{"id":88188,"date":"2024-04-22T04:16:52","date_gmt":"2024-04-22T07:16:52","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=88188"},"modified":"2024-04-21T17:34:00","modified_gmt":"2024-04-21T20:34:00","slug":"por-que-descobrimento-do-brasil-nem-sempre-foi-celebrado-em-22-de-abril","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2024\/04\/22\/por-que-descobrimento-do-brasil-nem-sempre-foi-celebrado-em-22-de-abril\/","title":{"rendered":"Por que descobrimento do Brasil nem sempre foi celebrado em 22 de abril"},"content":{"rendered":"<section class=\"bbc-1vjaf6b\" role=\"region\" aria-labelledby=\"article-byline\">A ideia \u2014 ou o conhecimento \u2014 de que o territ\u00f3rio brasileiro&nbsp;recebeu os&nbsp;colonizadores &nbsp;portugueses pela primeira vez em 22 de abril de 1500 n\u00e3o era sabida ou divulgada at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo 19. At\u00e9 1817, a maior parte daqueles que se importavam com isso julgava ser a data do \u201cdescobrimento\u201d o 3 de maio daquele mesmo ano.<\/section>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">H\u00e1 explica\u00e7\u00f5es para essa&nbsp;hip\u00f3tese. E tamb\u00e9m para o fato de a data correta ter permanecido desconhecida por tanto tempo. \u00c9 um enredo com nuances que envolvem sigilo estatal,&nbsp;liturgia cat\u00f3lica&nbsp;e guerras napole\u00f4nicas.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Ent\u00e3o vamos ponto a ponto. Hoje \u00e9 sabido que os portugueses aportaram \u00e0 costa brasileira em 22 de abril de 1500 por causa de um documento que se tornou praticamente a certid\u00e3o de nascimento do Brasil: a carta escrita por Pero Vaz de Caminha (1450-1500), integrante da comitiva de Pedro \u00c1lvares Cabral (1467-1520), para comunicar ao rei lusitano dom Manuel 1\u00ba (1469-1521) o \u201cachamento\u201d de novas terras.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Isto fica claro a partir de trechos da carta. Caminha diz que \u201cna ter\u00e7a-feira [\u2026], que foram 21 dias de abril, [\u2026] topamos alguns sinais de terra\u201d. No outro dia, \u201cquarta-feira seguinte, pela manh\u00e3 topamos aves a que chamam furabuchos\u201d e \u201cneste dia, a horas de v\u00e9spera, houvemos vista de terra!\u201d. Era o 22 de abril do descobrimento. \u201cPrimeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra ch\u00e3, com grandes arvoredos: ao monte alto o capit\u00e3o p\u00f4s nome \u2014 o Monte Pascoal. E \u00e5a terra \u2014 a Terra de Vera Cruz\u201d, descreve ele.<\/p>\n<figure id=\"attachment_88185\" aria-describedby=\"caption-attachment-88185\" style=\"width: 660px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-88185 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/4fa02190-dfc1-11ed-8df1-d74cbf1089d7.jpg?resize=660%2C504\" alt=\"\" width=\"660\" height=\"504\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/4fa02190-dfc1-11ed-8df1-d74cbf1089d7.jpg?w=660&amp;ssl=1 660w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/4fa02190-dfc1-11ed-8df1-d74cbf1089d7.jpg?resize=300%2C229&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/4fa02190-dfc1-11ed-8df1-d74cbf1089d7.jpg?resize=550%2C420&amp;ssl=1 550w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/4fa02190-dfc1-11ed-8df1-d74cbf1089d7.jpg?resize=80%2C60&amp;ssl=1 80w\" sizes=\"auto, (max-width: 660px) 100vw, 660px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-88185\" class=\"wp-caption-text\">Segundo o relato de Caminha, no dia seguinte houve o desembarque. \u201cE \u00e0 quinta-feira, pela manh\u00e3, fizemos vela seguimos direitos \u00e0 terra\u201d, conta. @dom\u00edniop\u00fablico<\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Ou seja: pelo relato do escriv\u00e3o oficial da empreitada, os navegantes avistaram sinais de terra no dia 21, tiveram a certeza de estarem pr\u00f3ximos a um territ\u00f3rio no dia 22 e desembarcaram no dia 23.