{"id":85400,"date":"2023-12-18T04:15:48","date_gmt":"2023-12-18T07:15:48","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=85400"},"modified":"2023-12-17T17:33:35","modified_gmt":"2023-12-17T20:33:35","slug":"o-que-o-brasil-tem-a-ganhar-com-mercado-regulado-de-carbono","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2023\/12\/18\/o-que-o-brasil-tem-a-ganhar-com-mercado-regulado-de-carbono\/","title":{"rendered":"O que o Brasil tem a ganhar com mercado regulado de carbono?"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Medida pode fazer atributos sustent\u00e1veis do pa\u00eds serem reconhecidos e recompensados. Regulamenta\u00e7\u00e3o tem potencial de impulsionar mercado volunt\u00e1rio e promover verdadeiro boom econ\u00f4mico verde.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Descarbonizar \u00e9 o grande&nbsp;desafio para frear as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. E&nbsp;uma das estrat\u00e9gias que o mundo adotou foi atribuir um valor econ\u00f4mico \u00e0 redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es. Por conven\u00e7\u00e3o, uma tonelada de di\u00f3xido de carbono (CO2) corresponde a um cr\u00e9dito de carbono, que pode ser negociado no mercado internacional. A redu\u00e7\u00e3o da emiss\u00e3o de outros gases geradores de efeito estufa tamb\u00e9m pode ser convertida em cr\u00e9ditos de carbono, utilizando-se o conceito de carbono equivalente. Assim, uma empresa ou governo pode compensar parte das suas emiss\u00f5es pagando \u00e0 outra entidade que polui menos. O recebedor do dinheiro deve investi-lo em fontes de energia renov\u00e1veis e projetos de conserva\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>Em outubro passado, a Comiss\u00e3o de Meio Ambiente do Senado Federal aprovou o projeto de lei&nbsp;que cria o Sistema Brasileiro do Com\u00e9rcio de Emiss\u00f5es (SBCE) e regulamenta o mercado de carbono no Brasil. O PL 412\/2022&nbsp;ainda precisa ser aprovado na C\u00e2mara.<\/p>\n<p>O pa\u00eds se encontra num momento crucial rumo \u00e0 descarboniza\u00e7\u00e3o de sua economia. Al\u00e9m da estreia no mercado regulado de carbono estar num horizonte pr\u00f3ximo, o governo lan\u00e7ou em setembro o Programa&nbsp; Combust\u00edvel do Futuro, que traz um conjunto de iniciativas para promover a mobilidade sustent\u00e1vel de baixo carbono, e a C\u00e2mara dos Deputados aprovou projeto de lei, originado e aprovado no Senado, estabelecendo o marco legal das atividades de captura e armazenamento de di\u00f3xido de carbono (CCS) em reservat\u00f3rios geol\u00f3gicos no pa\u00eds.<\/p>\n<figure class=\"placeholder-image master_landscape big\">\n<div class=\"render-container\">\n<div class=\"sc-gzjWgB cJBwqo sc-gktrok ffowYO lazy-load-container\">\n<figure style=\"width: 1110px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"hq-img loaded\" title=\"Vis\u00e3o a\u00e9rea de barco em rio na Amaz\u00f4nia\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.dw.com\/image\/59697304_906.jpg?resize=696%2C391&#038;ssl=1\" alt=\"Vis\u00e3o a\u00e9rea de barco em rio na Amaz\u00f4nia\" width=\"696\" height=\"391\"><figcaption class=\"wp-caption-text\">Projetos de preserva\u00e7\u00e3o florestal correspondem a cerca de 65% dos cr\u00e9ditos de carbono gerados no mercado volunt\u00e1rio brasileiroFoto: Florence Goisnard\/AFP\/Getty Images<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<h4><strong>A precifica\u00e7\u00e3o&nbsp;do&nbsp;carbono e os tipos de mercado<\/strong><\/h4>\n<p>A ideia nasceu a partir do&nbsp;Protocolo de Kyoto, de 1997, que formulou o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), um instrumento que permitia que pa\u00edses desenvolvidos financiassem projetos para redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es em pa\u00edses emergentes. Colocado em pr\u00e1tica a partir de 2005 na Europa, o MDL acabou perdendo credibilidade, em meio a&nbsp;d\u00favidas&nbsp;sobre sua efici\u00eancia.