, um pai goiano matou seu filho anarquista e depois se suicidou, indignado com a op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do rapaz de 20 anos. No Maranh\u00e3o, um homem asfixiou sua cunhada, por quem se dizia apaixonado e n\u00e3o era correspondido. Em S\u00e3o Paulo, n\u00e3o se sabe bem por que, cinco adolescentes a caminho de uma festa foram liquidados por policiais e seus corpos abandonados num matagal. Titi, de 2 anos, filha adotiva de Bruno Gagliasso e Giovana Ewbank, foi selvagemente agredida pela internet por ser negra. E at\u00e9 abelhas venenosas foram soltas na relaxante Pedra do Arpoador. Podemos preencher mais de 50 mil p\u00e1ginas de jornal por ano com not\u00edcias como essas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a trag\u00e9dia \u00e9 anterior \u00e0 reden\u00e7\u00e3o, nos sentimos revigorados e aprendemos a viver com o exemplo funesto do passado. Em Sarajevo, o filho de um her\u00f3i da guerra na B\u00f3snia-Herzegovina instalou uma pousada, a que chamou de War Hostel, onde reproduz as condi\u00e7\u00f5es locais nos anos 1990, quando a ofensiva do Ex\u00e9rcito servo-b\u00f3snio matou quase 13 mil moradores desarmados. Al\u00e9m da decora\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>hostel<\/em><em>\u00a0<\/em>com objetos da guerra e recortes de jornais da \u00e9poca, o rapaz passa document\u00e1rios sobre o cerco de Sarajevo e monta excurs\u00f5es aos\u00a0<em>fronts<\/em>\u00a0de batalha. Os h\u00f3spedes deixam a pousada amando um pouco mais a humanidade. Entre n\u00f3s, a guerra ainda est\u00e1 na esquina e n\u00f3s queremos mais \u00e9 ter a sorte de escapar dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chega de culpar o Trump, chega de falar de Trump como se fosse ele quem vai decidir o nosso futuro. Os eleitores de Trump n\u00e3o s\u00e3o muito diferentes dos de Crivella, Kalil ou Doria, pensemos neles. J\u00e1 enfrentamos uma ditadura cruel e sanguin\u00e1ria que durou 21 anos e ach\u00e1vamos que, depois dela, viver\u00edamos no para\u00edso da democracia. Felizmente, a democracia chegou, \u00e0s vezes meio mambembe, nem t\u00e3o paradis\u00edaca assim. Mas essa \u00e9 uma conquista da qual n\u00e3o podemos nunca mais abrir m\u00e3o, apesar de todas as desilus\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois da ditadura, tivemos governos de direita, de centro e de esquerda. Em nenhum deles o pa\u00eds tomou um rumo certo e seguro. Uns foram mais austeros do que outros, uns mais abagun\u00e7ados do que outros; mas nada mudou de fato. Talvez aquele rumo certo e seguro nem exista. Durante os governos considerados populares, acreditamos na mudan\u00e7a de estrutura, na revolu\u00e7\u00e3o em nossos costumes pol\u00edticos e sociais. Depois de 13 anos desses governos, a popula\u00e7\u00e3o continua sem sa\u00fade, a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma piada, falta saneamento nas zonas pobres, a infla\u00e7\u00e3o voltou, o transporte segue um caos, n\u00e3o temos sistema de energia etc., etc., etc. Tudo igual. Ou talvez pior \u2014 agora vivemos a maior taxa de desemprego do per\u00edodo democr\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 nos resta confiar em n\u00f3s mesmos, em nossa capacidade de mudar, mesmo sabendo que nem todos pensamos e nunca pensaremos igual. N\u00f3s, brasileiros, somos um bando de gente muito diferente entre si. Filhos de brancos, pretos, \u00edndios e variados imigrantes, somos cat\u00f3licos, esp\u00edritas, evang\u00e9licos e umbandistas. Pouqu\u00edssimos ricos e uma vasta multid\u00e3o de miser\u00e1veis. Mas alguma coisa precisamos fazer para que o pa\u00eds liquide o passado social e pol\u00edtico, como liquidou a ditadura. Tentemos come\u00e7ar tudo de novo, sem compromisso com nada do que vimos, vivemos e sabemos<em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grande poeta russo Vladimir Maiakovski, um dos maiores do s\u00e9culo XX, morto aos 37 anos de idade v\u00edtima do stalinismo, cujo nome e obra sobreviver\u00e3o aos de Stalin, escreveu num poema que ouvira dizer que havia um homem feliz em algum lugar do mundo, parece que no long\u00ednquo Brasil. Tomara que ele esteja certo.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Artigo publicado no O Globo no dia 20\/11\/2016 na p\u00e1gina do DIAP &#8211; dispon\u00edvel na web 21\/11\/2016<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\"><strong>Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo.<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O governo federal se mexe em torno da economia, com leis precisas contra a quebradeira. Mas nenhuma proposta de futuro para o pa\u00eds desmoralizado, sem autoestima O melhor \u00e9 come\u00e7ar tudo de novo. Est\u00e1 dif\u00edcil encontrar na pol\u00edtica brasileira um porto seguro, algu\u00e9m em quem possamos confiar sem limites e sobressaltos. 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