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">A carta de Pero Vaz de Caminha foi escrita relatando os acontecimentos da viagem de forma cronol\u00f3gica, a partir do dia 9 de mar\u00e7o daquele ano at\u00e9 o dia 2 de maio. \u201c[Foi] escrita entre os dias 26 de abril e 1\u00ba de maio de 1500\u201d e teve [como objetivo informar ao rei de Portugal, dom Manuel 1\u00ba, o descobrimento e apresentar-lhe o que a\u00ed se encontrou\u201d, explica o livro \u2018Cronistas do Descobrimento\u2019, organizado pelo jornalista Antonio Carlos Olivieri e pelo historiador Marco Antonio Villa.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Considerando este documento, n\u00e3o era para restar d\u00favida: oficialmente poderia se considerar o tal \u201cdescobrimento\u201d como tendo ocorrido em qualquer uma das tr\u00eas datas consecutivas, 21, 22 ou 23 de abril.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Isto parece \u00f3bvio, se a carta tivesse sido publicizada na \u00e9poca. No entanto, a monarquia lusa determinou sigilo. \u201cA escrita da carta de Pero Vaz de Caminha foi conclu\u00edda em 2 de maio de 1500, sendo o primeiro registro oficial portugu\u00eas sobre o encontro do territ\u00f3rio do atual Brasil\u201d, contextualiza \u00e0 BBC News Brasil o historiador Andr\u00e9 Figueiredo Rodrigues, professor na Universidade Estadual Paulista (Unesp).<\/p>\n<\/div>\n<figure class=\"bbc-1qn0xuy\">\n<div class=\"bbc-j1srjl\">\n<figure style=\"width: 612px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"bbc-139onq\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/640\/cpsprodpb\/8f30\/live\/7eeb5170-fe94-11ee-97f7-e98b193ef1b8.jpg?resize=612%2C859&#038;ssl=1\" alt=\"Pintura de Francisco Aur\u00e9lio de Figueiredo e Melo feita em 1900 ilustra Pero Vaz de Caminha lendo sua carta a Pedro Alvares Cabral\" width=\"612\" height=\"859\"><figcaption class=\"wp-caption-text\">Pintura de Francisco Aur\u00e9lio de Figueiredo e Melo feita em 1900 ilustra Pero Vaz de Caminha lendo sua carta a Pedro Alvares Cabral @dom\u00ednio p\u00fablico<\/figcaption><\/figure>\n<\/div><figcaption class=\"bbc-1jsyunq e6i104o0\" dir=\"ltr\"><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"bbc-4quw3x e1rfboeq7\" dir=\"ltr\">\n<section class=\"e1rfboeq6 bbc-12e4ke4 e1s8ztj50\" role=\"region\" aria-labelledby=\"podcast-promo\">\n<div class=\"bbc-bjn8wh eveec6k2\">Endere\u00e7ada ao rei, a carta foi enviada a Portugal pelo navegador Gaspar de Lemos, \u201cem navio separado da esquadra de Pedro \u00c1lvares Cabra\u201d, pontua Rodrigues, \u201cque se dirigia para as \u00edndias, a fim de cumprir sua miss\u00e3o inicial e consolidar uma rota mar\u00edtima ao Oriente, contornando a \u00c1frica\u201d.<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">\u201cAo chegar a Portugal, o documento ficou guardado nos arquivos da Secretaria de Estado, pois o rei dom Manuel o classificou como secreto, mandando que o documento n\u00e3o fosse divulgado para evitar que o encontro do Brasil fosse transmitido aos espanh\u00f3is, para evitar poss\u00edveis invas\u00f5es e conquistas de terras no territ\u00f3rio que lhe cabia pelo Tratado de Tordesilhas\u201d, conta o historiador.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Da Secretaria de Estado, a carta acabou sendo encaminhada ao Arquivo Nacional, instalado na Torre do Tombo do castelo de Lisboa. \u201cO sil\u00eancio atribu\u00eddo ao documento o fez ser esquecido nos emaranhados pap\u00e9is constantes naqueles dois \u00f3rg\u00e3os portugueses\u201d, acrescenta Rodrigues.