{"id":8902,"date":"2016-12-19T04:58:32","date_gmt":"2016-12-19T07:58:32","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=8902"},"modified":"2016-12-19T04:59:41","modified_gmt":"2016-12-19T07:59:41","slug":"um-homem-bom","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2016\/12\/19\/um-homem-bom\/","title":{"rendered":"Um homem bom."},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 preciso celebrar, com a mem\u00f3ria de dom Paulo e Arraes, que a pol\u00edtica, em nosso pa\u00eds, pode ser praticada por homens de bem, n\u00e3o importando de onde venham<\/p>\n<p>Essa semana, no mesmo dia em que, aos 95 anos, morria dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo em\u00e9rito de S\u00e3o Paulo que enfrentou bravamente a ditadura militar no Brasil, comemor\u00e1vamos o centen\u00e1rio de nascimento de Miguel Arraes, o mitol\u00f3gico l\u00edder popular de Pernambuco, uma v\u00edtima daquele regime, um resistente do terror. Vale a pena lembrar que, no Brasil, a pol\u00edtica nem sempre foi praticada apenas por bandidos espertos ou meros oportunistas.<\/p>\n<p>O que \u00e9 preciso celebrar, com a mem\u00f3ria desses dois brasileiros, \u00e9 que a pol\u00edtica, em nosso pa\u00eds, pode ser praticada por homens de bem, n\u00e3o importando de onde venham, de que partido sejam. E os homens bons deixam sempre boas lembran\u00e7as.<\/p>\n<p>O cardeal Arns, um franciscano nascido em Santa Catarina, formou suas ideias com o Conc\u00edlio Vaticano II, o encontro oficial de um catolicismo que se voltara para os necessitados, para a justi\u00e7a social e a fraternidade entre os homens, origem das comunidades eclesiais de base (as CEBs) e da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, o esp\u00edrito de uma Igreja moderna e libert\u00e1ria.<\/p>\n<p>Quando, em 1973, seu amigo e admirador Paulo VI nomeou dom Paulo cardeal, sua primeira iniciativa foi vender, por US$ 5 milh\u00f5es, o suntuoso pal\u00e1cio episcopal. Os recursos obtidos foram investidos na constru\u00e7\u00e3o de casas populares e centros comunit\u00e1rios, na periferia da cidade. Uma antecipa\u00e7\u00e3o privada de programas como Minha Casa Minha Vida e CEUs, que s\u00f3 surgiriam muito depois, no s\u00e9culo seguinte.<\/p>\n<p>Miguel Arraes, cearense de Araripe, fez carreira de advogado em Pernambuco, onde migrou para a pol\u00edtica pelas m\u00e3os de Barbosa Lima Sobrinho, grande reserva moral e intelectual de nossa vida p\u00fablica na segunda metade do s\u00e9culo XX. Eleito prefeito do Recife em 1960, o sucesso de sua administra\u00e7\u00e3o o levou a eleger-se governador de Pernambuco em 1962, antes de terminar o mandato municipal. No governo do estado, Arraes se tornou, mais do que um her\u00f3i, um mito popular.<\/p>\n<p>Antes do golpe de 1964, seu governo fez usineiros e latifundi\u00e1rios aceitarem a extens\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo aos trabalhadores rurais, atrav\u00e9s de um hist\u00f3rico Acordo do Campo que garantiu os direitos sociais dos camponeses, agora organizados em sindicatos, ligas e associa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Foi por essa \u00e9poca que o conheci formalmente, levado ao Recife por minha milit\u00e2ncia no Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE, no Rio de Janeiro. Seu governo criara o Movimento de Cultura Popular, inspirado na pol\u00edtica de alfabetiza\u00e7\u00e3o de Paulo Freire, a \u201ceduca\u00e7\u00e3o para a consci\u00eancia\u201d. Nesse encontro, Arraes nos contou que, quando jovem, ao mudar-se para o Crato, ainda no Cear\u00e1, encontrou, trancados num curral, flagelados presos e amarrados por tentarem fugir da seca indo para Fortaleza. \u201cEra um horror dif\u00edcil de compreender, nunca mais vi as coisas da mesma maneira\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/arms.jpg\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-8903 size-medium\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/arms.jpg?resize=300%2C300\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/arms.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/arms.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/arms.