{"id":81079,"date":"2023-06-30T04:15:42","date_gmt":"2023-06-30T07:15:42","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=81079"},"modified":"2023-06-30T07:07:39","modified_gmt":"2023-06-30T10:07:39","slug":"a-sindicalizacao-entre-os-jovens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2023\/06\/30\/a-sindicalizacao-entre-os-jovens\/","title":{"rendered":"A sindicaliza\u00e7\u00e3o entre os jovens"},"content":{"rendered":"<p>Sindicaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o permanente e parte do trabalho de base e cotidiano de dirigentes e ativistas sindicais. Em artigo anterior sistematizei argumentos que abordam a queda na densidade sindical, usando como base um amplo estudo realizado nos pa\u00edses da OCDE. Neste artigo tratarei da sindicaliza\u00e7\u00e3o entre os jovens.<\/p>\n<p>S\u00e3o permanentes os desafios para a sindicaliza\u00e7\u00e3o em todas as faixas et\u00e1rias, requerendo inova\u00e7\u00f5es nas estrat\u00e9gias que buscam abordar as trabalhadoras e os trabalhadores para participarem de atividades e aderirem voluntariamente ao sindicato, ampliando dessa forma a representatividade, a representa\u00e7\u00e3o e de cobertura sindical.<\/p>\n<p>A dificuldade para atrair a juventude para a vida sindical \u00e9 destacada no trabalho de filia\u00e7\u00e3o. O estudo da OCDE indica que a composi\u00e7\u00e3o et\u00e1ria da for\u00e7a de trabalho \u00e9 uma causa para a queda na filia\u00e7\u00e3o sindical em geral. Os jovens representam 7% do total de sindicalizados na \u00e1rea da OCDE e s\u00e3o os menos propensos a se sindicalizar. O estudo aponta que a taxa de sindicaliza\u00e7\u00e3o por idade segue a forma de U invertido, menor entre os mais novos e os mais velhos e maximizada na faixa dos 40 anos.<\/p>\n<p>A ades\u00e3o pelo trabalhador a um sindicato \u00e9 resultado do desenvolvimento de rela\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas de presen\u00e7a na base, de descobertas sobre o papel dos sindicatos e de oportunidades de participa\u00e7\u00e3o. Sindicalizar-se \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, um ato e uma decis\u00e3o individual, muito tensionada por press\u00f5es contr\u00e1rias, por estigmas e preconceitos. Filiar-se \u00e9 uma decis\u00e3o de celebrar um v\u00ednculo e estabelecer um compromisso com um sujeito coletivo, algumas vezes rec\u00e9m-descoberto. O trabalho de base que leva \u00e0 sindicaliza\u00e7\u00e3o apresenta e enaltece os benef\u00edcios que a filia\u00e7\u00e3o trar\u00e1, com destaque para os servi\u00e7os que a entidade oferece. Mas \u00e9 a capacidade de o sindicato melhorar os sal\u00e1rios, ampliar as conquistas econ\u00f4micas, proteger os direitos trabalhistas, cuidar das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, da sa\u00fade e a seguran\u00e7a que d\u00e3o lastro para o trabalho de sindicaliza\u00e7\u00e3o e para a decis\u00e3o de se filiar.<\/p>\n<p>S\u00e3o os trabalhadores em movimento, atrav\u00e9s das suas lutas e posicionamentos relacionados aos fatos do cotidiano presentes no ch\u00e3o das empresas, que empoderam o sindicato e o levam a ser esse sujeito coletivo observado, testado, acompanhado e atraente. Nos movimentos e processos de mobiliza\u00e7\u00e3o o sindicato se apresenta como possibilidade de descoberta e de v\u00ednculo. Tempo, continuidade, perseveran\u00e7a e aten\u00e7\u00e3o s\u00e3o atributos do bom trabalho de sindicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A maior dificuldade para filiar jovens sempre esteve associada ao menor tempo de vida laboral de quem inicia sua trajet\u00f3ria profissional e, portanto, para avaliar os benef\u00edcios da filia\u00e7\u00e3o sindical e da prote\u00e7\u00e3o coletiva. Os direitos trabalhistas e sociais muitas vezes aparecem naturalizados como um dado do mundo do trabalho, sem hist\u00f3ria e sem luta. Descobrir como e de onde surgiram os direitos leva tempo, exige acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e \u00e9 parte constitutiva do trabalho de base e de forma\u00e7\u00e3o sindical.<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o se deve menosprezar alguns dos motivos que t\u00eam levado a uma baixa sindicaliza\u00e7\u00e3o entre os jovens e, muito menos, deixar de observar que ocorre queda na sua sindicaliza\u00e7\u00e3o. Compreender esses motivos ajuda a formular as estrat\u00e9gias de atra\u00e7\u00e3o dos jovens para o sindicalismo.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o antissindical de parte do empresariado \u00e9 um grave obst\u00e1culo, com amea\u00e7as aos trabalhadores e iniciativas para impedir o acesso dos sindicatos aos locais de trabalho.<\/p>\n<p>A desindustrializa\u00e7\u00e3o e o encolhimento do setor manufatureiro, a expans\u00e3o de ocupa\u00e7\u00f5es no setor de servi\u00e7os e a queda do emprego no setor p\u00fablico, a dissemina\u00e7\u00e3o de formas flex\u00edveis de contratos, a crescente precariza\u00e7\u00e3o, a informalidade e a rotatividade constituem o duro contexto no qual as jovens e os jovens iniciam a vida laboral e formam um contexto situacional adverso para a atividade sindical. As desigualdades nas condi\u00e7\u00f5es gerais de trabalho entre os jovens trabalhadores e parte da classe trabalhadora madura \u00e9 muitas vezes abissal, dist\u00e2ncias que precisam ser superadas na pol\u00edtica sindical para articular novas pautas, lutas e negocia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma mudan\u00e7a importante na rela\u00e7\u00e3o entre gera\u00e7\u00f5es. As gera\u00e7\u00f5es maduras est\u00e3o \u201centregando\u201d, para filhas, filhos, netas e netos que chegam para a vida profissional, um mundo do trabalho muito ruim, com sal\u00e1rios menores, postos prec\u00e1rios, inseguros, uma trajet\u00f3ria protetiva socialmente desvalorizada, um presente sem futuro, um vir a ser sem esperan\u00e7a. Estamos em d\u00edvida com as gera\u00e7\u00f5es dos jovens.