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Vale ressaltar que, naqueles s\u00e9culos de Brasil col\u00f4nia, n\u00e3o havia nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o em referendar uma data oficial, j\u00e1 que o prop\u00f3sito n\u00e3o era criar s\u00edmbolos nacionais ou mesmo a ideia da cria\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o deste lado do Atl\u00e2ntico. O territ\u00f3rio brasileiro era apenas um adendo, um anexo, uma fonte de mat\u00e9rias-primas e riquezas para a a metr\u00f3pole portuguesa.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Sobre o escriv\u00e3o Pero Vaz de Caminha, pouco se sabe. Ele teria nascido no Porto, onde chegou a ocupar o posto de vereador, alguns anos antes de integrar a esquadra de Cabral. Em 1476 herdou do pai o cargo de mestre da balan\u00e7a da Casa da Moeda, um cargo de responsabilidade que seria como escriv\u00e3o e tesoureiro oficial.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<h2 id=\"F\u00e9-na-Santa-Cruz\" class=\"bbc-1f03ibc eglt09e0\" tabindex=\"-1\">F\u00e9 na Santa Cruz<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Se o sigilo estatal explica o desconhecimento p\u00fablico da data, \u00e9 preciso explicar por que outra acabou sendo aquela entendida como o dia do descobrimento: 3 de maio.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Sabia-se que Cabral havia chamado o territ\u00f3rio de Ilha de Vera Cruz e, depois, de Terra de Santa Cruz. Ora, a interpreta\u00e7\u00e3o foi religiosa. No calend\u00e1rio lit\u00fargico da \u00e9poca, a comemora\u00e7\u00e3o da Santa Cruz era em 3 de maio \u2014 a data foi transferida para 14 de setembro depois do Conc\u00edlio Vaticano 2\u00ba, ocorrido entre 1962 e 1965.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">\u201cH\u00e1 um grande consenso entre os historiadores e muitos colocam isso como fato de que o nome de Vera Cruz estava associada a uma data religiosa, 3 de maio\u201d, diz \u00e0 BBC News Brasil o historiador Victor Missiato, pesquisador na Unesp e professor no Col\u00e9gio Presbiteriano Mackenzie Tambor\u00e9. \u201cDurante muito tempo o 3 de maio representou a chegada dos portugueses ao Brasil.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<figure class=\"bbc-1qn0xuy\">\n<div class=\"bbc-18ywsw9\">\n<figure style=\"width: 648px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"bbc-139onq\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/640\/cpsprodpb\/9065\/live\/8fb0d610-fe94-11ee-8369-47dc4454b972.png?resize=648%2C900&#038;ssl=1\" alt=\"Reprodu\u00e7\u00e3o da p\u00e1gina da carta\" width=\"648\" height=\"900\"><figcaption class=\"wp-caption-text\">Fac-s\u00edmile de p\u00e1gina da carta @dom\u00ednio p\u00fablico<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/figure>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Rodrigues explica que a origem dessa interpreta\u00e7\u00e3o remete ao historiador portugu\u00eas Gaspar Correia (1492-1561) que, ao narrar o descobrimento do Brasil, \u201cchegou a essa conclus\u00e3o devido aos nomes dados \u00e0s novas terras, que foram batizadas como Ilha de Vera Cruz, em 1500, Terra de Vera Cruz, em 1503, Terra de Santa Cruz, tamb\u00e9m em 1503 e Terra de Santa Cruz do Brasil, em 1505, possivelmente em homenagem ao Dia de Santa Cruz, ent\u00e3o celebrado em 3 de maio\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">\u201cDevido a essa associa\u00e7\u00e3o entre o territ\u00f3rio rec\u00e9m-encontrado e os nomes que reportavam \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o da Santa Cruz, passou-se a acreditar ter sido nesse dia a chegada de Cabral ao futuro territ\u00f3rio denominado Brasil\u201d, conclui o professor.