<\/p>\n<p>O MDL era baseado estritamente na compensa\u00e7\u00e3o, e os pre\u00e7os baixos das licen\u00e7as tamb\u00e9m foram um dos motivos de seu decl\u00ednio. Cr\u00e9ditos j\u00e1 gerados pelo programa continuam em vigor e sendo negociados, mas novos certificados n\u00e3o s\u00e3o mais expedidos desde 2021. Os instrumentos de comercializa\u00e7\u00e3o de carbono, no entanto, seguiram paralelamente em constante amadurecimento, e o modelo vigente na Uni\u00e3o Europeia virou o paradigma de refer\u00eancia.<\/p>\n<p>Os mecanismos em pleno funcionamento s\u00e3o os sistemas de com\u00e9rcio de emiss\u00f5es que operam numa l\u00f3gica conhecida como &#8220;cap-and-trade&#8221;. Nela, o governo instaura cotas para emiss\u00f5es: h\u00e1 um limite de quanto as empresas podem poluir. Quando uma empresa reduz suas emiss\u00f5es, ela pode vender as cotas que sobraram para empresas que n\u00e3o conseguiram cumprir suas metas. O sistema geralmente \u00e9 aplicado a ind\u00fastrias pesadas e empresas do setor energ\u00e9tico, inst\u00e2ncias que j\u00e1 s\u00e3o normalmente reguladas pelo Estado.<\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Europeia tem o&nbsp;maior mercado de carbono do mundo, tendo movimentado 752 bilh\u00f5es de euros em cr\u00e9ditos de CO2 equivalente em 2022. O segundo maior mercado regulado \u00e9 o da Calif\u00f3rnia. Sistemas cap-and-trade tamb\u00e9m est\u00e3o presentes na&nbsp;<a class=\"internal-link\" href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/china-hero%C3%ADna-do-clima-ou-vil%C3%A3-dos-combust%C3%ADveis-f%C3%B3sseis\/a-67607384\">China,<\/a>&nbsp;na Nova Zel\u00e2ndia, Austr\u00e1lia, Canad\u00e1,&nbsp;Chile, Col\u00f4mbia, M\u00e9xico, Cazaquist\u00e3o, Jap\u00e3o, Coreia do Sul, Indon\u00e9sia&nbsp;e alguns estados americanos. De acordo com o Banco Mundial, existem hoje 72 iniciativas nacionais ou subnacionais de precifica\u00e7\u00e3o de carbono em vigor no mundo, incluindo n\u00e3o apenas com\u00e9rcio de cr\u00e9ditos via mercados regulados de carbono, mas tamb\u00e9m medidas de taxa\u00e7\u00e3o de carbono.<\/p>\n<p>J\u00e1 o mercado volunt\u00e1rio foi desenvolvendo-se paralelamente ao regulado. Em vez de guiar-se por regras e metas estabelecidas por governos, essa gera\u00e7\u00e3o de cr\u00e9ditos parte da iniciativa das pr\u00f3prias empresas, que buscam agregar valor aos seus produtos por meio de pr\u00e1ticas de sustentabilidade. Cr\u00e9ditos de compensa\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria s\u00e3o certificados por certificadoras internacionais. A maior delas \u00e9 a Verra, uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos sediada nos Estados Unidos.<\/p>\n<h4><strong>A proposta brasileira<\/strong><\/h4>\n<p>O projeto brasileiro est\u00e1 alinhado com o modelo cap-and-trade e imp\u00f5e um limite de emiss\u00f5es para empresas que emitem mais de 25 mil toneladas de gases de efeito estufa por ano. Al\u00e9m disso, empresas que emitem acima de 10 mil toneladas de gases do efeito estufa ter\u00e3o de apresentar relat\u00f3rios e cumprir com planos de monitoramento e redu\u00e7\u00e3o menos r\u00edgidos. Quando&nbsp;ultrapassam&nbsp;o limite imposto, as empresas t\u00eam de adquirir cota excedente de outra companhia ou adquirir cr\u00e9ditos de carbono reconhecidos no SBCE. Contudo, a lei prev\u00ea um teto para essa compensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O projeto de lei prop\u00f5e a cria\u00e7\u00e3o de um \u00f3rg\u00e3o gestor que