{"id":79081,"date":"2023-04-05T04:10:04","date_gmt":"2023-04-05T07:10:04","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=79081"},"modified":"2023-04-04T05:54:04","modified_gmt":"2023-04-04T08:54:04","slug":"como-a-varig-teria-se-envolvido-com-o-regime-nazista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2023\/04\/05\/como-a-varig-teria-se-envolvido-com-o-regime-nazista\/","title":{"rendered":"Como a Varig teria se envolvido com o regime nazista"},"content":{"rendered":"<p><strong>Alem\u00e3o dono da empresa de avia\u00e7\u00e3o chegou ser detido em 1939, em Porto Alegre, suspeito de participar de um plano de espionagem.<\/strong><\/p>\n<p>Em novembro de 1939, o alem\u00e3o Otto Ernst Meyer foi preso pelo suposto envolvimento de sua empresa, a Via\u00e7\u00e3o A\u00e9rea Rio Grandense (Varig), em um plano de espionagem do regime nazista. Meyer ficou detido por tr\u00eas dias, e documentos da \u00e9poca apontam que o delegado da Delegacia de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops) de Porto Alegre concluiu que a companhia estaria ciente sobre a participa\u00e7\u00e3o no ato il\u00edcito.<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o que culminou com a pris\u00e3o de Meyer come\u00e7ou ap\u00f3s a pol\u00edcia ga\u00facha ter descoberto um plano para a instala\u00e7\u00e3o de radiotransmissores clandestinos a bordo de um vapor alem\u00e3o em Rio Grande. Segundo documentos da \u00e9poca, esses equipamentos seriam usados&nbsp;na espionagem voltada a enviar informa\u00e7\u00f5es para navios e submarinos alem\u00e3es na costa sul do Brasil.<\/p>\n<p>O caso foi revelado pelo historiador Alexandre Fortes, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), em sua tese de doutorado defendida em 2001. &#8220;Depois da descoberta dos documentos do Dops, encontrei diversos documentos sobre o tema no Arquivo Nacional dos Estados Unidos&#8221;, conta o pesquisador \u00e0 DW.<\/p>\n<p>De acordo com os documentos descobertos por Fortes, a Varig transportou os aparelhos de espionagem&nbsp;e o t\u00e9cnico encarregado da opera\u00e7\u00e3o at\u00e9 Rio Grande. A empresa tamb\u00e9m teria levado de gra\u00e7a o representante da Companhia Hamburguesa de Navega\u00e7\u00e3o no porto de Rio Grande, Friedrich Wilhelm Wiltgens, at\u00e9 Porto Alegre, para participar de uma reuni\u00e3o sobre a opera\u00e7\u00e3o ocorrida no consulado alem\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79084\" aria-describedby=\"caption-attachment-79084\" style=\"width: 150px\" class=\"wp-caption alignright\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-79084 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20.htm1_.gif?resize=150%2C250\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"250\"><figcaption id=\"caption-attachment-79084\" class=\"wp-caption-text\">Otto Ernet Meyer Labastille @reprodu\u00e7\u00e3o varig<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ap\u00f3s a pris\u00e3o de Meyer, autoridades recomendaram uma investiga\u00e7\u00e3o mais geral sobre as atividades da empresa. O andamento do inqu\u00e9rito foi lento, de acordo com Fortes. Somente em 1940, o Dops preparou um relat\u00f3rio sobre a atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da Varig e seu dono. O relat\u00f3rio afirma que Meyer era simpatizante do nazismo. O documento aponta&nbsp;ainda&nbsp;a Varig como respons\u00e1vel pela distribui\u00e7\u00e3o dos jornais e pelo transporte do dinheiro do caixa do Partido Nazista na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Meyer teria ainda escrito um artigo para um jornal pr\u00f3-nazista de Porto Alegre negando haver um descontamento das For\u00e7as Armadas alem\u00e3s com Adolf Hitler. Ele tamb\u00e9m teria retirado an\u00fancios da Varig de um peri\u00f3dico antinazista seguindo uma orienta\u00e7\u00e3o do Partido Nazista. O relat\u00f3rio afirmava ainda que o dono da Varig teria trocado correspond\u00eancias com agentes do regime alem\u00e3o que supostamente chefiavam uma rede de espionagem na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Apesar da pris\u00e3o de Meyer e do relat\u00f3rio do Dops sobre o envolvimento da empresa no caso, isso n\u00e3o teve nenhuma consequ\u00eancia jur\u00eddica imediata. Atribuo isso \u00e0 for\u00e7a pol\u00edtica da empresa e do pr\u00f3prio Meyer&#8221;, avalia Fortes.<\/p>\n<h4><strong>O nascimento da Varig<\/strong><\/h4>\n<p>Veterano da Primeira Guerra Mundial, Meyer emigrou para o Brasil em 1921. Inicialmente esteve em Recife e, depois de passar pelo Rio de Janeiro, se estabeleceu em Porto Alegre.<\/p>\n<p>&#8220;Ao vir para o Rio Grande do Sul, ele d\u00e1 muita sorte de entrar para a elite local. Ele conhece uma vi\u00fava rica da sociedade, muito bem relacionada, e acaba se casando com ela&#8221;, conta a historiadora Claudia Musa Fay, da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).