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">A carta de Caminha permanecia preservada na Torre do Tombo. Preservada e praticamente inc\u00f3gnita. \u201cEstava arquivada ali junto \u00e0 Coroa Portuguesa mas, de fato, n\u00e3o se dava muita aten\u00e7\u00e3o a ela, permanecia sem grandes estudos e refer\u00eancias\u201d, diz \u00e5 BBC News Brasil o soci\u00f3logo Paulo Niccoli Ramirez, professor na Funda\u00e7\u00e3o Escola de Sociologia e Pol\u00edtica de S\u00e3o Paulo (FESPSP) e da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Mas, conforme pontua Rodrigues, algum diretor do arquivo portugu\u00eas determinou que fosse feita uma c\u00f3pia, entendendo o seu valor. Sua ideia era preservar o conte\u00fado, fazendo uma esp\u00e9cie de backup.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Mesmo relegada \u00e0 uma certa insignific\u00e2ncia, a carta tinha sua exist\u00eancia sabida \u2014 apenas n\u00e3o era valorizada e utilizada como ponto de pesquisa. \u201cEra conhecida desde sempre\u201d, enfatiza \u00e0 BBC News Brasil o historiador Paulo Henrique Martinez, professor na Unesp.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<h2 id=\"A-biblioteca-de-dom-Jo\u00e3o\" class=\"bbc-1f03ibc eglt09e0\" tabindex=\"-1\">A biblioteca de dom Jo\u00e3o<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Avancemos para o in\u00edcio do s\u00e9culo 19. No epis\u00f3dio que ficaria conhecido como a fuga da corte portuguesa da invas\u00e3o das tropas napole\u00f4nicas, dom Jo\u00e3o 6\u00ba (1767-1826) transferiu a corte para o Rio de Janeiro. Mas n\u00e3o veio apenas ele e aqueles que lhe eram pr\u00f3ximos. Trouxe tamb\u00e9m todo o aparato estatal e uma riqu\u00edssima biblioteca.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Conforme frisa Rodrigues, veio \u201cTrazendo consigo a biblioteca real, livros e v\u00e1rios documentos\u201d. Entre eles, a tal c\u00f3pia \u201cda dita carta, entre os documentos trasladados\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">\u201cO documento original permaneceu em Portugal e at\u00e9 hoje est\u00e1 no arquivo da Torre do Tombo, que \u00e9 o Arquivo Nacional de Portugal\u201d, conta o historiador. \u201cJ\u00e1 a c\u00f3pia que foi trazida para o Brasil foi parar no acervo do Arquivo da Marinha Real, no Rio de Janeiro.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">\u201cEsses documentos chegaram ao Brasil e come\u00e7aram a ser estudados, de forma que nove anos depois da chegada da fam\u00edlia real descobriu-se de fato a exist\u00eancia da carta, alterando a\u00ed a data de origem da descoberta do Brasil\u201d, diz Ramirez.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Isto porque este material caiu no colo de um sacerdote cat\u00f3lico que tamb\u00e9m atuava como ge\u00f3grafo e historiador, o padre Manuel Aires de Casal (1754-1821). \u201cEle teve acesso [\u00e0 missiva] e tornou p\u00fablico seu conte\u00fado em 1817\u201d, resume Rodrigues.<\/p>\n<\/div>\n<figure class=\"bbc-1qn0xuy\">\n<div class=\"bbc-18ywsw9\">\n<figure style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"bbc-139onq\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/640\/cpsprodpb\/8737\/live\/b036cb60-fe94-11ee-97f7-e98b193ef1b8.jpg?resize=560%2C834&#038;ssl=1\" alt=\"Capa do livro de Aires de Casal, publicado em 1817\" width=\"560\" height=\"834\"><figcaption class=\"wp-caption-text\">Legenda da foto,Capa do livro de Aires de Casal, publicado em 1817 @dom\u00ednio p\u00fablico<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/figure>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">O padre fez isso no livro \u2018Corografia Brazilica\u2019. Corografia significa \u201cdescri\u00e7\u00e3o particular de uma na\u00e7\u00e3o ou de uma \u00e1rea geogr\u00e1fica\u201d e esta foi a primeira obra do tipo impressa no territ\u00f3rio brasileiro.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">\u201cAt\u00e9 a divulga\u00e7\u00e3o da carta pelo padre Aires de Casal, a data do 22 de abril como sendo a da \u2018descoberta\u2019 oficial do Brasil pelos portugueses era desconhecida\u201d, diz o historiador.