deve definir quais atividades, instala\u00e7\u00f5es, fontes e gases ser\u00e3o regulados e quais os patamares de emiss\u00e3o e mensura\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es. No entanto, o funcionamento desse \u00f3rg\u00e3o gestor ainda n\u00e3o est\u00e1 completamente definido pelo texto. O projeto estabelece um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o de dois anos. &#8220;O pa\u00eds est\u00e1 avan\u00e7ando muito, reconhecendo a import\u00e2ncia do tema com um di\u00e1logo que est\u00e1 envolvendo diversos setores&#8221;, aponta Daniel Vargas, coordenador do Observat\u00f3rio de Bioeconomia da FGV.<\/p>\n<figure class=\"placeholder-image master_landscape big\">\n<div class=\"render-container\">\n<div class=\"sc-gzjWgB cJBwqo sc-gktrok ffowYO lazy-load-container\">\n<figure style=\"width: 1110px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"hq-img loaded\" title=\"Ministra do Meio Ambiente Marina Silva em coletiva de imprensa\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.dw.com\/image\/64836691_906.jpeg?resize=696%2C391&#038;ssl=1\" alt=\"Ministra do Meio Ambiente Marina Silva em coletiva de imprensa\" width=\"696\" height=\"391\"><figcaption class=\"wp-caption-text\">Ministra do Meio Ambiente Marina Silva: em 2023, Brasil ampliou de 37% para 48% meta de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es at\u00e9 2025Foto: Evaristo Sa\/AFP<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<p>A primeira expectativa quanto \u00e0 regula\u00e7\u00e3o do mercado de carbono \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de uma nova demanda por cr\u00e9ditos. Certos setores, como o da avia\u00e7\u00e3o, por exemplo, n\u00e3o t\u00eam uma margem ampla para reduzir sua pegada ambiental. Por isso, Vargas avalia que a necessidade de abater emiss\u00f5es criar\u00e1 uma nova procura por cr\u00e9ditos e um mercado com grande potencial.<\/p>\n<p>Para Isabela Morbach, advogada especialista em energia e fundadora e diretora da CCS Brasil, a grande vantagem de se estabelecer um mercado de carbono regulado no pa\u00eds \u00e9 a previsibilidade e seguran\u00e7a que ele pode trazer \u00e0s ind\u00fastrias que visam a sustentabilidade. &#8220;Se n\u00e3o h\u00e1 obriga\u00e7\u00f5es para todos, as ind\u00fastrias que investem na sua descarboniza\u00e7\u00e3o podem ter produtos mais caros. Mas com o mercado regulado, as ind\u00fastrias podem se movimentar de forma que n\u00e3o fiquem prejudicadas concorrencialmente&#8221;, afirma. Al\u00e9m disso, ela acredita que a entrada em vigor do mercado regulado brasileiro pode trazer maior competitividade aos produtos nacionais no mercado externo. &#8220;Estamos vendo taxa\u00e7\u00e3o de fronteira por emiss\u00e3o de carbono no mercado europeu. Estamos vendo surgir a mesma taxa\u00e7\u00e3o no Canad\u00e1, e a tend\u00eancia \u00e9 que essas taxa\u00e7\u00f5es v\u00e3o se multiplicando&#8221;, explica Isabela.<\/p>\n<p>O projeto foi criticado por alguns setores por n\u00e3o incluir na regulamenta\u00e7\u00e3o o agroneg\u00f3cio \u2014 um dos ramos que mais emitem gases de efeito estufa no pa\u00eds. Vargas argumenta que existem limites cient\u00edficos e institucionais que tornam a&nbsp;ado\u00e7\u00e3o do mercado regulado de carbono na agricultura algo indesej\u00e1vel e contraproducente. &#8220;Podemos ingressar em uma fazenda e fazer um buraco por hectare no ch\u00e3o, mandar pra um laborat\u00f3rio e pagar 300, 400 reais por amostra para conseguir medir sua pegada de carbono. Por\u00e9m, carecemos dessa infraestrutura no pa\u00eds e em todo o mundo para fazer isso de forma automatizada e generalizada. Quando se busca um instrumento regulat\u00f3rio cujo objetivo \u00e9 por um custo sobre a produ\u00e7\u00e3o, precisa ser capaz de individualizar esse custo&#8221;, explica Vargas.