{"id":83116,"date":"2023-09-25T04:15:15","date_gmt":"2023-09-25T07:15:15","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=83116"},"modified":"2023-09-25T04:39:13","modified_gmt":"2023-09-25T07:39:13","slug":"ha-50-anos-morria-o-homem-que-explicou-a-pobreza-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2023\/09\/25\/ha-50-anos-morria-o-homem-que-explicou-a-pobreza-no-brasil\/","title":{"rendered":"H\u00e1 50 anos morria o homem que explicou a pobreza no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Logo depois que se graduou, o m\u00e9dico Josu\u00e9 de Castro (1908-1973) passou a dividir seu tempo entre o consult\u00f3rio e uma f\u00e1brica de tecidos no Recife \u2014 onde atuava como m\u00e9dico do trabalho. O patr\u00e3o acusava os funcion\u00e1rios de indol\u00eancia. Depois de examin\u00e1-los, Castro sentenciou: &#8220;a doen\u00e7a dessa gente \u00e9 fome&#8221;.<\/p>\n<p>O jovem m\u00e9dico acabou demitido da ind\u00fastria. Mas o assunto, uma chaga do Brasil daquela \u00e9poca que&nbsp;persiste no Brasil&nbsp;do s\u00e9culo 21, jamais saiu de seu foco. Morto h\u00e1 exatos 50 anos, Josu\u00e9 de Castro, continua sendo um intelectual necess\u00e1rio para a compreens\u00e3o da pobreza brasileira, principalmente por seus livros&nbsp;<em>Geografia da Fome<\/em>, de 1946, e&nbsp;<em>Geopol\u00edtica da Fome<\/em>, de 1951.<\/p>\n<p>&#8220;Ele deu in\u00edcio a uma longa tradi\u00e7\u00e3o de estudos, mobiliza\u00e7\u00e3o e pol\u00edticas p\u00fablicas sobre o tema da fome, assim como s\u00e3o marcos do mesmo processo a campanha iniciada por&nbsp;Betinho&nbsp;[o soci\u00f3logo e ativista Herbert de Sousa (1935-1997)] e, em 2003, o bin\u00f4mio Fome Zero e Bolsa Fam\u00edlia&#8221;, afirma o economista Marcelo Neri, diretor do Centro de Pol\u00edticas Sociais FGV Social.<\/p>\n<p>Professora na Universidade de Bras\u00edlia (UnB), a enfermeira Helena Eri Shimizu destaca que Castro &#8220;mostrou a real fotografia da&nbsp;fome&nbsp;no Brasil&#8221;, revelando que &#8220;era um problema oriundo das desigualdades sociais&#8221;.<\/p>\n<p><em>Geografia da Fome<\/em>&nbsp;foi inovador porque demonstrou as origens socioecon\u00f4micas do problema, esvaziando as explica\u00e7\u00f5es deterministas, ent\u00e3o vigentes, sobre a situa\u00e7\u00e3o. &#8220;O livro examina os regimes alimentares de cada regi\u00e3o brasileira e as possibilidades oferecidas pelos fatores naturais, destacando a organiza\u00e7\u00e3o das formas de propriedade e as rela\u00e7\u00f5es de trabalho vigentes&#8221;, explica o soci\u00f3logo Rog\u00e9rio Baptistini Mendes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie. &#8220;A fome, desgra\u00e7a que aflige os seres humanos que ingerem alimentos insuficientes para suprir as necessidades da vida, \u00e9 tratada como consequ\u00eancia da organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social, n\u00e3o simplesmente como sensa\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica devida \u00e0 car\u00eancia de oferta, por exemplo.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;At\u00e9 ent\u00e3o a fome era vista principalmente como um epis\u00f3dio cr\u00edtico, uma crise que era atribu\u00edda a fen\u00f4menos naturais, como uma seca, ou tempor\u00e1rios, como uma guerra&#8221;, contextualiza a historiadora Adriana Salay Leme, que recentemente defendeu seu doutorado sobre a obra de Castro. &#8220;No livro, ele sintetizou as discuss\u00f5es da \u00e9poca mostrando que essa fome provocada por uma crise, que ele chamou de fome epid\u00eamica, n\u00e3o era mais importante que a fome end\u00eamica. Por fome end\u00eamica, ele entendia um fen\u00f4meno cotidiano e menos intenso, que podia n\u00e3o matar por inani\u00e7\u00e3o, mas que matava lentamente a popula\u00e7\u00e3o por doen\u00e7as associadas.