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Para Martinez, o epis\u00f3dio simbolizou a \u201cconvoca\u00e7\u00e3o de um documento que comprovasse uma determinada posi\u00e7\u00e3o de Portugal na hist\u00f3ria europeia e na hist\u00f3ria da coloniza\u00e7\u00e3o\u201d. E isso era extremamente importante naquele in\u00edcio de s\u00e9culo 19, em que o antigo poderio portugu\u00eas havia sido bastante reduzido frente \u00e0 potencia inglesa e \u00e0 alian\u00e7a entre Fran\u00e7a e Espanha.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Missiato observa que \u00e9 interessante notar \u201co fato de esse documento estar vinculado \u00e0 monarquia portuguesa e nunca ter sido utilizado [antes], at\u00e9 em termos de reconhecimento da hist\u00f3ria\u201d. \u201c[A carta] n\u00e3o tinha uma validade hist\u00f3rica t\u00e3o importante para Portugal e acabou ganhando import\u00e2ncia no Brasil quando foi relida a partir de uma nova releitura da hist\u00f3ria\u201d, analisa ele.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Sobre o padre Aires de Casal, poucas informa\u00e7\u00f5es biogr\u00e1ficas s\u00e3o conhecidas. Ele provavelmente nasceu em Portugal \u2014 embora alguns historiadores afirmem que ele tenha nascido na Bahia \u2014 e acabou vindo \u00e0 col\u00f4nia para exercer as fun\u00e7\u00f5es sacerdotais. Atuou na ent\u00e3o prov\u00edncia do Cear\u00e1 e, quando a fam\u00edlia real se transferiu para o Rio, aproximou-se da corte com o objetivo de esmiu\u00e7ar os arquivos como pesquisador.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">\u201cEu diria que a import\u00e2ncia hist\u00f3rica dele se deve mais \u00e0 efici\u00eancia do trabalho, o fato de ter elaborador a \u2018Corografia\u2019, do que a qualquer outra atividade que ele tivesse realizado anteriormente\u201d, avalia Martinez.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Essa proximidade com a corte o habilitou a retornar \u00e0 Portugal juntamente com a comitiva de dom Jo\u00e3o 6\u00ba, em 1821.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<h2 id=\"Cria\u00e7\u00e3o-de-uma-identidade-nacional\" class=\"bbc-1f03ibc eglt09e0\" tabindex=\"-1\">Cria\u00e7\u00e3o de uma identidade nacional<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">A nova data, o 22 de abril de 1500, acabaria sendo refor\u00e7ada ap\u00f3s a Independ\u00eancia, a partir de 1822, porque ent\u00e3o passou a ser visto como necess\u00e1ria a cria\u00e7\u00e3o de uma identidade nacional.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">\u201cO documento foi recuperado dentro de um esp\u00edrito de valoriza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da monarquia portuguesa no contexto p\u00f3s-napole\u00f4nico, com o mundo reorganizado, a partir de 1815, lan\u00e7ando Portugal e outras pequenas na\u00e7\u00f5es a uma posi\u00e7\u00e3o muito vulner\u00e1vel e secund\u00e1ria diante de uma ordem internacional da Europa polarizada de um lado pela Inglaterra e, de outro, pela alian\u00e7a entre Fran\u00e7a e Espanha\u201d, argumenta Martinez.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">\u201cA publica\u00e7\u00e3o da carta de Caminha tem essa motiva\u00e7\u00e3o: enfrentar o medo e a incerteza das pequenas na\u00e7\u00f5es diante do novo cen\u00e1rio de rela\u00e7\u00f5es de poder que estava se desenhando na Europa p\u00f3s-napole\u00f4nica\u201d, conclui.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Era uma maneira de fincar os p\u00e9s no cen\u00e1rio internacional, ressaltando a relev\u00e2ncia de Portugal na vida pol\u00edtica.