<\/p>\n<p>Vale lembrar que nenhum mercado regulamentado de carbono no mundo inclui a agricultura no seu regime. Os mecanismos costumam ser adotados em setores que j\u00e1 s\u00e3o previamente regulados: agrega-se uma complexidade a uma estrutura pr\u00e9-existente.<\/p>\n<h4><strong>O atual mercado volunt\u00e1rio no pa\u00eds<\/strong><\/h4>\n<p>O mercado volunt\u00e1rio de carbono no Brasil \u00e9, em geral, incipiente, mas est\u00e1 em crescimento. \u00c9 o que aponta um estudo realizado em 2022 pelo laborat\u00f3rio de Bioeconomia da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargar (FGV), que mapeou a exist\u00eancia de cerca de 150 projetos certificados internacionalmente, sendo que&nbsp;mais de 90% certificados pela Verra.<\/p>\n<p>A maior parte dos projetos concentra-se na regi\u00e3o Norte e na Amaz\u00f4nia brasileira. Apesar de 63% dos projetos estarem ligados ao setor energ\u00e9tico, com a substitui\u00e7\u00e3o de&nbsp;matriz f\u00f3ssil por limpa, o maior volume de cr\u00e9ditos, 65,5%, \u00e9&nbsp;gerado&nbsp;atrav\u00e9s de um mecanismo de&nbsp;compensa\u00e7\u00e3o voltado especificamente para florestas, conhecido como Redu\u00e7\u00e3o de Emiss\u00f5es por Desmatamento e Degrada\u00e7\u00e3o Florestal (REDD+).<\/p>\n<p>&#8220;Muitos projetos s\u00e3o ligados a grandes propriedades de terra, em geral com mais de 10 mil hectares, que possuem excedente de reserva legal e que geram REDD para manuten\u00e7\u00e3o dessa floresta, em vez de exercer a op\u00e7\u00e3o do desmatamento que a lei garante&#8221;, explica Daniel Vargas.<\/p>\n<p>Recentemente, dois nomes de impacto fizeram suas primeiras compras de cr\u00e9dito de carbono no mercado volunt\u00e1rio: Petrobras e Banco do Brasil. A petroleira adquiriu cr\u00e9ditos equivalentes a 175 mil toneladas de gases de efeito estufa junto ao Projeto Envira Amaz\u00f4nia, sediado no munic\u00edpio de Feij\u00f3, no Acre. A a\u00e7\u00e3o corresponde \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o de uma \u00e1rea de 570 hectares da Floresta Amaz\u00f4nica. J\u00e1 o Banco do Brasil comprou 5 mil cr\u00e9ditos de carbono no mesmo projeto, Envira. Al\u00e9m disso, o banco passou a aceitar cr\u00e9ditos de carbono como pagamento em leil\u00f5es de im\u00f3veis rurais, em um claro sinal de investimento no setor de carbono como um novo ativo.<\/p>\n<p>Para o professor da FGV, um dos grandes ganhos que a instaura\u00e7\u00e3o do mercado regulado pode trazer \u00e9 o seu potencial de impulsionar tamb\u00e9m o mercado volunt\u00e1rio. &#8220;\u00c0 medida que o Brasil regulamenta seu mercado de carbono e cria crit\u00e9rios mais rigorosos para padroniza\u00e7\u00e3o e registro de metodologias, tamb\u00e9m ajuda a estruturar e tornar mais robusto, seguro e abrangente o mercado volunt\u00e1rio.&#8221;<\/p>\n<div class=\"render-container rich-text-ad\">\n<div class=\"sc-bKxHlX loYdLo sc-jhvOKm sc-enjbVw bvkteC hTfEuC advertisement\">\n<div id=\"dw_d_article_incontent-1\" class=\"sc-jDnFrU eobdmj gpt-slot\" data-google-query-id=\"CLqaja6nl4MDFXiilQIdPWgK0g\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/228556409\/DW_D_Article_InContent-1_0__container__\"><strong style=\"color: #111111; font-family: Roboto, sans-serif; font-size: 19px;\">Limita\u00e7\u00f5es e fragilidades<\/strong><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Os mercados de carbono existentes baseiam-se no princ\u00edpio da &#8220;adicionalidade&#8221;&nbsp;para validar sua efetividade. Para ser considerado adicional, um projeto precisa provar que as redu\u00e7\u00f5es de emiss\u00f5es de gases de efeito estufa geradas por meio de cr\u00e9dito de carbono n\u00e3o teriam ocorrido de qualquer maneira sem os recursos aplicados diretamente por ele. \u00c9 preciso ter a certeza de que \u00e9 gra\u00e7as aos cr\u00e9ditos que certa conserva\u00e7\u00e3o de floresta, painel solar, preserva\u00e7\u00e3o de bioma ou fonte e\u00f3lica existe.