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/arms.jpg?resize=696%2C696&amp;ssl=1 696w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/arms.jpg?resize=420%2C420&amp;ssl=1 420w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/arms.jpg?resize=840%2C840&amp;ssl=1 840w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/arms.jpg?w=600&amp;ssl=1 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>O mesmo horror que fazia com que o cardeal Arns enfrentasse as autoridades da ditadura, que insistiam em negar a exist\u00eancia de tortura e assassinato nas pris\u00f5es arbitr\u00e1rias, promovendo atos ecum\u00eanicos que revelavam a verdade, como no caso de Vladimir Herzog. A mesma revolta que sentiu quando, para impedir o progresso de suas a\u00e7\u00f5es a favor da popula\u00e7\u00e3o da periferia e contra a ditadura, o Papa Jo\u00e3o Paulo II dividiu sua Arquidiocese em cinco unidades distintas. Cobrado pelo corajoso cardeal brasileiro, que queria conhecer as raz\u00f5es da C\u00faria Romana para tal gesto, o papa polon\u00eas respondeu enfastiado: \u201cA C\u00faria sou eu\u201d.<\/p>\n<p>Quando Arraes voltou anistiado de seu ex\u00edlio na Arg\u00e9lia, juntou-se aos democratas de todas as tend\u00eancias numa grande frente capaz de enterrar de vez a ditadura. Eleito governador de Pernambuco pela segunda vez, desde 1986 recupera sua lideran\u00e7a regional e nacional, servindo de poderosa refer\u00eancia dos novos tempos democr\u00e1ticos que o pa\u00eds queria viver.<\/p>\n<p>Eu voltaria a v\u00ea-lo em 1983, durante as filmagens de \u201cQuilombo\u201d, filme do qual seu filho Augusto era um dos principais produtores. No momento em que Arraes entrou no est\u00fadio, rod\u00e1vamos uma cena em que o Zumbi toma a cruz de Cristo pela cabe\u00e7a, tornando-a uma espada. Imaginei que, em algum lugar do universo, era esse o bras\u00e3o de Miguel Arraes.<\/p>\n<p>No mesmo dia desses dois eventos, uma terceira celebra\u00e7\u00e3o enchia meu cora\u00e7\u00e3o de tristeza. No Cemit\u00e9rio de S\u00e3o Francisco Xavier, particip\u00e1vamos da cerim\u00f4nia de crema\u00e7\u00e3o de Ailton Silva Pereira, o mais antigo e querido dos funcion\u00e1rios de nossa produtora de cinema, que me acompanhava h\u00e1 mais de 20 anos de empenho e solidariedade. Incans\u00e1vel e sempre cort\u00eas, Ailton entendia de tudo e, quando n\u00e3o era o caso, tratava de logo aprender.<\/p>\n<p>Como o cardeal Arns e Miguel Arraes, ele tamb\u00e9m era um homem bom, sua bondade viajava pelo ar de onde por acaso estivesse. N\u00e3o importa saber o que pensam do mundo os homens bons, eles o s\u00e3o pela for\u00e7a mesma das coisas e para nos fazerem felizes. Como foram certamente esses tr\u00eas nobres As \u2014 Ailton, Arraes e Arns.<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0Cr\u00e9dito: Artigo publicado no dia 18\/12\/2017 mo Jornal O Globo \u2013 dispon\u00edvel na web 19\/12\/2016<\/em><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\"><strong>\u00a0Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo.<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 preciso celebrar, com a mem\u00f3ria de dom Paulo e Arraes, que a pol\u00edtica, em nosso pa\u00eds, pode ser praticada por homens de bem, n\u00e3o importando de onde venham Essa semana, no mesmo dia em que, aos 95 anos, morria dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo em\u00e9rito de S\u00e3o Paulo que enfrentou bravamente a ditadura militar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":7309,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[134],"tags":[],"class_list":{"0":"post-8902","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-artigos"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/perfil-caca-diegues.jpg?fit=220%2C220&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8902","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8902"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8902\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7309"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8902"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8902"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8902"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}