&#8221;<\/p>\n<p>Leme acrescenta que o m\u00e9dico foi bem-sucedido em seus esfor\u00e7os para &#8220;divulgar esse alargamento do sentido de fome&#8221;. &#8220;A\u00ed, tem algo essencial para pensarmos a fome nos dias de hoje: a liga\u00e7\u00e3o entre acesso aos alimentos e renda. A renda \u00e9 um fator determinante para a capacidade de acessar alimentos de uma fam\u00edlia e isso fez com que ele ligasse o olhar para a fome com pobreza e n\u00e3o com os fen\u00f4menos naturais&#8221;, diz ela.&nbsp;<\/p>\n<p>Em&nbsp;<em>Geopol\u00edtica da Fome<\/em>, Castro levou o tema para uma escala mundial, novamente desnaturalizando a pobreza e explicando os fatores geogr\u00e1ficos, biol\u00f3gicos, culturais e pol\u00edticos que levam \u00e0 fome. Mendes enfatiza que o livro &#8220;sepulta&#8221; a ideia de que o aumento populacional da Terra implicaria em oferta insuficiente de recursos.<\/p>\n<p>&#8220;Na obra, h\u00e1 uma an\u00e1lise da l\u00f3gica de funcionamento do sistema alimentar mundial, formado na esteira do colonialismo e baseado na antiga divis\u00e3o internacional do trabalho&#8221;, diz o professor. &#8220;Hoje, num mundo em que a agricultura \u00e9 intensiva e voltada para a produ\u00e7\u00e3o de commodities, sobretudo nos pa\u00edses subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, fica f\u00e1cil compreender que a fome das popula\u00e7\u00f5es \u00e9 devida a um processo que gera riquezas que ficam concentradas.&#8221;<\/p>\n<p>Para Neri, a obra de Castro &#8220;\u00e9 um divisor de \u00e1guas&#8221;. &#8220;Embora escritos h\u00e1 quase 80 anos, sua mensagem continua atual. O mundo tem produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola mais do que suficiente para alimentar toda a popula\u00e7\u00e3o. O mesmo valia e vale para o Brasil&#8221;, argumenta o economista.<\/p>\n<p>&#8220;Ele mostrou que os interesses pol\u00edticos e a concentra\u00e7\u00e3o de riquezas s\u00e3o as verdadeiras causas do flagelo alimentar que condena indiv\u00edduos e sociedades&#8221;, sintetiza Mendes.<\/p>\n<h4><strong>Carreira<\/strong><\/h4>\n<p>Nascido no Recife, Josu\u00e9 Apol\u00f4nio de Castro cresceu em uma regi\u00e3o pobre da cidade, pr\u00f3ximo aos manguezais. Queria ser psiquiatra. Come\u00e7ou a faculdade de medicina na Bahia e concluiu no Rio. A essa altura j\u00e1 havia decidido que em vez da sa\u00fade mental, cuidaria dos problemas decorrentes de m\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o: especializou-se em nutri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1932, segundo informa\u00e7\u00f5es do Centro de Estudos Josu\u00e9 de Castro, o m\u00e9dico realizou uma ampla pesquisa sobre as condi\u00e7\u00f5es de vida do operariado recifense. Mudou-se para o Rio e aos 28 anos foi admitido, concursado, como professor de geografia na ent\u00e3o Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).