<\/p>\n<p>Muitas den\u00fancias&nbsp;de que os cr\u00e9ditos de carbono n\u00e3o promovem o benef\u00edcio clim\u00e1tico&nbsp;que alardeiam vieram a p\u00fablico nos \u00faltimos anos. Demonstrar e verificar a adicionalidade na pr\u00e1tica pode ser uma tarefa complexa. Em uma investiga\u00e7\u00e3o divulgada em 2019, a ProPublica, organiza\u00e7\u00e3o americana de jornalismo investigativo independente, apontou que os cr\u00e9ditos de carbono n\u00e3o compensaram a quantidade de polui\u00e7\u00e3o que se esperava ou trouxeram ganhos que foram rapidamente revertidos ou que n\u00e3o podiam ser comprovados e medidos. Al\u00e9m disso, a organiza\u00e7\u00e3o destacou um estudo apontando que 37% dos projetos de REDD foram implementados em terras que j\u00e1 s\u00e3o protegidas, como parques nacionais.<\/p>\n<p>Projetos de compensa\u00e7\u00e3o florestal enfrentam v\u00e1rios desafios para avalia\u00e7\u00e3o de seu impacto. H\u00e1 problemas de monitoramento de florestas e o c\u00e1lculo de quanto desmatamento haveria sem compensa\u00e7\u00e3o \u00e9 complexo. Al\u00e9m disso, muitas vezes proteger um peda\u00e7o de terra aumenta a press\u00e3o de desmatamento em outro ponto. A degrada\u00e7\u00e3o da floresta pode ser apenas redirecionada.<\/p>\n<p>Outro fator \u00e9 que esses projetos t\u00eam em geral como alvo moradores de zonas rurais que cortam \u00e1rvores para algum fim de sustento, como a agricultura. Para que deixem de ter esse ganho econ\u00f4mico, as vendas de cr\u00e9dito de carbono precisam ser uma alternativa t\u00e3o lucrativa quanto, o que nem sempre \u00e9 o caso. Uma&nbsp;pesquisa da Universidade de Berkeley financiada pela ONG Carbon Market Watch&nbsp;apontou que cr\u00e9ditos de carbono n\u00e3o eram adequados para compensar emiss\u00f5es na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<figure class=\"placeholder-image master_landscape big\">\n<div class=\"render-container\">\n<div class=\"sc-gzjWgB cJBwqo sc-gktrok ffowYO lazy-load-container\">\n<figure style=\"width: 1110px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"hq-img loaded\" title=\"Oper\u00e1rios instalam pain\u00e9is solares\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.dw.com\/image\/63289916_906.jpg?resize=696%2C391&#038;ssl=1\" alt=\"Oper\u00e1rios instalam pain\u00e9is solares\" width=\"696\" height=\"391\"><figcaption class=\"wp-caption-text\">Pain\u00e9is solares: para alguns ambientalistas, cr\u00e9ditos de carbono podem atrasar busca por alternativas sustent\u00e1veis.Foto: Stephen Wandera\/AP Photo\/picture alliance<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<p>Neste ano, a Defensoria P\u00fablica do Estado do Par\u00e1 identificou que cinco empresas brasileiras e tr\u00eas estrangeiras usaram terras p\u00fablicas como se fossem particulares para vender cr\u00e9ditos de carbono na Amaz\u00f4nia. Os respons\u00e1veis alegaram que os projetos estavam em propriedades particulares, mas, na verdade, funcionavam em terras estaduais e teriam, portanto, de ter autoriza\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os do governo para operar, assim como das comunidades locais.