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Missiato ressalta que a obra de Aires de Casal, por exemplo, acabou sendo base de diversos estudos do s\u00e9culo 19, j\u00e1 que \u201cmarcou o in\u00edcio de uma historiografia brasileiro no per\u00edodo\u201d. \u201cIsto foi relevante em um pa\u00eds que ainda n\u00e3o tinha tradi\u00e7\u00e3o nessa produ\u00e7\u00e3o\u201d, comenta.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">\u201cPor fim, esse documento passou a ser representado dentro de um conjunto de documentos oficiais importantes por conta da tentativa de formar uma origem nacional para o Brasil, de criar uma continuidade, um passado hist\u00f3rico, um sentimento de descoberta\u201d, explica Missiato. \u201cTudo isso \u00e9 passado pela monarquia do s\u00e9culo 19.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">\u201cA valoriza\u00e7\u00e3o da descoberta da chegada dos portugueses \u00e0 Am\u00e9rica e o estabelecimento da coloniza\u00e7\u00e3o, o registro afetivo e devocional e de lealdade \u00e0 monarquia que est\u00e3o contidos no texto da carta de Caminha refor\u00e7am essa inten\u00e7\u00e3o t\u00e3o necess\u00e1ria no in\u00edcio do s\u00e9culo 19: a de criar uma identidade nacional, um patriotismo em Portugal alimentado pela obra de coloniza\u00e7\u00e3o\u201d, diz Martinez.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Essa valoriza\u00e7\u00e3o no cen\u00e1rio internacional era alimentada por idealiza\u00e7\u00f5es e simbolismos e, como diz o historiador, \u201ca cria\u00e7\u00e3o de um um mundo, um imagin\u00e1rio, uma identidade baseada em valores simb\u00f3licos, morais e pol\u00edticos\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Al\u00e9m disso, a mudan\u00e7a da data pode ser vista como um lembrete de que, para a hist\u00f3ria, nenhum conhecimento deve ser encarado como definitivo.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">\u201cNa historiografia se diz que o passado n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tico, est\u00e1 sempre em movimento, \u00e9 sempre reinterpretado. De modo que o o passado \u00e9 sempre uma interpreta\u00e7\u00e3o feita a partir do presente, e eventualmente podem ser que surjam outros documentos para explic\u00e1-lo\u201d, explica Ramirez.<\/p>\n<\/div>\n<p dir=\"ltr\"><strong><span role=\"text\"><span class=\"bbc-1ypcc2\">Cr\u00e9dito: Edison Veiga \/ <\/span><\/span><span role=\"text\"><span class=\"bbc-1y5sx98\">Bled (Eslov\u00eania) para a BBC News Brasil &#8211; @ dispon\u00edvel na internet 22\/4\/2024<\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ideia \u2014 ou o conhecimento \u2014 de que o territ\u00f3rio brasileiro&nbsp;recebeu os&nbsp;colonizadores &nbsp;portugueses pela primeira vez em 22 de abril de 1500 n\u00e3o era sabida ou divulgada at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo 19. At\u00e9 1817, a maior parte daqueles que se importavam com isso julgava ser a data do \u201cdescobrimento\u201d o 3 de maio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":88184,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[133],"tags":[],"class_list":{"0":"post-88188","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-destaques"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/6b911830-fe94-11ee-97f7-e98b193ef1b8.jpg?fit=800%2C517&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88188","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=88188"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88188\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":88189,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88188\/revisions\/88189"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/88184"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=88188"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=88188"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=88188"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}