{"id":8087,"date":"2016-12-15T03:52:08","date_gmt":"2016-12-15T06:52:08","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=8087"},"modified":"2016-12-15T03:52:08","modified_gmt":"2016-12-15T06:52:08","slug":"quando-o-tempo-nao-passa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2016\/12\/15\/quando-o-tempo-nao-passa\/","title":{"rendered":"Quando o tempo n\u00e3o passa."},"content":{"rendered":"<p>Como fechar ou acabar um ano, se o tempo \u00e9 como a \u00e1gua de um imenso mar, o qual nos \u00e9 dado a conhecer por um instante?<\/p>\n<p>Como certas doen\u00e7as, existem tempos que n\u00e3o passam. S\u00e3o intermin\u00e1veis como este nosso 2016 \u2014 certamente, um cl\u00e1ssico desta categoria, pr\u00f3ximo do que foi 1968, celebrizado por Zuenir Ventura num belo livro.<\/p>\n<p>Os tempos n\u00e3o passam quando neles ocorrem eventos desafiadores para as estruturas vigentes. Em 1968 \u2014 vivido por mim em Cambridge, Massachusetts \u2014 as revoltas estudantis, os assassinatos de Luther King e Robert Kennedy, a luta contra o racismo e a Guerra do Vietn\u00e3 desafiavam a democracia americana. Num Brasil arrolhado pela ditadura, fazia-se o que era poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Quando os fatos n\u00e3o cabem nas gavetas da Hist\u00f3ria, eles viram dramas.<\/p>\n<p>N\u00e3o passam.<\/p>\n<p>Tal como 1968, esse 2016 explicita os enganos de um Brasil ultraestatizado, radicalizado e incestuosamente assaltado, mas com um sistema legal ainda vivo e capaz de cometer a heresia de enjaular poderosos.<\/p>\n<p>Todo fato chocante vira drama porque perde transitoriedade. Torna-se indigesto, impedindo o tr\u00e2nsito de um tempo que concebemos como passando, como a paisagem do trem que levou Hans Castorp \u00e0 \u201cMontanha m\u00e1gica\u201d. Numa cosmologia que estratifica as \u00e9pocas \u2014 Idade das Trevas e da Luz \u2014 a passagem do tempo serve como uma prova de evolu\u00e7\u00e3o. Vamos sempre do atraso para o progresso.<\/p>\n<p>Nesse quadro, tempos que n\u00e3o passam seriam \u00e9pocas n\u00e3o resolvidas. Como portas abertas, eles deixam que passado se misture com presente, e ambos detenham a esperan\u00e7a de um futuro. Como dizia Thomas Mann, \u201conde n\u00e3o h\u00e1 transitoriedade \u2014 princ\u00edpio e fim, nascimento e morte, n\u00e3o h\u00e1 tempo.\u201d Mas como fechar ou acabar um ano, se o tempo \u00e9 como a \u00e1gua de um imenso mar, o qual nos \u00e9 dado a conhecer por um instante? Nele navegamos e nele sucumbimos. Dividi-lo, diz Mann, \u00e9 arbitr\u00e1rio. \u00c9 como tentar fatiar \u00e1gua, como temos feito com as leis nesse Brasil de 2016.<\/p>\n<p>Sem diques, viramos n\u00e1ufragos do nosso legalismo, do nosso formalismo e do nosso cuidado em n\u00e3o fechar etapas. Aos fechamentos, preferimos os acordos e harmoniza\u00e7\u00f5es, cujo centro s\u00e3o cargos apossados por pessoas, e n\u00e3o pessoas a servi\u00e7o dos cargos, honrando-os e n\u00e3o se utilizando deles para projetos particulares, ou ideol\u00f3gicos. Sem um m\u00ednimo de sincronia entre pessoas e cargos, n\u00e3o h\u00e1 como estancar poderes e fechar temporalidades. Pois se as leis t\u00eam dia e ano, as amizades e as considera\u00e7\u00f5es s\u00e3o vari\u00e1veis, flex\u00edveis e perp\u00e9tuas.<\/p>\n<p>____________<\/p>\n<p>Numa antiga Harvard, Richard Moneygrand fazia uma palestra sobre os valores pol\u00edticos brasileiros. Em vez de citar os usuais suspeitos \u2014 Maquiavel, Marx, Hobbes, Locke, Habermas&#8230; \u2014, falou na teoria da oferenda e da reciprocidade de Marcel Mauss. Abriu espa\u00e7o para discorrer sobre uma hist\u00f3ria social que lhe parecia singular porque nela havia um conflito reprimido entre \u201cla\u00e7os de lealdade devido a pessoas\u201d, os famosos \u201celos de favor, contrafavor e amizade\u201d e leis universais impessoais juridicamente v\u00e1lidas para todos. O Brasil, dizia o conferencista, constitu\u00eda um caso no qual a na\u00e7\u00e3o (ou o pa\u00eds) era administrado por meio de regras de car\u00e1ter universal, mas a sociedade continuava a ser motivada por simpatias particularistas. O problema era que poucos viam o poder das normas sociais. Disso resultava uma instabilidade permanente, como, de resto, ocorria no mundo latino.