&nbsp;<\/p>\n<p>Alguns ativistas clim\u00e1ticos apontam que cr\u00e9ditos de carbono s\u00e3o uma solu\u00e7\u00e3o mais barata e imediatista que atrasa as empresas na sua busca por alternativas sustent\u00e1veis. N\u00e3o v\u00e3o naraiz do problemae podem abrir margem para a &#8220;lavagem verde\u201d. De acordo com levantamento da BloombergNEF, d\u00favidas sobre qualidade de projetos levaram a uma queda de 4% no mercado volunt\u00e1rio de cr\u00e9ditos de carbono em 2022, quando comparado com o mesmo per\u00edodo de 2021. J\u00e1 defensores do modelo apontam que casos pontuais n\u00e3o invalidam todo o mecanismo&nbsp;que, segundo eles, deve ser constantemente aprimorado.<\/p>\n<p>Para a diretora do CCS Brasil, a proposta do mercado regulado brasileiro&nbsp;apresenta ferramentas que impedem a sua opera\u00e7\u00e3o apenas como uma fachada, sem ganhos reais em sustentabilidade. &#8220;S\u00f3 seria verdade se o limite de compensa\u00e7\u00e3o fosse infinito, mas minuta da lei vigente hoje coloca limite na compensa\u00e7\u00e3o. Ao que tudo indica, o limite ser\u00e1 de 10 a 15%, n\u00e3o \u00e9 muito alto.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 evidente que a compensa\u00e7\u00e3o tem um papel, mas se um dos objetivos \u00e9 estimular o desenvolvimento de tecnologias, ela n\u00e3o pode ser um substituto para as exig\u00eancias impostas \u00e0s atividades reguladas&#8221;,&nbsp;enfatiza Vargas.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o d\u00e1 pra cravar que n\u00e3o vai ter&nbsp;<em>greenwashing<\/em>. Vai depender da fiscaliza\u00e7\u00e3o&nbsp;e opera\u00e7\u00e3o desse mercado. Mas temos que ser otimistas de que vai ser um mecanismo de comando e controle que vai fazer sua fun\u00e7\u00e3o&#8221;, frisa Isabela.<\/p>\n<h4><strong>Caminho de oportunidades<\/strong><\/h4>\n<p>Na economia internacional, a baixa pegada de carbono \u00e9 cada vez mais percebida como sin\u00f4nimo de qualidade do produto. Assim, h\u00e1 uma tend\u00eancia do mercado de pagar um pr\u00eamio por processos produtivos que obedecem a boas pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que o mercado regulado opera e seus paradigmas se disseminam por outros espa\u00e7os da economia, outros setores n\u00e3o regulados podem incorporar a agenda ambiental como um ativo. Vargas acredita que a agricultura e o setor de alimentos do pa\u00eds podem ser os maiores beneficiados com essa mudan\u00e7a. &#8220;\u00c9 um setor que acaba muitas vezes recebendo injustamente e imprecisamente atribui\u00e7\u00f5es de responsabilidade por emiss\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o associadas diretamente a eles. Mas acabam sendo colocados sobre sua conta por crit\u00e9rios de responsabilidade generalistas, que tratam aos diferentes como iguais.&#8221;<\/p>\n<p>Existe, portanto, um interesse em qualificar&nbsp;e aprofundar a discuss\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o de um setor que \u00e9 o carro-chefe das exporta\u00e7\u00f5es do pa\u00eds e encontra-se bastante exposto \u00e0s exig\u00eancias internacionais. &#8220;\u00c9 preciso mostrar como a vasta maioria dos produtores faz um trabalho ambientalmente correto, e, portanto, n\u00e3o podem ser colocados no mesmo balaio daqueles que n\u00e3o fazem&#8221;, diz.&nbsp;<\/p>\n<p>Para Vargas, a produ\u00e7\u00e3o de alimentos no Brasil tem uma grande vantagem sustent\u00e1vel: pr\u00e1ticas como a exist\u00eancia de reservas legais sob a responsabilidade do produtor, plantio direto, integra\u00e7\u00e3o lavoura-pecu\u00e1ria-floresta, m\u00faltiplas safras no mesmo territ\u00f3rio, demanda decrescente no uso de qu\u00edmicos&nbsp;e incorpora\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de novas tecnologias. &#8220;Hoje, um produtor que vende uma saca de soja para a Europa, carrega consigo nessa saca de soja pelo menos 20% de reserva embutida. Isso at\u00e9 agora n\u00e3o tem valor ou n\u00e3o tem precifica\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"placeholder-image