<\/p>\n<p>Nos anos 1940, empreendeu viagens de estudos sobre alimenta\u00e7\u00e3o e nutri\u00e7\u00e3o em pa\u00edses como Argentina, Estados Unidos, M\u00e9xico e Rep\u00fablica Dominicana. Em 1943 tornou-se professor de nutri\u00e7\u00e3o do curso de sanitaristas do ent\u00e3o Departamento Nacional de Sa\u00fade. Em seguida, foi nomeado diretor do Servi\u00e7o T\u00e9cnico de Alimenta\u00e7\u00e3o Nacional, depois rebatizado de Comiss\u00e3o Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele ainda ocuparia diversos cargos importantes. Foi deputado federal por dois mandatos, presidente do conselho executivo da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Agricultura e Alimenta\u00e7\u00e3o (FAO) e, em 1957, fundou a Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Luta Contra a Fome. Quando veio o golpe militar de 1964, ele era embaixador do Brasil na Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) \u2014 acabou destitu\u00eddo do cargo e ficou exilado em Paris, onde morreu em 1973.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos da vida, confessava sentir muita falta do Brasil. &#8220;N\u00e3o se morre apenas de enfarte ou de glomerulonefrite cr\u00f4nica, mas tamb\u00e9m de saudade&#8221;, chegou a afirmar.<\/p>\n<p>Castro chegou a ser indicado tr\u00eas ao Pr\u00eamio Nobel: em 1954, ao de Medicina; em 1963 e 1970, ao da Paz.<\/p>\n<h4><strong>Um problema que persiste<\/strong><\/h4>\n<p>&#8220;O Brasil se destaca internacionalmente no tema desde Josu\u00e9 de Castro&#8221;, ressalta Neri. &#8220;E hoje ainda mais, pelo paradoxo de ser um grande produtor de alimentos.&#8221;<\/p>\n<p>Mendes lembra que oito d\u00e9cadas atr\u00e1s o pa\u00eds era majoritariamente rural e &#8220;ensaiava a sua transi\u00e7\u00e3o urbana e industrial&#8221;. &#8220;De l\u00e1 para c\u00e1 muita coisa mudou para permanecer igual. Os humilhados da terra, sem direitos pol\u00edticos, sociais e trabalhistas migraram para as cidades movidos pelo efeito demonstra\u00e7\u00e3o de um mundo que prometia mobilidade ascendente&#8221;, analisa o soci\u00f3logo. &#8220;O resultado foi a forma\u00e7\u00e3o de um tipo novo de pobreza nas periferias das grandes cidades, onde a vida \u00e9 prec\u00e1ria. \u00c9 para essa gente que os leitores de Josu\u00e9 de Castro olham hoje. Eles s\u00e3o v\u00edtimas do passado e do presente, est\u00e3o num mundo que insiste em n\u00e3o os incorporar como cidad\u00e3os plenos, com direito \u00e0 dignidade da vida e ao desenvolvimento de seu potencial humano. A sua fome d\u00f3i.&#8221;<\/p>\n<p>A historiadora Leme v\u00ea &#8220;mudan\u00e7as e continuidades&#8221; no cen\u00e1rio. &#8220;Hoje n\u00e3o temos mais popula\u00e7\u00f5es se retirando do semi\u00e1rido quando h\u00e1 uma seca prolongada. Uma das maiores secas que esse territ\u00f3rio j\u00e1 teve aconteceu entre 2012 e 2017, mas pol\u00edticas fundamentais como o Bolsa Fam\u00edlia e o programa de cisternas, al\u00e9m de uma circula\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida do alimento, fez com que essas fam\u00edlias pudessem se manter em seu territ\u00f3rio&#8221;, comenta.<\/p>\n<p>&#8220;Isso quer dizer que a fome epid\u00eamica do semi\u00e1rido mapeada por Josu\u00e9 diminuiu. Ao passado que a fome estrutural, que ele chamou de end\u00eamica, se manteve&#8221;, explica ela. &#8220;Se a fome \u00e9 estrutural, \u00e9 apenas mudando a estrutura que vamos combat\u00ea-la efetivamente.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: <span class=\"sc-gisvNi fmlQzy\">Edison Veiga \/ Deutsche Welle &#8211; @ dispon\u00edvel na internet 25\/09\/2023<\/span><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Logo depois que se graduou, o m\u00e9dico Josu\u00e9 de Castro (1908-1973) passou a dividir seu tempo entre o consult\u00f3rio e uma f\u00e1brica de tecidos no Recife \u2014 onde atuava como m\u00e9dico do trabalho. O patr\u00e3o acusava os funcion\u00e1rios de indol\u00eancia. Depois de examin\u00e1-los, Castro sentenciou: &#8220;a doen\u00e7a dessa gente \u00e9 fome&#8221;. 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