<\/p>\n<p>Em 1927, com apoio de pol\u00edticos e empres\u00e1rios locais, Meyer consegue realizar seu sonho de fundar uma empresa de avia\u00e7\u00e3o no Brasil. Os recursos iniciais para o&nbsp;neg\u00f3cio&nbsp;vieram de quase 500 acionistas que investiram na Varig. Por meio de um acordo com a empresa alem\u00e3 Condor Syndikat, a nova companhia teve acesso ao primeiro avi\u00e3o e tripula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Varig operava inicialmente no ramo de entrega de correspond\u00eancia e encomendas a n\u00edvel regional. O transporte de passageiros era p\u00edfio, devido ao alto valor das passagens e ao pequeno n\u00famero de assentos dispon\u00edveis nas aeronaves \u2013 apenas seis. Sua primeira rota regular foi Porto Alegre-Pelotas-Rio Grande.<\/p>\n<p>Em 1932, ap\u00f3s passar por um per\u00edodo de dificuldades, o governo do Rio Grande do Sul acabou se tornando o maior acionista individual da Varig.<\/p>\n<h4><strong>Controv\u00e9rsia sobre o envolvimento com o regime nazista<\/strong><\/h4>\n<p>Al\u00e9m do relat\u00f3rio do Dops, a Varig foi monitorada pelo consulado americano em Porto Alegre a partir de 1936, segundo a pesquisa de Fortes. Em relat\u00f3rios produzidos em 1939, surgem declara\u00e7\u00f5es de que Meyer seria um forte apoiador do nazismo.<\/p>\n<p>Para a especialista&nbsp;em avia\u00e7\u00e3o Fay, Meyer pode at\u00e9 ter contribu\u00eddo financeiramente para o Partido Nazista num momento em que a comunidade alem\u00e3 no Brasil estaria empolgada com a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica&nbsp;da Alemanha.<\/p>\n<p>&#8220;A avia\u00e7\u00e3o alem\u00e3 era muito pujante na \u00e9poca. Quem olha pela m\u00e1quina, pela tecnologia e por esse vi\u00e9s, consegue entender que aquelas pessoas n\u00e3o estavam preocupadas com a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas com o avan\u00e7o t\u00e9cnico&#8221;, ressalta a historiadora.<\/p>\n<p>Fay, por\u00e9m, descarta&nbsp;um&nbsp;envolvimento da Varig em espionagem&nbsp;\u2013 por n\u00e3o haver interesses estrat\u00e9gicos, pois a empresa s\u00f3 operava regionalmente, e pelo pragmatismo de seu fundador.<\/p>\n<p>&#8220;Meyer n\u00e3o queria criar um Partido Nazista no Brasil. Ele estava muito interessado na avia\u00e7\u00e3o e em sua empresa. Sua liga\u00e7\u00e3o com a pol\u00edtica \u00e9 muito pragm\u00e1tica. Ele era amigo dos pol\u00edticos, porque os pol\u00edticos de certa maneira o ajudavam. Ele era muito amigo das empresas alem\u00e3s, porque elas forneciam os equipamentos. Mas quando teve que mudar por press\u00e3o dos Estados Unidos, a Varig passou a importar&nbsp;equipamento americano&#8221;, argumenta Fay.<\/p>\n<h4><strong>Nacionaliza\u00e7\u00e3o da empresa<\/strong><\/h4>\n<p>O epis\u00f3dio de 1939 relatado pelo Dops permaneceu sem consequ\u00eancias. No entanto, com o avan\u00e7o da Segunda Guerra Mundial, a rede de avia\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina que dependia de parceiros alem\u00e3es ficou em uma situa\u00e7\u00e3o complicada: sem assist\u00eancia t\u00e9cnica ou novos avi\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n<p>No final de 1941, ap\u00f3s press\u00e3o&nbsp;dos americanos em troca da venda de avi\u00f5es e pe\u00e7as de reposi\u00e7\u00e3o, Meyer se afastou da diretoria da Varig,&nbsp;segundo Fortes.&nbsp;Pouco tempo depois, seu fiel aliado e primeiro funcion\u00e1rio, Rubem Berta, assumiu a presid\u00eancia da companhia.<\/p>\n<p>&#8220;Meyer ficou, por\u00e9m, nos bastidores. Ele n\u00e3o saiu totalmente da empresa. Ele e Berta trabalhavam sempre juntos&#8221;, destaca Fay, que acrescenta que, com o fim da guerra, Meyer voltou a pertencer ao conselho da companhia, onde permaneceu at\u00e9 a sua morte, em 1966.<\/p>\n<p>Fortes ressalta ainda que o caso da Varig n\u00e3o \u00e9 isolado. &#8220;Ele se insere numa rede de empresas de avia\u00e7\u00e3o de origem alem\u00e3 e faz parte de uma disputa pela avia\u00e7\u00e3o civil na Am\u00e9rica Latina no per\u00edodo entreguerras, quando&nbsp;europeus e americanos competiam por espa\u00e7o formando empresas&#8221;, afirma.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dio: <span class=\"sc-gicCDI czqpjL\">Clarissa Neher\/ Deutsche Welle&nbsp; &#8211; @ dispon\u00edvel na internet 05\/04\/2023<\/span><\/strong><\/p>\n<hr>\n<h4><strong>Saiba mais sobre a VARIG Brasil &#8211;<\/strong>&nbsp;<strong><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"https:\/\/www.varig-airlines.com\/pt\/20.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.varig-airlines.com\/pt\/20.htm<\/a><\/span><\/strong>&nbsp;<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alem\u00e3o dono da empresa de avia\u00e7\u00e3o chegou ser detido em 1939, em Porto Alegre, suspeito de participar de um plano de espionagem. 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