master_landscape big\">\n<div class=\"render-container\">\n<div class=\"sc-gzjWgB cJBwqo sc-gktrok ffowYO lazy-load-container\">\n<figure style=\"width: 1110px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"hq-img loaded\" title=\"Gado anda por pasto pr\u00f3ximo a cerca e a \u00e1rea de floresta\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.dw.com\/image\/56538829_906.jpg?resize=696%2C391&#038;ssl=1\" alt=\"Gado anda por pasto pr\u00f3ximo a cerca e a \u00e1rea de floresta\" width=\"696\" height=\"391\"><figcaption class=\"wp-caption-text\">\u00c0 medida que produtos com boas pr\u00e1ticas ambientais ganham valor agregado, produtores adrem \u00e0 sustentabilidadeFoto: NELSON ALMEIDA\/AFP\/ Getty Images<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<p>O especialista acredita que o que deve nortear a regulamenta\u00e7\u00e3o do mercado de carbono \u00e9 sua possibilidade de fazer atributos sustent\u00e1veis do pa\u00eds serem reconhecidos e computados. &#8220;Na hist\u00f3ria e na&nbsp;pr\u00e1tica produtiva de pa\u00edses tropicais&nbsp;como o Brasil, as nossas virtudes s\u00e3o imensamente mais significativas do que nossos v\u00edcios. Precisam aprender a olhar o meio ambiente, n\u00e3o apenas como um custo, uma obriga\u00e7\u00e3o moral, uma tarefa global e individual, mas como uma oportunidade para se produzir com mais qualidade, e ser recompensado por isso&#8221;.<\/p>\n<p>Vargas defende que o modelo de regulamenta\u00e7\u00e3o brasileiro seja um mecanismo que estimule o &#8220;sim&#8221;&nbsp;mais do que o &#8220;n\u00e3o&#8221;: &#8220;Nosso objetivo n\u00e3o pode ser punir um ou outro setor&nbsp;com um instrumento ideol\u00f3gico de ca\u00e7a \u00e0s bruxas. \u00c9 uma pol\u00edtica de Estado, cujo objetivo n\u00e3o pode ser a arrecada\u00e7\u00e3o p\u00fablica&nbsp;ou&nbsp;criar um segundo Ibama, para sair&nbsp; multando e colocando gente na cadeia. O objetivo tem de ser estimular a inova\u00e7\u00e3o para fomentar a competitividade via sustentabilidade, como est\u00e1 sendo feito na Europa e na Calif\u00f3rnia.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Valentina Gindri \/ Deutsche Welle&nbsp; &#8211; @ dispon\u00edvel na internet 18\/12\/2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Medida pode fazer atributos sustent\u00e1veis do pa\u00eds serem reconhecidos e recompensados. Regulamenta\u00e7\u00e3o tem potencial de impulsionar mercado volunt\u00e1rio e promover verdadeiro boom econ\u00f4mico verde. Descarbonizar \u00e9 o grande&nbsp;desafio para frear as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. E&nbsp;uma das estrat\u00e9gias que o mundo adotou foi atribuir um valor econ\u00f4mico \u00e0 redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es. Por conven\u00e7\u00e3o, uma tonelada de di\u00f3xido [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":64962,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[133],"tags":[],"class_list":{"0":"post-85400","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-destaques"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/credito-carbono.jpg?fit=1280%2C720&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85400","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=85400"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85400\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":85401,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85400\/revisions\/85401"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/64962"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=85400"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=85400"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=85400"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}