<\/p>\n<p>Essa palestra inspirou \u201cCarnavais, malandros e her\u00f3is\u201d, dando-me a motiva\u00e7\u00e3o para sugerir que o \u201cVoc\u00ea sabe com quem est\u00e1 falando?\u201d era uma reivindica\u00e7\u00e3o (ou uma eclos\u00e3o) particularista de cunho aristocr\u00e1tico em situa\u00e7\u00f5es de igualdade. Eis um evento saudoso da estrutura que o modelava. Nele, o cidad\u00e3o sujeito da lei geral aparecia subitamente como algu\u00e9m muito bem relacionado e, assim, livre para descumpri-la. As leis se aplicam a todos, mas dependem de quem se est\u00e1 falando&#8230;<\/p>\n<p>O delito importa, mas ele est\u00e1 amarrado a que quem o comete. Todo particularismo reage ou se acultura diante do universalismo em todo lugar. Da\u00ed os dilemas do liberalismo que, a todo momento, s\u00e3o for\u00e7ados a ajustar leis impessoais a novos momentos hist\u00f3ricos, algo que temos sido incapazes de realizar. No Brasil, inventamos o jeitinho (estudado por Livia Barbosa num livro cl\u00e1ssico) e o \u201cSabe com quem est\u00e1 falando?\u201d. Ambos reativam particularismos num mundo legalmente constru\u00eddo por individuos-cidad\u00e3os sem idade, sexo, cor ou fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Nessa mesma ocasi\u00e3o, cunhei a express\u00e3o \u201csociedade relacional\u201d para definir sistemas nos quais havia uma incerteza b\u00e1sica entre julgar individualmente ou faz\u00ea-lo levando em conta seus cargos e rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A\u00ed estava o centro, o ponto de fuga de quem virava \u201cfigura\u201d numa sociedade marcada pela subordina\u00e7\u00e3o. Hoje, gra\u00e7as \u00e0 Lava-Jato, sabemos que o capital pol\u00edtico relacional transformou-se tamb\u00e9m num rico empreendimento financeiro. Dizem que \u00e9 o capital que tudo controla mas, na verdade, s\u00e3o esses elos hier\u00e1rquicos que t\u00eam domesticado e englobado o capitalismo, dando-lhe uma fei\u00e7\u00e3o compradesca e populista.<\/p>\n<p>_____________<\/p>\n<p>Ao fim dessa palestra, Moneygrand disse algo que jamais esqueci: \u201cSe voc\u00ea quiser comprender o poder no Brasil, n\u00e3o estude partidos, estude pessoas!<\/p>\n<p><strong><em>Cr\u00e9dito: Artigo publicado dia 14\/12\/2016 no Jornal O Globo \u2013 dispon\u00edvel na web 15\/12\/2016<\/em><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\"><strong>\u00a0Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo.<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como fechar ou acabar um ano, se o tempo \u00e9 como a \u00e1gua de um imenso mar, o qual nos \u00e9 dado a conhecer por um instante? Como certas doen\u00e7as, existem tempos que n\u00e3o passam. S\u00e3o intermin\u00e1veis como este nosso 2016 \u2014 certamente, um cl\u00e1ssico desta categoria, pr\u00f3ximo do que foi 1968, celebrizado por Zuenir [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":7610,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[134],"tags":[],"class_list":{"0":"post-8087","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-artigos"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/carinha_colunista_roberto_damatta.jpg?fit=220%2C220&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8087","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8087"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8087\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7610"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8087"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8087"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8087"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}