<\/p>\n<p>Destaca-se no estudo da OCDE a manifesta\u00e7\u00e3o entre os jovens de um ultra individualismo, de maior distanciamento dos jovens no envolvimento com uma empresa e, aparentemente de forma contradit\u00f3ria, de estarem dispon\u00edveis para a\u00e7\u00f5es coletivas, mas se destacando a opini\u00e3o de que os sindicatos s\u00e3o pouco atraentes ou mesmo antiquados. Nesse solo o trabalho sindical tem que semear.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 dicas muito interessantes no estudo da OCDE como, por exemplo, quando compara os jovens (20 a 34 aos) com a faixa et\u00e1ria de 35 a 54 anos. Os jovens, em rela\u00e7\u00e3o aos mais velhos, valorizam mais a liberdade individual, s\u00e3o mais apegados \u00e0 solidariedade, apoiam mais a\u00e7\u00f5es coletivas como manifesta\u00e7\u00f5es ou iniciativas para arrecadar fundos para causas sociais ou pol\u00edticas. T\u00eam participa\u00e7\u00e3o semelhante aos seus pares mais velhos em organiza\u00e7\u00f5es ambientais ou de consumidores.<\/p>\n<p>A pesquisa constata que a confian\u00e7a nos sindicatos \u00e9 maior entre os trabalhadores mais jovens em 23 dos 32 pa\u00edses analisados. Destaca-se a demanda frustrada dos jovens por sindicaliza\u00e7\u00e3o e sua percep\u00e7\u00e3o mais agu\u00e7ada sobre a indispensabilidade dos sindicatos na prote\u00e7\u00e3o dos direitos dos trabalhadores. S\u00e3o elementos essenciais para uma abordagem cr\u00edtica e criativa para o trabalho de sindicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Interessante observar, por\u00e9m, que tamb\u00e9m aparece de forma destacada nos estudos analisados a constata\u00e7\u00e3o de que os trabalhadores jovens parecem menos convencidos de que precisam de sindicatos fortes para proteger seus interesses. A rela\u00e7\u00e3o entre confian\u00e7a e convencimento \u00e9 um elemento f\u00e9rtil para o desenvolvimento do trabalho de base visando \u00e0 sindicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_80750\" aria-describedby=\"caption-attachment-80750\" style=\"width: 150px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-80750 size-thumbnail\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/clemente.jpg?resize=150%2C150\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/clemente.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/clemente.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/clemente.jpg?resize=420%2C420&amp;ssl=1 420w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/clemente.jpg?w=640&amp;ssl=1 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-80750\" class=\"wp-caption-text\">Clemente Ganz L\u00facio \u00e9 soci\u00f3logo, coordenador do F\u00f3rum das Centrais Sindicais, consultor, membro do CDESS \u2013 Conselho de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social Sustent\u00e1vel da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, membro do Conselho da Oxfam Brasil e ex-diretor t\u00e9cnico do DIEESE (2004\/2020).<\/figcaption><\/figure>\n<p>O sindicato \u00e9 antiquado? Est\u00e1 parado no tempo? Mantem-se longe do mundo real prec\u00e1rio e inseguro? Atua com linguagem que n\u00e3o comunica? Gerar respostas cr\u00edticas e qualificada a estas quest\u00f5es podem iluminar a elabora\u00e7\u00e3o de inova\u00e7\u00f5es para o trabalho de sindicaliza\u00e7\u00e3o e de formula\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias consistentes para o futuro do sindicalismo.<\/p>\n<p>As inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e a intelig\u00eancia artificial j\u00e1 est\u00e3o lan\u00e7ando ingredientes explosivos nesse duro e bruto mundo do trabalho e ser\u00e3o os jovens trabalhadores que ter\u00e3o a tarefa de enfrent\u00e1-las, pois essas tecnologias j\u00e1 fazem parte do seu presente e est\u00e3o formatando o seu futuro. Fazer da tecnologia uma aliada do trabalho e da vida \u00e9 uma luta de hoje e de sempre.<\/p>\n<p>Colocar no tempo presente o futuro almejado como uma constru\u00e7\u00e3o social e hist\u00f3rica, e encantar o duro cotidiano com a esperan\u00e7a de utopias que somos capazes de construir coletivamente, s\u00e3o desafios a serem superados como tarefa daqueles que querem um sindicalismo renovado, din\u00e2mico e de luta, com forte presen\u00e7a das trabalhadoras e dos trabalhadores jovens<\/p>\n<p>As opini\u00f5es emitidas nos artigos expressam o pensamento de seus autores e n\u00e3o necessariamente a posi\u00e7\u00e3o editorial da Rede Esta\u00e7\u00e3o Democracia.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Clemente Ganz L\u00facio \/ Rede Esta\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica &#8211; @ dispon\u00edvel na internet 30\/06\/2023<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sindicaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o permanente e parte do trabalho de base e cotidiano de dirigentes e ativistas sindicais. 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